27 Dezembro 2005

Jornalista também é gente

Primeiro quero me desculpar com nossa meia dúzia de leitores pela falta de atualização do blog. No final de ano o tempo fica mais escasso. Para jornalistas é a hora de antecipar edições. E no meu caso, que sou professor também, final de ano é tempo de divulgar notas e participar de bancas de monografias. Passada essa “turbulência” estamos de volta. Fica a promessa de que o blog não ficará mais tanto tempo sem atualização. Então, vamos a história.
Nos meus tempos de faculdade ouvi de alguns professores e de jornalistas veteranos que o jornalista não pode se emocionar, que deve ser frio diante dos acontecimentos. Essa afirmação me preocupava. Primeiro porque achava (e ainda acho) que a partir do momento que não me emocionar com os fatos serei menos humano. Certa vez ouvi um psicólogo dizer que a diferença do homem e dos animais está no fato de o homem ter a capacidade de sentir a dor do próximo. Pode soar piegas, mas não consigo ser insensível diante de uma matéria triste ou alegre. Acho até que fica difícil pro jornalista passar emoção numa matéria se ele não a sente. Nesses meus cinco anos de jornalismo, incluindo rádio, jornal e tevê consegui me emocionar várias. Mas duas reportagens me deixaram abalados nos três últimos meses. A primeira foi no presídio do Serrotão, o maior de Campina Grande. Fui lá fazer um VT sobre a transferência de 20 presos para o presídio de Guarabira, uma cidade que fica no Brejo paraibano a mais de 80 quilômetros de CG. Eles eram acusados pela direção do Serrotão de ter armado um motim há cerca de quatro meses. Transferência de presos é algo corriqueiro na vida de um repórter. Quando estava observando os vinte presos com mochilas e colchões nas mãos, percebi que um deles me olhava mais que os outros. Não há repórter que não fique cismado numa situação dessa. Somente quando os presos saíram em fila indiana em direção ao ônibus consegui entender porque aquele apenado me olhava tanto. Era um colega meu. Ele é uns cinco ou seis anos mais novo que eu, mas jogávamos futebol juntos nos campos de pelada do bairro. Sabia que depois que ele tinha ido morar em outro bairro (há uns seis anos) tinha se envolvido com drogas e roubos. Havia sido preso uma vez. Os amigos pagaram advogado, ele saiu, mas voltou pro crime. O fato de ver aqueles vinte presos sem perspectiva já tinha me feito refletir como eles haviam acabado com suas vidas. Fiquei ainda mais abalado quando percebi que um colega estava no meio deles. Esse rapaz que estou falando tinha tudo para não seguir o caminho do crime. Estudioso, trabalhador e ainda por cima um excelente jogador de futebol. É tanto que uma vez fizemos uma campanha para que ele pudesse ir a São Paulo fazer testes nos times de lá. Outra coisa que me deixou triste foi o fato de não tê-lo reconhecido, pois estava muito diferente. Fiquei imaginando que ele pensou que eu não lhe cumprimentei por discriminação, vergonha ou algo do tipo. Apesar de ter passado o resto do dia triste, essa matéria deixou uma grande lição: que o nosso destino depende das escolhas que fazemos.
No início deste mês também não consegui ficar insensível. Por volta de uma hora da tarde, recebemos uma ligação informando que um homem estava num prédio abandonado no Centro ameaçando se jogar. Todo jornalista sabe que na maioria das vezes matéria de suicídio não vai ao ar. Pesquisas revelam que quando se noticia suicídio incentiva outros. Cheguei no Centro e vi o homem no último andar (14º) ameaçando se jogar. Era um catador de lixo que por causa da situação financeira precária estava desesperado. A rua estava lotada de curiosos. No prédio em frente pessoas gritavam para “Daniel” (é o nome dele) descer. Mas a todo instante ela ameaçava pular. Os bombeiros trouxeram mulher e filhos para tentar demovê-lo da idéia, mas não teve jeito. Ele só conseguiu ser resgatado pelo Corpo de Bombeiros depois de mais de duas horas. Nesse tempo vi o quanto muita gente não tem sentido do valor da vida humana. As pessoas brincavam com a situação dizendo que aquilo “era chifre e que ele deveria pular logo”. Uma mocinha de uns dezesseis anos ao meu lado comentava: “ele deveria pular logo pra gente ir embora”. “Pula, pula”, gritou. Aliás, incentivos para ele pular foi o que mais ouvi. É como se a vida daquele homem não tivesse nenhum valor, como se fosse um papel que cairia de cima de um prédio depois seria amassado e jogado no lixo. Boa parte dos curiosos queria mesmo era ver a queda, ouvir o barulho de um corpo se espatifando no chão. Quando aguardávamos o homem ser retirado um senhor de mais de 50 anos de idade fez uma piada com uma colega repórter de outra emissora:
- Pergunta a ele se o chifre já foi curado.
- O senhor gostaria que eu fizesse essa pergunta se fosse para algum irmão, amigo ou alguém da sua família?, perguntou ela.

O senhor ficou mudo, sem ação, com cara de quem poderia ter ficado calado. Resposta melhor minha colega não poderia ter dado. Saí daquela matéria (que não foi ao ar) com a certeza de que cada vez mais as pessoas dão menos valor a vida.
Para os jornalistas que condenam a postura do repórter que se sensibiliza com os fatos digo que prefiro ficar com a afirmação de alguém bem mais experiente que eu. Ricardo Kotscho em seu livro “A Prática da Reportagem” diz:

“Tristeza e alegria. Estes sentimentos se alternam nos trabalhos de cobertura, e não há como o repórter ficar insensível – e nem deve. Afinal, ele é antes de mais nada um ser humano igual aos leitores, e precisa transmitir não só informações, mas também emoções do que está cobrindo. Informação e emoção são as duas ferramentas básicas do repórter, e ele terá que lutar consigo mesmo para saber dosá-las na medida certa em cada matéria”

Se a insensibilidade é um pré-requisito para ser um bom jornalista, confesso que ainda estou longe disso.

14 Dezembro 2005

É o futuro...

A internet é, definitivamente, o futuro do jornalismo. Cada dia que passa tenho essa impressão mais nítida. Dando uma circulada pela internet hoje, descobri essa materinha que saiu no site da Globo.com.

USA Today’ vai unificar as redações de jornal e online
SAN FRANCISCO.
A diretoria do USA Today — o jornal de maior circulação nos EUA — anunciou ontem que vai unificar as redações de suas edições impressa e online. A medida faz parte da estratégia de crescimento do grupo, que está de olho na crescente demanda por notícias via internet. A unificação será feita aos poucos, para que os profissionais se acostumem a produzir para diferentes plataformas.

Segundo o USA Today, que pertence ao grupo Gannett Co. Inc., a mudança começará pelas editorias de viagens, entretenimento e plantões extraordinários ( breaking news ).O vice-presidente e diretor de redação do USA Today.com (a versão online do jornal), Kinsey Wilson, foi promovido a diretor-executivo do“USA Today, cargo que dividirá com o atual editor-executivo do jornal, John Hillkirk.

Em agosto, o New York Times, um dos jornais de maior prestígio do país, disse que também iria integrar sua redação tradicional com a equipe da versão online. Anunciada inicialmente como uma colaboração mais intensa e freqüente entre as duas equipes, a medida tem como objetivo eliminar diferenças entre os dois tipos de jornalismo.

Os americanos deram a largada para o aumento do número de vagas para jornalistas no mercado. Claro que os jornais do Brasil vão demorar para integrar as redações vai demorar um pouco. Mas quando isso acontecer, vai ter um BOOM de vagas para jornalistas (principalmente os recém formados) no mercado.
Que o futuro chego logo!!!

