24 janeiro 2006

Arapuca para imprensa

O Globo (23/01/06)
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A cilada do artista invasor
Suzana Velasco

A informação chegou aos cadernos de cultura do Ceará e foi ali reproduzida. Um célebre e renomado artista japonês, Souzousareta Geijutsuka, viria ao país pela quarta vez para abrir, no dia 10 deste mês, sua exposição "Geijitsu kakuu", no Museu de Arte Contemporânea(MAC) de Fortaleza.

No dia seguinte à divulgação do evento pela imprensa local, veio a revelação: Souzousareta não existia. Era tudouma invenção de um artista de 23 anos, Yuri Firmeza, que quis criarum trabalho justamente sobre os critérios para o reconhecimento da arte nos dias de hoje. Depois de pregada a peça, a imprensa cearense passou a discutir o assunto de forma apaixonada na semana passada, uns com louvores à idéia de Firmeza, outros — sobretudo os que caíram na cilada — atacando ferozmente o que seria uma molecagem de menino.

Além da atitude do artista, foi criticada a participação do MAC, reconhecida instituição de arte contemporânea, por ter colaborado coma farsa.— Quis questionar o papel do museu, da formação de artes visuais e da imprensa. O artista que criei é a própria obra, e o suporte do trabalho foi o jornal — diz Firmeza, recentemente selecionado para o projeto Rumos, do Itaú Cultural, que trará jovens talentos para uma exposição no Paço Imperial este ano.

— Achava que os jornalistas teriam mais humor. Faltou reconhecer que eles têm esse interesse pelo que é de fora, querem ser seduzidos pelos mesmos artifícios com que seduzem o público. Eles provaram ainda mais o quanto são reacionários. Levaram para o lado pessoal, o ego foi ferido. Não havia registro do artista na internet. Mas o humor ficou mesmo por conta da releitura dos textos publicados.

Segundo o jornal local "O Povo", o trabalho do artista era reconhecido no mundo todo e tinha como foco "a harmonia entre a para abordar a discussão em torno da fragilidade da vida e suas conseqüentes contradições". Informações retiradas da assessoria de imprensa do artista, feita pela namorada de Firmeza. Além de um texto exaltando a arte eletrônica de Souzousareta, a competente assessora enviou registros do trabalho: uma foto de um gato, que seria um trecho de um vídeo, e uma imagem, distorcida em photoshop, da Praia Porto das Dunas. Se passaram ao largo do fato de não haver qualquer registro do japonês na internet ou em textos impressos, é normal que ninguém tenha percebido as pistas deixada por Firmeza no próprio nome que deu ao artista, que em português significa "artista inventado", e à exposição, "arte e ficção".

Diretor do MAC há 11 meses, Ricardo Resende não interferiu nessa divulgação, mas admite que passou por uma saia justa:
— Um jornalista do "Diário do Nordeste" me ligou para saber da mostra porque não estava encontrando informações. Fui pego de surpresa. Disse que pediria para o artista entrar em contato com ele.

Foi o que o artista fez. No papel de Souzousareta, respondeu a uma entrevista por e-mail, que foi publicada em página inteira. Foi uma repercussão da qual museu e artista não tinham idéia quando Firmeza propôs o artista inventado ao ser convidado para o projeto Artista Invasor.

— Procuro dar a máxima liberdade para o artista criar. Convidei oYuri pensando em suas performances, que já achei que seriam bastante ousadas ( ele faz muitas das performances nu ). Mas ele foi mais ousado ainda e me testou, para ver até onde eu iria. Eu fui adiante, porque tive o apoio da presidência do museu. Sabíamos que poderia haver um conflito, mas a imprensa podia não ter publicado uma linha sobre o assunto — avalia o diretor do MAC de Fortaleza.

Para Resende, a divulgação só prova o preconceito da imprensa com o preconceito da imprensa com os artistas cearenses, já que nas outras edições do Artista Invasor não houve qualquer reportagem:

— Há um certo deslumbramento com o que vem de fora no Brasil todo, não só no Ceará. A mídia insistiu em publicar a matéria, mesmo com dificuldades de achar informações. Foi uma ingenuidade, ou mesmo uma falta de conhecimento de arte contemporânea. Depois houve uma tentativa de jogar o erro para o outro, enquanto o grande erro foi daprópria mídia.

Firmeza, apesar de enfatizar que o problema é da imprensa em geral, faz críticas à falta de especialização no estado.

— Acho que a imprensa de São Paulo e do Rio também poderia ter caído nessa. Mas o Ceará é uma província. Aqui os jornalistas não têm fundamentação teórica sobre arte, é uma verborragia — diz ele,citando o artigo "Arte e molecagem" do jornalista Felipe Araújo,de "O Povo", que afirma que a arte contemporânea é, "com raras exceções, uma arte pobre, recalcada e alienada, feita por moleques que confundem discurso (ou melhor, as facilidades conceituais de um discurso) com pichação." — Todo o preconceito está ali.

Para diretor, museu cumpriu seu papel
No museu, o visitante poderá ver a troca de e-mails entre Firmeza eum amigo sociólogo, com conversas sobre Bourdieu, Nietzsche e Deleuze, inspiradoras da idéia de se criar um artista inventado. Aos poucos, o local receberá ainda as fotos do suposto japonês, divulgadas para a imprensa, reportagens sobre o caso e performances e registros em vídeo de Yuri — que não sabe como a exposição teria sido montada se nada houvesse sido publicado nos jornais:

— Foi um risco que corri desde o início. Mas de qualquer modo estaria lá a troca de e-mails. As performances aconteceriam e também voltariam ao museu como registros. Só sei que se o Yuri tivesse enviado o material, nada teria sido publicado na imprensa.

Para Resende, o museu saiu fortalecido no meio artístico porque mostrou que funciona para ousar:

— Nossa credibilidade não está ferida. Acho que as pessoas se perguntam que mídia é esta, que informações estão lendo. O museu só está cumprindo seu papel de ser o espaço do artista. O trabalho deu muito certo porque chegou ao editorial do jornal e a outras áreas em que a arte contemporânea nunca é tratada. Ele foi realmente um invasor.

