14 novembro 2008

"Ligue para a assessoria do prefeito"

Por Mário Coelho

A minha última missão no trampo era completar a matéria que uma repórter frila deixou incompleta. Com o rescaldo das eleições municipais, eu deveria entrevistar um prefeito negro eleito no mês passado e reescrever partes do que a colega tinha deixado para o editor. Tarefa relativamente simples. Escolhi o prefeito que tinha o perfil mais próximo da pauta e comecei o trabalho para localizá-lo.

Comecei pelo começo, como dizem por aí. Liguei para a assessoria de imprensa do prefeito. "Manda um e-mail com as informações", foi a resposta que eu tive. Percebi na hora que queriam postergar ao máximo a análise do pedido de entrevista. Mandei o e-mail e corri por fora para conseguir o telefone do dito cujo. Liguei para o diretório estadual do partido dele e depois para o municipal. Ambos me passaram o número da prefeitura.

Foi aí que tive a idéia de conversar com algum colega que cobrisse política local na cidade do interior de São Paulo. Liguei para o maior jornal procurando por alguém da editoria. Depois de vários ramais errados, atende uma moça. Eu explico a história, e ela, com muita raiva, responde que "aqui não é a assessoria dele. É o jornal da cidade. Ligue para a assessoria do prefeito".

Eu contei mentalmente até 10 para não xingar a coleguinha. Respirei fundo e expliquei tudo novamente. "Sou repórter aqui em Brasília, do site tal. Já liguei para a assessoria do prefeito, e eles estão enrolando para dar resposta. Por isso, liguei para o jornal, na esperança que um colega que cubra política local pudesse me passar o telefone do prefeito ou dar alguma dica sobre como conseguir."

Transbordando de má vontade, ela soltou um "humpf, espera aí" e me transferiu para outro ramal. Aí atendeu outro colega, com um pouco mais de boa vontade. Disse que a assessoria do prefeito era assim mesmo, que o alcaide até atendia bem a imprensa, mas seus assessores tinham um controle rígido do que e quando ele falava. "Nós cobrimos 10 cidades aqui no jornal. Tenho o celular de nove prefeitos. Advinha qual eu não tenho", disse o colega. Depois de me dar umas dicas, agradeci e desliguei.

Essa historinha toda para comentar sobre o coleguismo na profissão. Vivemos uma época onde as redações estão cada vez mais enxutas e a cobrança não pára de crescer. Uma coisa é fazer pool - o grande Pedro já havia escrito isso por aqui, mas não achei o texto para linkar -, outra é ajudar um colega com um número de telefone e umas dicas. Tem uma grande diferença.

Apesar de não fazer, não sou contra o pool. Isso é muito comum entre setoristas, que sozinhos têm o dever de não deixar passar nada sobre um determinado assunto. Então os repórteres se reúnem e trocam figurinhas sobre o que apuraram. Chegam até a dividir a apuração, como se trabalhassem no mesmo veículo. Eu acho um pouco demais, mesmo reconhecendo que a pressão pode ser absurda.

Agora, se o colega precisar ajuda, eu não nego. Não tenho frescura em passar o telefone celular de uma fonte. Não é isso que vai fazê-la deixar de me passar informações. Tem gente que acha isso. Salvo, claro, se ela me passou a recomendação de não distribuir o número.

No ano passado, quando estava no antigo trampo, entrei na cobertura de um caso de repercussão nacional. Um golpista decide matar amante propondo um pacto de morte para ela. A vítima toma o veneno de rato, passa dias no hospital e acaba morrendo. Ele, que não tomou estricnina, foi preso logo depois da morte da ex-amante.

Vieram a Brasília repórteres de vários lugares do Brasil par a entrar na cobertura. Aí um colega do Rio, do jornal Extra, me liga na quinta à noite. Eu passo todas as dicas para ele, números de telefone e relato como vai ser minha matéria no dia seguinte. Ele chega a Brasília, me liga pela manhã e pergunta o que eu pretendia investigar. Eu digo a linha de apuração e desligo.

Chego na redação, ligo para o delegado responsável pelo caso. Ele pede para eu ligar mais no meio da tarde. Logo depois, saio para almoçar. Uma hora depois, quando voltei, o colega me liga de novo. Travamos o seguinte diálogo:

- Mário, onde você está?
- Na redação, acabei de voltar do almoço.
- Cara, então corre aqui para a delegacia. O delegado trouxe o golpista para falar com a gente!
- Sério? Eu falei com esse fdp há uma hora e ele não me disse nada disso!
- Olha, só tem imprensa nacional por aqui.

Na hora eu saquei o que o delegado queria. Inebriado pela repercussão nacional do caso, decidiu dar preferência para os veículos nacionais ou de outros estados. Corri para lá, quando cheguei, o golpista já tava falando com o Fantástico e com o Domingo Espetacular. Por sorte, nenhum deles sabia o inquérito de trás para frente como eu.

Por ser de fora, o colega não tinha motivo algum para retribuir os favores. No dia seguinte ele iria embora e nunca mais teríamos contato em uma cobertura factual. Mesmo assim, ele não deixou de retribuir. E, por causa dele, garanti uma matéria diferenciada da concorrência local, sem precisar do pool. Só na base do coleguismo.

Um comentário:

DB disse...

mario, em primeiro lugar, eu invejo sua capacidade de economizar nos marcadores. Se fosse eu, encheria de marcadores. Mas, vamos ao que interessa:
eu nao me neho nunca a passar informacoes aos coleguinhas. informacoes publicas. uma coletiva que o cara perdeu, um detalhe sobre o momento x.Com telenfoes é a mesma coisa. Agora, aqueles numeros dificeis de conseguir, eu nao passo. Pq eu sei que os coleguinhas fariam o mesmo...