30 julho 2006

Perguntar é difícil

Léo Alves

A idéia que a maioria das pessoas tem é de que entrevistar é fácil. É só chegar, perguntar e pronto. Tudo resolvido. Como já relatou o grande DB, num post em abril, entrevistar é realmente uma arte. Parece simples, mas não é. Porque perguntar é difícil.

Muitas vezes, no intuíto de querer mostrar que estamos por dentro do assunto, alongamos demais a pergunta. E não fica claro para o entrevistado o que de fato queremos perguntar. A regra (que nem sempre é seguida) é ser objetivo. Evita escutar do entrevistado: “dá pra repetir, não entendi a pergunta”.

As situações são variadas. E por mais experiência que se tenha (o que não é o meu caso) um dia o repórter vai ser pego de “calças curtas”. Não tem jeito. Um dia você fará uma pergunta “imbecil”. Ou melhor, que é considerada “imbecil” pelo entrevistado. E até por alguns colegas de profissão.

Ruim mesmo é ter que prosseguir com uma entrevista depois que o entrevistado responde de forma mal educada. Aí entra o jogo de cintura.

No esporte, mais especificamente no futebol, é onde surgem as perguntas mais “imbecis”. Isso porque o jornalismo esportivo é marginalizado. E a maioria das empresas acha que qualquer repórter pode fazer esporte, que não precisa ser especializado. É a cultura de “que jogador de futebol e técnico são burros”. E não é bem assim. Eles sabem quem entende do “traçado” e quem não entende. Mas isso vou relatar noutro post.

Certa vez ouvi um repórter perguntar ao zagueiro Antônio Carlos (aquele da Seleção, do Palmeiras e que, recentemente, no Juventude, foi envolvido num caso de racismo) porque os jogadores sempre respondiam a mesma coisa. “Porque vocês repórteres sempre fazem a mesma pergunta”, disse. Não se engane existe vida inteligente no futebol.

Minha maior dificuldade é entrevistar crianças. Sinceramente não consigo ser compreendido por elas. Na maioria das vezes o máximo que consigo na primeira resposta é um “é..”. Tento mais uma vez. E tenho um balançado de cabeça como resposta. Tentativas esgotadas.

Um dia desses fui pego de “calças curtas” com uma adulta. Vou resumir a história. Fui fazer uma matéria sobre dois policiais rodoviários que tinham ajudado no parto de uma mulher no meio da estrada. Entrevistei os policiais e segui para o hospital. No meio do caminho eu me perguntava: “o que danado eu vou perguntar a uma mulher que teve um filho no meio da estrada?”. Se alguém souber pode me ajudar porque ainda não descobri. Fiz uma pergunta tão fraca (a resposta foi ainda pior porque foi monossílabica) que a entrevista nem entrou na matéria. Talvez o que correto fosse apenas perguntar só o nome do filho.

O livro “Perguntar Ofende – Perguntas cretinas que os jornalistas não podem fazer (mas fazem)”, de José Nello Marques, não é lá essas coisas de bom. Mas traz alguns exemplos que parecem folclore do jornalismo. Só parecem. É pura realidade. Apesar de não ter gostado muito do livro, algumas histórias são interessantes e engraçadas. E mostram que perguntar não é tão fácil como se imagina.

27 julho 2006

Lula veta projeto

Pedro Henrique Freire*

Os planos da Federação Nacional dos Jornalistas foi jogado na lixeira pelo presidente Lula. Ele vetou, nesta quarta-feira, o projeto que ampliava de 11 para 23 as funções dos profissionais, exigia diploma para fotógrafo, comentarista, locutor, cinegrafista, arquivista ou ilustrador, entre outras categorias. Além disso, criava o ConselhoFederal, tanto nacional quanto regionais.

O projeto foi encampado pela Federação junto ao deputado Pastor Amarildo, envolvido no caso das sanguessugas. O texto, aliás, ganhou areprovação da maioria da categoria, como a ANJ (Associação Nacionaldos Jornais), Aberje (Associação Brasileira de ComunicaçãoEmpresarial) e Conferp (Conselho Federal dos Profissionais de RelaçõesPúblicas). Em cartas enviadas ao presidente, os órgãos pediram o veto total do projeto.

O jornalista Alberto Dines, comandante do Observatório da Imprensa,disse o seguinte sobre o projeto no site do programa:

"A coisa toda era tão primária, mas tão primária, que não merecia outro desfecho senão a lixeira legislativa. O corporativismo é inimigo do bom jornalismo. Seja o corporativismo empresarial, dos patrões, das empresas, seja o corporativismo dos profissionais, ambos são igualmente nocivos. Esta é uma profissão que não pode conviver com governos, nem pode conviver com o poder. Qualquer poder. O jornalismo é intrinsecamente um contrapoder, caso contrário não será independente, não será isento e não merecerá a confiança da sociedade".

Nelson Motta, jornalista há 40 anos trabalhando com registro de fotógrafo, atacou diretamente a necessidade de diploma para exercer aprofissão.

"Com todo respeito, companheiros, é ridículo. Em plena era da internet, quando milhares de sites independentes fazem ótimo jornalismo e têm milhões de acessos diários, sem nenhuma forma de controle ou autorização, tentar limitar o exercício da opinião é tão inviável como voltar ao século passado", disse.

No site da Fenaj, entusiasta do projeto, há um pedido de mobilizaçãoda categoria em favor do PL.

"A reação patronal contrária ao PLC 79/04 é expressão cabal de que não lhes interessa ter a profissão regulamentada, pois assim terão mais dificuldades de explorar os jornalistas e impor suas vontades", diz o texto.

