22 agosto 2008

Você é repórter ou é assessor?

Dias atrás cheguei no meu velho e bom Maranhão e fui ao trabalho com a idéia de cobrir eleições. Mas não na capital. Queria me mandar para o interior do estado, pegar bons personagens e, com fé, descrever o absurdo que pode existir na briga por votos numa cidade pequena, pobre e desconhecida.

O coordenador da redação comprou a idéia. Com dois dias, porém, tudo mudou. O editor interino de política brigou com um dos repórteres e, como estava improvisado, voltou para a coordenação de reportagem, local onde faz um bom trabalho e não deveria ter saído. Temendo improvisar um editor de outra área outra vez, meu chefe me chamou para editar as pequeninas, porém heróicas, duas páginas de política de O Imparcial - uma local e uma nacional. Como já tive experiências anteriores como editor neste mesmo jornal, fui sem medo.

Mas me deparei com um complicador: nossos repórteres de política são assessores. Um trabalha no governo do estado e outro na prefeitura.

Assim que assumi a editoria, chamei todos e disse que precisaríamos melhorar a cobertura de política, expandir para temas mais exclusivos, como matérias sobre cidades importantes do estado e cenários de toda região metropolitana, não apenas São Luís.

Fizemos uma reunião de pauta, listamos alguns assuntos para a cobertura e me calhou de saber a que horas poderia contar com eles. A qualquer hora, responderam. Então, podem fazer isso e isso amanhã, ok? Não, mas de tarde eu vou para tal lugar e de manhã para outro lugar, me respondeu. E que horas você trabalha para o jornal? "A hora que dá", disse.

Quer dizer, não posso contar a qualquer hora. Mas, sim, a hora que dá.

Pedi, então, que separassem as horas do dia prevista no contrato de cada um e começamos a pensar a editoria com mais intensidade. Melhorou, mas ainda está ruim.

Está ruim porque, com repórteres-assessores, a coisa não ficará de um jeito plausível. Assessor de imprensa e repórter se parecem pelo comprometimento institucional. O primeiro com um órgão público. O segundo com a empresa jornalística para o qual trabalha. Quando a coisa se choca, a editoria perde qualidade. Mas ele continua ganhando seu salário.

Por isso, em lugares onde os jornalístas ganham muito mal e assessores ganham muito bem, a qualidade da mídia tende a ser ruim. Os jornais viram caixas de lixos-releases, plantados muitas vezes por assessores "infiltrados" na redação. Por isso, não existem jornais quentes. Não existem repórter que corra atrás da notícia, que pense e trabalhe para ampliar sua pauta. Uma vez assessor, a redação de jornal serve apenas para complementar o salário e não para crescer profissionalmente.

Outro problema é quando o jornalista aprende tudo na redação, cria nome e respeito e depois se transfere para a assessoria, buscando melhor salário e menos trabalho. Mas isso é tema para um próximo post.

Humildemente e desculpem o longo hiato...

9 comentários:

Túlio disse...

muito bom saber como a coisa funciona longe dos grandes centros. ótimo blog esse!

Anônimo disse...

assessor de imprensa não é jornalista. as ferramentas podem ser as mesmas, mas os fins são completamente opostos. trabalhei muito tempo numa redação coalhada de assessoras e o lance é horrível: os menos aloprados tentam empurrar pautas dos clientes. e a desculpa de "editorias diferentes" não cola. convivi com um repórter de esporte e assessor da prefeitura. o cara passava o dia no telefone, contando pro chefe-prefeito o que as editoras de política e cidades publicariam no dia seguinte. não pode, não dá.

Anônimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

é Martin... daí que entra um negócio bem interessante, porém esquecido: a ética no jornalismo.

adorei este blog,irei tirar minhas dúvidas por aqui viu senhores...

um abraço



www.gonzolaranja.blogspot.com

Felipe disse...

Naõ entendi direito... você tá morando no Maranhã, moleque?

Abs

Mário Coelho disse...

Pois é, é uma situação complicada, vai ter sempre aquele momento em que as duas funções vão bater de frente. Agora, ninguém acumula dois empregos porque acha legal ou bonito. Os salários são baixos e neguinho tem que correr atrás. O dilema ético vai existir, sim. E aí, o que fazer, qual das duas escolher: dinheiro ou ética?

Léo Alves disse...

Impossível o cara ser assessor e repórter e ser um bom repórter. Não pela competência, mas pelo fato de um dia o cara ter que fazer uma matéria contra quem paga seu salário de assessor e ele vai cair num dilema. Nesse caso sobra para o jornal que vai ter matérias ruins. É aquela história: ninguém pode servir a dois senhores.

Taty Valéria disse...

NOssa, aqui na velha Paraíba é do mesmo jeito. Assessoria paga bem, jornalismo paga mal, mas quase nunca dá pra se viver só com um emprego.
Optei - mesmo a contragosto - pela assessoria, mas nada que envolva política. Fico com as crianças, que adoro!

Anônimo disse...

Eu gostaria de informações de canais para publicação de reportagem gratuita, para:
* O maior comércio na internete MERCADO LIVRE ( ML ) tem página falsa; Não se consegue comunicação com ao Mercado Livre para reclamação. Existe a página, mas ao inserir apelido, nenhum usuário é reconhecido. Como pode falcatruas desse tipo em tão grande desenvolvimento comercial? O vendedor VENDEDORA*TOP deu cano e simplesmente desapareceu e não se consegue comunicação com o ML. Foram enviados vários emails para esse " LADRÃO ", Francisco de Oliveira Sousa, para quem foi feito depósito na conta da caixa e que não dá retorno.
Caso se interesse pelo assunto, posso fornecer dados pessoais desse e também de lesados. Quando a justiça vai tomar providências nesse assunto?

Paulo Vieira