13 Dezembro 2005

A glória de um repórter...

A persistência é uma das características dos repórteres mais conceituados. Por outro lado, a preguiça é a marca registrada do repórter fraco. Confesso que alterno entre persistente e preguiçoso. Claro, quando o assunto me interessa, vou até São José da Lagoa Tapada para apurar o caso.
Aconteceu ontem (segunda-feira) comigo. Tinha a insólita missão de entrevistar o técnico da Seleção Brasileira de vôlei masculino, Bernardinho. Na minha modesta, opaca e pálida opinião, ele é um cara chato. Não gosta de muita conversa fiada com jornalistas. Principalmente os que não são expert em vôlei. Como eu vou perguntar para ele se o oposto está fazendo bem a transição para a ponta com o líbero na cobertura se eu não sei decifrar o que ele vai responder? Como? Complicado... Mas confesso que já tô aprendendo algumas coisas sobre vôlei. Até porque, minhas áreas de cobertura aqui no Correio Braziliense são basquete, vôlei, tênis e natação. basquete eu realmente gosto e entendo. Vôlei eu acompanho, mas não entendo. Tênis e natação idem...
Muito bem, entrevistei Bernardinho em quatro ou cinco oportunidades aqui em Brasília. Duas vezes com a Seleção Brasileira de vôlei, duas vezes com o Rexona Ades, time que ele dirige e participa do nacional feminino (Superliga). Teve uma outra oportunidade que não me recordo agora. Acontece que em todas as vezes ele foi irônico comigo e com os demais repórteres.
Quando está no exercício de sua profissão, Bernardinho é um dos caras mais diretos possíveis no contato com a imprensa. Não fica de conversinha, não esconde o jogo sobre os assuntos, e evita intimidades. É direto e fala sempre o que os jornalistas querem ouvir.
No domingo passado ele desembarcou em Brasília para participar do lançamento de um projeto social numa cidade vizinha a Brasília. Na segunda-feira, ontem, ele fez uma série de palestras sobre auto-estima, espírito de liderança e tudo mais. Ele veio para cidade ao lado de Fernanda Venturini, uma das melhores levantadoras do vôlei mundial de todos os tempos, e extremamente antipática. Ela é mulher de Bernardinho.
Recebi a pauta do meu chefe de bater um papo com o treinador e dar uma página para ele. Sabia que seria muito difícil. E foi...
Vamos lá. Cheguei no jornal no início da tarde e liguei para a pessoa responsável pelo lançamento do projeto social na cidade vizinha a Brasília. Eu havia conversado com ela no meio da semana prometendo que iríamos tirar fotos e fazer uma matéria sobre o projeto social dela no domingo. Não fomos.
Na cara de pau, liguei e perguntei sobre Bernardinho. A pessoa, claro, me atendeu muito mal e disse que só sabia que ele estava no hotel Kubitscheck Plaza, um dos mais importantes de Brasília. Só figurões ficam lá. Agradeci, mais uma vez prometi fazer uma reportagem com o projeto social e dei tchau rapidamente.
Liguei no hotel e peguei o número do quarto em que Bernardinho e a mulher estavam hospedados. Nesse caso, é melhor não se identificar como repórter. Só ligue e pergunte pela pessoa como Bernardo Rezende. A recepcionista nem desconfiou que era repórter (claro!) e passou para o quarto 623. Ele não estava mais lá.
Não gosto de falar para meu chefe que minha pauta caiu. Ainda mais porque haviam me dado uma página para o vôlei na edição desta terça-feira (13/12). Liguei na assessoria do tal do time Rexona Ades, que fica no Rio de Janeiro. Atendeu uma estagiária da assessoria que havaia assumido o lugar da assessora porque esta está de licença maternidade. Ela fez pouco caso para meu pedido de bater um papo com Bernardinho e disse que me retornaria.
Percebi que não poderia confiar na estagiária e continuei perseguindo Bernardinho. Liguei, então, para ninguém menos que Fernanda Venturini (sim, a antipática). Quando ela atendeu, me apresentei como repórter e antes de perguntar sobre Bernardinho, ela soltou:
- Olha aqui, eu já o que você quer. O Bernardo está muito ocupado fazendo palestras hoje, brasília inteira está me ligando tentando entrevistá-lo.
- Mas me diga apenas aonde é a palestra de agora à tarde?, insisti.
- No Quartel General do Exército. Tchau...
Sensacional a informação que a antipática, ou melhor, Fernanda me passou. Vou lá no Quartel General e pego Bernardinho na saída da palestra. Acontece que me informaram que só entram militares no QG. Esse local recebe o nome de Forte Apache de tão seguro que é. Todos os generais brasileiros (a maioria dos tempos da ditadura). Tive que ligar para a assessoria do Minsitério da Defesa para perguntar se podia falar com o único civil que estava no forte Apache naquela tarde de ontem. Após 45 minutos um coronel me liga me autorizando a entrar.
Comecei a caçada às 13h15, hora que cheguei no jornal. Só parei às 16h45, hora em que me tornei o segundo civil a entrrar no Forte Apache segunda-feira à tarde.
Bernardinho estava no final da palestra. Estava totalemente diferente das outras vezes que o encontrei aqui em Brasília. Esperei cinco minutinhos após o término da apresentação e pude conversar com ele.
Como sempre faço, separei alguns tópicos sobre os principais assuntos a perguntar para ele e comecei a conversa. Olha a íntegra da matéria publicado no Correio Braziliense de terça-feira abaixo:

VÔLEI
Aposta no ouro
De passagem por Brasília, o campeão olímpico Bernardinho elogia a Seleção feminina

Daniel Brito
Da equipe do Correio

Em Brasília para o lançamento de um projeto social das medalhistas olímpicas Leila e Ricarda, o técnico da Seleção Brasileira masculina de vôlei, Bernardo Rezende, o Bernardinho, esbanjou simpatia. Bateu bola com as crianças em Taguatinga, no domingo, no Ginásio Serejinho. Ontem, fez palestras para mais de três mil pessoas. A primeira, no Quartel-General do Exército, no Setor Militar Urbano, para militares. À noite, para empresários, na Academia de Tênis. Entre uma apresentação e outra, o treinador, que também comanda o Rexona Ades, do Rio, uma das forças da Superliga feminina deste ano, conversou com o Correio.

Bernardinho acredita que está surgindo uma geração de ouro também no vôlei feminino. Para ele, jogadoras como Mari, Sheilla e a brasiliense Paula Pequeno foram inspiradas pela geração de bronze das Olimpíadas de 1996 e 2000. “É mais ou menos como aconteceu com o pessoal que foi campeão olímpico em 1992, no masculino. Eles cresceram vendo a geração de prata de 1984”, disse, animado com a safra.

O treinador tem motivos para se animar. Um ano após o fatídico quarto lugar nos Jogos de Atenas, as meninas do Brasil, comandadas por José Roberto Guimarães, ganharam os seis torneios de que participaram, dentre eles o Grand Prix e a Copa dos Campeões, no Japão. Foram 38 jogos e apenas duas derrotas na temporada. “Até as Olimpíadas de Pequim, em 2008, essas jogadoras estarão amadurecidas o suficiente para conseguir o ouro”, confia Bernardinho.

