29 setembro 2009

Direto do túnel do tempo

Por Daniel Brito

Lá se vão 10 anos desde a primeira vez que minha carteira de trabalho foi assinada como jornalista profissional. A verdade verdadeira é que eu tinha o registro de locutor entrevistador mas podia atuar como repórter e apresentador de TV.

Foi na TV Borborema, afiliada do SBT na pequenina porém heróica Campina Grande. A emissora foi fundada por Assis Chateuabriand depois de trazer a TV para o Brasil e instalar a Tupi no RJ e SP. Como paraibano, Chatô se sentiu na obrigação de atender seu estado de origem e abriu a TV Borborema. Como o estado era ainda mais pobre do que é hoje, levou uns aparelhos e distribuiu entre as autoridades locais.

Isso foi entre a década de 1950 e 1960. Minha chegada na TV se deu trinta ou quarenta anos após a inauguração. Aliás, a maneira como entrei no quadro de funcionários foi motivo de revolta da classe jornalística campinense.

Meu pai era diretor dos Diários Associados na Paraíba e eu havia decidido, sete anos antes, quando ainda morava em Brasília, que gostaria de ser jornalista. Assim como ele. Iniciei devagarzinho na emissora de rádio, da qual ele também era diretor.

Até passar no vestibular e me mudar para Campina Grande. Os jornalistas de Campina Grande tinham uma certa razão em reclamar. Afinal eu tinha 18 anos, voz fina e jeito de adolescente. A TV carecia de repórteres (carece até hoje. Mais do que isso, inclusive) e, segundo os críticos, havia gente desempregada por minha causa.

Comecei nas reportagens para esportes. Sem nenhuma orientação ou indicação de como deveria ser feito ou deixado de fazer. Apenas alguns toques de que palavra incluir no texto ou como segurar o microfone. Havia muita boa vontade em ajudar, aquela ajuda informal, mas o temor por eu ser filho do diretor impedia as pessoas de me criticarem diretamente.

Às vezes, um comentário ali, uma opiniãozinha mais ácida ali, uma breve reprimenda acolá eram suficientes para que eu assimilasse algumas coisas. Neide Nascimento, Agnásio, Batatinha, Hoberdan, Wilton, Da Silva foram grandes mestres.

Comecei fazendo matéria de futebol, naquele feijão-com-arroz básico de Treze e Campinense. Aos poucos, fui buscando outros assuntos. Por falta de estrutura, virei repórter de cidades, se é que existe essa editoria em emissoras de TV na Paraíba. Com o tempo, virei quase animador de palco em programa sobre carnaval. O meu senso do ridículo evitou que eu partisse para coisas piores...

Dez anos depois, vejo com um misto de saudade, orgulho e vergonha de tudo que passei no jornalismo em Campina Grande. Vergonha porque eu era um cara recém-saído da adolescência com a responsabilidade de falar para muita gente, porque a emissora tinha um grande alcance na região, mas eu pensava que estava fazendo um vídeo para a TV da universidade ou qualquer outra coisa menos importantes. Talvez pelo mesmo motivo eu sinta saudade, porque não sabia da responsa e era feliz com minhas invenções. É aquela história do 'Só sei que nada sei'.

Se você for hoje a Campina e perguntar aos jornalistas que já estavam na ativa entre 1999 e 2002 sobre mim, eles vão rir da minha cara ou até mesmo me ridicularizar.

Com os olhos marejados, deixei a TV Borborema na tarde de 20 de novembro de 2002.

Por mais que tenha trabalho em alguns dos maiores jornais do país, tenha publicado textos no Globo, Estadão, Correio Braziliense, Estado de Minas, Diário de Pernambuco, tenha feito reportagens para Band e SBT, ainda tem gente que acredita eu só estou nessa por que meu pai era diretor da TV Borborema sete anos atrás.

O que é uma pena porque as pessoas não reconhecem que meu pai, em vez de me dar o peixe, me ensinou a pescar. Reconheço as baboseiras que possa ter feito nesse período de 10 anos desde 13 de setembro de 1999 e peço desculpas àqueles que por ventura eu possa ter ocupado o espaço na TV Borborema dez anos atrás.

Mas quero deixar registrado aqui que um dia eu volto. Para me redimir dos meus pecados...

19 setembro 2009

Ombudsman informal

Por Léo Alves

A Folha de São Paulo mantém em seu quadro de funcionários um ombudsman. Segundo o jornal “o ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação”.

Na pequenina e heróica Paraíba nenhum jornal tem ombudsman. Pelo menos eu não conheço. Os jornais são feitos à ótica dos editores. Existem os canais de comunicação com o leitor (em que pese sejam poucos utilizados ainda) para receber as críticas e sugestões, o que em alguns casos serve para mudar uma ou outra coisa no impresso.

