Pedro Henrique Freire
Enquanto eu lia o novo livro o teólogo-militante-socialista Frei Betto, A Mosca Azul, escutava o Jornal da Globo escarrar notícias sobre a crise do governo Lula. No livro, Betto falava dos cinco F´s do brasileiro: fé, festa, futebol, feijão e farinha. Contava que, nos quatro anos que esteve na prisão, resolveu escrever para parentes e amigos. Suas cartas, tempos mais tarde, viraram livro.
Enquanto isso, o Jornal da Globo apontava os “chegados” do Lula metidos em falcatruas das mais “brabas”. Comecei a refletir sobre o registro dos dois momentos: o da prisão (lá nos tempos idos) e a crise política atual. Em todos os períodos existiam pessoas dispostas a registrar aquilo que acontece no momento em questão. É o papel da imprensa. Frei Betto comentou a história do Brasil da prisão (já que a ditadura não permitia que ele o fizesse fora dela). Nós, jornalistas, escrevemos de fora para dentro.
Não estamos metidos em nada daquilo. Temos um olhar crítico e isento sobre a prisão que sufoca os políticos e os faz decair moralmente. Estamos escrevendo a história, falando a verdade.
Talvez não percebamos, mas o que ocorre hoje pode ter um significado definitivo na formação dos nossos filhos e netos. Eles irão aprender na escola quem é o Lula e seus comparsas. Enquanto tudo isso não passa, vamos registrando, apurando, discutindo, criticando, escrevendo.
Estamos numa posição privilegiada.
O pior é quando registramos tudo de dentro para fora. Dou um exemplo clássico: Maranhão. No momento, o registro político não existe por lá. Explico o motivo:
Os dois principais jornais, concorrentes naturais, defendem grupos políticos opostos. Quando um diz uma coisa o outro publica outra totalmente diferente. É como se eu dissesse: Roseana Sarney lidera as pesquisas de intenção de voto. No outro dia, o concorrente diz que nada daquilo é verdade. São duas versões absurdamente diferentes para a mesma história.
Eu pergunto: qual o registro histórico teremos? Nenhum. Qual a importância do leitor numa circunstância como essa? Nenhuma. Que responsabilidade ética tem o jornalista que faz isso? Nenhuma. Daqui a 10 anos, se resolver consultar os jornais para saber como estava a política do estado, não saberemos o que é verdade ou mentira. Isso é um boicote à necessidade de informação do povo.
É esse o mal de enxergar a notícia de dentro, de se envolver muito com ela. Somos automaticamente influenciados.
Depois que apanhou muito da ditadura, Frei Betto, que não é jornalista, registrou os horrores das inconseqüentes atitudes de milicos irresponsáveis. Foi influenciado por isso. Mas ele não tinha responsabilidade nenhuma com o grande publico: escreveu para parentes e amigos.
Os jornalistas não. Temos a responsabilidade com o envolvimento e a construção crítica de nossos leitores, ouvintes ou telespectadores. Podemos dar-lhes, aos poucos, uma visão diferenciada de qualquer coisa.
Só assim, conseguiremos que a filosofia da maioria do povo brasileiro não continue como a do final dos anos 60: feita de fé, festa, futebol, feijão e farinha.
Trem bala (cover)
Há 9 anos