Em outro trecho, justifica a ampliação das funções que precisam de diploma:

"Este projeto inclui, na legislação já existente, funções privativas de jornalistas como a de assessoria de imprensa e corrige distorções que vêm prejudicando funções como as de repórter fotográfico, repórter cinematográfico, diagramador e ilustrador, que por não terem a exigência de curso de nível superior, sempre colocaram tais profissionais em condições de trabalho e salários mais precários".

No final, ataca quem quis colar a imagem do projeto ao deputado sanguessuga.

"Uma das tentativas de desqualificação do projeto mais absurdas é a identificação do signatário, o deputado Pastor Amarildo(PSC/TO), como um dos acusados de envolvimento com a chamada 'Máfiados Sanguessugas'. Primeiro é preciso esclarecer que na época da apresentação do projeto tais denúncias não existiam. E em segundo lugar, o deputado é que procurou a FENAJ, ainda na gestão da ex-presidente da Federação, Beth Costa, propondo-se a reapresentar o projeto originalmente encaminhado em 1989 pela deputada CristinaTavares (PMDB/PE) – já falecida – e posteriormente reapresentado pelo deputado Marcelo Barbieri (PMDB/SP), em 1995".

O racha entre os profissionais é visível. Mesmo assim, a Fenaj fala em nome de toda a categoria. Confira a íntegra da carta enviada ao presidente Lula.

A carta

Nós, jornalistas brasileiros, solicitamos a imediata sanção do projeto de lei 079/2004, que atualiza as funções privativas dos jornalistas e acaba de ser aprovado no Congresso. Trata-se de uma antiga reivindicação da categoria no sentido de avançar em sua organização e atualizar sua regulamentação profissional.

O projeto é resultado de um longo processo de discussão e luta daFENAJ, dos Sindicatos de Jornalistas de todo o país e dos profissionais que se organizam em torno deles. Passou por todas as instâncias de debates e deliberações destas entidades. Também foi democrática e publicamente discutido na Câmara e no Senado, recebendo alterações e emendas dos parlamentares.

Por isso, solicitamos a sanção, respeitando a decisão do Congresso e odireito e o anseio de organização de toda uma categoria que tantosserviços tem prestado ao Brasil e seu povo.

*Pedro Henrique Freire é repórter do CorreioWeb e está quase lá...

25 julho 2006

Números: os donos da riqueza

Pedro Henrique Freire*

O poder dos números. É exatamente nele que o presidente Lula deposita as fichas da reeleição.

Juros
bolsa família
empregos
PIB
inflação e outras coisas...

Eles serão importantes na campanha como são para o jornalismo. Fazendo matérias de economia – onde se concentram, digamos, 90% do quinhão numérico do universo da hard news – é fácil escutar a máxima:

“Jornalista adora números”

É um comentário clássico. Também, pudera. Nós adoramos mesmo. Eu, pelo menos, sou fã incondicional. Meu desafio nos dias atuais é enfiar números em matéria de tudo quando é editoria.

Para o jornal O IMPARCIAL (MA), por exemplo, escrevo muitas histórias de política. Por incrível que pareça, não foram declarações bombásticas que me renderam matérias. Foram os números.

Eis alguns exemplos:

"Os 680 candidatos do Maranhão gastarão R$ 462,76 milhões para garantir vaga no governo, no Senado Federal, na Câmara dos Deputados ou na Assembléia Legislativa. O número representa 2,3% do total de despesas que os 19,1 mil candidatos do Brasil terão nas eleições deste ano, equivalente a R$ 19,79 bilhões. Com esse numerário, o Maranhão é a 13ª unidade da federação que mais reservou dinheiro para a eleição em 2006."
(Matéria publicada no dia 23/07/2006)

Com números, a matéria ganha ares de verdade. Não somos nós que estamos dizendo, são eles (os números). Até mesmo em matérias de cultura, eles são importantes. Eis o que coloquei no final da notícia sobre o Prêmio Tim de Música, escrito para o CorreioWeb:

"A peneira que findou nos 104 indicados ao prêmio incluiu 700 CDs e 104 DVDs inscritos. A organização leva em consideração a produção fonográfica brasileira de 2005. Nesta noite, serão conhecidos 35 vencedores nas 16 categorias (...)"
(Matéria publicada em 25/07/2006)

Ou então no meio da matéria sobre denúncia de fraude em ambulâncias (as tais sanguessugas) no interior do Maranhão:

"Dos 119 municípios de vários estados, ficaram comprovadas irregularidades em 77. Em 42 – entre eles Jatobá – há indícios de fraude na compra de unidades móveis de saúde, mas as investigações ainda não foram concluídas. A apuração da Controladoria é realizada por meio de sorteios de municípios. Até agora, a CGU liberou apenas relatórios de Bernardo do Mearim e Jatobá. Cada um adquiriu uma ambulância. O primeiro, em 2003. O segundo, em 2001. O recurso usado na compra das duas unidades móveis de saúde chega a R$ 101,1 mil."
(Matéria publicada em 12/07/2006)

Nesta matéria em especial, nos seus 11 parágrafos (cerca de 70 linhas) não deixei de colocar números em nenhum deles. Claro que a razão da notícia existir eram os números. Mesmo assim, é possível compreender o poder deles. O melhor de tudo é que a informação numérica vem, sobretudo, de provas documentais, que são incontestáveis tanto para o leitor quanto para a fonte. Rechear a matéria com números é enriquecer o texto, dar-lhe legitimidade.

Diria mais: é autenticá-lo!

Não é só
Como já perceberam, os números podem ser lindos e maravilhosos dentro da matéria. Mas como frisou bem certa vez o meu amigo DB, eles sozinhos endurecem o texto. O ideal é intercalar a informação numérica com questões mais humanas. Seja uma declaração ou um personagem atingido por aquela estatística.

