Por Daniel Brito
É compreensível que as pessoas queiram mostrar para amigos, colegas, colegas dos colegas, parentes, ou quem quer que seja, que é um profissional produtivo e está sempre ocupado. Mas daí a transformar o Orkut em diário de trabalho, dá um tempo, né?
Estou falando dos nossos coleguinhas (talvez até um dos autores deste blog, vai saber) que recheam o orkut com fotos do ambiente de trabalho. Aquela galera que se orgulha em postar uma imagem empunhando microfone de TV, fazendo cara de sério enquanto alguém famoso (ou quase famoso) dá entrevista, ou dando uma de tiete mesmo, na cara dura, com alguém famoso (ou quase famoso).
Para mim, todas aquelas fotos de jornalista em ação no orkut são puro deslumbre e só comprovam a tese de que cada vez mais gente entra na profissão para aparecer e não para prestar um serviço.
Pode falar que é amor ao que faz, pode dizer aquela balela de 'o trabalho dignifica', mas porque será que esse mal atinge em cheio aos jornalistas?
Você, usário do orkut, já viu algum neurocirurgião postar uma foto dele na rede durante um processo cirúrgico? Ou um engenheiro postar um cáclulo de matemática inexata e se gabar de ter completado a questão? Tá, tudo bem, vamos facilitar: um nutricionista, um tabelião, um oficial de justiça, um motorista de ônibus, um arquiteto...qualquer coisa!
Mas não. Jornalista tem que propagandear seus passos:
- No dia em que o presidente Lula respondeu minha pergunta na coletiva;
- Vida de jornalista é fogo: acidente da TAM. Esse dia foi demais!;
- Eu, fazendo a passagem;
- Entrevistando Tonho da Venta, em Sucupira.
Talvez minha crítica possa soar rancorosa, principalmente porque ela é direcionada não só aos jornalistas 'aparecidos', mas ao próprio Orkut. Sim, porque no Orkut ninguém é triste, depressivo, infeliz.
Ninguém coloca uma foto lá com umas legendas profundas, tipo:
- Euzinha, no dia que fui demitida;
- Esse dia foi triste, quando descobri que minha tia avó tinha câncer no cólo do útero;
- Ai como tô horrível nesta foto;
- Odeio gente que sorri em foto;
Bom, dá para passar o resto da vida sugerindo anti-legendas para o Orkut.
Mas para mim, não adianta vir com essa idéia de que jornalista tem de mostrar seu trabalho. É, mas não no orkut.
Bueno, para não ser injusto, deixa eu citar algumas situações que não merecem a crítica deste post. Como a história do web designer que conheci. Ele colocou a foto dele em situações absurdas e postou no orkut. Um lance criativo e diferente, e até auto-crítico, porque ele colocou, propositadamente, sua imagem da maneira mais mal feita possível, para brincar com o próprio trabalho.
E tem a história do maluco que cobre política. Ele recolheu umas seis fotos em que apareceu de papagaio de pirata nos jornais com cara de monstro, olhos semi cerrados ou nitidamente perdido, e colocou no orkut. Em metade delas, não dá nem para ver que o cara tá na foto mesmo. Mas foi uma idéia legal. Sutilmente informativo.
Ou o fotógrafo que encheu seus álbuns com fotos de jornalistas trabalhando. É uma espécie de 'arte de fazer um jornal diário'. Não havia ninguém em maior destaque, eram imagens históricas em momentos importantes, como a Assembléia Constituinte de 1988, os caras-pintadas de 1992, morte de Senna, 1994, eleição de Lula, entrevista com o treinador da Seleção Brasileira e por aí seguia o álbum.
Também não condeno as fotos com companheiros de trabalho. Motorista da empresa, cinegrafista, fotógrafo...são companheiros de trabalho mas podem ser amigos, portanto, têm motivos para entrar nos sempre felizes álbuns do Orkut.
Bom, preciso confessar, também, que eu mesmo já caí nesta armadilha do deslumbre, uns três anos atrás. Era uma ocasião super especial, cobertura de um mega evento.
Mas para não ficar como o 'aparecido' da história, criei um fotoblog e ainda coloquei algumas histórias aqui no FIlhos da Pauta, que é um espaço totalmente diferente do Orkut, porque é voltado para o jornalismo e ...nao tem mais que 30 acessos únicos diários.
