16 dezembro 2008

Precisamos de mulheres peladas?

Pedro Henrique Freire

Após duas semanas, ja estou mais adaptado o mundo do jornal popular. Tentarei até escrever um texto curto aqui, para ser coerente com a produção do nosso Aqui-MA (hehehe). Falando nele, contarei minha mais recente experiência. Como vocês observam no título acima, o episódio fala de mulheres. A pergunta é: "Mulheres (quase) peladas, precisamos delas?".

Quando cheguei ao Aqui-MA, vi que, por um entendimento da circulação e respaldo da direção, o pessoal estava abusando daquelas modelos (que sempre 'decoram' a capa de jornais populares). As 'gatinhas' estavam sem arte e caminhavam pela estrada da pornografia (muito peladas em posições pesadamente tentadoras). Além disso, ocupavam quase meia página de tablóide (desperdício de papel?).

Olhei e pensei: não temos notícia? Nosso jornal virou folhetim para divulgar 'gostosas' desconhecidas? O que é pior? Não valorizarmos nossa produção ou fazermos um jornal machista?

Na primeira reunião com 'a cúpula' da empresa, enumerei as falhas que encontrei no jornal e argumentei o seguinte: existem jornais e mais jornais populares. Uns são muito ‘escrachados’, popularescos e sanguinolentos. Outros mais comedidos, úteis e cuidadosos. O que vocês querem? 'Queremos um popular sério', me responderam. "Mas não podemos tirar a mulher. Ela ajuda na venda. Se quiser, pode diminuir", ordenaram.

Oka, chefes!

No meu primeiro e tenso dia de trabalho, assumi a edição da capa e mudamos um pouco o formato. Mais cores, mais chamadas. Diminuímos um pouco a mulher e colocamos nela uma razoável e necessária quantidade de roupas. Mas continuava mais para 'tamanho G' do que para o 'tamanho M'.

Temia que as vendas caíssem e meus argumentos para mudança fossem logo desbancados na primeira semana.

Estava tenso e saí pela empresa colhendo opiniões. Da direção, tinha o tamanho certo que deveria usar a modelo. Fui ao setor de circulação. Perguntei a eles o que estavam achando do jornal e se aquela mulher era mesmo necessária, daquele jeito. Para minha felicidade, me disseram que ela "estava muito exagerada", "pelada demais" e as pessoas reclamavam.

Ótimo. Se a própria circulação (que só quer saber de vender jornal) discorda do tamanho da 'dita cuja' da capa, não sou eu que vou concordar. Mas não estava convencido. Pedi a eles, então, que marcassem para nós uma reunião com 10 jornaleiros e distribuidores. De preferência, um de cada bairro, para melhorar a amostra. Queria ouvir a voz das ruas.

A reunião foi marcada. Em vez de 10, vieram oito. Um deles era mulher. Conversamos bastante sobre todos os aspectos do jornal. Para minha felicidade, todos criticaram a nudez da "menina da capa" e disseram que "muitas pessoas não compram porque se sentem ofendidas". No final, cada um deles foi unânime em me afirmar que 70% dos leitores do Aqui-MA são mulheres. Fiquei muito surpreso.

Saí da reunião, diminui mais ainda a dimensão da modelo e passei a colocar uma ou outra boa chamada sobre celebridades na capa.


***

No fim da semana passada, o chefe da venda avulsa do jornal me ligou. "Olha, estou com os dados relativos à sua primeira semana de trabalho". E ai?, perguntei, ansioso. "O encalhe diminuiu de 8% para 7% e o repasse aumentou. A tiragem também aumentou em três mil jornais", me disse. Sorri aliviado. A "menina da capa" não é a principal responsável por nossas vendas.

Ps: Perdão! Não consegui escrever pouco. Tentarei na próxima.

5 comentários:

DB disse...