18 janeiro 2006

Ficha extensa

Nunca fui santo. Nunca foi anjo, também. Enfim, sou normal. Talvez, esse seja meu maior defeito (profissionalmente falando). Por me considerar "normal" gosto dos desafios apresentados diariamente pelo jornalismo. Ao mesmo tempo, tenho medo de encarar as conseqüências dos desafios proporcionados pela carreira que escolhi.

Desde que comecei a trabalhar profissionalmente (com carteira assinada, em 1999), nunca arrumei tanta confusão com minhas reportagens como neste ano de 2006. E olha que nem completou um mês de vida. Em três semanas, consegui atingir a incrível marca de quatro matérias contestadas pelas próprias fontes.

Reclamações sobre minhas matérias não são novidade. Antes de enumerar as confusões que já arrumei em 2006, deixa eu fazer uma recaptulação de todas as encrencas que me meti desde quando tinha 18 anos e estava engantinhando no jornalismo.

Vamos lá:

1999 - Eu, repórter de TV. Foca total. Recém-chegado em Campina Grande. Fiquei espantado com o fanatismo dos torcedores dos times de futebol da cidade. Certo dia, almoçando, tive o azar de estar no mesmo restaurante dos presidentes de Treze e Campinense. Fui convidado para sentar ao lado deles e aceitei. As duas equipes se enfrentariam no final de semana seguinte pela semifinal do Campeonato Paraibano. Havia quatro jogos seguidos que o Treze não ganhava do Campinense.

O povo de Campina Grande, espirituoso como ele só, falou logo que o Treze tinha "tomado na quartinha". Para quem não é do Nordeste, quartinha é um recipiente feito de barro que é muito usado para colocar água ou até cachaça mesmo. Tipo uma jarra. A expressão "tomado na quartinha" era uma referência ao tradicional "tomado no c*".

Pois bem. Os presidentes dos dois times me pediram para fazer um agito para aquele clássico que estava por vir com dois dos principais jogadores das equipes rivais. Passei na feira, comprei uma danada de uma quartinha e levei, no mesmo dia, para o campo do Treze. Chamei o atacante Valério, do Treze, e expliquei que havia combinado tudo com o presidente do time e tal que era para fazer uma brincadeira com a tal da quartinha. Ele aceitou, mas não havia entendido que eu estava com a quartinha ali para entregar para ele e filmar alguma coisa. Tipo ele jogando a quartinha no chão, pisando e quebrando.

Inocente, mostrei a quartinha para ele bem em frente à torcida do Treze. Valério, claro, fez uma cena, tipo: "você é louco de trazer isso para cá, jamais farei tal coisa". Falou alto e nervoso para a torcida ouvir. Fiquei muuuuito sem graça e olhei para a torcida. Ela já estava toda no alambrado do estádio me xingando.

Isso aconteceu em setembro e passei o resto do ano sem conseguir entrevistar Valério direito. O treinador não aceitou falar sobre o clássico comigo. Para completar, criei um caso de ódio com a torcida do Treze que me perseguiu até meu último dia em Campina Grande (20 de novembro de 2002).

2000 - Depois de ter conquistado o primeiro título paraibano em 11 anos, o Treze entrava para disputar a Série C do Campeonato Brasileiro cheio de moral e com o mesmo elenco campeão. entre eles estava Duda, um meia habilidoso, baiano, cheio de ginga, porém tímido com a imprensa.

Por coincidência, ele estivera uma única vez solto de frente aas câmeras. Exatamente na festa de comemoração do título paraibano. Cheio de cana na cabeça, rebolou na boquinha da garrafa, cantou e nós, claro, colocamos toda a festa no ar. Até aí, tudo bem

Acontece que esse neguinho desandou a jogar mal na Série C. Perdeu gol, pênalti, errou passes incríveis, a torcida do Treze (talvez, a mais noiada do Brasil), começou a pegar no pé dele. Sob a influência de Batatinha, chefe dos cinegrafistas da TV Borborema, resolvemos fazer uma montagem sobre a entrevista que ele havia me dado após um jogo da terceirona.

No exato momento em que ele dizia "Eu tenho certeza que tô jogando bem", nós colocamos a imagem do pênalti perdido por ele e, em seguida, ele dançando na boquinha da garrafa. Ou seja, dava a entender que ele tava farrando em vez de se preocupar com futebol.

Acontece que esse neguinho largou o Treze depois dessa confusão. Os jogadores fizeram pacto do silêncio comigo e passaram dois meses sem me dar entrevistas.

2001 - O Treze estava rumo ao bicampeonato. Havia contratado um louco para comandar o time. Um tal de Celso Teixeira. Ele se fazia de amigo das pessoas para depois "esfaqueá-las" pelas costas. Acontece que ele recebera propostas parra sair do Treze no meio do campeonato, mas estava sem coragem para pedir para sair.

Certo dia, estava eu fazendo uma passagem para uma matéria qualquer sobre o Treze no campo do time, quando ele interrompeu o treino e começou a gesticular. Logo chegou um diretor dizendo que eu não poderia filmar aquele treino. Mas, ora, eu tava apenas fazendo a passagem. Já havia filmado tudo que queria, só quem aparecia era eu naquele caso.

Isso deu uma confusão dos diabos. Deixa eu resumir porque esse post já tá gigante. Fiz uma matéria meia-boca sobre a confusao na sexta-feira. No domingo teria algum jogo, que não me lembro qual era.

Após o jogo, esse tal Teixeira deu entrevistas me xingando e me chamando de Daniel Filho nas duas rádios de Campina Grande. Nos tradicionais debates de segunda à noite, recebi a ligação de um ex-jornalista mas apresentador do programa da emissora concorrente aa minha pedindo para falar sobre o caso. Comecei a falar normalmente quando o ex-jornalista me perguntou:

- Você aceitaria falar com Teixeira hoje?
- Claro..., disse sem imaginar que poderia falar com Teixeira na segunda à noite
- Eu tô aqui e não quero falar com essa criança não, interrompeu minha resposta o tal Teixeira.