Um bom exemplo é o que faz o Jornal Nacional. Toda vez que o IBGE divulga o resultado daquelas pesquisas que duraram anos para serem concluídas, Bonner e sua turma fazem matéria e sempre começam com um personagem. A partir da história da “Fulana Beltrana de Sicrano de Tal”, eles desenrolam os dados e se fazem entender da maneira mais simples possível.

Esse é o segredo.

Fazer dos números uma coisa simples, inteligível. Como já perceberam, eles (os números) são um dos meus pratos preferidos dentro do jornalismo.

O meu eterno desafio é mastigá-los e fazer os leitores digerí-los bem...

*Pedro está na semana pré-natal para se tornar um Filho da Pauta

23 julho 2006

Falsa realidade

Daniel Brito

Caso Waldomiro. Mensalão. Sanguessuga.

Esses são os três escândalos de corrupção do governo Lula que os deputados e senadores estão "investigando" por intermédio de CPIs.

Coloquei o verbo inverstigar entre aspas porque aqueles senhores que nós empregamos a cada quatro anos nas eleições federais não passam de enganadores. Eles não descobrem nada, não sabem de nada e não fazem nada além de uma encenação para dar uma resposta a quem precisa dela.

Não pensava em escrever um desabafo, mas estou achando que este texto vai acabar se tornando isso mesmo.

Vamos resumir aqui os três casos citados na primeira linha deste post:

Caso Waldomiro
Um assessor de José Dirceu é filmado cobrando dinheiro de donos de bingo no Rio de Janeiro e Brasília para ser usado nas campanhas do PT nas duas cidades, em 2002.

Mensalão
Acusado de comandar um pequeno grupo de corruptores na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), o deputado Roberto Jefferson denuncia a existência de uma mesada para os deputados dos partidos pequenos votarem a favor das emendas do governo no Congresso.

Sanguessugas
Mais de 60 deputados são acusados de vender ambulâncias superfaturadas para prefeituras do interior (principalmente do Nordeste).

Todas estas histórias surgiram primeiro na imprensa para depois ser "investigada" pelos deputados. Tudo bem, o papel da imprensa é realmente denunciar.

Mas, me explica uma coisa, será que ninguém no Congresso não sabia da existência de nenhum desses escandâlos antes de estourar nas páginas dos jornais???

Claro que sabia.

Algum traidor-do-movimento-punk no Congresso passou na surdina a informação para a imprensa, que detonou as histórias.

E se nós vivéssemos na China, onde todos os jornais têm como sócio o governo chinês?

Não existiria CPI no Brasil. Denúncias de escândalo?

Tá louco...

Lá, pelo menos, o crescimento do país é visto a olho nu.

Nas CPIs instauradas para apurar todos os três escândalos não foi provado nada mais do que os jornais denunciaram. O caso Waldomiro, por exemplo. A Revista Época que detonou a história. Interrogaram quinze mil pessoas citadas nas fitas e ninguém foi considerado culpado. Só "o pobre" do Waldomiro Diniz mesmo, que se deixou ser pego.

No Mensalão, a Folha de S. Paulo publicou em primeira mão. Deste caso, surgiram vários outros. Chegaram até a derrubar o ministro da Fazendo porque descobriram um caseiro, que o denunciou.

Quem descobriu o caseiro?

O jornal Estado de São Paulo.

No caso dos sanguessugas, o Correio Braziliense levou à tona a roubalheira de deputados do (mais) baixo clero e até o senador-sabonete Ney Suassuna, da Paraíba. Ele escapa de todas, mesmo que todo mundo saiba que ele está envolvido. (Cadê um inimigo político para denunciá-lo agora??)

Se forem criadas 15 mil novas CPIs, nada de novo ou extraordinário será descoberto. Os deputados e senadores, mesmo que sejam opositores uns dos outros, vivem num jogo de cumadre. Atacando pelas costas, entregando dossiês aos jornalistas, porque poucos (ou nenhum) tem a disposição de tomar o microfone para contar qualquer uma das coisas que tenham sido relatadas aqui.

O que tem de diferente do governo Lula para os anteriores?

A imprensa.

É ela quem denuncia, quem apura e, principalmente, quem julga.

19 julho 2006

Malditos personagens

Daniel Brito

Jornalista adora personagem. Uma história curiosa, um lance fora do comum, um caso diferente. Tudo, para os jornalistas de Brasília, é matéria. E merece destaque.

Sabe aquelas materinhas típicas do Fantástico, que mostram historinhas interessantes de pessoas comum? Por exemplo, domingo passado eles (a galera do Fantástico) abriram uma discussão sobre ciúmes. Para personalizar o assunto e não deixar apenas psicólogos falando, eles (a galera do Fantástico) encontraram dois casais. Um ciumento e outro não.

A partir da história deles, a matéria se desenrolou.

Pois bem. Serve para ajudar as pessoas a se identificarem com a reportagem. Principalmente nas editorias de economia, até cidades mesmo. Aqui em Brasília é assim.

Matéria sobre CPMF: encontrar um personagem que reclame e outro que elogie a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira.

Matéria sobre a queda do IPC: encontrar pessoas que estão comemorando o longo período de compras por causa da baixa no Índice de Preços para o Consumidor.

Algumas vezes pode ser legal ler essas histórias, mas fazê-las ou encontrar os personagens ideais é um problema grande. Sempre cai nas costas do repórter.

Com alguma freqüência, eu tenho recebido essa pauta.

Por exemplo: maratona de revezamento de 100KMs. Um personagem tem que ter história louca, tipo um velhote que corre muito. Uma mulher grávida, um deficiente físico.

Domingo passado recebi essa missão de novo:

"Fazer um 'duelo de torcidas' do Vasco e do Flamengo".

Tive sorte desta vez.

Arrumei um casal de amigos meus que é vascaíno e flamenguista. A irmã da flamenguista também é flamenguista e o namorado dela é também é vascaíno. Deu tão certo, que eles foram a capa do jornal de segunda-feira e destaque nas páginas internas do caderno de esportes.