Ciclo

A China, aliás, deve ser o ponto final do grupo que Bernardinho dirige atualmente na Seleção masculina. “Muitos dos jogadores que trabalham comigo encerram o ciclo na Seleção daqui a três anos. Para 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, haverá uma safra nova e muito boa, tenho certeza”, disse. Ele não adiantou se estará na Inglaterra comandando a equipe. Antes de se preocupar em representar o Brasil nas maiores competições do planeta, Bernardinho se preocupa com a Superliga feminina de 2005-2006. Pela segunda temporada consecutiva, ele dirige o Rexona Ades.

No campeonato passado, a equipe chegou à final contra o Finasa Osasco com apenas uma derrota em 22 jogos. Surpreendentemente, perdeu três jogos consecutivos e terminou em segundo lugar. Com a presença de seis jogadoras da elogiada Seleção Brasileira, o Rexona entra na Superliga com o mesmo status de favorito da competição passada. “Nesta temporada, as coisas estão mais equilibradas. Brasília, Minas, Pinheiros e Macaé estão muito fortes. É muito bom que seja assim. Não prometo que seremos campeões, mas vamos chegar forte”, avisou Bernardinho.

Futebol

Se pudesse fazer uma palestra para os jogadores que tentarão o hexacampeonato, em junho, na Alemanha, Bernardinho daria o conselho: “Os grandes campeões crescem no desafio”. O técnico medalha de ouro nas Olimpíadas de Atenas chegou a conversar com Carlos Alberto Parreira na semana passada sobre a possibilidade de falar aos jogadores que disputarão a Copa do Mundo.

“Os jogadores têm a oportunidade de entrar para a história se forem campeões, mesmo sendo apontados como favoritos. Eu tenho certeza que eles terão sucesso na Alemanha”, previu. O técnico de vôlei fez questão de ressaltar seu lado torcedor. “Se me chamarem, vou levar minha camisa do Brasil para pegar o autógrafo de todos eles.”

Conversamos sobre tudo que era pertinente para aquele momento. Aliás, só faltou uma pergunta sobre o projeto social que ele veio visitar no domingo aqui em Brasília. Mas não deixei de citá-lo no lide.
Nesta terça, chego na redação ciente que não seria elogiado pelo chefe (elogios são difíceis por aqui) e vejo na minha caixa de email. "Levamos furo da Folha de S. Paulo, Jornal de Brasília e O Globo. Vamos correr atrás dessa história do basquete". Era meu chefe escrevendo. A tal "história do basquete" é uma guerra jurídica entre a confederação e o Mão Santa Oscar Schmidt para disputar o Campeonato Nacional. Assunto que aconteceu no Rio de Janeiro, portanto longe domeu alcance para evitar um furo.
Respondi ao email dizendo que foi uma falha minha porque passei a tarde de segunda perseguindo Bernardinho, que nenhum outro jornal deu. Na mesma hora, me lembrei de uma lição que Ricardo Noblat (ex-Diretor de Redação do Correio Braziliense) passa em um dos seus livros. "A glória de um repórter não vai além do meio-dia do dia seguinte à publicação de sua matéria. Se ele não conseguir fazer outra matéria de nível no dia seguinte, a matéria sensacional perdeu a validade".

09 Dezembro 2005

Famoso quem ?

Entre os jornalistas existe um mito de quem trabalha em televisão é porque gosta de aparecer. Não necessariamente. Até porque eu e outros colegas começamos em outras mídias até chegar à tevê. Eu, por exemplo, comecei na rádio, depois jornal, internet e por último a tevê. Começei em dezembro de 2001. Não concordo com essa história de que todo repórter de televisão gosta de aparecer. Porém admito que muitos pensam que todo mundo os conhecem. Vou logo dizendo que não penso assim. É tanto que na maioria das vezes que vou entrevistar alguém faço questão de me apresentar, dizer em qual emissora trabalho. No começo de minha carreira na tevê – se bem que eu ainda estou no começo – tive uma experiência interessante, ou melhor, engraçada. Meu amigo Daniel Brito estava comigo e quase morreu de rir. A experiência serviu para mostrar que repórter de televisão não é tão conhecido como às vezes pensa. Em junho de 2002 ou 2003 (não lembro bem) estávamos eu, Daniel - que havia chegado de viagem - e Chico Morais (fotógrafo) no Parque do Povo, época de São João, num quiosque comendo tapioca, batendo papo. De repente a vendedora olha pra mim:
- Eu tô conhecendo o senhor de algum lugar.
- É? perguntei pensando que a mulher tinha me visto na tevê. É um pensamento normal para quem diariamente está num telejornal.
Daniel nem percebeu que eu estava conversando com a vendedora. E ela continuava olhando pra mim, como se tivesse tentando lembrar de onde me conhecia. E o pior é que ela não me conhecia.
- Não estou lembrado de onde conheço o senhor.
- É mesmo? perguntei novamente.
- Ah, agora lembrei. O senhor não é Clóvis, cobrador da Expresso Nacional?
- Não senhora.
- Não? Eu pensei que era. O senhor está com essa camisa azul, que os cobradores da Nacional usam. E o senhor é a cara de Clóvis, disse ela espantada. Talvez até pensando que eu estivesse mentindo.
A Expresso Nacional é uma empresa de ônibus de Campina Grande, na qual os motoristas e cobradores usam como farda camisa azul e calça azul escuro.
Nisso eu já estava morrendo de rir. Daniel, perguntando o que tinha acontecido. Quando contei que a mulher estava pensando que eu era Clóvis da Nacional, Daniel e Chico quase morrem de rir. Na verdade nós não conseguíamos parar de rir. A vendedora ficava olhando, sem entender nada. Passei mais de um mês ouvindo Daniel e Chico contarem essa história a todos que encontravam. E ainda por cima me chamando de Clóvis da Nacional. Eu não fui o único a passar por uma situação como essa. Um colega meu - que não vou revelar o nome, nem onde ele trabalha porque não pedi autorização – também passou por uma dessas com o dono da emissora que trabalha. Ele foi escalado para uma matéria recomendada (a famosa rec) na qual entrevistaria o dono da emissora. O patrão estava conversando com outros empresários quando chega o repórter:
- Com licença, o senhor poderia dar uma entrevista pra tevê?
- Pois não, disse ajeitando o paletó. Qual a sua emissora?
O repórter disse o nome da emissora na maior naturalidade, mas ficou sem jeito porque o patrão não o conhecia. A entrevista ocorreu normalmente. O pior é que tinha uma colega dele que ouviu tudo e, como era de se esperar, contou para vários outros jornalistas de Campina Grande. Já dá pra imaginar o que ele sofreu.
São por essas e outras que o repórter de tevê corre de ouvir: você é o famoso quem?

Ainda Bonner e Homer

A polêmica das matéria publicada na revista Carta Capital sobre o Jornal Nacional e a reposta de William Bonner (ambas postadas no blog) foi abordada por Eliakim Araújo no site Comunique-se (http://www.comuniquese.com.br/). Eliakim, na minha concepção, emite uma opinião sensata:

Bonner e o comedor de biscoitos
Eliakim Araújo (*)

Façam suas apostas: Homer Simpson é um preguiçoso, de raciocínio lento, que passa o dia em frente a TV comendo biscoitos e bebendo cerveja ou um pai de família devotado, trabalhador, sem curso superior, que chega do trabalho cansado e quer se informar sobre os fatos do dia de maneira clara e objetiva?

A polêmica surgiu depois que o professor Laurindo Lalo Leal Filho publicou artigo na revista Carta Capital contando inconfidências dos bastidores do Jornal Nacional. Laurindo, junto com um grupo de nove professores da USP, visitou a redação da TV-Globo em 23 de novembro e foi convidado para participar como assistente de uma reunião de pauta do JN.