Aí começou uma sessão de humilhação para cima de mim. Fui humilhado em praça pública. Chamado de analfabeto, criança, despreparado, e tudo com o apoio e a incitação (existe esse termo?) do âncora da rádio. Claro que respondi a todas as provocações do Teixeira, sempre em alto nível, sem xingá-lo ou acusá-lo de qualquer coisa. Mas sei que não consegui me sair bem no "debate".

O treinador saiu do Treze. E no dia seguinte, os jornais O Norte, em João Pessoa, e Diário da Borborema, em Campina Grande, estamparam em suas primeiras páginas: "Celso Teixeira: inimigo da imprensa". Conseguimos apurar que em todas as outras equipes que passou, esse Teixeira havia brigado com algum jornalistas para sair das equipes.

2002 - O Treze (sempre ele) andava muuuito mal das pernas (e dos bolsos). Fiz uma matéria com o zagueiro Almir Conceição "dando porrada" na diretoria por não cumprir o que prometia. A torcida caiu em cima de mim. Era véspera de clássico contra o Campinense (sempre ele, também).

Para completar, o apresentador do programa para o qual eu era repórter fazia questão de jogar a torcida do Treze contra mim. Não sei porquê. Mas fazia essa questão. Até que após o clássico (não me lembro quem ganhou), um diretor entrou no gramado de treinamento com vários bolos de dinheiro na mão. Fez aquilo para me provocar e para inflamar a torcida.

Foi o suficiente. Choveu sabugo de milho em cima de mim. Sabugo de milho, cusparada, chiclete, garrafa d'agua cheia de mijo... Foi preciso um outro diretor do time ir lá pedir para torcida parar. Quando estava entrevistando Rodrigo Tabata (hoje no Santos), ele fez sinal de calma para torcida porque ninguém parava de me xingar. Na saída do estádio, os torcedores cercaram o carro da TV e ameaçaram balançar a viatura. Foram momentos de pânico, confesso.

O que eu fiz? Pedi para o cinegrafista filmar toda a confusão e apresentei aos "chefes". O que aconteceu? Eu passei a ser apresentador do programa e o apresentador passou a ser repórter. Quantas reportagens no campo do Treze foram apresentadas no programa depois disso? NENHUMA...

(caraca, já escrevi muito e ainda nem cheguei na metade)

Pulamos, pois, os anos de 2003 e 2004.

2005 - Já no Correio Braziliense. Fui fazer uma matéria com a jogadora Flávia, do time de vôlei que disputava a Superliga (Campeonato Brasileiro). Ela é linda. Fiz uma matéria com o título: "A musa da Superliga". Perfil da atleta, fofoquinhas sobre namorados e tal. No meio da conversa, perguntei:
- Livro?
- Chikérrimo, de Glória Kalil

Publiquei a resposta. Flavinha me odiou para sempre. Até hoje deve ter esse sentimento. Não falou mais comigo até o término da Superliga. "Fiquei parecendo fútil", reclamou para as amigas.

Teve o caso do pivô da República Dominicana José Vargas, que atuou em Brasília, durante o Campeonato Nacional de basquete. Ele fez críticas a todos os jogadores na vespera da semifinal do campeonato. Recebeu uma bronca do diretor e eu liguei para ele para saber como tinha sido o papo (com o diretor). Ele reconheceu que havia criticado colegas na hora errada. Fiz essa matéria.

No último treino antes da ultima partida da semifinal, ele me encotrou e disse que eu menti, escrevi coisas que ele nao tinha dito e o escambau. Agora, imagina o cara de exatos 2,10m de altura apontando o dedo na minha cara, que está a, apenas, 1,74m de altura do chão? No momento em que ele dizia que eu havia escrito uma matéria que nunca existiu apontando o dedo na minha cara, calculei que a mão dele era duas ou três vezes maior que a circunferência de meu rosto.

Para minha sorte, o time de Brasília perdeu e esse cara foi embora de Brasília. Hoje encara repórteres em Franca (SP).

Chegamos (UFA!) em 2006.
Primeiro dia do ano começa com uma entrevista que fiz com um camarada chamado Baltemar Brito. Pernambucano, auxiliar técnico de José Mourinho, treinador do Chelsea, um dos times mais poderosos do futebol do planeta. Apesar do sobrenome, ele não é meu parente.

Ele me deu uma entrevista super legal. Disse que Mourinho (puta treinador) era um jogador de futebol medíocre, reclamou das torcidas brasileiras, falou sobre a falta de zagueiros na seleção brasileira.

Ao enviar a matéria para ele (após publicada no Correio BRaziliense), ele me liga na mesma hora.
- Rapaz, como eu vou mostrar essa reportagem para Mourinho?
- Desculpa (Baltemar) Brito, mas nossa conversa foi toda gravada. Você disse isso e eu tenho gravado
- Eu também não disse que os zagueiros da Seleção eram ruins. Também não reclamei disso, nem disso, muito menos daquilo, enumerou o camarada.
- Mas tá gravado!
- Eu sei, mas é que fiquei à vontade com você e falei coisas que não devia. Tem como republicar a matéria?

Impossível.

Outra polêmica do ano.

Matéria sobre o calendário do vôlei de Brasília para 2006. Coloquei que o Governo local não queria trazer um jogo da Liga Mundial e o Banco do Brasil estava negociando com governos para deicidir quais cidades sediariam as etapas do Circuito BB de volei de praia. Tudo baseado no que disse o presidente da Federacão do DF de volei. No dia seguinte, tanto o governo do DF como o BB mandaram carta reclamando da matéria. E olha que o texto ocupou um pé de página (20 cm). O governo culpou a federacão por nao haver Liga Mundial e o BB disse que não negocia com ninguém nada. Alguns diretores do banco estão sendo acusados de ter envolvimento em corrupção. A expressão "negociação com governos" por lá é motivo para escândalos.