No outro dia, pessoas que não conhecem casal de amigos meus me ligaram reclamando da pauta. O casal de amigos meus gostou. As pessoas que conhecem eles também.

Contar histórias de torcedores para torcedores não é muito interessante. A repórter Cida Barbosa, que cobriu a Copa do Mundo para o Correio Braziliense, tinha por obrigação contar histórias dos torcedores brasileiros na Alemanha.

Acho que poucas pessoas leram, a não ser os chefes.

Me lembro quando ainda tinha 13 anos, comecei a assistir e me vestir como jogador de basquete da NBA. O então repórter do Correio Braziliense Paulo Rossi -- hoje, meu editor -- me entrevistou. Contei porque estava me vestindo e vendo jogos de basquete. Meu irmão também. Fomos o lide do texto dele.

(Até hoje, tiro onda com Rossi dizendo que ele escreveu os nomes dos jogadores que citei tudo errado. É brincadeira, mas é verdade)

No jornalismo da Paraíba, onde me formei e trabalhei por seis anos, os "pauteiros" (ô nome feio!) não costumam utilizar esse recurso. É só release e ponto final. Meu amigo Da Silva tá aí para provar isso. Manu, nossa leitora assídua, também.

Até o Grande Predo pode contar que o que acontece no Maranhão. Não acredito que seja diferente da pequenina, porém heróica, Paraíba.

Fazer jornais só por relesases é muito pior do que contar histórias de personagens, disso eu não tenho dúvida. Só gostaria de encontrar outra maneira de escrever reportagens sem ter que depender tanto do (quase) já batido recurso dos personagens.

Malditos personagens.

15 julho 2006

Não é diversão. Nem turismo.

Léo Alves

Não sei se algum colega já ouviu a frase: “a vida de jornalista é muita boa. Só faz entrevistar gente famosa e viajar muito”. Por incrível que pareça essa é a visão que muita gente tem da nossa profissão. Na cobertura do São de João de Campina Grande ouvi comentários que seguiam esse pensamento. Isso pelo fato de ter entrevistado alguns famosos e outros nem tão famosos assim. Aliás, só entre nós, alguns que eu nem sabia que existiam.

O fato de estar fazendo a matéria de um show é interpretada (por muita gente) como divertimento. Tudo bem que é diferente de uma matéria policial, por exemplo, mas não dá para o repórter se deslumbrar com o show e esquecer do relato jornalístico. É importante nunca esquecer que o repórter está ali para colher informações para sua matéria. E não como um fã.

Na viagem de uma hora e meia até o Distrito de Galante no trem do forró uma cearense me disse que era muito boa a nossa vida “porque a gente estava ali só se divertindo”. Só fiz balançar a cabeça numa resposta negativa. “Não dá pra se divertir?”, ainda perguntou. Quem está no batente sabe que não. Às vezes é difícil até fazer a matéria. No caso do trem é apertado e tem muita gente dançando (a maioria cheia de cachaça). O repórter leva é muito empurrão.

Nas viagens à trabalho somos confundidos, por alguns, com “turistas”. Pensam que a viagem é para se divertir. Fico pensando nos colegas que são mandados para lugares distantes para fazer uma matéria. Acredito que não dá para curtir muito o lugar, por mais bonito que seja. Comparo com minhas viagens às cidades paraibanas. Só dá para se concentrar na matéria. Quase ninguém fala nisso. Mas a responsabilidade do repórter é grande. Já imaginou viajar numseiquantos quilômetros e não voltar com uma boa matéria?

Fiquei pensando nos colegas enviados à Copa do Mundo. Principalmente os de jornais impressos. Aqueles que tiveram que se virar sozinho para fazer suas pautas e matérias. Acredito que seja por isso que só cobrem eventos internacionais os mais experientes. Eles já estão “tarimbados” e nunca vão (pelo menos é o que se espera deles) se encantar com o lugar e esquecer da notícia.

Porém é preciso ter sensibilidade para observar ao redor, pois “esse redor” também pode render uma boa matéria. A diferença é que a visão tem que se jornalística. E não turística.

12 julho 2006

Eleições sem risco

Pedro Henrique Freire*

Época de eleição é sempre um Deus-nos-acuda. O "bicho" começa a pegar na preparação para as filiações dos partidos. Depois de dada a largada oficial para os candidatos, a coisa piora. O melhor, portanto, é estar preparar. Nos últimos dias, os repórteres dos veículos dos Associados Centro-Oeste (Aqui DF, Correio Braziliense, CorreioWeb e as rádios) que irão cobrir eleições, foram bombardeados com informaçõesimportantes que ajudarão na cobertura.

O lema é: evite processos judiciais.
A recomendação é: na dúvida, não publique, não corra riscos.

Como assim?

Ora, apesar das maneiras "peculiares" dos juízes e ministros interpretarem alguma denúncia, a maioria, penso eu, tenta ser justo. Mas ninguém sabe que fim leva um processo que tem, em média, somente um dia para ser julgado.

Por isso, a recomendação é que a cobertura de política não entre no jogo político. Evite denúncias sem fundamento de um candidato contra o outro, tenha feeling para perceber quando o político tenta usar o jornal como palanque e, acima de tudo, se atenha às propostas. Só as propostas!

Espaços
Na tentativa de buscar a imparcialidade (morta antes mesmo de Gutemberg inventar a prensa), o Correio Braziliense dará o mesmo espaço para os principais candidatos. A lógica segue a mesma do tempo de televisão.

Na telinha funciona assim: quanto maior a representatividade do partido naquela eleição, mais minutos ele ganha.

No jornal será assim: quem estiver melhor nas pesquisas ganhará maior espaço. Digamos: uma página por dia para Lula, Alckmin e Heloísa Helena. Quem estiver com 1%, terá, no máximo, sua agenda ressaltada em algumas linhas.