Além da superficialidade com que são tratados e escolhidos os assuntos que entrarão na casa de milhões de pessoas, Laurindo se mostrou perplexo ao ouvir de William Bonner, o editor-chefe, que uma pesquisa realizada pela Globo constatou que o telespectador médio do JN “tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo”. Por isso, na redação da Globo o brasileiro médio é apelidado de Homer Simpson. Para o professor Laurindo, um obtuso personagem de raciocínio lento e preguiçoso. Para Bonner, em resposta ao professor, Homer é um paí de família trabalhador, responsável, que gosta de se informar de maneira clara e objetiva.

Em nome da clareza, invocada acertadamente por Bonner, é que me obriguei a fazer acima o pequeno resumo da história para aqueles que ainda não a conheciam. Como mandam os manuais de o editor-chefe do JN tem autonomia para decidir até a página cinco, como se diz popularmente. Daí em diante, a decisão vai para o Diretor de Jornalismo, que também tem autonomia limitada, até a página dez, digamos. Nos assuntos “delicados” que envolvem interesses econômicos ou políticos da empresa, quem decide mesmo o que vai ao ar é a alta cúpula. Isso sem falar das “rec”, as matérias recomendadas pela direção que têm a sua prioridade assegurada. Pelo menos era assim nos tempos do Dr. Roberto e acredito piamente que nada mudou.

Bonner, em sua resposta, limita-se a tecer considerações sobre o temperamento de seu Homer e explica que foi por amor à clareza e à objetividade que inventaram na redação o nome do personagem da série Os Simpsons, após a tal pequisa realizada pela emissora. Mas ele não toca na questão editorial. Essa sim, a meu ver, a mais importante.
O professor Laurindo cita em seu artigo o comportamento do editor-chefe ao recusar matéria da sucursal da Globo em NY sobre a oferta do governo venezuelano para venda de petróleo a preços mais baratos para atender comunidades carentes dos EUA. Assunto da maior relevância naquele dia de novembro, e neste momento quando o gás venezuelano já está atendendo a 8 mil famílias pobres do Bronx, em Nova Iorque, como se pode ler na coluna de hoje do Eduardo Graça, aqui mesmo, no DR.

Não sei qual o critério usado por Bonner para recusar a matéria. Se foi político, é preocupante. Se não, foi um grave erro de avaliação. Gostando-se ou não de Hugo Chávez, temos que reconhecer sua importância no cenário político internacional. Ele hoje é notícia em qualquer lugar do mundo. Não só porque preside um país que é um dos maiores produtores de petróleo, como também porque é um dos raros líderes a enfrentar a prepotência de Bush e seu desprezo pelas regras internacionais de convivência.
Vejo no artigo do professor Laurindo um alerta àqueles que têm o poder de decisão. Tentar jornalismo.

Dito isto, confesso que a discussão sobre a personalidade de Homer Simpson é o que menos importa na polêmica. O que deve preocupar o telespectador brasileiro são os critérios como são selecionadas as matérias que vão para o telejornal. Quem conhece as entranhas do monstro, sabe que melhorar a qualidade da informação oferecida ao telespectador é um dever social do jornalista. O nivelamento por baixo não interessa à maioria da população brasileira. Só a alguns poucos, aqueles que aumentam diariamente suas fortunas à custa do atraso e da miséria que se alastram pelo país.

(*) Ancorou o primeiro canal internacional de notícias em língua portuguesa, a CBS Brasil. Foi âncora dos Jornais da Globo, da Manchete e do SBT e noticiarista da Rádio JB. Tem uma empresa de assessoria em jornalismo e marketing.

http://www.comunique-se.com.br/

08 Dezembro 2005

leitura obrigatória II

Na falta de histórias interessantes para postar, completo a série Leitura Obrigatória desta semana com o texto de Diogo Mainardi na Revista VEJA desta semana. Provocar é com ele mesmo. E no texto abaixo, ele cutucou Deus e o Diabo com vara curta. Só não me pergunte quem é Deus e quem é o Diabo no texto abaixo (Mainardi, certamente está entre os dois):

Diogo Mainardi
Observatório da imprensa

Os lulistas reclamam da imprensa. Não entendo o motivo. Lula já teria sido deposto se jornais, revistas e redes de televisão não estivessem tomados por seus partidários.

Eu acompanho todo o noticiário político. Minha maior diversão é tentar adivinhar a que corrente do lulismo pertence cada jornalista. Não sou um grande especialista no assunto. Não freqüento o ambiente jornalístico. Tenho apenas quatro ou cinco amigos no ramo. E nunca fui de esquerda.

Não sei direito quem é quem dentro do PT. Esses pelegos me parecem todos iguais. Mas tenho um bom olho para reconhecer o jargão lulista. Não preciso de mais de uma frase, perdida no meio de um artigo, para identificar um governista infiltrado.

O Globo tem Tereza Cruvinel. É lulista do PC do B. Repete todos os dias que o mensalão ainda não foi provado. E que, de fato, José Dirceu não deveria ter sido cassado. Cruvinel aparelhou o jornal da mesma maneira que os lulistas aparelharam os órgãos públicos. Quando ela tira férias, seu cunhado, Ilimar Franco, assume sua coluna.

Kennedy Alencar foi assessor de imprensa do PT. Ele continua sendo assessor de imprensa do PT, só que agora de maneira não declarada, em suas matérias para a Folha de S.Paulo. Ele é o taquígrafo oficial de André Singer, secretário de Imprensa de Lula. Singer dita e Kennedy Alencar publica.

Franklin Martins é José Dirceu até a morte. Eliane Cantanhêde é da turma de Aloizio Mercadante. Luiz Garcia é lulista, sem dúvida nenhuma, mas não consigo identificar sua corrente. Vinicius Mota é do grupo de Marta Suplicy.

Quem mais? Alberto Dines é seguidor de Dirceu, e só se cerca de seguidores de Dirceu. Alon Feuerwerker, do Correio Braziliense, é do partidão, e apóia quem o partidão mandar. Paulo Markun, da TV Cultura, tem simpatia por qualquer um que seja minimamente de esquerda. Paulo Henrique Amorim é lulista de linha bolivariana. Ricardo Noblat era lulista ligado a Dirceu, mas pulou fora no momento oportuno.

Leonardo Attuch, da IstoÉ Dinheiro, é subordinado a Daniel Dantas. Quando Dantas está satisfeito com o governo, Attuch é governista. Quando Dantas está insatisfeito com o governo, Attuch vira oposicionista. Mino Carta, por outro lado, é subordinado a Carlos Jereissati. Tem a missão de atacar Dantas. E de defender a ala lulista representada por Luiz Gushiken.

Os jornalistas que não pertencem à área de Dirceu, Gushiken, Mercadante, Suplicy ou Rebelo em geral pertencem à área de Antonio Palocci. Nunca houve um político tão protegido pela imprensa quanto ele. Palocci tem defensores influentes em todos os veículos, sobretudo em O Estado de S. Paulo e Valor.

Nem mesmo VEJA escapa do tribunal macartista mainardiano. Os lulistas costumam definir a revista como tucana, mas eu desconfio que ela esteja cheia de lulistas. Não posso revelar seus nomes por puro corporativismo. E porque não quero perder aqueles quatro ou cinco amigos na profissão.

Pelo pouco que circulo com essas pessoas citadas por Mainardi, posso dizer que Ricardo Noblat é, sim, petista. Não digo lulista. Petista. O filho dele se formou em jornalismo, mas vai se candidatar a deputado distrital (o Distrito Federal tem deputado distrital e não estadual) pelo PT. Mas eu diria que Noblat quer ver o circo pegar fogo. Pode até ser lulista, mas se esbalda com qualquer coisa de errado que o presidente faça.