Se os jornais não tem um profissional específico que possa comentar a postura do veículo em determinados assuntos sob a ótica do leitor que levem à reflexão e até mesmo mudanças, os impressos de Campina Grande contam com um ombudsman informal: o radialista, ou melhor, o âncora (ou os âncoras) dos radiojornais. Eles não são funcionários do jornal, mas são profissionais do meio jornalístico que diariamente comentam pelo menos as notícias de primeira página.

Há três meses o Diário da Borborema publicou na sua coluna Binóculo o tópico ‘Desrespeito’: “Tem coisas que só existem em Campina Grande. Tudo bem que a imprensa brasileira nunca foi unida. Mas, em nossa cidade chega a ser um desrespeito o que alguns companheiros que trabalham em rádio fazem com o pessoal do meio impresso. Ninguém tem o direito de macular a imagem de um jornal ou de um profissional, utilizando-se de um microfone só porque a matéria não lhe agradou. Corrigir no ar os erros alheios também não é muito ético”.

Não sei ao que (e a quem) se refere a crítica do jornal. Mas demonstra que o pessoal do impresso perdeu a paciência com os comentários dos colegas de rádio, que segundo a notícia tem o tom pejorativo.

Diariamente escuto os jornais no rádio campinense, que em sua maioria, se baseiam na leitura dos jornais do dia e de notícias da internet para levar as informações aos ouvintes. Como não existe equipe de produção nas rádios – salvo algumas exceções – o pessoal se vale do que já está pronto para conduzir um programa de cerca de três horas.

E mesmo se apropriando das notícias produzidas pelos impressos, na maioria das vezes os âncoras fazem comentários sobre as matérias. “Essa matéria a gente já trouxe ontem aqui no programa”, comentam. Uma constatação óbvia. O rádio tem como característica a instantaneidade. Tem por obrigação antecipar as notícias do jornal.

O grande problema é que muitas vezes os comentários tentam ridicularizar e até colocar em xeque a credibilidade do jornalista que escreveu a matéria.

Quando o rádio passa a noticiar a maioria das matérias que estão nos jornais há uma inversão. O detalhe é que o pessoal lê na íntegra a matéria do jornal, quando todo jornalista sabe que a linguagem do impresso é diferente do rádio. Não existe o famoso script (existem exceções, repito). Mas essa foi a solução encontrada pelos jornalistas para manter os programas no ar. O problema está na estrutura das equipes de jornalismo das rádios. Isso é assunto para o próximo post.

12 setembro 2009

Restrições na internet

Léo Alves

Primeiro foi a Folha de São Paulo. Agora a Rede Globo também criou limites para seus profissionais em relação a blogs e ao Twitter. A liberdade de falar de assuntos que não podiam ser expostos nos dois veículos passa a ter limitações. Os dois textos abaixo foram publicados no site Comunique-se (http://www.comuniquese.com.br/):

Folha cria regras para jornalistas usarem Twitter e blogs
Izabela Vasconcelos, de São Paulo

O jornal Folha de S.Paulo anunciou em comunicado interno, que os jornalistas e colunistas do veículo devem seguir algumas regras ao usar redes sociais, como Twitter e blogs. A recomendação, assinada pela editoria executiva, é que os profissionais não assumam opiniões partidárias, sobre qualquer candidato ou campanha, e também veda a publicação de conteúdo exclusivo, acessível apenas para assinantes do jornal.

Os jornalistas que quiserem citar alguma matéria exclusiva poderão fazer referência ao material, publicando o link para o acesso do conteúdo na íntegra. “Não devem colocar na rede os conteúdos de colunas e reportagens exclusivas. Esses são reservados apenas para os leitores da Folha e assinantes do UOL. Eventualmente blogs podem fazer rápida menção para texto publicado no jornal, com remissão para a versão eletrônica da Folha”, explica o texto.

Um dos jornalistas da Folha aguardava pela decisão. “Já sabia que iriam fazer isso. Tinha muita gente abusando. Você não pode emitir opinião de uma matéria que você cobriu”, declarou.

Outro profissional do veículo também esperava esse tipo de orientação do jornal. “Esperava que adotassem uma medida nesse sentido, principalmente pelo direito autoral. A decisão não mudou em nada meu procedimento no Twitter. Eu não faço nada no Twitter que eu não faria na Folha”, revelou o jornalista, que acredita que o conteúdo exclusivo deveria ser liberado. “Seria bem mais proveitoso, mas essa é outra questão”.

Apesar de defender as orientações do jornal, o profissional afirmou que o veículo é rigoroso em relação à imagem dos jornalistas do grupo. “Excedem no rigor, tudo tem que pedir autorização, para entrevistas, palestras, enfim...".

TV Globo restringe uso de blogs,Twitter e outras redes sociais
Da Redação

A TV Globo divulgou um comunicado interno na noite desta quinta-feira (10/09), em que restringe o uso de blogs e redes sociais pelos seus contratados. A medida atinge tanto artistas, como jornalistas e outros profissionais da emissora.

