30 janeiro 2007

"Se eu fosse chefe..."

Por Daniel Brito

Esta semana, percebi que estou cercado de pessoas, jovens jornalistas, ávidas para ser chefe.

Tudo bem, faz parte da vida útil de um profissional competente chegar ao topo da "cadeia alimentar". Geralmente, esse caminho começa no estágio, em seguida, reportagem bruta (hard news pesadíssimo), reportagens qualificadas (no caso de esportes, Olimpíada e/ou Copa do Mundo), fechamento da edição (como sub-editor, por exemplo), editor setorizado até chefia de redação.

Menos de 1% dos jornalistas chegam ao topo desta pirâmide, cada dia mais íngrime e cruel. Mas 99% sonham em chegar até lá.

Conversando com colegas de profissão, já neste ano, ouvi três ou quatro vezes a expressão:

"Se eu fosse o chefe daquele lugar..."

O curioso é que todos que me disseram isso completeram a frase da seguinte maneira:

"...demitiria umas 30 pessoas que não servem de nada para o jornal (e/ou TV)".

Sinônimo de chefia para esses camaradas não é saber trabalhar em equipe.

É botar para fora quem ele não simpatiza. Qualquer demissão é traumática. Desde um incompetente assumido a um caçador de furos que tropeçou em um zero de uma cifra interminável que dava o tamanho da denúncia de uma matéria de política.

Quando ouvi essas opiniões fiquei com vontade de perguntar:

"O que você falaria para as 30 pessoas que demitiria aqui dentro?".

Como disse meu grande amigo Da Silva, nem todas as verdades podem ser ditas. Não se trata de falsidade, mas uma questão de educação.

Hoje, após meus oito primeiros anos como jornalista profissional, afirmo que não faz parte dos meus planos me tornar chefe. Acredito que nem meus chefes têm esse pensamento em relação a mim, obviamente.

O meu sonho de consumo profissional, mesmo, é não ter que dar satisfação a chefe nenhum.
(E eu não estou falando em estar desempregado!!!)

26 janeiro 2007

Nem tudo

Por Léo Alves

Quando criamos este blog, achávamos que poderíamos escrever o que quiséssemos. Afinal, aqui é um espaço livre, onde eu, o Daniel e o Pedro somos os editores.

Mas a experiência mostrou, em mais de um ano de Filhos da Pauta, que a coisa não é como imaginávamos. Não dá para escrever qualquer coisa, contra tudo e contra todos. Até porque todos têm acesso ao contéudo do blog. Basta querer.

Qualquer pessoa que se sentir atingida pode reclamar. Tudo bem que ainda não existe uma legislação específica, mas ninguém (e nenhuma empresa) gostaria de ver seu nome manchado num espaço público.

Estou escrevendo isso, porque algumas pessoas estranharam o fato de Daniel ter mudado a linha editorial do post anterior depois de ter sido alertado por alguém que ele (o post) poderia acarretar prejuízos futuros.

Não é a primeira vez que acontece no Filhos da Pauta. Ano passado, Daniel também retirou o nome de uma pessoa de um post porque ela se sentiu atingida (também pudera, né, DB? Chamar o cara de orelhudo foi demais).

Por mais que seja um espaço nosso, não dá para escrever tudo. É preciso também medir as palavras. Afinal, vivemos em sociedade. E precisamos saber a hora certa de dizer as coisas.

Muitas verdades parecem grosserias.

Em muitos momentos, eu (e talvez Daniel e Pedro) sinto vontade de escrever uma crítica mais forte a uma empresa ou até mesmo a um colega de profissão. Mas não há como negar que seria falta de ética.

Além disso, poderia criar um mal estar (desnecessário) com o colega e até com a empresa.

Já imaginou se no futuro eu estiver trabalhando na empresa e ao lado do colega criticado aqui neste blog?

É o mercado de trabalho. Você pode até não concordar com a linha editorial da empresa, mas não está totalmente livre de trabalhar nela. Lógico que é uma questão de escolha. E neste momento vai pesar a proposta. Principalmente se você estiver desempregado.

Vejo muitos colegas criticarem a Rede Globo. Porém, não tenho dúvida de que a maioria estaria lá se recebesse uma proposta de trabalho.

No blog (como na vida) muitas vezes é melhor silenciar.

Lembro da minha aula da saudade, quando meu ex-professor Rômulo Azevedo disse:

"Em muitos momentos da profissão, precisamos ser como bambus, que se curvam, mas depois voltam a ficar firmes e retos".

Resumindo: é preciso ter jogo de cintura.

