27 julho 2008

Tietagem

Por Léo Alves

Pense na seguinte situação: você foi escalado para cobrir um evento musical. Nele você vai entrevistar aquela banda (ou cantor) que é fã.

É correto - você como jornalista - pedir autógrafo? Ou pedir para tirar uma foto com seus ídolos?

O jornalismo faz com que tenhamos acesso às celebridades. Certamente no exercício da profissão um dia vamos nos encontrar com uma personalidade que temos admiração, talvez sejamos até fãs.

E esse acesso às personalidades de certa forma explica o fato de o curso de jornalismo ter sido o mais procurado no maior vestibular do país ano passado mesmo sendo a “pior profissão do mundo” como disse em outro post o Jorge Wilstermann*.

Pode parecer uma análise muito simplista da minha parte. Mas muita gente opta pelo jornalismo por causa desse glamour (ou falso glamour) que a profissão oferece.

Já vi inúmeras vezes colegas – depois de uma entrevista – numa sessão de fotos com o entrevistado.

Outra cena comum é tirar fotos com outros jornalistas, principalmente com os globais. O apresentador do Jornal Hoje, Evaristo Costa, esteve em Campina Grande, no São João, e foi solícito com todos os colegas que queriam registrar o momento.

Há quem diga que é totalmente errado, que o jornalista deve manter sua postura. E que ele está perto do ídolo como jornalista e não como fã. Difícil para muita gente é separar as duas coisas.

Existe outra turma de jornalistas que acha normal esse tipo de tietagem. Desde que seja feita depois que o trabalho for concluído.

Outros acham que tirar uma foto é registrar o momento. É uma forma de “provar” que um dia já entrevistou ou esteve perto de uma personalidade. E as fotos podem servir um dia para publicar um livro de memórias, por exemplo.

Talvez não existam respostas definidas para as perguntas que fiz no início deste post. Talvez dependa de cada um.

O certo é que a tietagem também está presente na nossa profissão.


* Jorge Wilstermann não é nenhum dos quatro integrantes deste blog. Ele tem 27 anos, é jornalista e, apesar de tudo, não desiste da pior profissão do mundo.

24 julho 2008

Não tem mais bobo no futebol

Na tarde de sexta-feira, 18 de julho, eu estava no trabalho terminando um material impresso para a minha chefe. Enquanto esperava os outros fazerem seus serviços, deixei uma janela aberta para acompanhar o que seria o último jogo do Brasil no pré-olímpico mundial de basquete. Tomamos uma surra da Alemanha e ficamos de fora da terceira Olímpiada seguida. A grande maioria dos comentaristas e repórteres colocava a culpa no mesmo fator: os seis jogadores que, às vésperas da competição, afirmaram que não defenderiam o escrete canarinho nos Jogos Olímpicos da China.

Até alguns minutos atrás, eu procurava pelos sites especializados norte-americanos notícias sobre a saída de um talentoso jogador da NBA para o Olympiakos, da Grécia. E lia também os analistas dos EUA falando sobre as chances da sua seleção em Pequim. A grande maioria acredita piamente o caminho para o ouro será uma estrada pavimentada e de três pistas. Agora, o que esses três assuntos têm em comum, além do basquete? Como, de uma maneira geral, os jornalistas esportivos, sejam aqui ou nos EUA, são mal informados sobre o que acontece em outras áreas, até mesmo dentro do seu metier.

Começamos com o basquete nacional. Nunca na história desse país a seleção fez tão feio. Pior colocação da história em um mundial (17º lugar em 2006) e novamente fora da Olimpíada. Nas transmissões, um bando de ex-atletas pedindo amor à camisa e reclamando dos seis desfalques - três da NBA, dois que jogam na Europa e um da liga nacional. Ninguém vê a cena maior. O esporte, que já foi o segundo em preferência no Brasil, vive uma série de desmandos que impressiona. Da falta de estrutura nos campeonatos de base ao não pagamento do seguro dos atletas. E todo esse desmando com uma verdadeira fábula de dinheiro público escorrendo pelo ralo.

