Por Jornalista*
É uma das lições basilares do jornalismo que uma boa fonte vale, para qualquer profissional de imprensa - seja ele da editoria de esportes, política, economia, policial ou social – um preço inestimável. O 'bom contato' e a relação de parceria podem render, no decorrer do tempo, boas matérias e muitas vezes bons furos de reportagens. No entanto, muitas vezes o jornalista se vê diante de situações onde há, inevitavelmente, duas alternativas: ou a informação é veiculada, podendo gerar um grande problema para a fonte e mais uma matéria de repercussão e importante para o currículo profissional do profissional; ou o texto não é publicado, mantendo assim as relações cordiais com a fonte.
Abaixo, relato resumidamente uma situação dessas que passei semanas atrás.
Tudo começou com uma longa conversa mantida com uma fonte policial considerada uma das mais bem informadas do Estado, na área de Segurança Pública, cujo nome, obviamente, não posso mencionar. Na conversa, o cidadão me relatou com riqueza de detalhes uma investigação que está em curso, tendo como objetivo desmantelar e identificar ramificações de uma poderosa organização criminosa nos presídios aqui da Paraíba. Só para ficar claro, o indivíduo é um dos coordenadores desse trabalho investigativo.
A fonte citou nomes, narrou episódios, disse locais e até mesmo adiantou algumas providências que já foram tomadas e irão ser adotadas no decorrer do caso. Para mim, assim como qualquer outro repórter que cobre a área policial, a entrevista representava uma grande 'bomba', que iria no decorrer dos dias repercutir em todo o Estado.
Entretanto, mesmo todo o diálogo sendo gravado, o sujeito me pediu por mil vezes que não publicasse o que acabara de me dizer. Aliás, pediu que publicasse, mas não atribuísse a ele algumas informações – tidas como mais preciosas. Caso eu veiculasse, disse ele “serei demitido e nosso trabalho irá todo por água abaixo”. Recebi, contudo, um conselho: “Rapaz, procure 'doutor fulano' e o 'policial beltrano' que eles também têm todas essas informações, e aí eles teriam mais subsídios e você iria confirmar tudo e fazer sua matéria”, pediu.
Diante da situação, não pensei duas vezes. Fui em busca das pessoas indicadas por meu interlocutor. Apresentei todo o material (informações que tinha recebido), fiz perguntas, explorei a fundo o tema tentando ter pelo menos uma declaração que fosse... que me servisse de base para iniciar minha matéria. Mas as tentativas foram fracassadas.. Ninguém teve coragem de abrir a boca e dizer nada a respeito...
Fui mais além. Busquei outras pessoas que poderiam ter informações sobre o caso. Expliquei, propus e até questionei pelo menos três autoridades sobre o caso, e mais duas fontes ligadas a entidades lidam com o sistema prisional paraibano. Mas não obtive sucesso.
Ainda cheguei a escrever a matéria, já que a entrevista havia sido gravada, tendo o cuidado de citar o nome da fonte somente nos pontos da matéria recomendados por ela e colocando os detalhes em nome da instituição a que ela pertence, responsável pela apuração. E depois apresentei à editoria. O texto, entretanto, prudentemente não foi publicado. Eu mesmo concordei e admiti que seria melhor, realmente, não veicular a matéria. Dentro da mim, até agradeci à minha editoria pela sensibilidade e a cautela de não soltar o material.
Fiquei imaginando nos desdobramentos que iriam acontecer, caso as informações fossem levadas ao público. Depois percebi que esse episódio me serviu bastante para compreender a importância das pessoas com as quais convivemos e trocamos informações, profissionalmente, chamadas no jargão jornalístico de 'fontes de informação'.
Muitas vezes é preciso entender que elas também possuem interesses, empregos, família, necessidades, medos. E que o material publicado por todos nós, da imprensa, pode comprometer ou até colocar em risco tudo isso. Para encerrar, apresento satisfeito o resultado: prudentemente minha matéria não foi publicada e não estampei a manchete na edição do dia seguinte. Entretanto, certamente conservei minha fonte e, na próxima vez que precisar bater na porta dela novamente em busca de notícias, encontrarei a fechadura aberta.
A investigação, contudo, está em curso. Ainda não perdi a esperança de poder confirmar as informações com outras fontes. Um dia, tenho certeza, a gravação me servirá bastante. Não desisti de publicar a matéria, apenas adiei por, quem sabe, alguns dias.
*O jornalista também preferiu não ser identificado para não atrapalhar o contato com a fonte.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
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