24 janeiro 2007

Peladeiros qualificados

Por Daniel Brito

Quem joga futebol sabe identificar uma situação dessas:

Pelada entre amigos. Todo mundo se conhece, sabe onde cada um joga melhor. De repente, um desconhecido chega e pede para jogar. Como o futebol, inicialmente, é um esporte agregador, ele entra na pelada, mas a pergunta é inevitável:

- Tu joga em qual posição, Fulano de Tal?

Quando a resposta é:

- Qualquer uma. Onde me colocarem eu jogo...

Pode entender uma coisa. Esse beltrano aí não joga nada.

Não existe jogador de futebol que seja bom zagueiro, volante, meia-ofensivo e atacante ao mesmo tempo. Não tem profissional assim, quanto mais peladeiro...

Uma entrevista de emprego funciona mais ou menos desse jeito. O entrevistado, neste caso um desempregado, deseperado por uma ocupação, não tem embaraço em dizer:

- Eu faço tudo. Desde cuspe em distância aas reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central. Pode ser em rádio, TV, jornal, internet, semanário, panfleto. Qualquer veículo!!!

O entrevistador, certamente, vai desconfiar deste camarada. Pode, realmente, haver profissionais multifacetados. Mas todas as habilidades do mundo não cabem em um peladeiro só. Tô mentindo?

Como estou viciado em escrever sobre jornalismo na internet, dei esses dois exemplos (desempregado e peladeiro) para ilustrar minha mais nova opinião sobre o ramo.

Seguindo os passos do britânico Daily Telegraph e do brasileiro Lance!, os jornalistas se verão obrigados a se tornar um peladeiro qualificado. Ou melhor, um profissional capaz de lidar com todos os veículos. Estes dois periódicos citados no início deste parágrafo estão fazendo das redações dos jornais impresso e on-line uma só.

Houve gente na Inglaterra e no Brasil que não se adaptou a esse ritmo e foi demitido. É preciso saber atuar em todas os setores do campo.

O repórter vai para a rua com uma máquina digital, onde fotografa, filma e grava entrevistas, além de anotar tudo "como antigamente". Ao voltar para sua confortável cadeira na sede da empresa, ele joga a parte digital na internet e o texto apurado "como antigamente" vai para o jornal do dia seguinte, praticamente sem muitas novidades do que já foi publicado na internet.

Eu, com meu humilde futebol, mal vejo a hora de experientar essa novidade.

22 janeiro 2007

Os cinco MELHORES assuntos

Por Daniel Brito*

Decidi começar 2007 com disposição para fazer todo e qualquer tipo de matéria que me pautarem. De briga de vizinho, aos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro.

O que vier, eu traço.

Divido com nossas quatro testemunhas que visitam este blog (além dos proprietários) quais são as melhores pautas para mim:

5) Triatlo: é um sonho de consumo. Apesar de estar engordando descontraladamente, invejo as pessoas que têm disposição para participar de uma prova de triatlo. É um esporte sensacional. Muita estratégia; contato com modalidades que todas as pessoas gostam e praticada em lugares sensacionais.

4) Natação: por causa da natação passei a prestar mais atenção na importância da matemática no esporte. O cálculo dos tempos ou a soma dos índices pode dar uma margem de acerto muito grande para aqueles jornalistas que gostam de fazer previsões sobre as provas. Eu, por exemplo...

3) Futebol: é o meu primeiro esporte. Respiro futebol, almoço futebol, bebo futebol... Mas só costumo conversar sobre isso com as pessoas que realmente entendem do assunto. Isso é raridade. De tantos pangarés que existem por aí dando pitaco sobre futebol, o esporte perdeu alguns pontos na minha lista de melhores esportes para se cobrir.


2) Vôlei: Desde 2004, quando passei a ser setorista de vôlei no Correio Braziliense, aprendi que este esporte é pura estratégia. A inteligência dos atletas faz a diferença no resultado e isso me intrigou. A cada texto que escrevo sobre vôlei, cada entrevista que faço, aprendo coisas que podem ser adaptadas para minha vida pessoal (E eu não estou falando de bloqueios ou bolas foras!)

1) Basquete: Sempre gostei de basquete. Há 10, 15 anos, era torcedor do Utah Jazz. Nunca soube jogar, mas sempre gostei. Passei um tempo sem ver nada sobre basquete até entrar para o CB. A afinidade com o esporte voltou mais forte do que nunca, a ponto de ele liderar a minha humilde lista de esportes preferidos para cobrir. Confesso, contudo, que preciso aprender um pouquinho mais para escrever textos melhores sobre o tema.