Chega a ser constrangedor a falta de informação dos colegas ao não questionarem as "sumidades" do esporte. O "mão santa" Oscar, que hoje acho que fez mais mal ao basquete do que bem, até babava de raiva com Nenê, Leandrinho e companhia nas transmissões do canal SporTV. Alberto Bial, irmão do apresentador do BBB, pintava um cenário que não se refletia nas quadras da Grécia, onde rolou o pré-olímpico. Dias depois, vejo no site do Lance uma entrevista com Miguel Angelo da Luz, técnico campeão mundial com a seleção feminina em 1994, onde ele elenca uma série de besteiras e não é contestado pelo repórter setorista de basquete.

No caso dos norte-americanos, um fato solta à vista: a falta de conhecimento de como funciona o resto do mundo. Ok, isso não é lá uma surpresa muito grande. Primeiro, eles se mostram atônitos com o Josh Childress ter assinado contrato com o Olympiakos. Alguns prevêem que o rapaz será um "trendsetter" no futuro. Outros não entendem como ele abandonou a maior marca do basquete mundial para jogar na Grécia. Para a Olímpiada, todos contam com o ouro. E nada mais. Esquecem que, desde o time de 2000, ninguém mais conseguiu jogar pelas regras da FIBA, a FIFA do esporte da bola laranja. Desconsideram que pelo menos quatro seleções brigam pelo ouro - além dos EUA, Argentina, Espanha e Grécia estão no páreo.

O que tudo isso tem a ver com o blog? Simples. Com a proximidade da Olimpíada, a começar às 20h08 de 8/8/2008, veremos nas emissoras de televisão aberta e à cabo uma série de impropérios vociferados pelos colegas que cobrirão o evento. Se no basquete, esporte difundido mundialmente, já vemos várias abobrinhas, imagine na esgrima e no badminton! Para diminuir a falta de conhecimento dos seus jornalistas, o que as emissoras fazem? Contratam uma verdadeira legião de ex-atletas para comentar e dar um aspecto mais profissional na cobertura.

É nesse momento que reencontraremos o Servílio de Oliveira para comentar boxe, a Luísa Parente para falar dos saltos do Diego Hypólito e o Gustavo Borges para dizer se o Tiago Pereira realmente tem alguma chance contra o Michael Phelps, entre outros que agora me fogem. Fica claro que somos o país do futebol, mesmo com o Galvão Bueno dizendo que "não existe mais bobo no futebol". A identificação do torcedor com o esporte bretão não é de responsabilidade direta da imprensa, depende de uma série de fatores. O problema é que vivemos em um país que não possui jornalismo esportivo. Somos, literalmente, a pátria das penas de chuteiras.

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PS.: Daniel, eu não te disse que o Brasil não classificaria para Pequim? Droga, devia ter apostado umas Eisenbahn nisso!

18 julho 2008

Firmeza na verdade

Por Daniel Brito

É muita coincidência que a PM do Rio esteja na berlinda por atirar em inocentes no mesmo momento em que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) faça as vezes de advogado de defesa de um suspeito de ter cometido diversos crimes.

O baiano Daniel Valente Dantas (DVD), Veríssimo escreveu, é o tipo de pessoa que sabe dissimular a irregularidade. Conhece os meandros do sistema e se esconde nas brechas do capitalismo para não ser pego em flagrante, "como o ladrão de galinhas".

É exatamente por esta habilidade, que o STF acredita que DVD pode responder em liberdade pelos crimes dos quais está sendo acusado. Várias qualidades de crime financeiro, espionagem, tentativa de suborno...

Noite sim, noite não, DVD se revezou entre dormir numa cela da Polícia Federal em São Paulo, juntamente com os demais acusados, e numa confortável cama em um luxuoso hotel da capital paulista.

Segundo o ministro do STF, "não foram indicados elementos concretos e individualizados, aptos a demonstrar a necessidade da prisão cautelar, atendo-se, tão-somente, a alusões genéricas".