“A divulgação e ou comentários sobre temas/informações direta ou indiretamente relacionados às atividades ligadas à Rede Globo; ao mercado de mídia e ao nosso ambiente regulatório, ou qualquer outra informação/conteúdo obtidos em razão do relacionamento com a Rede Globo são vedados, independentemente da plataforma adotada, salvo expressamente autorizada pela empresa”, informa o comunicado.

A Globo também exige autorização prévia para que os contratados possam ter blogs, Twitter e outras redes sociais vinculados a outros veículos de comunicação. “A hospedagem em Portais ou outros sites, bem como a associação do nome, imagem ou voz dos contratados da Rede Globo a quaisquer veículos de comunicação que explorem as mídias sociais, ainda que o conteúdo disponibilizado seja pessoal, só poderá acontecer com prévia autorização formal da empresa”.

A decisão gerou repercussão, mas até o momento somente artistas da emissora se manifestaram. A atriz Fernanda Paes Leme reclamou.“Não existe Arte sem liberdade de expressão!!”. “Blog, twitter ajudam o público a conhecer o artista por trás do personagem... eu vou continuar por AQUI!". Jornalistas procurados pelo Comunique-se informaram que ainda não haviam recebido o comunicado.

Apesar das restrições citadas, a Central Globo de Comunicação informou que não veda qualquer plataforma para o uso pessoal, mas que as ferramentas devem se limitar a isso. “A presença individual e particular dos nossos contratados deve se restringir, se desejada, exatamente a este universo, estando totalmente desvinculada da atuação na Rede Globo, nem tampouco associados a outros veículos de comunicação. Se essa separação clara não puder ser estabelecida, o uso dessas mídias fica inviabilizado”.

A emissora carioca alega que a medida tem o objetivo proteger seus “conteúdos da exploração indevida por terceiros, assim como preservar seus princípios e valores”.

05 setembro 2009

Experiência profissional

Por Léo Alves

Um profissional está na empresa há cinco anos. Nesse tempo desenvolveu atividades em diversas áreas, mudou de função, cresceu. Outro profissional está na mesma empresa há 15 anos. Porém fazendo a mesma coisa desde o dia em que chegou. Quem tem mais experiência?

Uma das definições de experiência profissional é “a bagagem de conhecimentos sobre uma profissão que alguém acumulou durante o tempo em que exerceu a profissão escolhida”. Fica claro que o primeiro exemplo é o mais experiente.

Mas o que se observa entre os profissionais é a confusão entre experiência e tempo de serviço. Para a maioria dos veteranos, experiência é tempo de serviço. Se não houver uma constante atualização o tempo de serviço só vai contar no FGTS.

No jornalismo não é diferente. É fácil escutar profissionais criticarem os jovens (muitas vezes mais capacitados e atualizados) pelo fato de eles não estarem há muito anos no batente. “Esse fulano chegou agora e pensa que sabe de alguma coisa”, resmungam.

A resistência aumenta ainda mais quando o novato tenta inovar. “Eu já faço isso há 20 anos desse jeito. Não tem lógica você que chegou agora querer mudar”, justificam os veteranos com a prepotência de quem se sente o dono da verdade.

O fazer jornalismo mudou, está mudando e vai continuar em constante transformação. Há duas semanas assisti a uma reportagem do hoje Ministro das Comunicações, Hélio Costa, feita da década de 70. Era sobre o “menino bolha”, dos EUA. Logo em seguida vi reportagens de décadas mais recentes. Uma linha do tempo que mostra a evolução da reportagem na televisão.

É preciso entender que com as novas tecnologias o público mudou. O profissional que não acompanhar essas mudanças e tendências se torna obsoleto. E como tem gente antiquada, retrógrada e arcaica nas redações achando que a forma de fazer jornalismo é a mesma de décadas atrás.

O interessante é que muitos veteranos tentam desqualificar o trabalho dos mais jovens afirmando que alguém só se torna um bom profissional depois de anos de trabalho. As redações tem muitos jovens talentosos. Talento não tem a ver com tempo de serviço. Os anos ajudam a desenvolver o talento, o que leva naturalmente a um crescimento profissional. Talvez seja por isso que há uma renovação nas redações.

Por coincidência, antes de começar a escrever este post deu uma passeada por vários sites. Num de João Pessoa, de Anco Márcio (ancomarcio.com) encontrei um tópico do autor que dizia: “Mesmo que você esteja há muito tempo no ar, nunca pense que está fazendo tudo certo e que todo mundo está gostando. Tudo na vida tem de ser reciclado, mudado, atualizado. Se parar,dança”. É a mais pura realidade.

Em tempo: não sou nenhum novato na profissão. Estou mais para um veterano que tenta (eu disse tenta) se manter atualizado.