Mais uma, desta vez no basquete:

Dois jogadores norte-americanos do time de Brasília que disputam o Campeonato Brasileiro são acusados de terem jogado sem o visto de trabalho para estrangeiros no país. Tal infração resulta em multa de R$ 50 mil, mais a perda dos pontos ganhos no jogo em que os caras não tinham visto e ainda cancelamento do pagamento por parte do governo da verba anual que a confederação de basquete tem direito.

A denúncia surgiu no jornal Lance!. Eu apenas republiquei e fui maltratado pelo diretor do time de Brasília. Inclusive, "acusado" de investigador, mal-caráter e intruso. Retruquei, mas preparei uma ofensiva por conta própria.

Fui no Ministério do Trabalho, no Ministério da Justiça e na Polícia Federal pegar informações sobre os dois caras. Um deles ficou confirmado que estava, de fato, sem visto em um jogo do campeonato.

Liguei para os diretores do time falando que queria fazer a matéria. Eles ligaram para meu chefe para tentar impedir a publicação. Não só não conseguiram impedir a publicação como deixaram a entender que erraram mesmo e o jogador estava sem o visto na estréia do Campeonato Brasileiro de basquete.

Fizemos a matéria com as informações que eu tinha conseguido nos órgãos federais e nao deu em nada. A confederação jamais vai reconhecer que aceitou um jogador que não tinha visto no país. Ela deixaria de receber a verba anual do governo. A maior perda foi minha, que não tenho mais uma grande fonte na área do basquete.

Por último (será que alguém ainda tá lendo este post?) , o volei, de novo.
O treinador do time de brasília, William Carvalho foi medalha de prata nas Olimpiadas de Los Angeles em 1984 e é extremamente gente boa. Porém, o time dele não começou bem a Superliga (Campeonato Brasileiro).

Fiz uma matéria comparando o rendimento deste ano com o do ano passado. Ele me disse assim, aos ver os números:

- Se nossas estatísticas não subirem daqui a cinco jogos, eu não vou estar mais nesse time
- Posso publicar essa sua declaração?, fiz questão de perguntar.
- Pode, pode..., respondeu, se despedindo

A matéria saiu no jornal de sábado, 14 de janeiro. As 11h da manha de sabado ouço um recado na minha secretaria do celular:
- Daniel, é o William. Eu não te dei esse tipo de entrevista. Você perdeu um cara que podia contar e eu perdi a confiança em você...
Esperei até segunda-feira para ligar para ele e conversar de cabeça fria. Ele não me atendeu. Pelo que soube da repórter do jornal concorrente ao meu, Camila Valadares, William achou uma babaquice a minha reportagem e não me dará entrevistas enquanto estiver em Brasília.

Hoje, quarta-feira, tenho que entrevistá-lo. Vou ligar para ele. Vamos ver o que ele vai fazer quando ouvir minha voz. Não quero briga, quero saber o que aconteceu para ele negar o que havia me dito na semana passada.

Diante de um histórico desses, ecoa alto na minha cabeça uma frase célebre de Batatinha, o mesmo cara que fez a montagem com o meia Duda, do Treze, dançando na boquinha da garrafa e errando gols:

"Jornalista ganha pouco para falar bem de todo mundo".
(DESCULPE O TEXTO GIGANTESCO, SÓ QUERIA EXPLICAR A HISTORIA DIREITINHO)

13 janeiro 2006

Assessorias e assessorias

Estive pensando nos últimos dias nos artifícios usados pelas fontes para calar nós jornalistas. Calar não, melhor, somente falar bem delas. O mais comum é oferecer dinheiro. Não estou falando de suborno descarado, quando o cara pergunta quanto o jornalista quer para não publicar tal matéria. Não que esses casos não aconteçam. Porém são mais raros. Falo daquele “cala a boca” oferecido pelos políticos. Esse sim acontece com freqüência. O político dá ao jornalista uma assessoria (não necessariamente de imprensa) e pronto. Ele ganha um jornalista que dificilmente – pra não dizer nunca – vai falar mal dele. Pode parecer radicalismo da minha parte, mas é dessa forma que os políticos agem. Teve um político aqui de Campina Grande que chegou a dizer que “os jornalistas da cidade a gente compra com um jantar”. Se disse é porque já deve ter comprado algum jornalista com um jantar.

A tática arranjar um salário para o jornalista. Na maioria dos casos o assessore sem fazer nada. Mesmo assim são nomeados para o cargo. Existe um caso ainda pior: o dos jornalistas que não têm nomeação e recebem dinheiro de três, quatro, cinco políticos “pra inteirar o leite dos meninos em casa”, como disse Daniel em um post anterior. É claro que esses benefícios são mais concedidos aos jornalistas políticos. Há um outro caso, que abrange as outras áreas, em que o jornalista com emprego num veículo de comunicação (principalmente jornal) usa seu expediente vago para assessorar alguém ou algum órgão. Alguém pode até dizer que isso é normal, que não atrapalha o trabalho, mas não é bem assim. Tomemos como exemplo alguém que é assessor de um órgão ou pessoa que está cometendo irregularidades. Como o jornalista vai fazer uma matéria isenta se ele é pago também pelo órgão em questão? Certamente vai desagradar o jornal onde trabalha ou o seu assessorado. A sabedoria diz “ninguém pode servir a dois senhores” porque vai desagradar a um deles.
Se não me engano, Daniel já me falou que no Correio Braziliense e em outros grandes jornais não é permitido jornalista ter assessoria. Ou é jornalista ou assessor. Acredito que esse seja o melhor caminho. Aqui na Paraíba isso não acontece. Muito pelo contrário quase todos os jornalistas têm uma assessoria pra complementar o salário. Como gostam de dizer alguns políticos “é uma laminha que a gente paga”. Basta dar uma lida nas colunas políticas que logo se percebe de que lado o colunista está. Por aqui é assim. Ou você é a favor ou contra o governo. O colunista até tenta disfarçar, mas basta ler a coluna por uma semana que se percebe qual a posição dele. O interessante é que a maioria posa de jornalista isento, em que o único compromisso é com a verdade. Como se o leitor fosse burro e não soubesse fazer uma análise crítica. Existem colunistas que têm várias assessorias de políticos diferentes. Os nomes deles aparecem quase todos os dias nas colunas. Falando bem, é claro. Uma semana é suficiente pra se perceber de quem o jornalista está recebendo a “ajuda de custo”.
Mas deixa eu esquecer a área política e voltar pra minha, a de esportes. Nela também dirigentes, treinadores e jogadores tentam agradar os jornalistas com convites pra jantar, tomar uma cerveja e até assessorias. Nesse aspecto os dirigentes de clubes de futebol se assemelham aos políticos. E, pasmem, conseguem até ser pior. Aqui em Campina Grande se um cara desses encontra você num restaurante, senta a sua mesa e depois paga a conta, pode esperar que na primeira oportunidade ele vai dizer que “paguei um monte de coisa pra esse jornalista e ele ainda fala mal de mim”. E isso ocorre nas rádios. Já aconteceram vários casos.

