Por Daniel Brito
Por, aproximadamente, 36 horas pensei se valeria a pena denunciar que o time de basquete de Brasília -- líder do campeonato brasileiro, com jogadores de NBA no elenco, favorito ao título -- não paga salários aos atletas desde março.
Já me meti em confusões assim em outras oportunidades.
Em Campina Grande, como repórter da TV Borborema, um jogador me pediu para denunciar a falta dos salários um dia antes do clássico. Só joguei a denúncia no ar porque ele botou a cara no vídeo para falar. Na segunda-feira, após o jogo (que terminou empatado), um diretor chega ao treino com os bolsos cheios de maços de dinheiro.
Resultado: fui atacado por torcedores e tive que deixar de fazer reportagens. Virei apresentador aos 20 anos de idade...
Mais recentemente teve o caso aqui no Correio Braziliense da minha companheira de trabalho, Cida Barbosa. Com a experiência de ter trabalhado em Copa do Mundo, ela conseguiu dois depoimentos de atletas do Gama também detonando a diretoria por não cumprir com o compromisso mensal. Um diretor se revoltou com ela e fez uma acareação com ela e todos os jogadores no meio do campo de treinamento.
Nenhum gamense se apresentou como autor das denúncias e Cida ficou, por alguns instantes, como a mentirosa da história. O diretor desbocado e desequilibrado caiu matando nas críticas, praticamente agredindo-a verbalmente. Até que um dos caras que deu a entrevista -- e pediu para manter o nome em sigilo na reportagem -- se apresentou. Em seguida, o outro também deu um passo à frente. Logo, eles não atuaram mais pelo Gama e deixaram o clube ao final da temporada sem ter participado dos oito compromissos finais.
Na quarta-feira passada, recebi a confirmação da ausência dos salários no time de basquete profissional do DF. Liguei para um jogador e não consegui confirmar. Liguei para o pai de outro, uma pessoa próxima a mim, e ele ficou de checar. Em seguida, me retornou avisando que o filho dele não falaria. Busquei um terceiro jogador e abri o jogo.
Acompanhe o diálogo que travei na tentativa de publicar minha matéria.
- Fulaninho, o seguinte é esse: sei que vocês estão sem salários desde março, ameaçaram não jogar as partidas contra Sicrano e Beltrano e a diretoria não deu previsão de quando saldará as dívidas.
- Você, Daniel, não falou nenhuma mentira. Se quiser publicar, pode publicar. Mas faça por sua conta, porque eu não confirmo nada disso aí...
- Eu sei que tu é um dos cabeças da ameaça de greve do time. Preciso de uma confirmação oficial? Eu não cito teu nome. Dou minha palavra...
(interrompendo)- Não quero!! O mercado do basquete no Brasil é muito pequeno. Essas notícias correm rápido e salário atrasado não é novidade para mim.
- Será que tu não pode botar na mesa lá, entre teus companheiros de time, que eu procuro alguem que esteja disposto a falar, mas sem a necessidade de revelar o nome?
- Então tá. Daqui 15 minutos você me liga...
Dez minutos antes de terminar o prazo, me liga o diretor do time:
- Que história é essa de você ligar para meus jogadores exigindo declarações sobre os salários atrasados?
Foi uma longa conversa. Aliás, batalha. Mostrei para ele que sabia os detalhes dos salários, por mais que tentasse desqualificar minhas informações. Quando percebeu que estava realmente prestes a publicar a denúncia dos salários, ele desabafou:
- Pela amor de Deus! Esse time existe há quatro anos, nunca fizemos tanto sucesso, uma notícia dessas pode acabar conosco. Estamos, realmente, devendo salários, mas se eu te contar o por quê você me garante que não publica?
Dei minha palavra e o cartola me explicou direitinho a falcatrua. Não cabe aqui a história completa da dívida. Avisei ao meu editor que o time de basquete devia salários mas dera minha palavra de que não publicaria nada. Ele (o editor) ficou insatisfeito, afinal, essas matérias sempre rendem grandes leituras. Tudo isso ocorreu na quarta.
Na sexta-feira, li no Jornal de Brasília:
"Time de basquete não paga salários"
Shit. Fui furado!!!
A matéria estava incompleta. Faltava informação tipo: qual o último mês que os jogadores receberam salários? Nem isso tinha na matéria. O diretor do time sequer fora ouvido pela reportagem para dar uma justificativa.
Antes de ler essa notícia, passei um dia e meio pensando se valia a pena denunciar salários atrados de pessoas que não fazem questão de abrir o jogo para a imprensa. Nem os próprios atletas tinham interesse em detonar a história.
O que é pior: um deles ligou para o diretor para me entregar, como se a culpa fosse minha.
Lembrei-me do que meu sub-editor disse:
"Não adianta fazer uma 'boa ação' e não divulgar uma matéria polêmica, como neste caso em que o diretor implorou para que você não publicasse. Notícia não tem dono, se o outro jornal a tem, ele pode soltá-la a qualquer momento. Aí, meu amigo, quem perde é você..."
Trem bala (cover)
Há 8 anos
3 comentários:
O subeditor tem razão.
Não pode mesmo, cara. A gente não tem que ajudar o time e coisa do tipo. É esse o maior problema do jornalismo no esporte e na cultura. É todo mundo pedindo uma forcinha, uma ajuda.
Com certeza, o sub-editor tem razão!! A principal verdade no Jornalismo é " Notícia não tem dono" e ainda mais quando o assunto é quente.
E se o seu colega de trabalho, às vezes a pessoa que está ao teu lado na redação, muitas vezes não te ajuda, você também não tem o porque de ficar ajudando A diretor, a time e etc...
Eu sei que isso soa meio sei lá... Seco, muito sem coração... é que quantas e quantas vezes a gente não vê principalmente nessa profissão todo mundo querendo passar a perna em todo mundo.. Então ter pena e tentar ajudar às vezes não é uma boa saída.
Mas detalhe, isso é só às vezes... por que é bom ajudar ao próximo- rsrsrs
Puta merda!!! O pior é que agora que você sabe as reais falcatruas e isso daria uma matéria muito grande, tem o compromisso ético de não jogar a merda no ventilador... ou não???? Diogo Mainardi jogaria.
Abs
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