29 outubro 2008

No statements

Por Daniel Brito

Foi a segunda vez que passei por essa situação. Fazer campana no saguão de um hotel luxuoso para tentar conversar com a estrela.

Jornalista, que já gosta de reclamar (ainda mais os paulistas), não hesita em desistir facilmente da missão. Mesmo sabendo que a persistência pode render um belo furo internacional.

Depois de passar um dia de paparazzi esperando por Maradona, no Kubitscheck Plaza, em Brasília, há dois anos e meio, encarnei o espírito de repórter de Contigo! ontem, no Hilton São Paulo, para esperar Lewis Hamilton, o próximo campeão da Fórmula 1.

Não sou muito de reclamar de pautas. Me mandou fazer, eu vou lá e tento fazer do meu jeito. Mesmo que não valha muita coisa. É claro que tem umas sugestões que você engole atravessado para não receber seu FGTS integral, mas no cômputo geral, aceito sugestões e não faço corpo mole.

A missão de ontem, no entanto, era para lá de ingrata. Conversar com Lewis Hamilton.

Umas cinco horas antes, ele desembarcara de surpresa em São Paulo para despistar a torcida (temia retaliações por disputar o título contra um brasileiro no Brasil, na última corrida do ano). Deu declarações irônicas e exclusivas ao globoesporte.com sobre a ausência da torcida e se enclausurou em seu nababesco quarto no imponente Hilton Morumbi.

Cheguei por lá às 13h30 quase convencido de que voltaria para redação, lá pelas 21h, sem escrever uma linha de novidade sobre a história.

Aquela monotonia acolchoada no sofá do saguão principal foi quebrada duas horas mais tarde quando Nelsinho Piquet apareceu de óculos escuros e boné. Lacônico, respondeu três perguntas andando apressado em direção ao seu Audi e foi embora.

Bom, pensei, uma matéria nova eu já tenho.

Minutos mais tarde surgiu Heikki Kovalainen, finlandês, parceiro de Hamilton.

Abordar essas figuras "importantes" no meio do nada ou num hall de entrada do hotel é quase como ser interpelado por uma mendigo fedorento na porta de casa. Sim, porque esses pilotos vivem em hotéis pelo mundo e a imprensa sabe exatamente os horários reservados para entrevistas. Eles não ficam distribuindo declarações a quem quer que peça.

No Brasil que rola essa insistência. Talvez porque, me disseram, a Fórmula 1 seja o principal evento da principal cidade do País.

Bueno...timidamente, chamei por Heikki, que se virou assustado, olhou para meu bloquinho na mão esquerda e a caneta, na direita, e disse, em inglês:

- Sim, pois não!
- Ahn... (gaguejei..confesso). I'm journalist, and I was wondering....

O segurança do hotel, um cara de uns 2,35m de altura, aproximadamente, ficou entre nós dois e tentou interromper a conversa.

Antes, perguntei sobre a prova de domingo.

Ele, quase que empurrado pelo segurança, me pediu desculpas por não poder dar entrevista mas disse que será uma corrida interessante.

O tempo se arrastou até às 19h15. De 16h50, depois que Heikki e Nelsinho conversaram comigo, negociei com a redação e chegamos a conclusão que minha matéria seria sobre a truculência dos seguranças do hotel (que sequer permitiam fotos no saguão ou que mostrassem a porta principal, desautorizava os funcionários a passar informações sobre os pilotos e me impedia de abordar os caras no hall de entrada). Decidiram por mim, também, que minha matéria passaria o recibo do furo dado pela internet, com a única declaração dada por Hamilton ao chegar no Brasil.

Escrito o texto, com severas críticas aa atuação dos seguranças, e com a reclusão de Hamilton por toda a tarde, eis que surge no saguão Lewis Hamilton.

Colei nele. Fiquei a dois metros dele por meia hora. Aproveitei uma soneca dos seguranças e fiquei ali esperando ser visto. Aí se sucedeu o grande conflito. Partiria logo para o ataque e faria minhas duas perguntinhas com meu inglês macarrônico, esperaria a sua ida para o carro para conversar já de saída, sem que tivesse que trocar cotoveladas com os seguranças?

Optei, não sei porque, pela segunda opção. Esperei, como disse, trinta minutos por Hamilton sair do saguão para tentar minha entrevistar relâmpago. Saí na cola dele fazendo quinze perguntas em inglês. Ele sequer olhou na minha cara, entrou no banco de trás de sua Mercedes-Benz prateada, fez o sinal de positivo para os fotógrafos e avisou ao pobre repórter plantonista:

- Sem declarações.
Crédito: Ernesto Rodrigues


O amigo brasileiro de Hamilton (esq.) vê o piloto inglês entrando na Mercedes-Benz prateada sem dar ouvidos ao repórter Daniel Brito, que é cercado por um assessor de Hamilton (de branco e de óculos) e pelo segurança do hotel (de preto, em terno e gravata)

4 comentários:

Fernando Firmino da Silva disse...

É fogo Daniel. Pelo menos garantiu a foto do possível futuro campeão de Fórmula 1......

Felipe disse...

Cara, a história é sensacional e - não tivea cesso à sua matéria - com certeza rende uma materia enorme e interessante de bastidores. No mínimo, diferente. Não sei se o povo do seu jornal topou, mas se tiver rolado uma materia daquele tipo "Na cola do Hamilton", com o título "Sem Declarações", ja teria sido fantástico. Maneiro demais!!!

Ana Clara disse...

É. Isso aqui dava uma crônica boa também. Mas, como disse o Leandro ontem, tá em SP, agora chora...
Adorei o texto!

Léo Alves disse...

Quem te viu quem te vê DB. Foto correndo atrás de Hamilton. E lembrar que há alguns anos você estava na cola de Gurinhém, El Toro.