18 julho 2008

Firmeza na verdade

Por Daniel Brito

É muita coincidência que a PM do Rio esteja na berlinda por atirar em inocentes no mesmo momento em que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) faça as vezes de advogado de defesa de um suspeito de ter cometido diversos crimes.

O baiano Daniel Valente Dantas (DVD), Veríssimo escreveu, é o tipo de pessoa que sabe dissimular a irregularidade. Conhece os meandros do sistema e se esconde nas brechas do capitalismo para não ser pego em flagrante, "como o ladrão de galinhas".

É exatamente por esta habilidade, que o STF acredita que DVD pode responder em liberdade pelos crimes dos quais está sendo acusado. Várias qualidades de crime financeiro, espionagem, tentativa de suborno...

Noite sim, noite não, DVD se revezou entre dormir numa cela da Polícia Federal em São Paulo, juntamente com os demais acusados, e numa confortável cama em um luxuoso hotel da capital paulista.

Segundo o ministro do STF, "não foram indicados elementos concretos e individualizados, aptos a demonstrar a necessidade da prisão cautelar, atendo-se, tão-somente, a alusões genéricas".

Argumentos mais que perfeitos para condenar os PMs cariocas pelas incursões irresponsáveis contra civis desarmados e inocentes nas ruas do Rio. Mas onde se lê "prisão cautelar", podemos substituir por "tiroteio às cegas". A sentença do STF caberia, portanto, no caso de condenação da polícia militar.

A imprensa deu tratamento diferente aos dois casos. Taxou, corretamente, como absurdo a ação da PM e parabenizou o chefe do Supremo pela decisão de liberar o banqueiro e especulador DVD.

Tá na cara que ele é o símbolo máximo da elite branca com acesso às prerrogativas da lei. Mas a imprensa precisa do STF e dificilmente faria um questionamento mais incisivo. Os maiores veículos do Brasil têm ações milionárias correndo no Supremo e ninguém é besta de atacar a mais alta corte judicial do país, por mais que ela esteja sendo incoerente.

Sim, porque os casos antigos da PF, igualmente filmados e divulgados, não tiveram tratamento igual por parte do STF. (Tudo bem que as prisões cinematógraficas da PF costumam acabar em pizza.)

O modos operandi da Polícia Federal está sendo usado, agora, para acobertar o restante da investigação dos crimes financeiros atribuídos a DVD. A Operação Satiagraha, que quer dizer firmeza na verdade, em um sânscrito de Gandhi, pode virar peça política para mais uma CPI cheia de bla bla blas e nada deve acontecer.

Em vez de cobrar por justiça, vamos reclamar por ler/ver/ouvir as mesmas notícias sobre a roubalheira no noticiário durante semanas.

Fiquei sabendo, no último final de semana, que um portal vai produzir (se já não produziu e publicou) uma reportagem perguntando:

Por que o povo não vai a casa de DVD, ou para frente da sede da PF, cobrar por justiça da mesma maneira que fizeram com o casal acusado de jogar a própria filha pela janela?

Um comentário:

Mário Coelho disse...

Porque a imprensa é dividida entre demarquistas e dantistas (copyright tognolli). Basta ler o livro dele. :)

Agora, falando sério: para o Homer Simpson, esse é apenas mais um caso envolvendo corrupção, uma mostra que certas coisas no Brasil nunca vão mudar. Então ninguém se revolta. E como envolve dinheiro público (ou não) que nunca chegaria no povo, ninguém se sente roubado, prejudicado. No caso da Isabella Nardoni, como disse uma colega de gabinete, "as pessoas perderam a fé na humanidade". Daí tu tiras.