Acredito que, para o leitor-eleitor, é um belo exemplo e também dará segurança ao jornal caso candidatos que estão no páreo queiram reivindicar o mesmo espaço. Mas essa igualdade impressa nas páginas do jornal tem seus contras.

Se um candidato produzir notícias e o outro não?
O que será colocado naquela página?
Amenidades?

Outro caso: se o espaço reservadopara um receber matérias propositivas e o outro matérias denunciativas, numa clara demonstração de parcialidade?

Reservar tamanho de jornal antes da notícia aparecer é uma medida, no mínimo, polêmica.

Na reunião, os advogados que estavam nos municiando com as informações elogiaram a medida. Mas ressalvaram: não é preciso fazer isso. Os jornais têm liberdade garantida, pois não precisam de concessão pública para existir.

Bom, mas o Correio fará. No entanto, o diretor de redação do jornal disse que agirá também com o bom senso jornalístico. Isto é, espera-se que a notícia fique em primeiro plano.

Veremos!

Pode ser que eu mude de idéia. Mas, no momento, acho que jornalismo é um mar e nós, repórteres, navegamos nele. Ou melhor, somos levados por ele. Então, como mudar a rota do barco se não sabemos de onde vem a chuva? Como reservar espaço para matérias que nem mesmo sabemos se é notícia?

Lembra da recomendação dos advogados?

Pois é, na dúvida, evite correr riscos.

É o que o Correio fará.

* Pedro Henrique Freire está a um passo do paraíso

11 julho 2006

"Notícia na internet dura 36h"

Da Agência Estado

SÃO PAULO - Esta notícia só afetará o grande público por um prazo aproximado de 36 horas após sua publicação. Esta foi a conclusão de uma análise conduzida por pesquisadores dos EUA e da Hungria, que estudaram a dinâmica do acesso a notícias em portais na internet.

Algumas conclusões da análise seguem o senso comum, como o fato do pico de acesso à notícia coincidir com um período de poucas horas após sua publicação, o que é seguido de um declínio crescente, para até um dia e meio após a matéria ter sido veiculada.

De acordo com a análise, o padrão de visitação para uma notícia decai de forma previsível, por conta da natureza heterogênea dos padrões de navegação de usuários individuais. Traduzindo: como os usuários nem sempre visitam o portal quando a notícia está no ar, ou em evidência, por ser nova, eles podem perder conteúdo de seu interesse.

O argumento reforçaria a necessidade de criar newsletters segmentadas por assunto, bem como canais RSS mais eficientes, que entregariam conteúdo adequado ao perfil de cada usuário, potencializando a visualização de uma notícia.

Para chegar a estas conclusões, os pesquisadores analisaram o histórico de visitação de 250 mil usuários de um portal de notícias húngaro ao longo de um mês.

O estudo completo pode ser adquirido ou visualizado no site científico Physical Reveiw E.

10 julho 2006

Tino "Tudo-Bem" Marcos

A Globo encerrou bem sua cobertura da Seleção Brasileira na Copa. A entrevista de Roberto Carlos para Tino "Tudo-Bem" Marcos no Fantástico de domingo foi a cereja do bolo global.

Antes mesmo de a Copa começar, a Globo e Roberto Carlos estavam na berlinda. A emissora porque deitava e rolava na cobertura diária da Seleção e o lateral por ser constetado até mesmo dentro do grupo de jogadores que representavam o Brasil na Alemanha.

A primeira vez que vi a Globo pedir desculpa para alguém por ter errado foi nesta Copa. O Jornal Nacional se desculpou por ter "lido" os lábios de Parreira nos primeiros jogos e concordou que isso era "invasão da privacidade" do treinador. Só uma coisa explica isso: o acesso livre dos repórteres-celebridades aos quartos e até aos carros dos jogadores. ´

Isso NÃO é invasão de privacidade?

A entrevista de Roberto Carlos foi mais uma prova do comprometimento da Globo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). De repente, eles nem tinham a intenção de agradar à CBF, mas livrar a barra de uma camaradinha deles: Roberto Carlos.

Tino "Tudo-Bem" Marcos foi até Madrid, onde o lateral-mascarado mora há quase dez anos, fazer a pergunta que todos os brasileiros queiram fazer:

- Por que ele não marcou Henry no lance do gol?
Resposta de Roberto Carlos:
- A minha obrigação era não fazer nada. Até pela minha estatura, não posso marcar um adversário de 1,90m.

Aí entra a figura de Tino "Tudo-Bem" Marcos. Qualquer outro repórter emendaria a pergunta:

- De quem era a obrigação de marcar Henry, então?

Se não me engano, o lateral-mascarado ainda disse que a marcação dentro da área dependia dos zagueiros e bola na pequena área deveria ser do goleiro. Esta frase foi dita em outro contexto, e o que é pior, tranferindo a responsabilidade do gol que tirou o Brasil da Copa para os companheiros que estavam no agarra-agarra dentro da área com os grandalhões franceses no fatídico lance.

Tino "Tudo-Bem" Marcos seguiu o texto normalmente e fingiu que Roberto Carlos já tinha dado a resposta que todos gostariam de saber.

Honestamente acho que colocar naquele lance toda a responsabilidade pela saída precoce da Seleção é coisa de gente sem argumento. Aquele gol de Henry é o símbolo da Seleção Brasileira neste Mundial: preguiçosa, irresponsável, acomodada e alheia aos adversários. Henry poderia até fazer aquele gol. Mas daí até a Seleção dar apenas um chute na direção do gol em 90 minutos é outra história.

Para nosso consolo, em 2010, Roberto Carlos não vestirá a camisa amarela. Por outro lado, a Globo continuará com seu monopólio...

