26 Dezembro 2007

Salvo pelo Orkut

Por Léo Alves

Em muitas redações o acesso ao site de relacionamentos Orkut e ao MSN é proibido. É para evitar que o jornalista “fuja” do trabalho enviando mensagens.

Li a entrevista de uma jornalista (ou era estagiária) da Folha de São Paulo, na qual afirmava que usava o Orkut como ferramenta de trabalho.

Quando deseja conseguir um personagem para uma matéria entra numa comunidade relacionada. Foi assim que conseguiu personagens para uma reportagem sobre pais adotivos.

No início de outubro entrei nas comunidades dos dois times de Campina Grande – Campinense e Treze – a fim de conseguir personagens para uma reportagem especial.

Não surtiu muito efeito. Mas no MSN encontrei um colega que foi um dos personagens da matéria.

Até bem pouco tempo o acesso a esses sites eram proibidos na redação da TVPB. Não sei quem liberou. E espero que ninguém da direção esteja lendo esse post.

Mas semana passada foram o Orkut e o MSN que salvaram a nossa reportagem.

A sobrinha da ex-prefeita da cidade havia morrido num acidente de carro quando viajava para Recife, a cerca de 80 quilômetros de Campina. Os familiares sobreviventes foram levados para um hospital em João Pessoa.

Mantivemos contatos com familiares e amigos da vítima para conseguir uma foto.

Todos tinham viajado para João Pessoa.

Foi aí que a produção acessou o Orkut para conseguir a foto da vítima. A produtora encontrou pessoas com o mesmo nome.

As mensagens de luto dos amigos no Orkut confirmaram quem era a vítima do acidente.

Sinceramente eu não sei como é que após a morte de alguém as pessoas já acessam o Orkut para deixar mensagens. Mas tudo bem.

Só que as fotos não davam para ser exibidas na tevê.

Por sorte encontramos uma colega nossa - da assessoria do Governo do Estado - no rol de amigos da vítima.

E por mais sorte ainda ela estava online no MSN com outro produtor. E o melhor: ela tinha inúmeras fotos da vítima, pois era amiga íntima.

Na mesma hora ela nos enviou as fotos pelo MSN que salvaram a reportagem.
Para conseguir as fotos os produtores trabalharam quase toda a tarde.

E o resultado positivo só foi possível porque liberaram o acesso ao Orkut e ao MSN na redação.

Tomara que depois deste post não seja restringido novamente.

Afinal o Orkut também é uma ferramenta de trabalho do jornalista.

Difícil vai ser algum diretor acreditar nisso.

14 Dezembro 2007

Uma lição do Mané

Por Daniel Brito

Manoel dos Santos, o nosso Mané Garrincha, não me impressionou apenas por ter inventado o drible ou por beber mais que qualquer desses carros total flex. Cada movimento fora do planejado ou um novo desafio que me é apresentado na carreira recorro à simplicidade do craque.

Não me recordo exatamente em qual trecho do livro "Estrela Solitária" está o trecho que vou citar aqui, agora.

No vestiário, às véspera de mais uma Copa do Mundo, ele viu os companheiros de Seleção Brasileira tremerem nas bases. A torcida ainda amargava, nas décadas de 1950 e 1960, aquele trauma do Maracanazo e os jogadores, obviamente, sentiam a pressão.

Descendente de índios, quase um deficiente físico (como já disse Nilton Santos), condenado à pobreza por ser semi-analfabeto, Garrincha não tinha o mesmo sentimento que os demais antes de jogar uma Copa do Mundo.

Para ele, tanto fazia jogar futebol em Pau Grande, hoje distrito de Magé, no Rio de Janeiro, no Maracanã, na Rua Bariri, no Rasunda Stadium. Ele queria apenas fazer o que gostava: jogar futebol.

Nunca sentiu a pressão do momento. Chegou, inclusive, a reclamar do sistema de disputa da Copa do Mundo porque não tinha segundo turno; confundiu a Inglaterra com o São Cristóvão, por atuar com o uniforme branco; sem contar a já batida história de que todo adversário se chamava João ou José. Podia ser Bobby Charlton ou Jordan, do Flamengo.

Isso era reflexo da alma pura do craque. Contaminada e vencida, "apenas", pelo alcolismo.

Fiz esse tremendo nariz-de-cera para contar a história do meu outro blog. De férias em Campina Grande, fui assistir ao último jogo da Série C do Campeonato Brasileiro e resolvi tirar umas fotos.

Conversa-vai-conversa-vem, cerveja para lá e para cá, ouvi uma série de histórias engraçadas das testemunhas que estavam no estádio naquele momento pitoresco e resolvi contá-las no Tudo Sobre Nada (muitodenada.blogspot.com).

As fotos mais o texto saíram quase que no piloto automático. Nem me preocupei muito em deixar as idéias hierarquizadas por grau de importância. Até porque, havia bebido naquele dia do estádio e fiz um breve relato totalmente espontâneo em um espaço pessoal, sem regras jornalísticas estabelecidas.

Mandei o link do texto para aquelas pessoas que gostam do futebol e de suas histórias malucas. Como resultado, meu humilde blog pipocou em acessos e comentários (continua até hoje, 11 dias depois de publicado); meu editor, em Brasília, leu o texto, achou sensacional e me pediu autorização para publicá-lo.

O relato do último jogo da Série C saiu nas páginas do Correio Braziliense em 7 de dezembro, com direito a foto tirada por mim, fugindo do padrão do espaço em que foi publicado.

Se tivesse recebido a pauta do meu editor para escrever sobre aquele jogo não faria tão bem feito como saiu no blog.

Moral da história:
Garrincha morreu há 25 anos sem saber de muitas coisas. Sem saber, por exemplo, que deixou essa lição de simplicidade: quando se tem habilidade para produzir algo que gosta, não interessa a situação, faça tudo que sabe, porque será bem feito.