Pedro Henrique Freire
- Deputado, a quantas anda a relação com o governo? A insatisfação já acabou?
- Em off ou em on?
É preciso pensar rápido. Mas é sempre bom escutar o off primeiro. É de certa maneira lógico. Primeiro você escuta o “impublicável”, que é a verdade. Depois, aquelas firulas todas de um entrevistado. Isso dá base sólida para outras perguntas.
É comum ocorrer em matérias de política. Como todos sabem, políticos têm sempre algo a esconder. Minha rotina é repleta de informações em off. Com elas, eu consigo conjecturar aquela boa história da qual preciso. Não que eu vá publicar o off do cara. Mas eu fico sabendo exatamente o que se passar sobre determinado assunto.
Outro dia fazia uma das várias matérias que fiz sobre o assunto acima. Bombardeei um deputado de perguntas. Ele não cedeu. Foi quando, com jeitinho, eu perguntei. “Deputado, as atitudes dos aliados não condizem com esse discurso. O senhor pode me falar que eu não publico, eu quero apenas ficar sabendo. Qual o motivo do desentendimento?”.
Foi quando ele abriu a guarda e me falou tudo. A briga era por cargos. Deputados estavam insatisfeitos. Queriam mais espaço do governo, mais prestígio entre os secretários. Precisavam ter voz e participar das decisões.
Pois bem. Foi quando eu negociei com ele a possibilidade de publicar a história sem citar nome. E falei que escutaria outros parlamentares da base. Um deles haveria de me confirmar a história. Na mesma entrevista, busquei descobrir quem era o mais insatisfeito. Consegui e fui direto no cara.
Ainda ouvi mais seis deputados. Uns negaram. Outros não disseram que sim, nem que não. E um deles me bancou a informação. Ainda coloquei algumas aspas daqueles que não quiseram se identificar. Pronto. Tinha minha história e ela foi pra rede.
Depois eu fiquei pensando: e se eu não pedisse a declaração em off? A conclusão foi imediata: não teria a história! Ficaria sem subsídio para indagar os deputados. Teria um discurso desinformado e ninguém ia falar por livre e espontânea vontade. Enfim, a pauta cairia.
Em outra matéria que fiz sobre o assunto, quis saber do mesmo deputado como estava a relação com o Executivo. Foi quando ele me perguntou: “Em on ou em off?”. “Em off, claro!”. Ele riu e me contou outras coisas. Hoje cultivo a fonte e sempre que posso o prestigio com algumas boas aspas – mas isso é assunto para um outro post.
Enfim, passei algum tempo para conhecer o poder do off. Hoje, não faço matéria sem tentar arrancar algo que não pode ser dito. Mas é bom lembrar que isso leva tempo. É preciso estar próximo da fonte e conversar bastante antes de pedir uma declaração no tal do off.
Aprendi também que toda autoridade tem dentro da mente uma informação que vai valer uma matéria. O duro é como e quando encontrar.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
Um comentário:
Baseado nesse último parágrafo, repito uma frase citada em um post publicado nos primórdios deste blog, quando ele era muito mais freqÜENtado que hoje:
"Não dê informação a quem quer dinheiro. Não dê dinheiro a quem quer informação"
A frase é de Antônio Carlos Magalhães. Ele tem atitudes, no mínimo, duvidosas, porém está mais que certo quando disse isso.
Um repórter de esportes do DF tem a mania de conversar em OFF com todos os jogadores de futebol e nunca se utiliza dessas preciosas informações nos textos que produz diariamente. Por outro lado, a fidelidade com as fontes está rendendo a ele excelentes informações antecipadas.
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