Argumentos mais que perfeitos para condenar os PMs cariocas pelas incursões irresponsáveis contra civis desarmados e inocentes nas ruas do Rio. Mas onde se lê "prisão cautelar", podemos substituir por "tiroteio às cegas". A sentença do STF caberia, portanto, no caso de condenação da polícia militar.

A imprensa deu tratamento diferente aos dois casos. Taxou, corretamente, como absurdo a ação da PM e parabenizou o chefe do Supremo pela decisão de liberar o banqueiro e especulador DVD.

Tá na cara que ele é o símbolo máximo da elite branca com acesso às prerrogativas da lei. Mas a imprensa precisa do STF e dificilmente faria um questionamento mais incisivo. Os maiores veículos do Brasil têm ações milionárias correndo no Supremo e ninguém é besta de atacar a mais alta corte judicial do país, por mais que ela esteja sendo incoerente.

Sim, porque os casos antigos da PF, igualmente filmados e divulgados, não tiveram tratamento igual por parte do STF. (Tudo bem que as prisões cinematógraficas da PF costumam acabar em pizza.)

O modos operandi da Polícia Federal está sendo usado, agora, para acobertar o restante da investigação dos crimes financeiros atribuídos a DVD. A Operação Satiagraha, que quer dizer firmeza na verdade, em um sânscrito de Gandhi, pode virar peça política para mais uma CPI cheia de bla bla blas e nada deve acontecer.

Em vez de cobrar por justiça, vamos reclamar por ler/ver/ouvir as mesmas notícias sobre a roubalheira no noticiário durante semanas.

Fiquei sabendo, no último final de semana, que um portal vai produzir (se já não produziu e publicou) uma reportagem perguntando:

Por que o povo não vai a casa de DVD, ou para frente da sede da PF, cobrar por justiça da mesma maneira que fizeram com o casal acusado de jogar a própria filha pela janela?

14 julho 2008

Heróis brutos

Por Daniel Brito

A olimpíada tá chegando aí.

Época de eternizar mestres do esporte e transformar anônimos fora-de-série em heróis.

É, tudo bem, faz parte da festa. Bateu recorde, fez uma apresentação memorável, superou seu próprio limite, tem todos os motivos para ter o reconhecimento e destaque pelo feito. Assim ocorre nos outros setores da vida cotidiana.

O que eu realmente lamento é a capacidade que os meios de comuncação têm para criar poderosas redomas míticas em torno de figuras que, pessoalmente, não mereciam tanto.

Tem o caso do tenista que foi interpelado, no auge da fama, por uma garota com 15 a 20 quilos acima da média das mulheres com quem ele andava e se beijava, e não teve um pingo de paciência para recusar um autógrafo e soltou: "Sai daqui, sua gorda."

Hoje ele posa de bom moço por aí, na sombra dos seus feitos esportivos. Quem há de se levantar para reclamar dele por isso?

O nosso Felipinho, da Ferrari, por exemplo, contou que deixou de acreditar na pureza de Ayrton Senna quando ele se negou a dar um autógrafo em seu boné. "Desde esse dia eu atendo a todos os fãs por igual", garante Felipinho.

E o campeão da vela que não tem cerimônia alguma em menosprezar qualquer jornalista? Até o momento em que aparece uma câmera de tv para ele abrir um sorriso.

Esse é o lance. O cara é um excelente jogador de basquete? Bueno, então sua imagem seja refletida na mídia como tal e não como "craque, pai de família, atencioso, brincalhão, bonito, gostoso e cheiroso".

Confesso que tem muito de uma motivação pessoal aqui no texto, pelas diversas vezes que fui desprezado, mal tratado, esquecido, desrespeitado pela classe com a qual costumo lidar.

O cara que é campeão é campeão do mundo e ponto final. Não se discute sua condição. No futebol, 20 anos atrás, o craque de um time jamais era contestado. Jamais. Muitos jogadores pagaram o pato pelo craque.

É o que a gente já escreveu aqui sobre a mania de polarizar as situações, meio como em novela. O bonzinho e o malvado.