Um conhecido meu trabalha numa revista semanal em Brasília. Trabalha diretamente com os safados, ou melhor, os políticos no Congresso Nacional e conhece muitos dos jornalistas citados por Mainardi. Inclusive o próprio Mainardi. Ela contou que assistiu a um ligeiro bate-boca entre Dirceu e Mainardi na Sala do CAfezinho da Câmara, um dos ambientes mais freqüentados da Câmara Federal (mais até que o próprio plenário). Ela não se lembra como foi o bate-boca exatamente, mas disse que nenhum dos dois elevou o tom de voz e mesmo assim a discussão foi calorosa só na base do "Vossa Excelência"...

Outra pessoa que ela encontra muito nos corredores com cheiro de mofo do Congresso é Teresa Cruvinel, de O Globo. A única coisa que minha namorada me contou sobre ela é que essa Cruvinel tem o singelo apelido de Cruvileão. Será que é bruta?

De qualquer maneira, eu não acho legal criticar jornalistas à toa. O que esses caras fizeram para Mainardi? Escreveram suas opiniões e ele não gostou ao ponto de querer "acabar" com eles em seu espaço semanal na VEJA.

Não se discute a categoria de Mainardi de escrever textos provocativos, mas ele mesmo esquece que o mundo jornalístico dá voltas. Qualquer dia desses, ele pode trabalhar em uma redação em que a chefe seja ninguém menos que a própria Cruvileão. Aí, quero ver falar mal...

07 Dezembro 2005

Mania mundial

Menos de uma semana depois de lançar este blog, confesso que estou empolgado com essa nova ferramenta jornalística. Principalmente para quem gosta de escrever, como eu. Na verdade, eu gosto de escrever sobre assuntos que eu gosto de ler (esportes, história, atualidades, jornalismo...).
Pois bem, passeando pela internet, descobri no site Último Segundo, do IG, um texto que comprova que não só eu e Léo, como os argentinos (até eles!!) entraram de cabeça nessa história de blog jornalístico. Olha o texto abaixo:

Segunda-Feira, 5 de Dezembro de 2005
Argentinos criam superblog jornalístico
Cerca de 50 jornalistas blogueiros da Argentina formaram no final de novembro um grupo chamado Associación 3.0 com o objetivo de trocar experiências e informações visando melhorar a qualidade informativa e narrativa do material que publicam.

É a primeira organização do gênero que tenho notícia na América Latina e segue o exemplo dos chamados Superblogs, que estão surgindo nos Estados Unidos e Europa como uma fórmula para unir esforços na busca por mais visibilidade e acesso a possíveis anunciantes.

Os fundadores são os jornalistas Leandro Zanoni, 29 anos, criador do eBlog e Dario Gall, do BlocdePeriodista , e diretor executivo da revista Noticias. Mas a Associación 3.0 tem uma forte influência espanhola, principalmente através dos jornalistas Juan Varela, do blog Periodistas 21 e de José Luis Orihuela, responsavel pelo blog eCuadernos , também professor da Universidade de Navarra.

Varela é um dos criadores da página wiki Periodismo 3.0 onde blogueiros de língua espanhola estão desenvolvendo coletivamente um conjunto de textos e definições sobre jornalismo cidadão e participativo. Há alguns textos bem interessantes e uma pesquisa histórica muito boa.

Um dos textos que vale a pena examinar é o que contém uma lista de blogs jornalísticos espanhóis e latino-americanos.

Uma navegada pelos principais blogs associados ao projeto Associación 3.0 mostra como os jornalistas argentinos estão usando intensivamente o recurso das páginas pessoais para publicar notícias que, na maioria dos casos, não sairam na mídia convencional.

Nem todos os autores são jornalistas profissionais, mas há um consenso entre os associados para adotar normas éticas e técnicas inspiradas nos manuais de redações convencionais.

Aos nossos leitores: Serão desconsiderados os comentários ofensivos, anônimos e os que contiverem endereços eletrônicos falsos.

Suit...

No jornalismo, existe um termo chamado SUIT. Eu nao sei se é exatamente assim que se escreve (já vi várias versões), mas é muito importante no dia-a-dia. Suit é o simples fato de você dar continuidade a um assunto que você começou no dia anterior, na publicaçao anterior, no programa anterior, enfim...
É comum um jornal dá notícia de que um assassinato terá seu laudo divulgado em 15 dias e nunca mais dar notícias sobre o assassinato. Isso é um erro jornalístico...
Pois bem. Fazendo uma suit do história que postei ontem, aí vai o lado de William Bonner sobre a história de o "pai de família brasileiro ser a cara de Homer Simpson".
A notícia abaixo foi publicada no UOL:

Em resposta encaminhada ao site de notícias "Blue Bus", que recebe ampla participação dos leitores, o jornalista William Bonner diz que se sente "envergonhado" por ter de justificar o motivo pelo qual comparou o telespectador do "Jornal Nacional" a Homer Simpson, o chefe da família Simpson.

A polêmica surgiu com a publicação de um artigo assinado pelo professor da USP Laurindo Lalo Leal Filho na revista "Carta Capital" desta semana, no qual relata suas impressões após uma visita à redação do "Jornal Nacional". No artigo de duas páginas, que abre a publicação, Leal Filho critica William Bonner por ter se referido ao telespectador médio de um dos principais telejornais do país como Homer Simpson, porque teria dificuldade de "entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES".

No e-mail que encaminhou ao "Blue Bus", Bonner classifica Homer Simpson como "um pai de família, trabalhador, protetor, conservador, sem curso superior e que assiste à TV depois da jornada de trabalho". Segundo o jornalista, sua intenção ao citá-lo foi simplesmente tentar exemplificar o tipo de público que assiste ao telejornal da TV Globo. "Jamais tive informação de que alguém guardasse imagem tão preconceituosa, tão negativa do personagem do desenho", justifica.

O apresentador, que também é o editor-chefe do "JN", disse ainda que ele e o professor universitário não compartilham a mesma opinião sobre o persongem. "O Professor Laurindo tem uma visao diferente de Homer. Em vez do trabalhador (numa usina nuclear), o acadêmico o vê como um preguiçoso. Em vez do chefe de família, o Professor Laurindo o vê como um comedor de biscoitos. Esta imagem não é a que tenho", completou.

William Bonner finaliza o texto dizendo que "fracassou no desafio de ser claro e objetivo" na manhã de 23 de novembro, quando recebeu na redação do "Jornal Nacional" Laurindo Lalo Leal Filho e o grupo de professores universitários.

Particularmente, acredito que Bonner não está errado. É claro que o JN tem vários pontos de interesses duvidosos, mas não se pode negar que o programa jornalístico mais assistido do Brasil não pode tratar as notícias como se estivesse "falando" para um público seleto.

É exatamente o oposto. Vai colocar no jornal nacional que o BNDES não liberou financiamento dA COnstrução de uma usina de carvão no interior do Mato Grosso do Sul... Certamente as pessoas que têm negócios com carvao, ou moram no interior do Mato Grosso do SUl estao interessadas no assunto. Mas o que os brasileiros de baixa renda (que é maioria) tem a ver com a história?Imagine a historia do gás para pessoas pobres em Massachussets???

Além disso, tem a história que Boni, o chefão da Globo (não sei se ele ainda é), tem uma pesquisa de cinco, sete anos atrás, que comprova que apenas 30% da audiência dos programas jornalísticos pretam atenção se o repórter errou concordância gramatical no texto, se o batom da repórter está vermelho demais, se o cabelo da apresentadora tá com chapinha, se o comentarista passou uma informaçao fora do contexto... Os outros 70% querem mesmo é a informaçao bruta e ponto final!