Comigo aconteceram duas situações interessantes na época em que era editor de esportes do Diário da Borborema. Nenhuma delas envolveu jantares. Até porque acredito que o jornalista é que tem que pagar a sua conta para não dar o direito a esses caras ficarem conversando merda nas rádios e nos calçadões da vida. Isso mesmo, existe uma classe ainda pior que é a dos covardes, que só tem coragem de te criticar pelas costas. Voltando ao “causo”, um diretor de futebol de um dos clubes de Campina Grande estava tentando empresariar jogadores. Era procurador de um atacante, que inclusive foi artilheiro do Paraibano naquele ano. Pois bem, o cara chegou lá na redação me elogiando, elogiando meu trabalho. Fiquei logo desconfiado com aqueles elogios. Dirigente de futebol só fala do seu trabalho quando é para criticar. Aí, ela solta:
- Olha você sabe que sou procurador do atacante ‘fulano de tal’ e estou querendo vendê-lo pra um clube do Sul. Se você pudesse me dar uma força colocando matérias elogiando o jogador, quando vendê-lo trago um presente, um agrado pra você, disse ele.
- Peraí. Se eu colocar uma matéria elogiando jogador é porque ele merece. Até porque o cara é artilheiro do campeonato. Mas se você vendê-lo não me traga nada não. Nem uma camisa, sequer. O jogador é seu, o empresário é você e quem ganha dinheiro com isso é você. Eu sou pago pelo jornal, respondi.
- Não me entenda mal, sei que você é um homem de bem. Não estou querendo lhe comprar, apenas lhe agradar.

Eu pergunto: você leitor acredita que ele não estava querendo me comprar?

O outro “causo” foi mais interessante. Ainda como editor do DB, eu fiz uma matéria contra um técnico. Deve ter saído numa sexta-feira. No domingo, dia de jogo, ele estava comentando em outra emissora – que não fazia parte dos Associados – que a notícia do jornal era uma notícia plantada, de gente que queria tumultuar o trabalho dele. E não era. Dá pra perceber como o cara é esperto. Não criticou na emissora dos Associados, onde eu trabalhava também, para não correr o risco de ser desmentido no ar. Passado o jogo, na terça-feira lá fui eu pra reapresentação do time. O treinador estava com um semblante fechado. Pensei: “agora esse cara vem tomar satisfação comigo”. Quando encerrei meu pensamento ele me chamou pra conversar em particular. Pra minha surpresa – esperava um desabafo dele – o técnico veio com outra história:
- Você que todo profissional hoje em dia precisa de uma assessoria. Eu fiquei pensando nesses dias e cheguei a conclusão de que você é uma boa opção pra ser meu assessor de imprensa. É um cara que entende e gosta de futebol e também tem bom relacionamento com os outros jornalistas.

Não estava preparado para o convite. Fiquei alguns segundos pensando no que responder, mas a única coisa que me veio a cabeça foi:

- Eu realmente fico muito lisonjeado com o convite e o reconhecimento ao meu trabalho. Mas a função de assessor é incompatível com a de editor de esportes do jornal. Primeiro porque você não vai aceitar críticas. Segundo, todas as vezes que eu lhe elogiar as pessoas vão dizer que eu faço isso porque sou seu assessor. E além do mais pode criar um mal estar pra você, pois eu teria acesso a informações que os outros jornalistas não teriam. E eu iria usá-las no jornal onde trabalho. Os outros ficaram chateados porque você estaria me privilegiando. Então é melhor procurar uma pessoa que não tem vínculo com nenhuma empresa.
Eu imagino que no fundo ele não queria minha assessoria. Se tivesse aceitado talvez não tivesse recebido um tostão. Foi tentativa pra que eu não fizesse mais nenhuma matéria contra ele. Acredito que ele deve ter procurado alguma forma de me queimar, de me sacanear e a deve ter pensado: “a única forma de calá-lo é puxando ele pra perto de mim, amarrando-o com uma assessoria”. É a história de colocar os ‘inimigos’ perto pra não perdê-los de vista.

Posso até estar errado e realmente ele me quisesse como assessor. Nesses casos acho melhor não arriscar pra não comprometer o trabalho.

09 janeiro 2006

Notinhas

Há mais de um mês tenho essas duas notinhas para postar e sempre me esqueço. Mas agora vai.
Ambas as situaões aconteceram no final do ano passado.

