12 outubro 2008

Jornal para especialistas

Por Daniel Brito

Como se jornalismo fosse uma receita de remédio para dor de barriga, diz-se que futebol (Flamengo ou Corinthians, de preferência), mulher (semi) nua e tragédia vendem jornal.

Então tá certo: vamos fazer a capa do jornal com esses três componentes todos dias?

Tem muita gente que faz. Informação que é bom...tá longe dali!

Aí começa a discussão: mas que tipo de informação?

O desespero nos mercados financeiros? O rombo na economia nos Estados Unidos?

Sim, isto é informação séria, talvez até imprescindível para um jornal. Mas, temo desanpontá-lo, não vende jornal...

Não vende!
O Estadão, a Folha, o Globo, o JB, o Correio Braziliense, o Zero Hora...que mais tem de jornal grande no Brasil? Só esses mesmos, né?

Então...o mainstream da mídia impressa nacional não está vendendo um exemplar a mais por prever o armagedon cada vez que os indicadores seguem a lei da gravidade.

O próprio ombudsman da Folha, na edição de hoje, estranhou:

"Apesar de noticiarmos a hecatombe nos sistemas financeiros do mundo inteiro, nosso fórum de leitores insiste em comentar sobre as eleições municipais e reta final do Campeonato Brasileiro de Futebol".

Ele pediu, inclusive, para que se humanizasse mais as pautas de economia, para que os leitores mudassem um pouco o foco da leitura. E até reconheceu: "O que é complicado para o jornalista, se por no lugar do leitor para 'prever' o que ele gostaria de ler".

(As aspas não foram copiadas ipsis litteris)

Não tem como ignorar a crise econômica.

Mas a impressão que ela deixa é que o jornal não é feito para os leitores comuns, aqueles que já foram chamados de Homer Simpson, mas para os especialistas que usarão as informações publicadas (muitas vezes repassadas por eles mesmos ao jornal) para sustentar teses oblíquas da realidade.

É igual aos repórteres esportivos. Que tratam do futebol como se todas as pessoas do planeta entendessem. Aliás, você já parou para prestar atenção na quantidade de informação que um texto sobre um time qualquer tem? E informação sobre como e onde comprar ingressos para o próximo jogo?

Naaaa...jornalista esportivo tá ali é para entrevistar o craque, a estrela, derrubar treinador. Serviço para o leitor? Que vá buscar na internet mesmo, p*rra!!!!!!!

Tá, mas, retomando à linha central do texto. A crise econômica não vende jornal.

Ah, quer saber de uma coisa?
Horóscopo vende jornal. Palavra cruzada, também.
É sério.

Pergunta pro cara da banquinha.
Ou do IVC mesmo.
Aliás, deixa de publicar uma cruzadinha por um dia.

É o grave problema de (falta de) prioridades, não é verdade. Claro que se não sair a página de ecomia a xiadeira será grande, afinal, seu público também é exigente.

Mas o horóscopo e a cruzadinha jamais estarão na capa do jornal ou sequer vão merecer uma chamadinha lá:

"Não perca na edição de hoje, os astros prevêem uma semana maravilhosa para os piscianos".

Bom, mas entre a crise financeira, as chamadas de cruzadinha e a tríade mulher-futebol-sangue, eu, por exemplo, ficaria com as manchetes sérias.

Em mais uma prova de que jornalista não pensa como leitor comum....

4 comentários:

Unknown disse...

Não pensa mesmo. Jornalista sempre acha que tá fazendo uma leitura psicológica do leitor e NUNCA acerta o que de fato ele quer ler mesmo. Tarefa complicada essa, como diz um ex-chefe meu: “ A gente trancado aqui pensa que não, mas o mundo é bem maior do que isso...mas por incrível que pareça, não vemos quase nada no jornal e ainda por cima enganamos os leitores com o "resumo" do dia e as matérias de serviço."

VIVA O LEITOR COMUM!!

abraços

Leandro Galvão disse...

Na boa? Mulher pelada ou manchetes do tipo "Dormiu com a mulher do vizinho e acordou com a boca cheia de formiga" vende jornal.

Léo Alves disse...

Muitas vezes o jornal não sabe o perfil de seus leitores. E aposta numa "receita" para vender desconsiderando o que há de importante. Acrescentando: resumo de novela o povo também adora. Já aconteceu de na época que trabalhava no jornal um cara ligou reclamando porque o resumo estava repetido. E teve nêgo que chiou porque a programação da TV estava errada e ele perdeu de gravar o programa. No fundo existe leitores pra tudo.

Léo Alves disse...

Uma errata: "no fundo EXISTEM leitores pra tudo"