E você, quais são suas pautas preferidas?

* Por motivo de força maior (leia-se: bom senso), o título original deste post e a tendência editorial do texto foram drasticamente alterados.

18 janeiro 2007

A falta que um editor faz

Por Daniel Brito

Desde que os 'simples mortais' passaram a determinar o conteúdo da internet, a vida das pessoas ligadas (direta ou indiretamente) aa rede mundial de computadores mudou.

Desde estudantes que copiam monografias pelo Google; passando por engenheiros que escrevem um blog sobre música erudita; ou um fazendeiro que coloca vídeo do nascimento de bezerros nelore em sua fazenda no You Tube; jornalistas que apuram reportagens com maior precisão, até desocupados que criam sites racistas ou passam o dia fuçando a vida dos outros no orkut ou qualquer coisa parecida.

Já disse isso em posts anteriores.

O que eu não disse foi que o gosto dessa 'liberdade' é (meio) amargo.

Na própria internet pipocam notícias de investigação da polícia em sites. Ainda não conhecemos todos os limites da internet.

O Orkut, por exemplo. Era para ser um local de encontros. Tipo um cartão de visitas.
Se tornou quase que um site de criminosos dada a quantidade de comunidades ofensivas criadas por 'simples mortais'.

Até hoje o Google não sabe se deixa ou não a Polícia Federal investigar os criadores de comunidades racistas. Liberou uma vez, mas não será todo dia, avisou o advogado da empresa.

No Wikipédia, volta e meia alguns itens são retirados do ar às pressas porque um engraçadinho manda uma definição engraçadinha.

O You Tube, por exemplo. Permite quase todo tipo de vídeo: briga de mulher, nascimento de bezerros nelore, enforcamento de ditador, sex-on-the-beach. Mas já percebi que sexo explícito ou imagens tipo o filme Faces da Morte não são permitidas.

Dia desses encontrei um vídeo com o nome:

Britney Spears naked!!!

Curioso, entrei lá para ver.
Não tinha mulher pelada coisa nenhuma.

Era um nerd americano segurando uma webcam com a mão esquerda, falando por seis minutos e gesticulando com a mão direita como se apontasse o dedo indicador para o meu nariz. Ele dizia algo tipo:

"Se você quer vídeos de mulher pelada, sexo ou coisa parecida, vá para outro site. Nào estrague o You Tube. A pornografia está destruindo a internet. E você, ao clicar neste link, está comprovando que quer ver o You Tube chegar ao fim".

Quase que eu mando um email pedindo desculpas oficiais.

Mas o nerdzão lá tá certo.
Talvez não.
Talvez sim!

Se houvesse um editor para 'adivinhar' (ou editar) o que as pessoas querem ou não ver no You Tube ou no Orkut, a internet não teria tanto sucesso.

Se no lugar de um editor, existisse apenas um 'moderador'. Uma pessoa com bom senso para saber o que passa dos limites da convivência harmoniosa e vetar isso ou aquilo teríamos uma internet politicamente-correta.

Ainda assim, não sei se a internet teria a mesma graça!

16 janeiro 2007

Sobre política de políticos

Pedro Henrique Freire

Um dia estava conversando com o repórter de política Rudolfo Lago (ex-Correio, agora Istoé) e ele me dizia o seguinte: “Numa matéria com políticos, o mínimo que você pode fazer é escutar todos os envolvidos na história. Mas é preciso ter cuidado para não ser enganado ou entrar num jogo que não estava previsto”.

Entendi aquilo como a habilidade natural que os políticos adquirem no trato com o jornalista. Tudo, penso eu, é uma relação de poder. Eles querem a boa imagem para si ou a péssima para o outro. Nós queremos notícias. Quando as duas coisas podem ser trocadas sem desgaste, ali está uma boa matéria.

Mas é interessante refletir sobre a maneira como Aldo Rebelo (PCdoB) se comporta nas entrevistas. Ao ser cercado por microfones e gravadores, o presidente da Câmara dos Deputados centra um olhar de peixe morto em algum ponto do ambiente e começa a selecionar palavras com pinça. Fala devagar e quase nunca o que o jornalista espera. Parece ter aversão a imprensa e nunca usar ela em favor próprio.

Diferente do seu adversário na disputa pela casa. Arlindo Chinaglia (PT) é bem mais espontâneo. Abraça e fala alto (e rápido) quase tudo que pensa. Pior pra ele e melhor para nós. O melhor entrevistado é aquele que sabe revidar. E o bom jornalista, penso eu, é o que sabe provocar com perguntas.