Cena 1
Cerimônia de premiação do Prêmio Esso de jornalismo. Renata Lo Prete, jornalista da Folha de S. Paulo, foi a grande vencedora com a entrevista em que Roberto Jéfferson denunciou o Mensalão. Nao houve muito texto nessa matéria. Só entrevista e denúncia. Mesmo assim ela ganhou. Na hora dos agradecimentos, lá foi ela:
"Quero agradecer meu pai, meu filho, fulano, sicrano e, principalmente, Roberto Jéfferson".
Em vez de aplausos, muitas vaias para a ganhadora do Prêmio Esso 2005.
Em tempo: se fosse eu, também agradeceria ao personagem principal de minha matéria premiada (e levaria vaia também!)

Cena 2
Em uma das dezenas de festas de confraternização para jornalistas promovida por órgãos públicos, um repórter de uma das maiores revistas de circulação nacional espera na fila sua vez de ir ao banheiro. Ao lado dele, um cara forte o surpreende:
- Ei, você não é repórter da revista 'tal'?
- Sim, sou eu sim, muito prazer...
- Você denunciou meu pai no caso do Mensalão e ele quase vai preso, sabia?
Silêncio por parte do repórter
- Olha aqui, filho da puta, quanto é o programa?, aumentou o tom o tal do filho do acusado.
O repórter foi para o banheiro do outro lado do salão de festas para evitar o louco.
Em tempo: o cara quis humilhar o repórter dizendo que ele se vendia, tipo um garoto de programa. Ao que parece, o pai do cara provou inocência (claro que ele não era deputado. Esses não são inocentes nunca!).

07 janeiro 2006

Direito de resposta

Somente depois de colocar esse blog no ar junto com meu amigo Daniel Brito foi que percebi a eficácia desse instrumento. Aqui podemos relatar algumas de nossas experiências jornalísticas, além de interagirmos com outros profissionais, estudantes e amantes do jornalismo. Outra vantagem é a liberdade de que escrever o que pensamos. Sem nos preocupar com nenhuma linha editorial. Se bem que antes do blog entrar no ar elaboramos um “manual de redação” do 'Filhos da Pauta' para que a coisa também não fique desorganizada. Porém navegando pela internet esta semana vi uma notícia que começa (ou pode começar) a colocar em xeque a liberdade de expressão nos blogs. Está no blog “O que pensa Aluízio” (http://oquepensaaluizio.zip.net/) do jornalista Aluizio Amorim.

Segue o texto:

CRESCE A INFLUÊNCIA DOS BLOGUEIROS

Lei de Imprensa usada para
direito de resposta em blog

A velha, surrada e rabugenta Lei de Imprensa (Lei 5.250 de 09/02/1967), editada pela ditadura civil-militar de 1964, foi invocada pelo professor Luiz Alberto Moniz Bandeira, para requerer – pasmem – direito de resposta em um blog editado por um professor, portanto um colega de profissão do Requerente. Trata-se do Blog do Tambosi, de propriedade do professor Orlando Tambosi, da Universidade Federal de Santa Catarina. Tambosi é jornalista, mestre em Comunicação pela USP e doutor em Filosofia pela Unicamp, tendo militado durante vários anos na imprensa catarinense. E, para lograr seu intento, o professor Moniz Bandeira contratou, nada mais nada menos, que os serviços de um dos mais respeitáveis escritórios de advocacia do país, o Noronha Advogados.

Do episódio, tiro duas conclusões. A primeira corrobora o que tenho afirmado. Os blogs crescem em todo o planeta e passam, cada vez mais, a ocupar o espaço antes monopolizado pelas mídias tradicionais. Não se trata mais de um lócus alternativo. Os blogs estão levantando assuntos e formulando críticas que as mídias convencionais ignoram. E vieram para ficar e já reformulam até mesmo a linguagem jornalística. A internet é outra mídia. O que na mídia convencional pode parecer panfletário e agressivo, no blog pode adquirir status de normalidade, guardada, evidentemente, a observância dos padrões éticos consentâneos com a moral e a lei vigentes. Além disso, abrem espaço para que qualquer cidadão, seja jornalista ou não, possa emitir livremente a sua opinião, sujeitando-se, é claro, à legislação em vigor. O caso em pauta comprova, de forma cristalina o que está acontecendo no âmbito da comunicação e que faz com que as mídias convencionais sofram uma crise aguda. E o que é mais importante: a internet, e os blogs em especial, ampliam o arco de vigília dos cidadãos sobre o Estado bem como ao nível do comportamento social e também no que tange ao fazer intelectual, científico e tecnológico.

A segunda conclusão é que o “entulho autoritário”, representado pela famigerada Lei de Imprensa, continua intacto. Seu anacronismo resulta do fato de que a lei foi criada de forma casuística pela ditadura, com a finalidade única de restringir a liberdade de imprensa, de opinião e de informação e, principalmente, amordaçar os jornalistas. Não se postula aqui a lacuna da legislação nesse aspecto. Mas não se pode concordar com a vigência de uma lei impertinente no que respeita aos cânones da democracia.
Clique
aqui (http://otambosi.blogspot.com/ ) e vá direto ao Blog do Tambosi e entenda o que aconteceu.

Tomara que esse seja um caso único. Que não abra precedentes. Se isso acontecer, eu, Daniel e outros blogueiros seremos “obrigados” a selecionar os assuntos que abordaremos. Será o começo do fim da liberdade nos blogs. Aliás, poderá ser o primeiro passo do fim dos blogs. Pois sem essa liberdade, os blogs não terão o mesmo sentido.

04 janeiro 2006

Coincidência

Acho que to levando sorte nessa história de blog. Toda vez que escrevo sobre um assunto, alguém (que nao sabe que este blog existe) me envia um texto sobre o que postei neste espaço. Hoje, por exemplo, recebi uma matéria do jornal Estado de S. Paulo sobre fontes jornalísticas e blogs.

Sei que nem todo mundo tem paciência para ler um monte de coisa. Sei também, isso aprendi na minha monografia sobre JORNALISMO NA INTERNET NA PARAÍBA (nota 9,5. So nao foi dez porque um dos orientadores falou que eu tinha que apresentar de pé), que a leitura na tela do computador é 25% mais lenta.

