13 junho 2007

Tirei meu celular do cartãozinho

Por Daniel Brito

Um amigo intolerante sempre me disse que o bom cartão de apresentação, aquele que a gente distribui quando conhece uma nova fonte, não deve conter o número de seu celular. Ele é o mais fervoroso adepto da velha máxima:

Amigos amigos, negócios à parte.

Nos primeiros anos de redação, relutei em aceitar a opinião. Se o cara está disposto a passar informações, que ligue no meu celular. Porém, para uma pessoa com tantas horas de vôo no jornalismo como eu, minhas fontes não passam de duas pessoas e o meu celular no cartãozinho de apresentação me rendeu seguidos constrangimentos.

Nosso eterno-futuro-colaborador Mário Ignácio Coelho levantou a bola em um post recente e aqui conto minha história. As pessoas, no meu caso, atletas ou assessores deles, ligavam para meu celular para pedir matéria. Tipo: 'me dá um espaço no jornal'.

Disse não várias vezes, mas em outras concordei em fazer matéria (não sem antes combinar com meu editor). Quando essa pessoa pede um espaço, ela quer dizer elogio.

Rasgado.

Gratuito.

De página inteira, de preferência.

Acontece que nem tudo são flores e volta e meia saem informações que os personagens omitiram e eu pesquisei na internet. A "realidade maravilhosa e campeã" que ele me pediu espaço é uma meia verdade e, por obrigação, coloco isso no texto.

Do mesmo jeito que esse atleta e/ou assessor me ligou para pedir espaço, ele retorna no dia seguinte para reclamar de determinados trechos. Isso não aconteceu dois ou três vezes comigo. Foram 15, 20, 30 vezes nos últimos três anos. O pior: as ligações sempre foram nas primeiras horas da manhã, tipo 8h30.

Onde já se viu jornalista acordar cedo em Brasília?

Não entendem que se for para falar bem deles, da maneira que desejam, que contrate uma agência de publicidade.

Quando troquei número do celular, há um ano, pedi uma nova remessa de cartõezinhos de apresentação e segui o conselho daquele amigo: tirei o número e só deixei os telefones da redação.

Ontem, por exemplo, fui chamado para fazer uma entrevista exclusiva sobre os novos projetos esportivos de uma grande empresa sediada em Brasília. Eles, executivos de marketing, me apresentaram as idéias como se fossem as maiores e melhores novidades para a determinada modalidade.

Observei, contudo, que as ações excluíam Brasília do projeto marqueteiro da empresa e inclinei minha matéria, pulicada nesta quarta-feira no Correio Braziliense, pelo 'prejuízo' que a cidade sofrerá pela redução do investimento.

Se tivesse deixado um cartãozinho com meu celular aos executivos, certamente teria recebido ligações nesta manhã sobre a abordagem da minha matéria. Eles me deram exclusividade e eu não elogiei o tanto que eles esperavam.

Se eles realmente acharam ruim o foco do texto, poderiam ter ligado para o telefone da redação que consta no nova versão do meu cartãozinho de apresentação. Se tentaram pela manhã, acho improvável que tenham conseguido falar com alguém.

6 comentários:

Anônimo disse...

Ficou boa a matéria. Santa Catarina é o que há, rapaz!
Eu tenho quase dois anos de jornal e até hoje não mandei fazer meu cartão, acredita?

PS.: eu juro que um dia os textos sairão!

Toty Freire disse...

what, marío?! rapaz, você tá precisando fazer duas coisas, então: esses cartões (sem constar o seu celular) e uns textos para este humilde (porém heróico) blog. e sem constar o número do celular neles.. hehehe...

briba, sei bem como é isso. os caras confundem espaço com elogio.. você disse tudo...

abçs, irmãos...

Léo Alves disse...

Mário eu também ainda não fiz meu cartão. Agora vou pensar bem se coloco meu celular. Porém, acredito que devo colocar, pois como estou na produção da tv preciso ter contato direto com as fontes. Até porque a matéria quem irá fazer é o repórter. E qualquer reclamação deve sobrar para ele. Mas outras reclamações e pedidos (como cópia da matéria) vem para mim. Colocar ou não colocar o número do celular? Eis a questão.

Felipe disse...

Eu nunca vi muito problema em botar o celular no cartão não. Claro que fica mais fácil de o cara te achar, mas, de fato, se o cara quiser te achar para fazer uma crítica ou sugerir ou algo ou te alugar, ele vai conseguir ligando para o seu número ou para o trabalho.

abs

DB disse...

Se eu apurei a matéria com fulaninho de tal e no outro dia ele quer me ligar para reclamar, que não me procure no celular. Ligue para a redação do jornal, mande email, sinal de fumaça preta como protesto, mas pelo celular eu não tenho paciência para atender...

Anônimo disse...

É um dúvida, realmente. O engraçado é que jornalista que tem bons contatos tem sempre o número do cleular da autoridade, da celebridade...