28 novembro 2005

Parreira nas alturas

Não existe coisa pior em viagem internacional do que vôo durante o dia. Você passa dez, 12 horas, trancado dentro do avião sem ter o que fazer e sem conseguir dormir. As viagens noturnas sao mais tranqüilas. Sempre dá para dormir, mesmo que seja por algumas horinhas. Eu estava completamente revoltado porque a agência havia me colocado num vôo entre Madri e São Paulo em plena tarde.
Era segunda-feira, dia 21 de novembro. Depois de 20 dias na Europa, vários estádios de futebol visitados e duas partidas assistidas (França 0 x 0 Alemanha e Sevilla 1 x 0 Bétis), estava carregado de jornais esportivos na bagagem de mão. Um mineiro que estava na poltrona atrás da minha viu os jornais e puxou assunto sobre futebol.
Falamos sobre Real Madrid, Luxemburgo, Robinho e Seleção Brasileira. Ainda bem que falamos sobre a Seleção. Enquanto o avião estava em processo de decolagem, o mineiro me contou que Carlos Alberto Parreira estava viajando conosco. "Tá lá na primeira fila da primeira classe, vamos pedir um autógrafo?".
Que pedir autógrafo para Parreira que nada. Eu queria era entrevistá-lo. O avião demorou mais de 45 minutos para se estabilizar nos 11 mil metros de altura e durante esse tempo ninguém podia se levantar da cadeira. Aproveitei para escrever uma série de perguntinhas em um bloquinho de anotações que levei para a viagem. Até então, ele servira como diário de bordo. Todos os meus gastos e minhas aventuras na Europa estavam nesse bloquinho. E mais: por milagre fui e voltei com a mesma caneta. Não perdi a caneta...
Pois bem, assim que pintou a autorização para se levantar da cadeira fui andando (quase correndo) para a primeira classe. Já havia separado o bloquinho, a caneta e um daqueles cartõezinhos de apresentação:
"Daniel Brito
repórter - Esportes
Correio Braziliense"
A aeromoça, é claro, não permitiu que eu entrasse na primeira classe e perguntou o que danado eu tava fazendo ali.
- Olha só, eu sou repórter e gostaria de falar com Carlos Alberto Parreira. Tem como você entregar esse cartãozinho aqui e pedir dois minutinhos da atenção dele para fazer três perguntinhas rápidas?
- HUm... Olha, acho que ele não vai querer, mas vou lá perguntar.
A aeromoça falou 15 segundos com Parreira e voltou com a resposta afirmativa:
- Ele disse que depois do almoço conversa contigo. Qual assento você está?
- 39 d!!!
- Eu te chamo...
Voltei para minha cadeira aos pulos. Putz, entrevistar Parreira, em véspera de Copa do Mundo, com exclusividade é uma coisa que qualquer repórter esportivo deseja.
Fiquei tão empolgado que preparei mais de 20 perguntas no meu bloquinho. Destas, separei três ou quatro porque imaginei que ele me atenderia de má vontade.
Não sei se demorou muito para a aeromoça me chamar no meu "assento"; Sei que eu ainda tava comendo quando ela me chamou.
Ele, claro, não estava me esperando no "assento" dele na primeira classe. Estava sentado naquelas cadeirinhas que as aeromoças ficam na hora do pouso e decolagem com cara de poucos amigos.
- Professor Parreira, boa tarde. Desculpa incomodá-lo aqui no meio do Oceano Atlântico, mas não poderia perder a oportunidade de conversar com o senhor por dois minutinhos...
- Certo, diga!, ele cortou logo minha saudação
- Como foi o jogo entre Real e Barcelona, o senhor gostou?
- Foi um bom espetáculo para o Barcelona, foi a primeira resposta dele!
Fingi que gostei e que anotei essa aspa "interessantíssima" e percebi que tinha que ser inteligente paRA fazer valer a sorte que tive de cruzar com o técnico da Seleção Brasileira em um vôo diurno.
- O senhor não acha que é mais fácil para Ronaldinho Gaúcho chamar a responsabilidade no Barcelona do que na Seleção Brasileira?, soltei logo a melhor pergunta que tinha separado no meu bloquinho. E tive a resposta que queria ouvir...
- Claro! No Barcelona ele não divide o palco com ninguém. Na Seleção tem Ronaldo, Adriano, Kaká, Roberto Carlos. Mas Ronaldinho não tá proibido de fazer as mesmas coisas com a Seleção nao! Muito pelo contrário, quero que repita com a camisa d0 Brasil tudo que faz com a do Barcelona...
Pronto! Consegui minha matéria. Aspa sensacional, palavras fortes e do jeito que eu queria. A partir daí percebi que ele tava disposto a falar.
Perguntei sobre as dificuldades da Copa do Mundo na Alemanha, as Seleções Africanas, as européias, as Eliminatórias, até sobre o Campeonato Brasileiro. Ele falou bonito. Respondeu com personalidade, não ficou enrolando com aquela conversa:
"Acho que é importante para o Brasil, porque temos que conquistar os três pontos e agradar nossa imensa torcida". SAbe aquelas coinversas furadas de boleiro? Tava esperando isso e ele nao falou nada disso.
~Parreira não foi o Mister Simpatia, mas demonstrou atenção aas minhas perguntas. Outra coisa importante, não cai naquela velha historia de perguntar sobre Robinho, favoritismo e coisas que todos os torcedores ja estao cansados de ouvir.
Fiz perguntas diferentes, pelo menos achei que estiveram diferentes minhas perguntas. As respostas foram, pelo menos...
Conversamos por 15 minutos. Tirei uma foto ao lado dele. Em seguida ele perguntou do Brasiliense. Contei que o time tava mal, mas ganhara do Santos. Quando fui falar que o Santos não jogou nada, principalmente Ricardinho, me lembrei que tava conversando com ninguém menos que o técnico da Seleção Brasileira. E o técnico da Seleção Brasileira está pensando em levar Ricardinho para a Copa. Então, falei mais ou menos assim:
- O SAntos não jogou nada. Ricardinho, para variar, não fez na... Quer dizer, Ricardinho pouco apareceu em campo.
A matéria foi publicada na edição de quarta-feira (dia 23) do Correio Braziliense. Como conversei sobre vários assuntos, meu chefe, Paulo Rossi, pediu para fazer um ponto a ponto.
Olha como ficou a edição da matéria.

