Por Daniel Brito
Aprendemos na faculdade a hierarquizar informações dentro de um texto. Para isso, existe a tal da pirâmide invertida. As informações mais importantes têm de ser aglomeradas nos primeiros parágrafos com o uso do tradicional:
- o quê;
- como;
- quando;
- onde;
- por quê.
É, convenhamos, a maneira mais fácil de se escrever um texto jornalístico. Fazer como um boletim de ocorrência.
"Morreu, ontem, aos 92 anos, o senhor José das Couves*, vítima de um enfarto agudo do miocardio. Das Couves era médico sanitarista e havia contraído a doença de chagas cinco anos atrás, durante uma expedição pela região do Curimataú. Deixa duas viúvas, cinco filhos, 14 netos e oito bisnetos."
Acabou-se. A notícia tá toda ali. Daí você pega o atestado de óbito de Zé das Couves e está quase igual ao texto do jornal. Ocorre o mesmo com notícias policiais.
"Um homem, aparentando ter 33 anos, assaltou ontem a sorveteria Gela Guela*, em Puxinanã. Armado de revólver calibre .38, ele ameaçou os clientes e chegou a agredir o gerente da loja com uma coronhada. No assalto, foram levados 1,5 mil reais em espéciea, além de celulares dos clientes e um computador. A polícia ainda não tem pistas do criminoso".
É possível ler esse tipo de notícia t-o-d-o-s os dias nos jornais do mundo inteiro. E nos boletins de ocorrência do distrito policial mais perto de você.
Pessoalmente, tenho várias restrições a esse tipo de lide. Se eu parar para prestar atenção numa notícia publicada nesse estilo, não avanço mais que o primeiro parágrafo. Também sou da tese que informação demais no parágrafo inicial super-lota a cabeça do leitor (sem querer subestimá-lo), além de desidratar o resto da reportagem.
Os conversadores e/ou adeptos da prática defendem, contudo, que lides assim são comuns em edições semanais dos jornais, quando o leitor não tem tempo para ler um texto mais temperado, com as notícias distribuídas entre os parágrafos e detalhes que vão além do boletim de ocorrência. Esses escritos, já ouvi opiniões nesse sentido, são melhores aproveitados (ou seja, lidos) nas edições dominicais, quando se tem tempo para sentar no sofá e ler o jornal de cabo a rabo.
Para quem tá tomando café, com pressa para levar os filhos no colégio, para depois passar no banco e pagar a multa do Detran porque foi pêgo pelo bafômetro, depois bater o cartão no trabalho às 9h15, a notícia tem que vir assim mastigada mesmo.
Parece simples produzir um abre de página tão direto assim. Mas eu não simplesmente não consigo me adaptar. Penso que todas as histórias tem um ponto mínimo central que liga todas as versões dos fatos.
Um ano atrás, dei dois exemplos (exemplo 1 e exemplo 2) de tentativas frustradas para fugir do lide tradicional. Em algumas vezes, que não foram registradas aqui no blog, eu consegui encontrar um gravetinho no meio da história que esquentava o texto ao ponto de virar uma fogueira. Sem me queimar...até onde eu sei.
Há seis meses trabalhando em uma das mais tradicionais empresas jornalísticas do país, tenho tido dificuldades em manter meu estilo. O que os editores costumam chamar de lide de revista, difuso, com estilo, digamos, heterodoxo de apresentar as informações, não é muito o perfil da empresa.
Em recente cobertura no Rio de Janeiro, tive que ouvir da redação que meu texto estava confuso. É que eu comecei com um detalhe que justificava a informação principal, que estava no segundo parágrafo. Pode até ser chamado de nariz-de-cera, mas o lide continha informações e não era apenas um apêndice. Assim eu entendi. E uma outra pessoa que leu a versão original.
Mas fugia do tradicional. O pai-de-família não teria tempo para ir ao colégio, ao banco e ao trabalho e ler a matéria com aquele abre. Optaram pela pirâmide invertida e as inefáveis cinco perguntas.
Tenho que me adaptar ao estilo, porque não vou conseguir fazer um editor de 50 anos dentro do jornalismo mudar de idéia por minha causa.
Ou então, eu mudo de empresa...
* Os nomes são meramente ilustrativos. Qualquer semelhança com a realidade é uma mera coincidência.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
4 comentários:
É Daniel, é difícil tentar fazer diferente qdo o FEIJÃO COM ARROZ já está enraizado na redação.
O que você falou da materia policial é verdade. É mastigado demais, em televisão, principalmente. Tô cansada de fazer nota e fazer cabeças com essas historinhas, é cansativo até. Uma vez, um colega/apresentador me disse: "Elane, TV vc só precisa de um vocabulário de 200 palavras - rsrsrsrs aí, vc pode repetir todos os dias que dá certo".
Absurdo!! e onde fica a ousadia? as cabeças trabalhadas? a interação com o telespectador? e a fuga do óbvio ululante? e os detalhes? AFF!! é muito FEIJÃO COM ARROZ.
Cara Elane e DB, o estilo não tradicional de lide é o que mais me atrai. Por mais que se diga que as pessoas não têm tempo de ler notícias "confusas" no dia-a-dia vejo que não é bem assim. Quando o lide foi criado era uma época a.i (antes da internet). Hoje o texto da internet é o mesmo que era visto nos jornais há alguns anos. Responde às perguntas citadas por DB. Paremos para ver o seguinte exemplo: fulano de tal foi assassinado no início da manhã de hoje. Certamente os telejornais de meio-dia já trarão esse assassinato com dados superficiais próprio da tv. trouxe a informação. os rádios jornais também trarão essa notícia. os teles da noite tb. e a internet tb. No outro dia o que vemos no jornal é na maioria das vezes as mesmas informações que foram veiculadas antes. O que há de novo para atrair o leitor. Alguém pode dizer que muita gente só se informa através do jornal. Será que isso ocorre nos dias de hoje? Na minha humilde opinião acho que o jornal impresso tem que trazer algo novo para o leitor sob a pena de ele não se sentir atraído pelo jornal. Talvez seja essa mesmice que tem feito com o número de leitores diminua a cada dia. Porque ninguém se sente atraído pelo velho. E muitos jornais têm cara de jornais velhos.
É o que eu penso.
É verdade leo, vai ver que é por isso que as pessoas preferem assistir TV, pq é ela sempre diz primeiro do que o Jornal. No jornal se for ver é notícia requentada.
abraços pros dois.
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