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25 dezembro 2008

Da vaidade jornalística

Por Daniel Brito

A maior causa de mortes entre os jornalistas é o suicídio. Quando eles se atiram do alto do próprio ego.

Superestimar a profissão e sua posição dentro dela é quase que uma questão de sobrevivência. Aparece mais quem se vende melhor... (talvez por isso a gente mantenha este blog...ou não!!!!!)

Como jornalista só anda junto, não é raro participar de um papo no qual o assunto principal são as proezas pessoais.

Nesta hora, amigo velho, tudo conta. Desde a sua pergunta feita na coletiva de imprensa cuja resposta acabou virando manchete em todos os jornais, até o caso extremo de derrubar ministro, senador, governador por intermédio de seu esforço de apuração/investigação. Já houve até quem me reclamasse que leitores de jornal não prestam atenção no nome de quem assina as matérias.

O orgulho do furo dado marca a vida do jornalista. Independentemente do tamanho. Foi furo? Vira uma longa história para repórteres mais novos ou amigos de bebedeira pós-plantão. Ou posts...

Dia desses, joguei duas iscas e pesquei dois peixes gigantescos.

Entrei no blog do repórter X e comentei, com desdém, de um furo que ele se gabava de ter publicado naquele dia. Coloquei meu nome lá e tudo mais, mas sem sobrenome e meu outro email. Sem me esconder, fui lá e tasquei:

- Olha, X, se esse 'furo' for uma barrigada, você vai se retratar no jornal.

Eu, como jornalista que sofre do mesmo mal, tinha certeza de que eu estava certo e fui lá na casa do cara provocá-lo. Ele respondeu rispidamente:

- E se eu não estiver errado, Daniel, o que você vai fazer?

Dias mais tarde, o tal do furo virou um tremendo de um track e voltei ao blog do camarada, desta vez com "possidônios" (leia-se: pseudônimos), para cobrar a história. Na primeira vez que comentei, X tentou se justificar. Na segunda, não respondeu. Na terceira, nem autorizou a publicação do comentário.

É difícil admitir que errou.

O outro peixe que peguei foi com um repórter do mesmo veículo de X. Era a primeira vez que conversávamos. Atuamos na mesma área e ele rolou a bola para eu contar a história de um único furo que eu dei na vida.

Inteligentemente (às vezes eu calculo bem meus movimentos. Às vezes) citei minha história sem auto-propaganda, mas no meio da minha explicação o concorrente soltou essa:

- Ah, sim, eu dei esse furo...

Quer dizer, a história eu publiquei primeiro. Ele, duas semanas mais tarde. Mas o repórter rival tomou para si o furo e ainda veio me dizer que era furo dele.

Eu vibrei com essa declaração. Era o argumento que faltava atualizar este blog com a tese da vaidade.

Estou para descobrir qual jornalista não sofre deste mal.

24 julho 2008

Não tem mais bobo no futebol

Na tarde de sexta-feira, 18 de julho, eu estava no trabalho terminando um material impresso para a minha chefe. Enquanto esperava os outros fazerem seus serviços, deixei uma janela aberta para acompanhar o que seria o último jogo do Brasil no pré-olímpico mundial de basquete. Tomamos uma surra da Alemanha e ficamos de fora da terceira Olímpiada seguida. A grande maioria dos comentaristas e repórteres colocava a culpa no mesmo fator: os seis jogadores que, às vésperas da competição, afirmaram que não defenderiam o escrete canarinho nos Jogos Olímpicos da China.

Até alguns minutos atrás, eu procurava pelos sites especializados norte-americanos notícias sobre a saída de um talentoso jogador da NBA para o Olympiakos, da Grécia. E lia também os analistas dos EUA falando sobre as chances da sua seleção em Pequim. A grande maioria acredita piamente o caminho para o ouro será uma estrada pavimentada e de três pistas. Agora, o que esses três assuntos têm em comum, além do basquete? Como, de uma maneira geral, os jornalistas esportivos, sejam aqui ou nos EUA, são mal informados sobre o que acontece em outras áreas, até mesmo dentro do seu metier.

Começamos com o basquete nacional. Nunca na história desse país a seleção fez tão feio. Pior colocação da história em um mundial (17º lugar em 2006) e novamente fora da Olimpíada. Nas transmissões, um bando de ex-atletas pedindo amor à camisa e reclamando dos seis desfalques - três da NBA, dois que jogam na Europa e um da liga nacional. Ninguém vê a cena maior. O esporte, que já foi o segundo em preferência no Brasil, vive uma série de desmandos que impressiona. Da falta de estrutura nos campeonatos de base ao não pagamento do seguro dos atletas. E todo esse desmando com uma verdadeira fábula de dinheiro público escorrendo pelo ralo.

Chega a ser constrangedor a falta de informação dos colegas ao não questionarem as "sumidades" do esporte. O "mão santa" Oscar, que hoje acho que fez mais mal ao basquete do que bem, até babava de raiva com Nenê, Leandrinho e companhia nas transmissões do canal SporTV. Alberto Bial, irmão do apresentador do BBB, pintava um cenário que não se refletia nas quadras da Grécia, onde rolou o pré-olímpico. Dias depois, vejo no site do Lance uma entrevista com Miguel Angelo da Luz, técnico campeão mundial com a seleção feminina em 1994, onde ele elenca uma série de besteiras e não é contestado pelo repórter setorista de basquete.

No caso dos norte-americanos, um fato solta à vista: a falta de conhecimento de como funciona o resto do mundo. Ok, isso não é lá uma surpresa muito grande. Primeiro, eles se mostram atônitos com o Josh Childress ter assinado contrato com o Olympiakos. Alguns prevêem que o rapaz será um "trendsetter" no futuro. Outros não entendem como ele abandonou a maior marca do basquete mundial para jogar na Grécia. Para a Olímpiada, todos contam com o ouro. E nada mais. Esquecem que, desde o time de 2000, ninguém mais conseguiu jogar pelas regras da FIBA, a FIFA do esporte da bola laranja. Desconsideram que pelo menos quatro seleções brigam pelo ouro - além dos EUA, Argentina, Espanha e Grécia estão no páreo.

O que tudo isso tem a ver com o blog? Simples. Com a proximidade da Olimpíada, a começar às 20h08 de 8/8/2008, veremos nas emissoras de televisão aberta e à cabo uma série de impropérios vociferados pelos colegas que cobrirão o evento. Se no basquete, esporte difundido mundialmente, já vemos várias abobrinhas, imagine na esgrima e no badminton! Para diminuir a falta de conhecimento dos seus jornalistas, o que as emissoras fazem? Contratam uma verdadeira legião de ex-atletas para comentar e dar um aspecto mais profissional na cobertura.

É nesse momento que reencontraremos o Servílio de Oliveira para comentar boxe, a Luísa Parente para falar dos saltos do Diego Hypólito e o Gustavo Borges para dizer se o Tiago Pereira realmente tem alguma chance contra o Michael Phelps, entre outros que agora me fogem. Fica claro que somos o país do futebol, mesmo com o Galvão Bueno dizendo que "não existe mais bobo no futebol". A identificação do torcedor com o esporte bretão não é de responsabilidade direta da imprensa, depende de uma série de fatores. O problema é que vivemos em um país que não possui jornalismo esportivo. Somos, literalmente, a pátria das penas de chuteiras.

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PS.: Daniel, eu não te disse que o Brasil não classificaria para Pequim? Droga, devia ter apostado umas Eisenbahn nisso!