COPA DO MUNDO
> Cobrança ao melhor do mundoEm entrevista exclusiva ao Correio, no vôo entre a Espanha e o Brasil, Parreira pede a Ronaldinho Gaúcho para repetir na Seleção tudo o que faz no Barcelona. Treinador prevê dificuldades diante das potências européias
>
> Daniel Brito

Da equipe do Correio

Até o técnico da Seleção Brasileira, Carlos Alberto Parreira, reconhece: Ronaldinho Gaúcho ainda não jogou com a amarelinha o mesmo futebol que pratica no Campeonato Espanhol e na Liga dos Campeões da Europa, defendendo o Barcelona.

A afirmação foi feita com exclusividade pelo treinador à reportagem do Correio no vôo da Varig que partiu de Madri para São Paulo, na última segunda-feira. Parreira passou os últimos 10 dias na Europa, curtindo uma folga após o último jogo do Brasil na temporada (goleada sobre os Emirados Árabes por 8 x 0, em Abu Dhabi). O único contato que teve com futebol nesse período ocorreu no final da semana passada, na capital espanhola. Na sexta-feira, assistiu a um treino do Real Madrid. No dia seguinte, viu da tribuna de honra do estádio Santiago Bernabéu o clássico contra o Barcelona.

Como todos os torcedores presentes na vitória do time catalão por 3 x 0, Parreira saiu impressionado com Ronaldinho Gaúcho. "É mais fácil para ele (Ronaldinho) chamar a responsabilidade da partida no Barcelona do que na Seleção porque não divide o palco com ninguém na Espanha", analisou o treinador. Ele disse que não conversou com o meia-atacante após o clássico. Muito menos com Vanderlei Luxemburgo, que está ameaçado de demissão no Real.

Durante uma conversa de 15 minutos no vôo da Varig que cruzava o Atlântico, o tetracampeão mundial reconheceu a importância das Eliminatórias Sul-Americanas para a Seleção e destacou o desafio de vencer um Mundial em pleno continente europeu. Também analisou as seleções estreantes e até adiantou a equipe que merece ser campeã brasileira neste ano. Mas ao ser perguntado se Fred é o nome ideal para substituir o contundido Ricardo Oliveira na lista dos convocados para a Copa, jogou para escanteio: "Só em maio", interrompeu o treinador.