Na cobertura sobre as eleições legislativas, ele aparecia e falava todos os dias. Rebelo (antes de ser passado pra trás) evitava polêmicas e reflexões sobre o que está fora de sua alçada. É discreto.

Rebelo e Chinaglia são duas personalidades distintas. Para entrevistá-los, assim como outros políticos, é preciso conhecer seus perfis. Identificar suas reações é fundamental para encaixar a pergunta na hora certa e, assim, obter uma boa resposta, que dê uma ótima matéria. Mas tudo isso, como aconselhou Rudolfo, sem entrar no jogo deles.

Numa fria
No final das contas, é importante ouvir tudo aquilo que os caras têm pra falar (até mesmo quando não têm nada a falar). Mas aqui e ali, segundo Rudolfo, tentam te colocar numa fria. É um exercício comum, feito para alimentar o próprio jogo. Inventam e pedem matéria. Supervalorizam o que acham importante. Quando apuramos, não é nada demais! Mas o que podemos fazer se nosso papel é checar, checar e checar?

Abraços

08 janeiro 2007

O impresso como (boa) fonte

Por Léo Alves

É rotina o jornalismo de tevê se pautar pelos impressos. Não que toda produção dependa dos impressos, mas não há como negar que são boas fontes. Isso não acontece apenas em nível local. O caso dos sanguessugas foi denunciado pelo Correio Braziliense. O mensalão, pela Folha de São Paulo.

Depois os escândalos ganharam o Brasil através da tevê.

As reportagens bem produzidas pelos impressos servem de pauta. Há cerca de um mês o Esporte Espetacular exibiu uma matéria sobre a falsificação de idade de jogadores, os famosos “gatos”. A reportagem foi "pautada" pela Placar, que havia chegado às bancas na mesma semana.

Lembro que em junho, na Copa do Mundo, o mesmo Esporte Espetacular se pautou por uma matéria do colega Daniel Brito sobre os Calungas, uma comunidade da cidade de Cavalcante (GO), que assistia pela primeira vez o Mundial na televisão.

Sempre que os impressos saem na frente surge uma pergunta nas redações das tevês: “Como não ficamos sabendo disso?”. Acredito que não se trata de incompetência da produção. Porém tem que se admitir que os impressos (na maioria das vezes) têm melhores fontes.

A própria estrutura da televisão não permite muito o estreitamento da relação com as fontes.

Explico:
O contato com as fontes para agendamento das matérias é feito por telefone pela produção. O repórter vai às ruas fazer a reportagem apurada pela produção. É ele (o repórter) que tem contato direto com a fonte. Nota-se aí uma quebra da relação. O cara que mantém contato não é o mesmo que faz a entrevista.

Nos impressos é diferente. Na maioria das vezes o jornalista que mantém contato com a fonte é o mesmo que a entrevista. Com o tempo, cria-se um vínculo de confiança. É ao homem do impresso que a fonte vai confiar seus furos.

A setorização que existe nos impressos contribuiu para melhorar a relação com as fontes. O jornalista de esportes cobre rotineiramente só esportes, por exemplo. Cada macaco no seu galho.
Na tevê – refiro-me às emissoras afiliadas – o repórter é um faz tudo.
Esportes.
Polícia.
Política.
Cultura.
O que aparecer.

É praticamente impossível criar vínculo com as fontes de uma dessas áreas. Até porque o repórter não dispõe de muito tempo para aprofundar a relação com os entrevistados no intuito de ganhar a confiança dele.

Produtores visitarem as fontes melhoraria a relação. Ajudaria a descobrir furos. Porém não é o produtor quem faz a reportagem. Existe o risco de o repórter fugir do foco da matéria. Aí não tem jeito. A fonte se irrita (e o produtor também) e tudo volta à estaca zero.

A aparente saída seria o próprio repórter cultivar as fontes e descobrir furos. Senão o jornalismo impresso continuará (na maioria das vezes) furando os outros meios.

05 janeiro 2007

Questão de assinatura

Por ...*

A revista inglesa The Economist é uma das maiores (e melhores) publicações do planeta. Trabalhar nela é motivo de orgulho para qualquer um. Qualquer jornalista que se preze sonha em ver o nome lá assinado em algum artigo.

Mas quem trabalhe na Economist sabe: ninguém assina matéria por lá.

O princípio é o seguinte:

"O texto é da Economist e não do jornalista".

Mais ou menos isso aí.

