Por Léo Alves
A internet exige informação rápida. Nem que a notícia tenha poucas linhas sobre o assunto. O ideal é não levar furo.
Essa corrida desenfreada pela notícia faz com que, vez por outra, apareça uma barrigada nos portais. Quando isso acontece na maioria das vezes o editor muda a notícia para a versão correta. E só quem percebe o “erro” são os leitores que viram as duas versões.
Os portais de notícias também colocam em xeque os outros veículos. É comum o repórter (seja de tevê ou de impresso) ser questionado sobre uma informação que está num site e ele não trouxe na matéria. Na maioria das vezes acontece que ao ir ao local do fato o repórter descobre que as informações publicadas no portal são inverídicas.
Só para exemplificar. Semana passada um portal paraibano publicou que bandidos haviam roubado o Banco do Brasil de uma cidade do interior e na fuga teriam deixado cair malotes com o dinheiro. Cheguei à redação:
- Pessoal vamos checar uma informação. Acho que levamos um furo ‘brabo’. Roubaram o BB da cidade de Arara e os bandidos perderam parte do dinheiro na fuga. Vamos atrás.
Minutos depois, uma produtora traz a resposta:
- Realmente houve um roubo na cidade. Mas foi a uma casa lotérica. E roubaram somente 1200 reais.
Uma história bem diferente da publicada.
No meio da semana uma prova de fogo para todos na redação. Um jogador do time do Esporte (da cidade de Patos) havia desaparecido. O pai encontrou a camisa e o carro do atleta na margem de açude do sítio da família. Suspeita de afogamento.
A notícia que deveria ir ao ar (no caso da tevê) era sobre o desaparecimento do atleta e da presença do Corpo de Bombeiros no açude procurando o corpo.
Perto de 11h recebemos a informação do fato. Cinco minutos para o jornal (que começa às 11h10) conseguimos gravar um áudio tape. Logo em seguida começaram as ligações para saber se o corpo ainda não havia sido encontrado. Segundo eles todos os sites publicavam que sim. Teve até uma informação (por telefone) de que o corpo já estava sendo velado.
Segurei a informação de que as buscas continuavam, mas nenhuma novidade. Seguindo a norma do “confiar, desconfiando”, colegas pediram uma checagem mais apurada. E continuaram até eu dizer que se o corpo havia sido encontrado os pais ainda não sabiam, pois eles estavam ao lado da nossa repórter.
Por volta das 15h os sites já se retratavam da barrigada com a notícia de que “Bombeiros e o Departamento de Medicina desmentiam que o corpo tinha sido encontrado”.
Somente quase 24 horas depois o pai encontrou o corpo do filho boiando no açude.
Embora todas as evidências levassem para um afogamento a morte só poderia ser confirmada com o achado do corpo.
A internet tem a possibilidade de publicar uma informação e depois corrigi-la. Não é correto. Mas acontece.
O jornal é fechado à noite. No caso em questão, o pessoal teria toda a tarde para apurar a informação.
Bem diferente de tevê que não teria como corrigir uma informação errada que fosse ao ar.
Boa parte da imprensa matou o jogador antes da hora.
Já imaginou se o rapaz aparecesse vivo?
Às vezes é melhor arriscar levar um furo e dar uma informação segura que cometer uma barrigada.
Corrigir o erro sempre afeta a credibilidade.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
5 comentários:
E quando o site leva o leitor a pensar que leu errado?
já fiz isso algumas vezes. Ler algo, comentrar com alguém e a pessoa dizer: "Não, acabei de ler aqui e ta dizendo que aconteceu Z e não A como vc disse!"
Ai tu pensa: nossa, será que li errado?
Sempre rola isso...
tem muito jornal grande por esse mundo afora que so pensa no furo e esquece de checar. o lance é impactar e depois ver qual é a realidade...é mais emocionante!
volte sempre, da silva!
Caramba Léo. Os teus textos sempre me surpreendem pela qualidade dos assuntos abordados. Realmente esse problema dos portais é bem visível. Nesse caso especificamente, quase que morro do coração ao ver a notícia do assalto ao BB de Arara. Quando liguei pra lá, o policial disse: "Rapaz, você está ligando pra o lugar errado, aqui mesmo graças a Deus não aconteceu isso não". rs
Só pra complementar. No dia seguinte ao desaparecimento do corpo, cheguei a redação às cinco da manhã e chequei se ele tinha aparecido e tudo continuava na mesma. Quarenta minutos mais tarde, todo mundo começa a ligar dizendo que o corpo tinha aparecido. Portais, rádios... todos confirmando a morte. Liguei de novo pra o Corpo de Bombeiros e ninguém me confirmava. Alguns minutos depois, a policia me confirma. Coloquei no ar, morrendo de medo de cometer uma barrigada.
Fomos a primeira emissora a dar a informação da morte, mas fiz isso na insegurança total.
Lidamos com vidas reais...responsabilidade.
abraços
Na ânsia de publicar o furo, publica-se uma furada.
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