Quem perde é um zé mané. Quer exemplo melhor que o de Barbosa, goleiro da copa de 1950? Antes de morrer tiveram que fazer 15 mil reportagens mostrando os feitos dele para que fosse reconhecido em vida.

Esse mini-desabafo não cabe em texto algum no jornal que trabalho, ou trabalhei ou vou trabalhar . Mas eu meio que já aprendi a encarnar a figura do jornalista malígno que povoa a mente dos leigos para conversar com alguns.

Alguém ainda tem dúvida se o esporte aliena ou não?

04 julho 2008

Complexo de FHC

Por Daniel Brito

Os primeiros meses do mandato de Fernando Henrique Cardoso na presidência surpreenderam aqueles que esperava ver um professor de sociologia colocando em prática tudo que pregara em teses, dissertações, aulas, livros e discursos lá pelos idos das décadas de 1960 e 1970.

De um sociólogo, da 'social democracia brasileira', esperava-se um mandato voltado ao social. Mas não foi bem isso o que rolou.

FHC tem seus méritos, mas extingüir a presença do estado em determinados setores, entregá-los (esses setores) ao capital privado, massacrar a classe média e baixa com mais e mais tributos, fizeram os jornalistas questionarem FHC sobre seu passado teórico.

Eis que o ex-presidente respondeu:

"Esqueçam o que eu escrevi".

Não estou aqui para atacar PSDB, nem defender a política assistencial-esmoléu do atual governo, apenas fazendo uma apresentação ao tema principal deste post.

Vamos trazer a história para um contexto muito mais próximo da nossa realidade. Quando FHC disse o que disse, ele colocou na boca dos chefes (no nosso caso, na redação) tudo o que eles precisavam para esquecer que um dia foram repórteres.

É, tudo bem, nem todo editor foi repórter um dia, mas a carreira dele teve um início e nessa época ele tinha um chefe, no mínimo.

Só pode ser esse o motivo pelo qual os chefes perdem o senso de realidade do cotidiano de um repórter para pedir as coisas mais esdrúxulas do mundo.

Para não comprometer muito, vamos transformar nossa história em uma metáfora futebolística.

Seria algo como se um treinador de um time de futebol falasse:

"Quero que você seja o artilheiro do time. Vai aparecer na hora que a gente mais precisar, tá bom? Quando tiver um escanteio, você mete a bola na área e corre para cabecear. Confio em você, garotinho"

O treinador se esquece que para bater BEM o escanteio na área, é preciso treinar por horas, dias; é preciso repetir o movimento centenas de vezes em dia de jogo, inclusive. O pior é que o comandante se esquece, também, que o jogador só pode bater o escanteio ou só pode cabecear. Mesmo que o time todo seja de baixinhos, o cobrador não pode fazer nada a não ser meter a bola na área e torcer para que um anão, companheiro de equipe, suba mais alto que a zaga adversária e complete para as redes.

E se o cobrador inventar de dizer que é humanamente impossível bater e correr para área, ele passará por um belo de um constragimento perante os companheiros porque o treinador, nos tempos em que era jogador, costumava fazer isso muito bem.

Com um detalhe: "naquela não existia o Google, hein?".

E o pobre do jogador tem que ouvir aquilo e consentir, mesmo sabendo que não passa de uma grande e mal feita lorota.

Cinco anos após me formar em jornalismo, 13 anos após desempenhar a função jornalística pela primeira vez, fico pensando se algum dia eu me tornasse treinador eu cometeria esse descalabro de pedir para esquecer tudo que escrevi e daria tais orientações aos meus comandados?

Bueno, não há sinal algum de que serei editor um dia...ops, perdão, "treinador". Nem tenho essa pretensão, by the way.

Mas encerro esse texto com algumas certezas:

- É muito mais fácil ser chefe só para cobrar.
- Não se tem registro de um jogador (a não ser Didi, num de seus filmes duas décadas atrás) que tenha consiguido marcar um gol batendo o corner e chegando na área para cabecear.
- A chefia jamais vai deixar de pedir por esta jogada. Jamais.
- Fui contaminado (em parte) pelo colaborador Jorge Wilstermann.