Para completar, queria dizer que realmente deve ser difícil para um professor de jornalismo, que nunca teve a experiência de trabalhar numa redaçao, entender como se faz um jornal diário. Todas as empresas (eu disse TODAS) tem interesses. A minha, por exemplo, tem interesses políticos. A Globo tem comercial e político. Por isso, não existe jornalismo isento. Há interesse em tudo.

No caso de Bonner, é aumentar índices de audiência com matérias que mexam diretamente com a vida do telespectador. Claro que por trás disso, está os interesses da Globo, é claro (aí é o maior erro do JN, na minha modesta opinião. Erro que não será corrigido nunca). Bonner não está errado em se pautar pela audiência. Até porque, mesmo o fazendo, produz um jornal interessante que não deixa de informar a ninguém sobre as principais notícias do dia... (E olha que nem da Globo eu gosto, hein??)

06 Dezembro 2005

Leitura obrigatória...

No primeiro post deste blog disse que este espaço não serviria apenas para contar histórias das redações da TVPB ou do Correio Braziliense. Aqui se publica coisas interessantes (na nossa opinião) sobre jornalismo.
Hoje, li dois textos sensacionais sobre jornalismo/jornalistas. O primeiro era de Diogo Mainardi, da Veja. Ele (como de costume) provoca todos os jornalistas políticos conceituados de Brasília. Deveria postar esse texto aqui agora, mas preferi publicar o texto abaixo. A matéria que você vai ler a seguir foi publicada na revista Carta Capital (cujos jornalistas também foram citados por Mainardi no artigo que colocarei aqui depois) desta semana.

DE BONNER PARA HOMER
O editor-chefe considera o obtuso pai dos Simpsons como o espectador padrão do Jornal Nacional

Por Laurindo Lalo Leal Filho*

Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23 de novembro.

Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão. Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem dado palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da USP.

Chegaram ao Rio no meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico. A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal, começa um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem suprida de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira informação viria a se tornar referência para todas as conversas seguintes. Depois de um simpático "bom-dia", Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional.

Constatou-se que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos \nSimpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento.

A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. "Essa o Homer não vai entender", diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia.

Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos – atender ao Homer –, passa-se à reunião para discutir a pauta do dia. Na cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa das paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de perto pelos visitantes.

Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos pelas "praças" (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas eles não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.

A primeira reportagem oferecida pela "praça" de Nova York trata da venda de óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da "oferta" jornalística informa que a empresa venezuelana, "que tem 14 mil postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível" para serem "vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40% mais baixos do que os praticados no mercado americano". Uma notícia de impacto social e político. O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que considera a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.

Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela "praça" de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a soltura de presos por falta de condições carcerárias. A argumentação do editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem às ruas. "Esse juiz é um louco", chega a dizer, indignado. Nenhuma palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos pontos de audiência.

Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês – matéria oferecida por São Paulo –, o comentário gira em torno dos prejuízos causados ao órgão. "Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem perícia, continuam onerando o INSS", ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.

De Brasília é oferecida uma reportagem sobre "a importância do superávit fiscal para reduzir a dívida pública". Um dos visitantes, o professor Gilson Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário global.

Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística, com a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a passagem diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano, transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.

E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para o limbo. Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac – o centro de produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em Jacarepaguá – os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares constrangidos.

* Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP
http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=3590

Está feito o Jornal Nacional nosso de cada dia...

04 Dezembro 2005

Fala povo

Confesso que sou meio cismado com essa história de ‘fala povo’ em reportagem. Quando eu escuto “Léooo, vai ali fazer um fala povo pro seu VT” é um martírio. Acho que a opinião de um especialista dá mais peso a matéria. E o pior que nem sempre o povo está informado sobre o assunto da enquête. Aí você corre o risco de ouvir: “o que é isso?”, “Não sei de que você está falando”. E por aí vai. Outro problema é que o repórter fica no meio da rua (com cara de bobo) observando as pessoas passarem, com um microfone na mão, conversando com cinegrafista, dizendo: “é aquele de camisa verde” ou “aquela de óculos”, escolhendo os possíveis entrevistados. Em muitos casos as pessoas não falam. E chegam até a fugir da câmera como o diabo foge da cruz. Tem outra coisa que deixa o repórter de tevê chateado – já ouvi depoimentos de vários colegas – é quando a produção usa o diminutivo para pedir uma matéria num dia imprensado, cheio de coisa. “Léo vai ali fazer um ´registrozinho’, coisinha rápida, faz só umas ‘imagenszinhas’, pega uns ‘informaçõeszinhas’ e quando chegar faz um textinho. Coisa rápida”.
Como se desse pra fazer uma matéria desse jeito. É preciso tempo. Daniel já ouvi muitas vezes: “Danieuuuuuuu (sic), vai ali dá só uma passadinha, só pra fazer um registrozinho e quando chegar você faz um textinho”.
Voltando a história do fala povo, há umas duas ou três semanas vi minha produtora (Adriana Mota) preparando uma pauta sobre câncer de próstata para o outro repórter, Marcos. Pra não perder a piada sugeri logo a Marcos que a “passagem deveria ser feita com ele fazendo exame de próstata. Você vai incentivar os homens a fazerem também”. Não é que no outro dia a pauta acabou caindo para mim. Feitiço contra o feiticeiro. Marcos, claro devolveu a piada. Quando li a pauta vi que tinha um fala povo. Adriana queria que eu fosse ao centro de Campina Grande entrevistar alguns homens para saber se eles tinham preconceito em fazer o exame de próstata.
- Adriana, esse negócio não vai dar certo. Os caras vão pensar que é alguma piada. Vão tirar onda da minha cara.
- Não Léo, não vai ter problema. É pra ver se ainda existe preconceito, disse ela.
Tentei usar como argumento uma matéria que fiz há uns três anos, na época da TV Borborema.
- Isso não vai dar certo. Uma vez lá na Borborema eu fui fazer uma enquête sobre o Nordeste não ter horário de verão e sabe qual a resposta que ouvi de um senhor de uns 60 anos de idade? “Pra mim tanto faz meu filho. Eu trepo toda hora mesmo”. Você imagina como eu fiquei em pleno Calçadão.
Mas não teve jeito. Adriana não mudou de idéia. E lá fui eu pro Calçadão da Cardoso Vieira, onde passa muita gente e outras se reúnem para passar o tempo dando informações sobre a vida alheia. Não é a toa que o Calçadão é chamado de DIVA (Departamento de informações da vida alheia).
Quando cheguei vi dois senhores (perto dos 60 anos de idade) que escolhi como meus primeiros entrevistados. Imaginei que eles eram sérios e não iriam fazer qualquer tipo de piada.
- Boa tarde, o senhor já fez exame de próstata?
- Já sim, respondeu o primeiro.
- Teve preconceito?
- De jeito nenhum, completou.
A primeira opinião já tinha conseguido. Só teve um trabalho de me virar para o segundo que estava no mesmo banco.
- E o senhor já fez exame de próstata?
- Já, respondeu o segundo com a carinha de safado.
- Teve preconceito?
- Não... ele fez um silêncio. E eu continuei com o microfone como se esperando mais alguma coisa. E não é que veio.
- Não, não tive preconceito. Ele só colocou um ferro no meu ‘furico’, disse o senhor se referindo ao exame de toque retal.
Depois da resposta, eu fiquei todo sem jeito. Meu cinegrafista e os dois senhores rindo da minha cara. Pronto tinha acabado minha enquête. Não iria correr o risco de ouvir outras respostas daquele tipo ou até piores. Imediatamente liguei pra redação.
- Adriana, o fala povo caiu.
- Por que Léo? Perguntou com uma voz bem inocente.
- Simplesmente porque na segunda pergunta o cara veio me dizer que colocaram um ferro furico dele. Eu disse a você que não dava certo. Adriana caiu na gargalhada, contou pro resto da redação e todo mundo ficou rindo.
Eu fui concluir minha matéria com a entrevista de um especialista. Quando cheguei na redação todos queriam ver a fita com a resposta do senhor. E ainda ficaram tirando onda da minha cara. Pois é, quando o repórter está na rua corre o risco de encontrar algum engraçadinho pra zombar da sua cara. Esse é um dos lados divertidos do jornalismo.

