14 dezembro 2007

Uma lição do Mané

Por Daniel Brito

Manoel dos Santos, o nosso Mané Garrincha, não me impressionou apenas por ter inventado o drible ou por beber mais que qualquer desses carros total flex. Cada movimento fora do planejado ou um novo desafio que me é apresentado na carreira recorro à simplicidade do craque.

Não me recordo exatamente em qual trecho do livro "Estrela Solitária" está o trecho que vou citar aqui, agora.

No vestiário, às véspera de mais uma Copa do Mundo, ele viu os companheiros de Seleção Brasileira tremerem nas bases. A torcida ainda amargava, nas décadas de 1950 e 1960, aquele trauma do Maracanazo e os jogadores, obviamente, sentiam a pressão.

Descendente de índios, quase um deficiente físico (como já disse Nilton Santos), condenado à pobreza por ser semi-analfabeto, Garrincha não tinha o mesmo sentimento que os demais antes de jogar uma Copa do Mundo.

Para ele, tanto fazia jogar futebol em Pau Grande, hoje distrito de Magé, no Rio de Janeiro, no Maracanã, na Rua Bariri, no Rasunda Stadium. Ele queria apenas fazer o que gostava: jogar futebol.

Nunca sentiu a pressão do momento. Chegou, inclusive, a reclamar do sistema de disputa da Copa do Mundo porque não tinha segundo turno; confundiu a Inglaterra com o São Cristóvão, por atuar com o uniforme branco; sem contar a já batida história de que todo adversário se chamava João ou José. Podia ser Bobby Charlton ou Jordan, do Flamengo.

Isso era reflexo da alma pura do craque. Contaminada e vencida, "apenas", pelo alcolismo.

Fiz esse tremendo nariz-de-cera para contar a história do meu outro blog. De férias em Campina Grande, fui assistir ao último jogo da Série C do Campeonato Brasileiro e resolvi tirar umas fotos.

Conversa-vai-conversa-vem, cerveja para lá e para cá, ouvi uma série de histórias engraçadas das testemunhas que estavam no estádio naquele momento pitoresco e resolvi contá-las no Tudo Sobre Nada (muitodenada.blogspot.com).

As fotos mais o texto saíram quase que no piloto automático. Nem me preocupei muito em deixar as idéias hierarquizadas por grau de importância. Até porque, havia bebido naquele dia do estádio e fiz um breve relato totalmente espontâneo em um espaço pessoal, sem regras jornalísticas estabelecidas.

Mandei o link do texto para aquelas pessoas que gostam do futebol e de suas histórias malucas. Como resultado, meu humilde blog pipocou em acessos e comentários (continua até hoje, 11 dias depois de publicado); meu editor, em Brasília, leu o texto, achou sensacional e me pediu autorização para publicá-lo.

O relato do último jogo da Série C saiu nas páginas do Correio Braziliense em 7 de dezembro, com direito a foto tirada por mim, fugindo do padrão do espaço em que foi publicado.

Se tivesse recebido a pauta do meu editor para escrever sobre aquele jogo não faria tão bem feito como saiu no blog.

Moral da história:
Garrincha morreu há 25 anos sem saber de muitas coisas. Sem saber, por exemplo, que deixou essa lição de simplicidade: quando se tem habilidade para produzir algo que gosta, não interessa a situação, faça tudo que sabe, porque será bem feito.

3 comentários:

Anônimo disse...

Daniel acredito que o jornalismo precisa que se conte as coisas com emoção, como se estivesse de férias. Quando se esta diante de uma pauta, penso, não sou jornalista, entra algum mecanismo da mente que mais atrapalha que ajuda.Entre o certo e o errado, o bom e o ruim, do como deve ser e por aí vai, ....
sucesso

Anônimo disse...

Então você não precisa mais de mim para fazer mate´rias boas???? Como assim??? Acha que não tem mais nada a aprender??? Estou decepcionado com essa pachorra.

Léo Alves disse...

O Garrincha deixou mesmo uma grande lição. Nos momentos de decisão profissional me lembro muito da história dele, desse jeito de jogar sem se preocupar com o adversário.