09 julho 2006

Questão de estilo

Daniel Brito

De Roberto Pompeu de Toledo nunca li nada além da tradicional coluna na última página da revista Veja, mas me impressionei com um livro que acaba de lançar. Acho que o nome do livro é Leda, baseado numa entrevista que ele leu de um biógrafo inglês no jornal The Guardian, se não me engano.

Qualquer coisa desse tipo.

Na madrugada seguinte à derrota da Seleção Brasileira para a França na Copa, fiquei sem sono e assisti a entrevista de Pompeu na GloboNews sobre esse livro. Fiquei imaginando o quão difícil deve ser para um jornalista criar uma história que caiba em 500 páginas, por exemplo.

O pior é que nesse livro, o protagonista é um escritor e escreve um livro sobre algum louco lá. O engraçado nesta história é que, por algum erro de impressão, o primeiro capítulo do livro que o personagem principal escreve dentro do livro de Pompeu sai após o segundo capítulo.

O primeiro capítulo virou o segundo. Este, o primeiro.

O protagonista, que se chama numseidasquantas Dopolobo, fica revoltado com o erro, mas nos dias seguintes ao lançamento do livro vê comentários positivos à jogada de "trocar os capítulos".

No final das contas, ele acertou errando.

Curioso, né? Não está no livro do livro de Pompeu, mas de repente, se o tal Dopolobo tentasse fazer essa "brincadeirinha", não teria dado certo.

É uma questão de estilo.

Eu, por exemplo, admiro pessoas que conseguem amarrar o texto do primeiro ao último parágrafo e aquelas que sabem ir e voltar no tempo sem perder a linha de raciocínio.

Esta segunda parte é muito difícil, por isso nem me atrevo muito. Por outro lado, todos os dias tento fazer algo parecido com esse lance de começar com um assunto, contar a história principal, e encerrar com o mesmo assunto que começou .

Senão, vejamos:

Correio Braziliense
Quarta-feira, dia 4 de julho

Conversar com Michele Valensise, embaixador da Itália no Brasil, após o jogo da Azzurra é uma tarefa complicada. Grudado ao telefone celular, ele quase não parou para conversar com os jornalistas ao final da semifinal de ontem. Nem no intervalo da partida, quando o placar ainda apontava 0 x 0, Valensise quis dar entrevistas. O jogo que garantiu a vaga italiana para mais uma decisão de copa do mundo foi acompanhada de forma curiosa na embaixada, na Asa Sul.

Cinqüenta pessoas reuniram-se, em silêncio, na Sala Nervi. Um grande salão escuro no térreo da bonita sede da representação italiana no país, que serve como cinema em outras ocasiões. A manifestação em Brasília resumiu-se a aplausos nas jogadas mais emocionantes contra os alemães. Durante 118 minutos, a torcida italiana ficou quieta diante do telão. Nada dos tradicionais gritos de guerra, cânticos ou palavras de incentivo.

Apesar de a partida ter sido eletrizante, a semifinal de ontem chegou a dar um pouco de sono para quem a acompanhou no escuro e no silêncio. O protocolo foi quebrado por Guido Grattapaglia, funcionário da embaixada. No momento em que o volante Pirlo recebeu a bola na entrada da área, antes dos 13 minutos do segundo tempo da prorrogação, Grattapaglia puxou o coro de “Itália! Itália!”.

Alguns segundos se passaram até que o lateral-esquerdo Fabio Grosso recebesse um passe dentro da área e fizesse o primeiro gol do jogo. Enquanto um bandeirão nas cores vermelho, verde e branco era desenrolada por um dos filhos de Grattapaglia, Alessandro Del Piero fechava o caixão alemão. “A colônia italiana no Brasil está em festa, mas aqui temos que ser reservados por motivos óbvios”, explicou Guido Grattapaglia, morador de Brasília há 32 anos.
Otimismo
Abraços, comentários sobre a atuação da Azzurra, planos para assistir a final no domingo de novo no salão escuro da embaixada. Tudo muito discreto, bem diferente do que acontecia em Roma naquele momento. “Liguei para meus amigos em Roma, estão todos nas praças, bêbados, comemorando a vitória”, contou Pietro Sferra Carini, secretário comercial da embaixada.

Diferentemente das duas copas anteriores,quando a Itália caiu antes de chegar às semifinais, os torcedores do time de Marcello Lippi previam uma boa campanha na Alemanha. “Em 2002 não sentia a Itália tão forte como neste ano”, comparou Gianfranco Favara, que está no Brasil há quatro anos. “Nosso futebol mistura arte com concreto. Temos uma zaga forte, um goleiro excelente e um contra-ataque muito rápido”,exemplificou Edoardo Lando, torcedor da Juventus de Turim.

Com um largo sorriso, o professor de italiano Giuseppe Benedini lembrou que sua seleção nunca conquista as coisas com facilidade. “A Itália gosta de um drama”, brincou, sobre a partida de ontem. Ele aproveitou para alfinetar os alemães e chamá-los de freguês em legítimo italiano. “Somos a bestia nera da Seleção Alemã”, provocou Benedini. Em 29 duelos, esta foi a 14ª vitória da Azzurra sobre os germânicos, a segunda só neste ano.

Quando, finalmente, o telefone celular deu uma trégua, o embaixador Michele Valensise opinou sobre a Seleção de Lippi.“Sempre tivemos valores individuais, desta vez não é diferente. Mas, agora, eles jogam de forma conjunta. Um ajuda ao outro”, definiu.

Pode não parecer, mas tentei amarrar o primeiro parágrafo ao último. Ninguém veio reclamar que faltou informação ao primeiro parágrafo ou que coloquei a informação inicial no último parágrafo. Coisa que os jornalistas iniciantes, como eu, costumam fazer.