18 Maio 2009
Quase famosos
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08 Maio 2009
A mídia e as bravatas
Pedro Henrique Freire
Não gosto de políticos. Por um simples motivo: eles mentem. Faz parte da essência política, de sua desenvoltura. Mentir, fingir, teatralizar é a maneira que eles tem de sobreviver. Esqueçam outra alternativa. Não adianta tentar ser um político diferente. Se insistir nisso, for sincero demais e tentar quebrar paradigmas de sopetão, será engolido.
Exemplo recente: deputado Silvio Costa (PMN-PE). No escândalo das passagens do Senado, defendeu as viagens para suas mulheres. Tudo pelo bem do seu casamento. Fez isso abertamente. Assim como o maranhense Pedro Fernandes (PTB), que discursou na Câmara admitindo que deu passagem a quem lhe pediu.
Conheço os dois do tempo em que cobri Congresso Nacional, em Brasília. Costa sempre foi um dos nomes mais polêmicos do baixo clero. Tudo porque sempre tentou falar a verdade, admitindo aquilo que os outros deputados não teriam coragem de falar em público.
Fernandes é mais afeito a articulações. Tem paciência, com a imprensa e com os pares. Mas também defende posições firmes e polêmicas como o nepotismo (ele tinha familiares no gabinete, os considerava competentes e assíduos e, portanto, não vê mal nenhum em empregar parentes) e a flexibilização no uso das passagens.
No tititi mais recente da Câmara, a dupla resolveu falar a verdade. Não deu outra. Foi para o paredão, com direito a segundos no Jornal Nacional. A maioria dos deputados, que defende o uso indiscriminado - ou flexibilizado - de passagens como os dois ai, ficou na moita, fugindo da imprensa, evitando comentar o assunto. Mas eles estavam estufando o peito e sendo sinceros.
Confesso. Por aquilo, admirei-os porque tiveram coragem de dizer o que a maioria ali nunca teve nem nunca terá. Admirei-os não pela forma, mas pelo procedimento. Foram sinceros. Ao acompanhar a repercussão, vi logo que iriam se arrepender. Não deu outra. Costa mudou de idéia sobre levar a mulher em todo voo que pegar. E Fernandes disse que foi mal interpretado.
Pra mim, fica a pergunta: e a mídia, ajudou a moralizá-los ou a continuarem mentindo e omitindo suas opiniões?
Não gosto de políticos. Por um simples motivo: eles mentem. Faz parte da essência política, de sua desenvoltura. Mentir, fingir, teatralizar é a maneira que eles tem de sobreviver. Esqueçam outra alternativa. Não adianta tentar ser um político diferente. Se insistir nisso, for sincero demais e tentar quebrar paradigmas de sopetão, será engolido.
Exemplo recente: deputado Silvio Costa (PMN-PE). No escândalo das passagens do Senado, defendeu as viagens para suas mulheres. Tudo pelo bem do seu casamento. Fez isso abertamente. Assim como o maranhense Pedro Fernandes (PTB), que discursou na Câmara admitindo que deu passagem a quem lhe pediu.
Conheço os dois do tempo em que cobri Congresso Nacional, em Brasília. Costa sempre foi um dos nomes mais polêmicos do baixo clero. Tudo porque sempre tentou falar a verdade, admitindo aquilo que os outros deputados não teriam coragem de falar em público.
Fernandes é mais afeito a articulações. Tem paciência, com a imprensa e com os pares. Mas também defende posições firmes e polêmicas como o nepotismo (ele tinha familiares no gabinete, os considerava competentes e assíduos e, portanto, não vê mal nenhum em empregar parentes) e a flexibilização no uso das passagens.
No tititi mais recente da Câmara, a dupla resolveu falar a verdade. Não deu outra. Foi para o paredão, com direito a segundos no Jornal Nacional. A maioria dos deputados, que defende o uso indiscriminado - ou flexibilizado - de passagens como os dois ai, ficou na moita, fugindo da imprensa, evitando comentar o assunto. Mas eles estavam estufando o peito e sendo sinceros.
Confesso. Por aquilo, admirei-os porque tiveram coragem de dizer o que a maioria ali nunca teve nem nunca terá. Admirei-os não pela forma, mas pelo procedimento. Foram sinceros. Ao acompanhar a repercussão, vi logo que iriam se arrepender. Não deu outra. Costa mudou de idéia sobre levar a mulher em todo voo que pegar. E Fernandes disse que foi mal interpretado.
Pra mim, fica a pergunta: e a mídia, ajudou a moralizá-los ou a continuarem mentindo e omitindo suas opiniões?
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