Imagina a frustração daqueles jornalistas que adoram aparecer mais que a notícia que escreve se trabalhassem na Economist?

Conheço gente que seria capaz de recusar uma oferta de emprego na revista por causa disso.

No New York Times, alguns repórteres com nomes de judeus tinham que abrevia-los para não deixar o jornal com cara-de-judeu. Isso foi na década de 1950, no período pós-guerra. O NYT foi erguido por sionistas.

Tenho um companheiro de trabalho que me parou na redação dia desses para reclamar:

"Há oito anos escrevo matérias sobre ******* e tem gente que ainda pergunta meu nome. Será que eles não lêem quem assina as reportagens?".

Não tinha a intenção de desapontá-lo, mas fui sincero:

"Não, eles não lêem quem assina as reportagens".

Ao leitor comum, não interessa quem escreveu o texto. Quem se importa com isso são os jornalistas, intelectuais, ou personagens criticados na reportagem.

Jornalista que gosta de aparecer tem que ir para televisão fazer gracinhas, como eu (confesso) já fiz bem no início da minha carreira.

* Este texto foi escrito por um dos filhos da pauta. Desde que foi publicado, não pertence mais a ele, e sim ao blog.

03 janeiro 2007

Perseguição ao invasor

Por Daniel Brito

Calça jeans clara, camisa branca, com uma foto de Lula nas costas, por cima de um casaco laranja, e cabelos lisos.

Cinqüenta metros nos separam. Neste espaço, o Rolls Royce Silver Wraith 1958 com o presidente Lula e Dona Marisa, um batalhão de seguranças engravatados, quase 100 cavalos dos Dragões da Independência.

Eu acompanho cada passo dele. No gramado da Esplanada dos Ministério, corro no meio da multidão, esbarrando em criança, vendedores de milhos, faixas vermelhas gigantescas amarradas aos galhos das árvores. Do outro lado do Eixo Monumental, o invasor (Calça jeans clara, camisa branca, com uma foto de Lula nas costas, por cima de um casaco laranja, e cabelos lisos).

Duas grades de aço, de aproximadamente 1,20m de altura cada, à margem de cada calçada (a minha e a dele).

Ensopado pela chuva torrencial que caracteriza o mês de janeiro em Brasília, corro sem olhar para frente. Atenção somente para o camarada do outro lado do Eixo Monumental. Ele É a minha pauta.

O único motivo da minha presença na segunda cerimônia de posse de Lula, em 1º de janeiro, é encontrar com esse cara.
Eis a minha missão:

TRAJETO PRESIDENCIAL - DANIEL BRITO - A PARTIR DAS 13H
Daniel acompanha o carro de Lula da Catedral ao Congresso. Fica atento se alguém tenta pular no carro do presidente e da primeira dama (como aconteceu na posse do primeiro mandato), acenos etc.

Quando recebi esta incumbência, lembrei de um trecho do livro O Reino e o Poder, de Gay Talese, que estou lendo atualmente. Tom Wicker era apenas mais um repórter da sucursal do New York Times em Washington, no final da década de 1960. Foi a Dallas acompanhar um desfile em carro aberto do presidente John Fitzgerald Kennedy e alavancou a carreira com a reportagem sobre o assassinato do presidente.

Não que eu imaginasse que Lula pudesse ser metralhado em plena Esplanada. Mas, quem sabe, um fato inusitado poderia coincidir com o meu plantão na posse da reeleição.

Assim "como aconteceu na primeira posse", uma pessoa pulou a cerca que separava o comboio presidencial do público. Em vez de agarrar no pescoço de Lula, como ocorreu em 2003, o corajoso apenas tirou uma foto ao lado do carro do presidente e saiu pelo outro lado da rua.

Corri no mesmo ritmo que ele por 200 metros. O invasor de um lado do carro de Lula. Eu, do outro.

Tentei invadir a pista logo depois que o comboio presidencial passase por mim. Não contava com a cavalaria dos Dragões da Independência. Um verdadeiro exército de cavalos enfeitados demorou dois minutos para passar. Quando a cavalaria se foi, o invasor já não estava visível.

Isso era por volta de 16h05 de segunda-feira, dia 1º de janeiro de 2007. Passei as três horas seguintes olhando para a multidão buscando as seguintes caracterísitcas:

Calça jeans clara, camisa branca, com uma foto de Lula nas costas, por cima de um casaco laranja, e cabelos lisos.

Tinha uma chance em 10 mil de encontrar o invasor e cumprir minha pauta.

Não encontrei.

Nem a polícia.

Nem os jornais concorrentes.