Por Léo Alves
Era dia 17 de fevereiro quase 20h30. Entro na sala 20 minutos atrasado para da aula de Técnica de Entrevista e Reportagem. A maioria dos alunos está com o fone no ouvido. Todos acompanham pelo rádio o julgamento pelo TSE dos embargos declaratórios do então governador Cássio Cunha Lima.
Também acompanhava o julgamento, mas pela tevê, motivo que me fez chegar atrasado à universidade. Era o dia do voto do ministro Arnaldo Versiani, que tinha pedido vistas no processo de cassação do governador. Naquela noite o destino político da Paraíba poderia ser decidido com a confirmação ou não da cassação do mandato de Cássio.
Por mais que me esforçasse não conseguia envolver os alunos (nem eu conseguia) com o assunto da aula. Vez por outra surgia um comentário, uma parcial sobre os votos dos ministros que acabaram por confirmar (por unanimidade) a perda do mandato do governador. No meio da votação, sem clima para a aula comentei:
- Nós estamos acompanhando um momento histórico. Independente do resultado do julgamento. Nós jornalistas somos historiadores que escrevem a história na medida em que ela vai acontecendo.
- Professor, que interessante. Nunca tinha olhado por esse ângulo. Essa frase é sua? , questionou uma aluna.
- Éééé...não sei acho que sim. Não, acho que não. Bem. O importante é termos a noção que estamos escrevendo para a história porque daqui a dez, vinte anos quando alguém for pesquisar sobre essa cassação vai se basear no que os jornais escreveram, no que nós escrevemos. Daí a nossa responsabilidade.
Fiquei confuso em responder se a frase era minha porque no fundo eu apenas resumi o que o grande Pedro já tinha abordado, mesmo que de forma menos específica, no post Sobre a Verdade.
Se olharmos para o futuro teremos uma pequena noção de que como será difícil saber se os registros dos jornais são verdadeiros. Não diria que são mentirosos. Mas é comum ver duas interpretações para a mesma notícia. E lógico que isso está relacionado a fatos políticos. Se o jornal é ligado a um grupo político ele vai trazer a notícia (de certa forma) beneficiando seu aliado. Se o jornal não é a notícia vai trazer tudo que é de ruim relacionado ao assunto.
Já imaginou como será alguém que não viveu a história saber onde (em qual jornal) está a verdade?
O trabalho do jornalista vai além de escrever notícias. Ele escreve também a história.
Trem bala (cover)
Há 8 anos
4 comentários:
Daqui a 20 anos, da silva, seu filho, por exemplo, pode procurar investigar o caso nas paginas dos jornais e hoje e nao vai saber qual é a realidade. Talvez ele possa concluir que desde esse tempo, os jornais não tem voz própria...
concordo, grande léo.. o registro histórico fica complicado quando registrado com parcialidade... costumo falar para os amigos lá do jornal quando pedem algum norte para a matéria: 'não escreva a verdade. tente escrever o real, puro e simples. a verdade pode ser dita de várias formas. por isso, insista na realidade'...
é um sonho.. mas deve ser perseguido..
abçs a todos
Concordo leo... Responsabilidade é essencial... Lidamos não só com o presente, o futuro também.
abraços
O jornalista escreve a história dos vencedores.
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