Dias atrás cheguei no meu velho e bom Maranhão e fui ao trabalho com a idéia de cobrir eleições. Mas não na capital. Queria me mandar para o interior do estado, pegar bons personagens e, com fé, descrever o absurdo que pode existir na briga por votos numa cidade pequena, pobre e desconhecida.
O coordenador da redação comprou a idéia. Com dois dias, porém, tudo mudou. O editor interino de política brigou com um dos repórteres e, como estava improvisado, voltou para a coordenação de reportagem, local onde faz um bom trabalho e não deveria ter saído. Temendo improvisar um editor de outra área outra vez, meu chefe me chamou para editar as pequeninas, porém heróicas, duas páginas de política de O Imparcial - uma local e uma nacional. Como já tive experiências anteriores como editor neste mesmo jornal, fui sem medo.
Mas me deparei com um complicador: nossos repórteres de política são assessores. Um trabalha no governo do estado e outro na prefeitura.
Assim que assumi a editoria, chamei todos e disse que precisaríamos melhorar a cobertura de política, expandir para temas mais exclusivos, como matérias sobre cidades importantes do estado e cenários de toda região metropolitana, não apenas São Luís.
Fizemos uma reunião de pauta, listamos alguns assuntos para a cobertura e me calhou de saber a que horas poderia contar com eles. A qualquer hora, responderam. Então, podem fazer isso e isso amanhã, ok? Não, mas de tarde eu vou para tal lugar e de manhã para outro lugar, me respondeu. E que horas você trabalha para o jornal? "A hora que dá", disse.
Quer dizer, não posso contar a qualquer hora. Mas, sim, a hora que dá.
Pedi, então, que separassem as horas do dia prevista no contrato de cada um e começamos a pensar a editoria com mais intensidade. Melhorou, mas ainda está ruim.
Está ruim porque, com repórteres-assessores, a coisa não ficará de um jeito plausível. Assessor de imprensa e repórter se parecem pelo comprometimento institucional. O primeiro com um órgão público. O segundo com a empresa jornalística para o qual trabalha. Quando a coisa se choca, a editoria perde qualidade. Mas ele continua ganhando seu salário.
Por isso, em lugares onde os jornalístas ganham muito mal e assessores ganham muito bem, a qualidade da mídia tende a ser ruim. Os jornais viram caixas de lixos-releases, plantados muitas vezes por assessores "infiltrados" na redação. Por isso, não existem jornais quentes. Não existem repórter que corra atrás da notícia, que pense e trabalhe para ampliar sua pauta. Uma vez assessor, a redação de jornal serve apenas para complementar o salário e não para crescer profissionalmente.
Outro problema é quando o jornalista aprende tudo na redação, cria nome e respeito e depois se transfere para a assessoria, buscando melhor salário e menos trabalho. Mas isso é tema para um próximo post.
Humildemente e desculpem o longo hiato...
Trem bala (cover)
Há 9 anos