Porém, achei que você poderia se interessaar em ler esta informaçao complementar ao meu post sobre fontes, Cicarelli, ACM e tudo mais que está abaixo.

Segue o texto:

O Estado de S. Paulo, 3 de janeiro de 2006.

Entrevistados gravam as entrevistas

Fontes insatisfeitas até republicam o conteúdo em sites

Katharine Q. Seelye

Durante décadas, mesmo quando as fontes de informação achavam que suas declarações tinham sido mal interpretadas, era improvável que elas enfrentassem os jornalistas ou donos de jornais, acreditando que o poder da imprensa dava a ela própria a palavra definitiva.

A internet, e especialmente o poder amplificador dos blogs, está mudando isso.

Fontes insatisfeitas descobriram há pouco tempo que poderiam usar seus sites na Web para corrigir o registro ou desconstruir artigos para expressar o que consideravam ser narrativas tendenciosas ou errôneas de jornalistas.
Agora, eles estão dando um passo além. Os entrevistados estão revidando. Eles passaram a usar os mesmos métodos que os jornalistas utilizam - gravando entrevistas, salvando trocas de e-mails, tomando notas em conversas telefônicas - e publicam o conteúdo em seus próprios sites e blogs.


Essa nova arma está ajudando a mudar a maneira como as notícias são apuradas e apresentadas. E isso traz implicações para o futuro do jornalismo.

Basta perguntar aos produtores do programa Nightline, da rede de TV ABC News. A rede transmitiu, em agosto, uma reportagem sobre o design inteligente (crença de que a evolução não é suficiente para ter formado a vida, processo que exigiria um "criador"), entrevistando integrantes do Discovery Institute, uma organização conservadora. Eles não gostaram nada da reportagem.

No dia seguinte, o instituto publicou no seu site a transcrição completa da entrevista com quase uma hora de duração - o programa que foi ao ar havia usado apenas breves citações da entrevista.

Na verdade, o instituto não acusou a ABC de qualquer erro. Mas convidou quem acessa sua página a analisar a entrevista não editada, porque ela revelaria "o tom previsível de algumas das perguntas" feitas pela equipe do Nightline.

"Aqui está sua chance de penetrar nos bastidores da mídia nacional para ver como eles fazem uma triagem dos pontos de vista e informações que não se encaixam nos seus estereótipos", escreveu Rob Crowther, o porta-voz do instituto no site. A publicação de transcrições, mensagens eletrônicas e conversas - e mesmo a capacidade de buscar informações em sites como o Google - tem dado poderes àqueles a quem Jay Rosen, um blogger e professor de jornalismo da New York University, chama de "pessoas anteriormente conhecidas como o público".

"Nesse novo mundo, o público e as fontes são também 'publicadores'", disse Rosen. "Eles agora dizem aos jornalistas: 'Nós também somos produtores. Portanto, a entrevista fica no meio, entre nós. Vocês produzem coisas a partir dela e nós também'. De agora em diante, num situação de entrevista potencialmente hostil, esta será a norma."

Todas essas evoluções têm obrigado os jornalistas a reagir de várias formas, inclusive se tornando mais abertos em relação a seus métodos e técnicas e talvez mais conscientes sobre a forma como filtram as informações.

"Na medida em que você sabe que existe alguém monitorando cada palavra, isso provavelmente o impele a ser ainda mais cuidadoso, o que é uma coisa boa", disse Chris Bury, o correspondente do Nightline cuja entrevista foi publicada na íntegra pelo Discovery Institute.

"Mas os leitores e telespectadores precisam compreender que uma entrevista é apenas uma parte da reportagem, que existem outras entrevistas e outras pesquisas e esta é apenas um parte do que constitui uma reportagem completa", acredita Bury.

Deu para entender??

03 janeiro 2006

Sobre as fontes

Sem exagero, azarar Daniella Cicarelli e namorá-la é mais fácil do que cultivar uma fonte jornalística. É sério. Primeiro porque Cicarelli está solta na bagaceira, ultimamente. Segundo, porque a fonte não quer beijo seu, mas só gosta de receber agrados.

Antônio Carlos Magalhães, vulgo ACM, tem uma frase boa sobre esse assunto. "Nunca dê dinheiro a quem quer informação. Nunca dê informação a quem quer dinheiro". Jornalista que procura o velho ACM pedindo um trocado para "inteirar o leite dos meninos lá em casa", o véi já sabe. Não é jornalista. É pilantra, enganador. Por outro lado, se a pessoa demonstra desprezo pela fortuna dele e explicita que quer informações boas (o que vale mais que dinheiro, na minha modesta opinião), ACM respeita. Se eu não me engano, ele já foi ministro das comunicações. Tem know-how nisso!

Pois bem. Tenho sofrido com minha única fonte segura e riquíssima de informações. Nos últimos dias, tenho batido sem dó nem piedade na coisa que ele administra. Crítica atrás de crítica. Até que um dia (para ser mais exato, dia 9/12, meu aniversário) acordo com uma ligação do camarada.

- Muito obrigado pela reportagem que você publicou hoje. Acabou de "me fuder" (com o perdão da palavra - parenteses meus!)

Ele falou alto, resmungou, ameaçou deixar de me passar informações e eu ainda cambaleando na cama. Estava dormindo quando ele me ligou, era cedinho da manhã, tipo umas 7h30. Ouvi um bocado. Ao terminar, soltei a única coisa que ele não estava preparado para ouvir:

- Você pensa que eu sou seu funcionário? Eu não estou a serviço da sua instituição. Nós temos uma parceria sadia e isso consiste em aceitar críticas. Você não está cumprindo com sua parte. Quando é para divulgar as suas coisas com letras garrafais no jornal, você não me liga agradecendo...