02 Dezembro 2005

Concorrência nacional

Poucas coisas são tão angustiantes no jornalismo como a concorrência. Os seus concorrentes estão sempre de olho em você e você de olho neles, claro. Há quase dois anos eu vivo essa concorrência em parâmetros infinitamente mais elevados do que quando trabalhava na Tv Borborema, em Campina Grande.
No Correio Braziliense minhas matérias podem alcançar repercussão nacional facilmente. Até agora, duas ou três reportagens que escrevi foram repercutidas pela "grande imprensa". Três ou quatro vezes em uma semana eu lido com personagens nacionalmente conhecidos. Foi o que aconteceu na última quarta-feira comigo, em Florianópolis.
A assessoria de Gustavo Kuerten convidou o Correio para acompanhar o lançamento da grife de roupas masculinas GUGA KUERTEN. Isso é prática comum no jornalismo impresso. O repórter designado pelo jornal para cobrir o evento sugerido pela assessoria tem todas as mordomias possíveis. Passagem de aviâo, transporte dentro da cidade para onde vai, alimentação, melhores hotéis e sempre tem aqueles presentinhos.
Pois bem, fui a Florianópolis na noite de terça-feira. O lançamento da grife foi na quarta. Voltei para Brasília na quinta pela manhã. Claro que naõ fui para lá para escrever matéria sobre as roupas de Guga (que, por sinal, são bem legais e caras - R$ 80 uma camiseta de algodão). Eu não era o único jornalista convidado no local.
Tinha gente do Diário de São Paulo, Lance!, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo (foi por conta própria, porque não aceita convites de assessorias), Isto É, Amaury Júnior, Meio & Mensagem, Portal Terra... Muita gente. Alguns eram repórteres de esportes, outros de moda.
Depois da apresentação da loja e das roupas de Guga, a entrevista coletiva. Primeira meia hora sobre moda e a outra meia hora sobre esporte.
Gustavo Kuerten não tá bem no ranking mundial do tênis. Em abril fez a segunda cirurgia no quadril e há mais de dois anos não ganha duas partidas seguidas. Ainda está se recuperando da cirurgia.
Fui para Floripa com a pauta sobre a próxima temporada dele, que começa dia 30 de janeiro, no Chile. "O que ele espera da próxima temporada?"
Na entrevista coletiva, Guga falou mais que o normal. Às vezes, ele tem aquele tradicional discurso de jogador de futebol: "vou continuar trabalhando, se Deus quiser, com a ajuda de meus companheiros, vou me recuperar e ser campeão". Aquela velha história que também mencionei no texto sobre Parreira, abaixo.
Pois o nosso "Gugão" falou muito bem. Contou sobre a cirurgia, sobre o Aberto da Austrália (um dos maiores torneios do ano, em janeiro, que ele não vai participar), sobre aposentadoria e sobre os rankings mundial e brasileiro.
Não foi nada bombástico, mas foi bem interessante. Talvez porque Guga soubesse que se ele não falasse nada, nós, os jornalistas convidados, não tínhamos nenhuma obrigação de fazer matéria sobre a grife dele. Sim, porque eles convidam, e nós damos o destaque que quisermos para a reportagem. Já houve caso de eu ir ao Rio de Janeiro falar sobre o barco de Torben Grael (esse mesmo que está dando a volta ao mundo) e escrever só sobre o barco da ABN AMRO Bank (que lidera a prova de volta ao mundo que Torben Grael tá disputando atualmente).
Voltando ao assunto sobre a concorrência nacional. Os jornalistas saíram animados da coletiva com Guga e cada um buscou seu ponto quente na história.

Vamos às manchetes:

Lance!
Guga muda discurso
(dizia que após a cirurgia ele pretendia ficar no top ten do mundo e agora está contente se figurar entre os 30, 50)

Diário de S. Paulo
Guga quer esticar carreira
(dizia que Guga não pensa em se aposentar)

Gazeta Esportiva
Guga afasta rumores de aposentadoria
(Ele disse que pensa em jogar três anos tranquilamente, mas no final de 2006 pode rever o assunto)

O Globo
Guga pára de pressionar a si mesmo
(sobre a história do ranking dos 30 ou 50 melhores do mundo)

Diário Catarinense
Guga volta a sorrir
(sobre a fase de treinamentos e o lançamento da loja)

Quer saber como foi minha matéria?

Correio Braziliense:
Estilo Guga à venda

Pois é. O título parece que eu tô "vendendo" o peixe de Guga, mas foi o melhor que encontrei para contar tudo que havia apurado sobre Guga. Minha matéria poderia muito bem ter um título sobre a aposentadoria. Mas olha só o lide da matéria que foi publicada na edição de quinta-feira (30), no Correio:

Florianópolis (SC) — Entrevista coletiva com Gustavo Kuerten. O assunto principal deveria ser o lançamento de sua grifede roupas, ontem, na capital catarinense. A primeira pergunta,entretanto, não teve muito a ver com moda: “Guga, você está encerrando a carreira de tenista?”.
Depois de uma seqüência de maus resultados obtidos após sua segunda cirurgia no quadril,na primeira metade deste ano, asdúvidas quanto à permanência no circuito profissional do maiortenista brasileiro só aumentaram.
Ainda mais depois de lançar um empreendimento de R$ 6 milhõesem sua terra natal. Com bom humor, Guga explicou que não planeja largar o esporte agora. “O lançamento da minha grife só me anima mais a mostrar bons resultados em quadra. Quanto melhor eu estiver, mais produtos serão vendidos na minha loja”, brincou o tenista.
Porém, por mais duas vezes na mesma entrevista, o tricampeãode Roland Garros teve que falar mais sobre aposentadoria. “Se até o final de 2006 eu não tiver resultados satisfatórios nocircuito, eu começo a pensar em parar”, confessou. “Mas tenho planos de jogar por mais três anos tranqüilamente”, emendou.
Guga está empenhado em concretizar esses planos. Após a apresentaçãooficial da marca Guga Kuerten,o tenista era esperado no almoço de lançamento com a imprensa e donos de lojas que revenderão sua grife pelo país. Não apareceu. “Foi treinar”, informou uma das assessoras de imprensa do evento. Detalhe: sem almoçar.


Esse é o problema de ter a concorrência do Brasil inteiro nas costas. De repente o meu texto abordou mais coisas que os do Diário de SP, O Globo, mas eles foram mais diretos ao assunto. Para quem acompanha as coisas de Guga diariamente, é mais interessante ler as mate´rias dos jornais como Diário de SP, O Globo, por exemplo, do que o Correio. Eu não cubro Guga diarimanente. Pelo menos uma vez por mês escrevo alguma coisa sobre ele, o que é diferente de ser diariamente. Quem lê uma vez ou outra sobre Guga pode até ter ficado mais bem informado com a minha matéria do que com a dos outros jornais... Eu, por exemplo, gostei! Meu chefe não reclamou e até fez comentários interessantes sobre os assuntos que abordei no texto!
Mas é assim mesmo. Dois anos nesse ambiente de concorrência altíssima ainda acredito que seja pouco para azeitar meu tino jornalístico em assuntos de repercussão nacional...

