12 novembro 2007

Mailer: egocêntrico, polêmico, talentoso...

Por Mário Coelho*

Norman Mailer entra na sala da coletiva de imprensa de mais uma luta de Muhammed Ali. Bêbado, começa a brigar com os jornalistas presentes. Cria confusão. Esbraveja. Dá vexame. E grita também na direção dos personagens que estavam sendo entrevistados, mesmo sendo fã de um deles. A cena, descrita no livro O rei do mundo, de David Remnick - sobre Ali -, me lembra dois momentos distintos. O primeiro foi numa aula de redação na faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O professor Luís Alberto Scotto, um dos meus grandes mestres, afirmava que todos os "membros" do chamado new journalism eram "broncos". Discutiam, brigavam, polemizavam, tinham egos enormes.

A segunda lembrança é um trecho da introdução escrita pelo próprio Mailer no livro Super-homem vai ao supermercado. "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão. É um modo promíscuo de ganhar a vida. Assim como um advogado não tem um amor à verdade que se compare aos interesses do seu cliente, um repórter não tem respeito algum pela nuance. O sentido de uma situação não é o que ele explora: na verdade, ele frequentemente evita a atmosfera, já que é difícil capturá-la num texto escrito às pressas."

Esse era Norman Mailer. Egocêntrico, polêmico, e também muito talentoso. Esses três adjetivos podem muito bem descrever Mailer. Como escritor, há anos que não escrevia nada relevante. Seu último livro de qualidade - juntando ficção e não ficção - é A canção do carrasco, lançado em 1979. Sendo que ele nem teve o trabalho de apurar. Somente pegou todo o material e deu um trato. Mas isso não invalida suas grandes obras. Basta ler em Super-homem vai ao supermercado o texto sobre a convenção democrata de 1960. Ele conseguiu, antes de todos os jornalistas e analistas políticos, entender o incipiente marketing político que nascia com John Fitzgerald Kennedy.

Agora, nenhum dos seus livros - Os nus e os mortos, Exércitos da noite, A história de Lee Oswald - um mistério americano (onde dava voz aos entusiastas da teoria da conspiração), chega perto de A luta. Com palavras, Mailer conseguiu descrever tudo que acontecia de bom e ruim nos meados dos anos 1970 nos Estados Unidos. Racismo, pobreza de espírito dos norte-americanos, economia, tudo isso como pano de fundo para a volta de Ali aos ringues na luta contra George Foreman no Zaire. Mailer transformou boxe, que o dicionário explica como jogo de murros, em poesia pura.

Se partimos do pressuposto que o new jounalism aliava técnicas de apuração jornalísticas com redação de ficção, Mailer estaria na segunda divisão dos escritores. Caras como Tom Wolfe, Gay Talese e Jimmy Breslin - nos tempos da disputa entre as revistas Esquire e New Yorker - formariam a primeira divisão. Claro que não dá para esquecer de Truman Capote com o fantástico A sangue frio, que podemos colocar como o "marco inicial" do new jounalism em larga escala. Agora, Mailer e Capote não eram jornalistas, nem queriam ser. Os dois usaram o jornalismo em uma época que não tinham inspiração para escrever o que eles mesmos chamavam de "o romance". A grande reportagem era uma forma de não perderem a mão.

Não dá para negar a contribuição de Mailer à literatura. Ele mesmo foi reconhecido duas vezes pela crítica norte-americana, ao receber duas vezes o Pulitzer: em 1968 com Os Exércitos da noite, e em 1979 com A canção do carrasco. Mas não deixa de ser irônico o cara que sempre criticou o jornalismo ser colocado como romancista e jornalista em todos os obituários. Onde quer que esteja, ele deve estar repetindo a frase lá de cima: "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão".

* O perfil de Mário Coelho está no post Mãos ao alto (http://filhodapauta.blogspot.com/2007/10/mos-ao-alto.html#links)

7 comentários:

Felipe disse...

"Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão".

Mas esse texto ficou do caralho.

DB disse...

Está completando seis anos que ouço falar do livro A Luta, mas jamais consegui encontrá-lo nas livrarias que visitei. Será que eu ler só esse eu já li tudo que resta de interessante de Norman Mailer??
Já vi para vender na internet, nao comprei porque ele vai ter que entrar numa fila grande aqui em casa. MAs no primeiro semestre de 2008 eu desfrutarei de A Luta, sem falta!

Anônimo disse...

Cara, A luta é o melhor dos que eu li. Fantástico. Agora, de todos esses livros de new journalism, o melhor pra mim é Os eleitos, do Tom Wolfe, seguido de perto pela A mulher do próximo, do Talese.

Felipe, valeu pelo elogio!

=)

DB disse...

Pelo que soube, a mulher do próximo vale mais por Talese do que pelo resto, já que é uma putaria só (as primeiras páginas descrevem um homem se masturbando, se nao me engano).
Outra coisa, o Felipe é um mentiroso.
Mas o texto tá legal, sim...

Anônimo disse...

Sim, o livro começa com a descrição de um moleque se masturbando com a Playboy. O capítulo seguinte conta a história da moça que era a garota do pôster na revista que o moleque olhava. Depois, Talese conta a história do Hugh Hefner. Ainda vai parar, no presidente dos EUA? Não, ele tá lá na metade do livro! Cara, Talese é o meu pastor e nada me faltará!

Anônimo disse...

Ops, era para ter saído "Aonda vai parar, no presidente dos EUA?" e não "Ainda...".

Felipe disse...

E você, zero dois, é um fanfarrão!!!