Há uns quatro meses escrevi alguma coisa parecida com isso que tento me especializar e acho que fui mal interpretado. Olha só:

Primeiro parágrafo:

A conquista de uma medalha no Mundial de piscina curta (25m), que começa na quarta-feira, em Xangai, na China, renderá à brasiliense Rebeca Gusmão um jantar inesquecível. Se quebrar o tabu de 33 anos sem uma brasileira subir ao pódio em mundiais— a primeira competição aconteceu em 1973 —, a única representante do Distrito Federal na Ásia promete traçar um prato de gafanhotos para comemorar. A iguaria é um dos mil pratos típicos da cozinha chinesa. Ela garante que não é exagero. Já está prometido. Basta nadar de igual para igual com a recordista mundial dos 50m nado livre em piscina de 25m, a sueca Therese Alshammar, e a australiana Lisbeth Lenton, medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas.

O último parágrafo:

Até hoje, nenhuma nadadora do país faturou medalhas em campeonatos mundiais, seja em piscina curta ou não. “O Brasil voltará com seis, sete medalhas da China. Se eu trouxer uma, como prato de gafanhoto, carne de cachorro, papagaio, o que tiver paracomemorar”, finalizou Rebeca Gusmão.


Pelo que soube dos jornalistas concorrentes (que não costumam elogiar), esse meu texto foi taxado como de "iniciante". Ou seja, lide-no-pé-do-texto.

Quem sabe lendo o livro de Roberto Pompeu de Toledo eu não consiga amarrar as histórias no meus futuros textos?

(Amarrei?)

07 julho 2006

Das aspas

Daniel Brito

A coisa que mais me impressionou no Correio Braziliense, na primeira vez que entrei lá para escrever um texto, foram as aspas.

Em agosto de 2002 fui passar as férias no CB. Era repórter da TV Borborema, em Campina Grande-PB, estudante de jornalismo da UEPB, e queria preparar terreno para uma contratação após o curso.

Passei uns 30 dias dentro do CB enchendo o saco de todo mundo, conversando, conhecendo, trabalhando e me apresentando. A primeira reportagem fiz foi no Brasiliense. Apurei uma história lá que o atacante Túlio (aquele mesmo, campeão brasileiro em 1995 com o Botafogo) não foi ao primeiro treino no time porque ficou no meio da rua sem gasolina.

Colhi o que tive oportunidade de colher com as pessoas envolvidas na história, menos Túlio, com quem não consegui conversar. Não anotei exatamente a frase que as pessoas diziam para mim. Anotei tópicos. Tipo:

- Faltou gasolina no carro de Tulio, porque está chegando de viagem de Goiânia, e só treinará aqui amanhã

Anotei algo como:

"Faltou gasolina"
"Viagem goiânia"
"treino amanhã"

Na hora de escrever a matéria, escrevi qualquer frase lá que encaixasse esses três tópicos e estava tudo resolvido.

Achei estranho, porque todo mundo me perguntou se era exatamente daquela maneira que fulano de tal que eu havia entrevistado tinha falado. Quando trabalhava na Paraíba, não fazia muita questão de reproduzir a frase ipsis literis (tá certo isso?).

Nesse caso de Túlio, acho que não errei!

Essa foi só uma pequena história, porque não quero me prolongar muito (mas acho que não vou conseguir).

Hoje, exatamente quatro anos depois das férias na redação do Correio, tenho a ligeira impressão que não aprendi direito a lição.

Quarta-feira passada, fui à embaixada da França fazer a cobertura do jogo contra Portugal. Então estava toda colônia francesa de Brasília reunida e aquela conversa furada toda de Copa do Mundo. Entre as pessoas, estava um embaixador brasileiro torcendo para França.

Achei estranho, porque é difícil encontrar algum brasileiro torcendo para a França nesta Copa (nem a minha irmã, que namora um francês). Na conversa ele me explicou que morou na França e que gosta muito de lá. No meio da comemoração do resultado era difícil anotar a frase da maneira que o camarada dizia. Então, adotei o estilo "tópicos".

Ele falou uma frase interessante que eu anotei pela metade em meu bloquinho e saiu assim na edição de quinta-feira no Correio:

"Aposto que se o Brasil jogasse contra Cuba, José Dirceu não torceria para a Seleção".

No dia seguinte, o danado do embaixador me liga revoltado. Segundo ele, disse que ele estava torcendo contra o Brasil e fez questão de que o Correio Braziliense publicasse um "erramos". Na ediçao de hoje, sexta, saiu o seguinte "erramos":

Na matéria “Tempo de fazer amigos” (6/7, pág. 35), saiu errada uma frase do embaixador brasileiro Fernandes Vieira Guilbaud, quando defendia sua preferência pela França no jogo contra Portugal, pelas semifinais da Copa do Mundo. O correto é: “Se Portugal enfrentasse Cuba, aposto que José Dirceu não torceria para os portugueses”.

Achei que o embaixador estava sendo estrela em reclamar de uma coisa dessas, mas depois percebi que fiz realmente besteira. Fiquei até envergonhado, admito!

Não que pudesse mudar o destino da carreira diplomática dele, mas incomoda ver pessoas errando com coisas suas, no caso, as aspas.

06 julho 2006

Narração pela internet

Pedro Henrique Freire*

Primeiro, a esperança. Depois, as lágrimas. Ou quase isso. Minha frustração de ver o quase-aposentado Zidane dando um baile nas estrelas brasileiras pela segunda vez em Copas do Mundo foi travada pelo trabalho. Não que eu não tenha assistido ao jogo por estar fazendo matéria em algum fim de mundo. Eu vi tudo. Mas não me emocionei, chorei, quebrei copos, xinguei.