01 Dezembro 2005

Clássico é clássico

A idéia era fazer uma série abordando vários aspectos do Clássico dos Maiorais da Paraíba (Treze e Campinense). Artilheiros, gols mais bonitos, gol mais rápido, viradas históricas. Esses elementos que dão vida a uma partida de futebol. Só que no jornalismo nem sempre o tempo é suficiente. Como eu sabia que seria quase impossível fazer a série dentro do tempo que tinha, o jeito era produzir apenas uma reportagem. Depois que comecei a produção foi que vi que era impossível fazer a série “Clássico dos Maiorais – 50 anos”.
Meu amigo JC me passou as estatísticas do clássico. Número de jogos, número de vitórias, gols, maiores artilheiros, placar do primeiro jogo com ficha técnica, técnico que mais disputou o jogo. Pronto. Com isso em mãos agora era encontrar os personagens. Primeiro fui atrás de Zé Lima, treinador que disputou 52 clássicos nos dois times. Zé é uma pessoa super acessível, gente boa, mas difícil de encontrar em casa. E outra coisa: não usa celular. Liguei umas quatro vezes pra ele na terça-feira (23/11) até umas 22h. Mas não o encontrei. Queria marcar logo a entrevista com ele para quarta-feira. Só consegui na quarta pela manhã antes de sair de casa. À tarde, conversamos no estádio Amigão por mais de uma hora. Ele me contou várias histórias do clássico, partidas inesquecíveis, disse que tinha um débito com o Treze, pois nunca havia sido campeão lá. No Campinense ele foi campeão mais de uma vez. Aliás, Zé é o técnico que mais conquistou títulos no futebol paraibano. Achei interessante a resposta quando perguntei qual era o desejo dele. Pensei que ele ia dizer que queria ser treinador do Treze – hoje ele treina o Leonel, um time de Campina que disputou este ano a 2ª divisão do Paraibano, mas continua disputando partidas amadoras todos os domingos. Para minha surpresa ouvi:
- Queria mesmo era puder voltar no tempo, voltar a jogar, Hoje em dia é muito fácil jogar futebol. No meu tempo, era muito mais difícil.
Essa e outras respostas interessantes não foram ao ar. Em televisão, tempo é ouro. Enquanto conversava com Zé Lima me veio à idéia de encontrar um jogador que havia disputado o primeiro clássico. O professor Mário Vinicius (que pesquisa a história do Treze e, em breve, vai lançar um livro) disse que Renato e Ribot (os dois do Campinense eram vivos e moravam em CG). Eu queria outra informação: em qual trave do estádio Presidente Vargas havia sido marcado o primeiro gol do clássico. Porém, o professor Mário não soube me responder. Era uma informação que queria dizer na ‘passagem’. Deixando a trave de lado fui pensar onde eu iria encontrar Ribot ou Renato. Segui uma dica de Mário e fui lá pra lista on line da Telemar. Você coloca o nome da pessoa e aparece várias opções. Como Ribot não é um nome muito comum, lá fui eu. Tive sorte mais uma vez. Apareceram dois telefones, um deles de uma clínica de cirurgiões dentistas. Estava no caminho. Antes de ligar pra confirmar se era realmente o mesmo Ribot, tinha que marcar com Adelino (ex-Treze) e Pedrinho Cangula (ex-Campinense e pai de Marcelinho Paraíba do Hertha Berlim), maiores artilheiros do clássico. O contato com Adelino foi fácil. Marquei previamente com Adelino pra quinta-feira (24/11) no Amigão. Isso na quarta à noite. Faltava Pedrinho Cangula, que aliás tem restrições a várias pessoas da imprensa, que segundo ele tentam prejudicar seu filho todas as vezes que Marcelinho vem à CG. Sem nenhum contato e ainda por cima esperando uma restrição por parte de Pedrinho fui atrás de uma fonte que me disse que ele malhava numa academia no Santo Antonio todas as manhãs. Às 9 horas da quinta-feira fui dar plantão na academia. Logo de cara o dono da academia me disse que fazia cinco minutos que Pedrinho havia saído de lá. Porém, expliquei a intenção e ele caiu em campo. Depois de quase duas horas de espera, Pedrinho passa na academia.
O receio era de que Pedrinho não quisesse dar entrevista por causa da rixa com alguns membros da imprensa esportiva. Pra minha sorte ouvi um:
- Diga aí meu amigo, tudo bem?

Quando ouvi isso já fiquei mais aliviado. Expliquei a pauta pra ele, que concordou em participar da reportagem. Mas não deixou de alfinetar:

- Se fosse para algumas pessoas da imprensa eu não participaria. Mas com você não tem problema.

Outro alívio. O melhor foi que ele concordou em fazer a entrevista no mesmo dia à tarde. De imediato liguei pra Adelino e combinamos às 16h, no Amigão. Pronto. Estava tudo certo. Ou melhor, quase tudo. Foi aí que me lembrei de um detalhe importante. Os dois precisariam estar com as camisas de Treze e Campinense. Afinal tevê é imagem. Liguei para um diretor do Treze para pedir uma camisa emprestada e ele nem sequer atendeu ao telefone. Fiz uma procura na memória de quem poderia me emprestar uma camisa de cada time. Consegui com dois amigos. Um deles, o raposeiro, me confirmou que o Ribot que tinha o telefone era o mesmo que havia jogado no Campinense. Problema resolvido. Quando cheguei em casa liguei e Ribot, de 79 anos, me mandou passar no consultório dele às 14h30. Com Ribot foi tudo tranqüilo. Infelizmente ele também não lembrava em qual trave tinha sido o primeiro gol. A informação estava descartada da matéria. Às 16h, chegamos no Amigão eu e meu cinegrafista e o assistente. A entrevista foi legal, mas Pedrinho não poupou críticas às diretorias dos times:
- Se não fosse você fazendo essa homenagem ninguém ia lembrar da gente. Pode perguntar a qualquer diretor quem são os artilheiros que eles não sabem.
Essa declaração eu não usei na reportagem da TV, mas usei no jornal. Quando foram me devolver as camisas, Pedrinho e Adelino brincaram:
- Vamos devolver as camisas para o repórter não pagar. Treze e Campinense não tiveram coragem nem de emprestar as camisas, disse Adelino.
- E as camisas de hoje são mais leves. No tempo da gente era um pano grosso, disse Pedrinho mostrando a Adelino.
Ainda propus aos dois uma partida amistosa festiva para comemorar os cinqüenta anos do clássico. Pedrinho concordou. Adelino não joga mais, porém se comprometeu em dar o pontapé inicial. Agora cabe as duas diretorias planejarem o jogo. A matéria estava concluída. Com os dados que havia coletado para tevê combinei com Expedito Madruga (Editor de Esportes) para fazer a matéria dos 50 anos do clássico para o Jornal da Paraíba. Ele aceitou e na sexta-feira, de 8h30 as 11h30, eu escrevi a matéria que foi publicada na edição de domingo (27/11). Bem diferente da tevê, onde passei dois dias (quarta e quinta) para concluir a matéria. Foi interessante porque tinha que escrever textos parecidos, mas não repetitivos. Também foi bom porque me reencontrei com jornalismo impresso cinco meses depois de ter saído do Diário da Borborema. Serviu pra ver que eu estou um pouco fora de forma...