Antes de voltar ao seu assento na primeira classe, Parreira ainda fez uma pergunta: "E o Brasiliense, hein? Continua na zona de rebaixamento?". Ao saber que o representante do Distrito Federal na Série A era o lanterna, mas vencera o Santos na rodada passada, despediu-se com uma frase característica: "Pelo menos somaram os três pontos".

Ronaldinho Gaúcho
"No Barcelona ele não divide o palco com ninguém. Na Seleção Brasileira tem muita gente de altíssimo nível, como Ronaldo, Kaká, Adriano, Roberto Carlos. Mas o Ronaldinho não está proibido de fazer o mesmo na Seleção. Muito pelo contrário, gostaria muito que ele repetisse tudo o que fez no clássico contra o Real Madrid, no sábado passado"

Todos contra um
"Copa do Mundo na Alemanha é diferente. São 14 seleções européias contra o Brasil. A República Tcheca, apesar de ter garantido vaga na repescagem, está muito forte. A Inglaterra conta com excelentes jogadores em todos os setores do campo. A Holanda, a Itália e a própria Alemanha também estão bem preparadas. Já a França depende de Zidane, Vieira e Henry. Sem eles, não passa de uma equipe normal."

Missão: Europa
"Os europeus não vão deixar o Brasil ganhar um mundial no continente deles. Quando se joga no México, Estados Unidos ou Ásia, todos torcem pela Seleção Brasileira. A Europa não é campo neutro. Não veremos torcedores locais apoiando nosso equipe, certamente."

Estreantes
"Assisti a alguns lances da partida entre Costa do Marfim e Itália (1 x 1). Eles (os africanos) são os mais experientes entre os estreantes. Gana tem um futebol muito bom. Mas estréia é muito complicado. Não dá para fazer uma previsão."

Preparação
"Quando me disseram que o último campeão mundial teria que disputar Eliminatórias para a Copa de 2006, fui contra. Agora, reconheço que foi a melhor coisa que poderia acontecer à Seleção Brasileira. Durante as Eliminatórias, arrumamos o time, encaixamos alguns jogadores. Mas insisto que não existe equipe perfeita. Os 15 dias de preparação que teremos antes da Copa do Mundo não nos serviriam de muita coisa se não tivéssemos disputado as Eliminatórias. Ninguém monta um conjunto em 15 dias."

Campeão brasileiro
"Faltando duas rodadas para o final, dificilmente o Corinthians perde. Tem que ser premiada a equipe mais regular, que investiu mais. O Corinthians está seguindo o exemplo do Chelsea, que investiu milhões de euros e conquistou todos os campeonatos que disputou."

5 comentários:

Anônimo disse...

num sabia que leo era de joão pessoa...

Anônimo disse...

Ei, Daniel, muito massa essa sua entrevista com Parreira. Se vc jogasse na seleção brasileira seria artilheiro. É um oportunista. Faro jornalístico, sorte de estar no mesmo vôo. Valeu, Daniel. Parabéns e abraços

FERNANDO MILANNI

Anônimo disse...

Olá meninos...

vou adorar ler essas histórias legais do dia-a-dia louco de jornalistas!

Tô passando pela primeira vez para dar o ar da graça, e estarei sempre comentando aqui =)

Bjsssss

Anônimo disse...

Gostaria de parabenizar os jornalistas pela Iniciativa de mostrar os bastidores da notícia, já que esse lado obscuro quase sempre fica escondido, abafado, e é onde se esconde a essência do jornalismo, as aventuras e a realização de se comunicar com os leitores, internautas e ouvintes.

Daniel em sua totalidade, mostrou determinação, e mais ainda o néctar do jornalismo quando realizou a entrevista com o Técnico Parreira, mesmo estando de férias, afinal somos jornalistas todos os dias, o ano todo.

Parabenizo também o amigo e professor Leonardo pela dedicação ao jornalismo, dividindo sua vida entre a acadêmia e a redação de uma TV.

Vcs deram uma lição de jornalismo, mostrando as duas faces da moeda.

Diego Araújo

Anônimo disse...

Vamos atualizar isso aqui né?!?! Tô curiosíssima pra saber como Leo vai narrar um causo acontecido na redação da TV. Um xero meninos...