Ao contrário de milhões de brasileiros, eu estava no seleto grupo de jornalistas que assiste ao jogo e “desembocam” (lá no Maranhão também falam essa) frases descritivas na internet. Coisas do tipo: “Henry recebe o cruzamento na direita e, sozinho, marca o GOLLLLL! França 1. Brasil 0”.

Fazer jogo minuto a minuto é interessante. As vezes você se sente um Cléber Machado da vida. Um narrador de verdade. Em alguns momentos, aproveita para cutucar: “O Brasil está apático no jogo. Não marca. Não sabe sair com a bola e enfrenta enorme pressão francesa”.

Para narrar um jogo pela Internet, é preciso atenção para transmitir o clima que o internauta precisa sentir. O objetivo é fazer com que ele vibre com algumas frases. Letras grandes devem aparecer precedidas de exclamação em alguns momentos. Tudo dará o tal “clima”.

Mesmo assim, quem escreve está em transe. Concentrado secamente nas jogadas. Não sei se aconteceu com todos os brasileiros que estiveram no batente, mas o trabalho me isentou (um pouco) da condição de torcedor. Entrei na redação do CorreioWeb e saí de lá como um jornalista árabe cobrindo Brasil e França: sem o menor entrosamento com o andamento da partida.

Quando acabou o jogo, o máximo que consegui dizer foi:

“É, amigo, Brasil e favoritismo nunca se deram bem”.

Saí do Correio às 18h25 feliz por ter acabado mais um dia de trabalho. Mais tarde, vendo os noticiários, percebi que a minha frustração era maior que a derrota. Era a frustração de quem não conseguiu vencer, nem torcer.

Eis a narração de alguns momentos do jogo:

A hora do gol
8 min França joga a bola pra área... juiz marca impedimento

9 min Brasil tenta infiltrar na área. Mas França se fecha

11 min Falta para a França. Bola vai para área. É GOOOOOOLL da França!

11 min Henry faz 1 a 0 com o pé direito! Ele apareceu sozinho na cara do gol e não
desperdiçou...

O fim do jogo
42 min Falta perigosa para o Brasil!

43 min Ronaldinho bate... passou perto do gol francês!

44 min Em todo o jogo o Brasil chutou cinco vezes a gol. Todas para fora.
45 min Ronaldo bate para o gol e goleiro defende!

46 min Teremos três minutos de acréscimo. É pressão brasileira no jogo

47 min Ronaldo tenta entrar na área. É desarmado

48 min ACABOU. BRASIL ESTÁ FORA DA COPA!

48 min DECEPÇÃO. Com baile de Zidane, Brasil pára nas quartas-de-final contra a França.

DECEPÇÃO Seleção francesa faz festa em campo.

* Pedro Henrique Freire é repórter do CorreioWeb, odeia Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos e Galvão Bueno

03 julho 2006

Balanço da Copa

Léo Alves

Antes de a Copa começar conversei bastante com a produção da tevê para definir quais as pautas deveríamos fazer nos jogos da Seleção. O assunto também foi discutido com meu parceiro de blog, o grande DB, que também se mostrava preocupado em não fazer o “lugar comum”. O objetivo era tentar descobrir pautas diferentes e interessantes.

Começamos até bem.

Acompanhei a estréia do Brasil num seminário, como já relatei em outro post. Queríamos mostrar o que mudava na rotina dos seminaristas. Tínhamos definido que nos jogos seguintes iríamos a uma comunidade que acompanhava os jogos da Seleção pelo rádio e noutra (aceitando uma sugestão de DB) que acompanharia a Copa pela primeira vez na tevê.

Seria um lugar onde a energia elétrica havia chegado há pouco tempo. Os dois locais estavam definidos, mas por questões superiores não conseguimos executar a idéia. Tivemos que acompanhar os jogos num hotel onde a transmissão era digital e no Parque do Povo, como nas Copas anteriores. Fomos obrigados a cair no óbvio. Não por falta de idéias, mas por questões superiores.

Matérias recomendas (as famosas rec) não se discutem. Cumprem-se.

Senti um pouco de frustração em toda a equipe. Sentimento que aumentou ainda mais quando assistimos no Jornal Hoje uma matéria com um senhor que acompanhava a Copa pela primeira vez na tevê. Depois foi o Esporte Espetacular que fez outra num local onde as pessoas ouviam o jogo pelo rádio. Tivemos as mesmas idéias do pessoal da rede. A diferença é que eles executaram.

Apesar de não ter conseguido fazer tudo que imaginamos o saldo foi positivo. Algumas matérias me chamaram a atenção. Lembro de uma sobre o japonês que é presidente do Parque Teconológico de CG.

Ele é chefe da galera, mas no jogo do Brasil contra o Japão ninguém se encabulou de pertubar com o derrotado. Eu gostei de ter feito uma com os franceses um dia antes da partida. Lá de João Pessoa lembro de duas. Uma sobre torcedores mirins e outra sobre uma casa que só tem mulher torcedora.

Com o Brasil fora da Copa as pautas (claro!) diminuem.

Para as emissoras de tevê e jornais com abragência nacional o assunto da desclassificação ainda vai render mais alguns dias. Mas para os veículos regionais, acredito eu, as pautas relacionadas ao Mundial talvez tenham chegado ao fim junto com a participação brasileira.

É possível que ainda renda alguma matéria com os brasileiros (no nosso caso, paraibanos) torcendo por Portugal. Aliás, a respeito desse assunto e a queda da venda (o estoque encalhado) das camisas da Seleção foram matérias exibidas nesta segunda-feira (03/07).

A partir de agora o jornalismo volta à rotina.

Até o fim do ano, as eleições vão ser o foco dos noticiários. Então é se preparar para os debates, pautas sobre chegada e inseminação de urnas, segurança e outros assuntos que giram em torno de uma eleição.

Até aí tudo bem.

Pior é ter que agüentar as mentiras dos candidatos no horário eleitoral...