Aqui, grande predo, não tem limite de espaço. Pode escrever quanto quiser, desde que seja pertinente, como tem sido o caso de todos os textos seus, de Da Silva e do Mr. Rabitt.
Essa historia de que mulher pelada vende jornal é realmente complicada. PQ? Pq uma pessoa normal, de bom senso, sabe que foto de mulher em jornal nao vai passar de um biquini ali, uma coisa simples, nada muito escrachado. O cara sabe que se quiser ver genitalia, que compre revistas. Algumas ate sao mais baratas que o jornal. Se bem que o jornal ai custa 25c, nao é? Ai complica...
Anyway, o que vc falou sobre machismo é verdade. as vezes parece que o jornal é feito so para homens. Eu ainda acredito que é possivel dar um viés jornalistico a essas coisas. Se for para falar da gostosa do funk, que nao fique nas fotos, mas em uma materia contando sobre ela e outros bla bla blas. é claro que eu to me referindo aos jornais populares, onde esse tipo de artificio (destacar mulher gostosa) é válido. É até melhor para o leitor, que tera informacoes sobre sua musa (tem gente que quer saber disso, acredite!), e para o jornalista que tem a oportunidade de fazer um texto criativo sobre a historia. MAs como as mulheres que posam nuas sao todas do rj e sp, entao, so dá para ficar na foto mesmo, sem informacao.

Leandro Galvão disse...

Caro "futuro chefe" no O Imparcial (com salário gordo, claro). O que vende jornal é denúncia, fofoca e bastidores do futebol. Mulher pelada entra em fofoca? Sim. Mas também não precisa ocupar 1/4 da página. Não dá pra ser popularesco sem "apelar" para alguns artifícios, como "Moto Clube fecha com Viola" ou "Sampaio Côrrea anuncia contratação de Júnior Baiano". O cara vai crescer o olho pra isso. Da mesma forma que a mulher vai se interessar por um "Suzana Vieira chora a morte de seu ex". Ou até mesmo "Juliana Paes será a próxima capa da Playboy". Todo mundo lê. Mas... concordo que não precisa "estourar" uma gostosa na capa. Um "selinho" no cantinho direito é suficiente. Jornal popular pede isso.

Sem mais para o momento

Paulinho Mesquita disse...

Quando trabalhava no GDF, o garçom que nos servia vinha todo dia cedo me pedir, nas palavras dele, "aquele jornalizinho mais fácil que é pra pobre ler". Era o Coletivo. E tb pedia o Torcida, do JBr.
Segundo ele, ali ele tinha todas as informações que lhe eram úteis. "Futebol, as mortes, ações do governo para os pobrinhos e uma gostosa", que afinal, ele "tava velho, mas não bobo."
Mas mesmo gostando da gostosa (cacofonia!) ele sempre reclamava que na capa a foto era muito insinuante e dentro do jornal não tinha nda demais e a notícia era sempre boba.
Enfim, acho que ele queria mesmo era o q o DB disse, ver genitálias...
Mas isso foi só uma história que lembrei. Minha opinião é de que a mulher na capa chama atenção sendo pequena ou grande. Então, já que dá pra ser pequena, pq não ocupar o espaço com alguma informação útil do tipo "vai faltar água no bairro X"?

PS: mas se tu precisar de um editor pra pesquisar gostosas na internet e escrever textos criativos sobre seus atributos, sobretudo pagando bem... já sabe né?

Anônimo disse...

Seguindo a lógica dos 70% dos leitores serem mulheres, daqui a pouco tu vai ter que se render aos marmanjos na capa do jornal!!

hehehehe

Torço por vc sempre! Sucesso!

Anônimo disse...

Gostei deste artigo, pois aborda um assunto que já venho a reparar há muito tempo. Cada vez mais se vêm mulheres nuas em tudo quanto é sítio, cinema, jornais, revistas, publicidades nas ruas, teatro, publicidade em transportes publicos, tudo quanto é anuncio de tv. Penso que o mundo está a sofrer uma crise qualquer. já nao existe respeito por ninguém, nem pelas crianças. Mesmo que nao queiramos ver mulheres nuas, somos obrigados, pois aparece em tudo quanto é lugar. O que é demais também enjoa, ver so mulheres vulgares que nem sabem dar valor e respeitar o seu corpo, expoem-se para o mundo inteiro. Nao se vê tanto homem a fazer isso. Se calhar os homens ainda se respeitam mais do que elas.Desculpem o desabafo, mas é que ando irritado com este aspecto e precisava comentar com alguém.É claro que um homem gosta de ver uma mulher boa, mas isso deveria ser guardado para as revistas próprias do assunto, né?nao precisamos de ver mulher em tudo quanto é sitio.