Pronto, a fera amansou mas eu já tinha perdido o sono. No dia seguinte, fiz outra matéria dando porrada nele de novo. Ele me ligou fazendo brincadeiras. Mas na outra semana precisei dessa figura de novo para apurar uma história que poderia repercutir nacionalmente. Na cara de pau, liguei e ele me passou tudo, como se eu só tivesse o elogiado nos últimos dias. A matéria não ficou legal, mas liguei e agradeci a força dele mais uma vez.

De repente, me toquei que poderia estar perdendo a confiança do camarada. Com ele, eu já dei furo na Folha de S.Paulo e Estadão (meu único, eu acho). E de fato estava perdendo. Ele já não me atende sempre, não tem tanto interesse em me passar algumas informações. Em pouco mais de um ano na redação do Correio Braziliense, posso dizer que tenho duas fontes. Essa pessoa em questão é uma e a outra fonte são duas pela metade. Duas pessoas me passam as coisas pela metade e eu tenho que morrer para conseguir as informações. Então, cada um vale por meia fonte.

Não forcei a barra para fazer matéria de qualquer jeito, nem fiquei de conversa fiada para o lado dele. No momento certo apareceu assunto e emplaquei uma página inteira com a história do camarada. Fiz a matéria com a história que ele trabalha e ainda não foi publicada. Mas tenho certeza que ele vai me ligar agradecendo e já vai me passar uma novidade (espero!).

Como eu disse, as fontes só passam informações que beneficiam elas próprias. Pode existir alguém que pense que jornalista não deve ser amigo de ninguém, não deve aceitar convites para almoçar, para jogar futebol descompromissadamente ou qualquer coisa do tipo. Mainardi, por exemplo, deve pensar dessa maneira. Mas ele é colunista, quase um escritor, então não conta como jornalista.

Mas fique sabendo que existe, sim, amizade entre jornalista e personagens. Quer amizade maior do que a pelada semanal entre jornalistas e deputados federais nos domingos em Brasília? Eles jogam bola e depois vão tomar cerveja. Nada impede que a Câmara dos Deputados (aquele prostíbulo- parenteses meu, de novo. Não me contive) seja execrada em todo e qualquer noticiário nacional.

Outra coisa, os grandes jornais e revistas designam uma verba mensal para que os jornalistas almocem ou jantem com suas fontes. Como você acha que os furos pipocam nas Vejas, Folhas de SP, Estadões da vida? São em conversas informais que a maioria das bombas estoura. Detalhe, quem paga a conta são os jornalistas, claro!

O que não pode existir é corrupção. Não é nem questão de dinheiro. É o fato de você saber de alguma merda que sua fonte fez e esconder. Não divulgar, por amizade, por camaradagem e até politicagem (sim, isso é politicagem). Aí mora o erro em "ser amigo" de personagens. No caso desse cara que me ligou reclamando no dia do meu aniversário, sempre soube de algumas falcatruas dele. Admito que fico meio chateado em ter que divulgar, mas sinto que tenho a responsabilidade de divulgar as merdas que ele faz (ele está longe de ser santo. Mas também não é ladrão do Banco Central de Fortaleza). Acima do meu interesse, está o interesse da comunidade. Não é hipocrisia. Falo isso do fundo do meu coração. Até porque, ele não será minha última fonte. Muito pelo contrário. Mas é sempre ruim perder uma fonte, claro!

Vou dar dois exemplos muito ilustrativos.

1) A convite do Banco do Brasil, viajei a Londrina/PR para cobrir uma etapa do Circuito nacional de vôlei de praia. Encontreei com todos os figurões do BB. Um deles (que não vou citar o nome porque ele pode ler isso aqui - nééééé???), diretor "pica grossa" do parte de esporte do banco, tomou café da manhã comigo e falou assim:

- Cadê o Cruz (José Cruz, meu sub-editor)? Aquele cara só dá porrada na gente, mas é um puta jornalista. Reconheço que ele não dá ponto sem nó...

Pô, fiquei feliz por Cruz por ter ouvido isso desse cara. Ele não pareceu estar mentindo. Apesar de que, meses depois, foi defenestrado do BB por roubo e envolvimento no Mensalão. Anyway...

2) Lucas Figueiredo é repórter especial do Correio Braziliense e Estado de Minas. Área de cobertura: Agência Brasileira de Intenligência (Abin). Trocando em miúdos, a Abin é a CIA ou a KGB do Brasil, certo? Só que aqui só tem burros (calma que eu explico).
Pois esse Figueiredo escreveu em 2005 o livro Ministério do Silêncio. Conta toda a história da Abin, desde 1927, no governo de Washignton Luís até 2005. Aí fala do surgimento do serviço de inteligência brasileira, do SNI durante a ditadura, até os dias atuais. No prólogo, ele avisa:
"Nem todos os entrevistados aceitaram divulgar seus nomes nesta publicação. Portanto, não identifiquei nenhum agente da Abin. Qualquer erro é de minha inteira responsabilidade". Ele foi macho em colocar isso na página 3 do livro.

O livro é sensacional para quem gosta de jornalismo investigativo e de história do Brasil. Conta cada absurdo da ABIN (que ja teve 15 mil nomes nesses 75 anos). Simplesmente, a Abin nunca fez nada certo. Deveria se ligar em defender a integridade nacional de grupos estrangeiros e só investigou a vida do povo. Inclusive, Lula foi a primeira pessoa que teve a vida devassada pela agência a ser eleito presidente. E o que Lulão fez com a Abin? Nada. Manteve os erros do passado. Ou seja, a Abin continua investigando a minha, a sua, de Da Silva, de todos os brasileiros comuns e "inofensivos" para a soberania nacional.

Mas deixa eu chegar logo onde eu tava querendo chegar. Quem passou os podres da Abin foram os próprios agentes. Eles queriam denegrir a imagem do próprio local de trabalho? Não creio! Passaram as informações para Lucas Figueiredo porque confiam nele. Figueiredo já cativou os agentes e teve total liberdade para conferir alguns arquivos confidenciais na Abin.

Confesso que gostaria de saber como está a relação entre o jornalista e os agentes secretos atualmente, depois do lançamento do livro.

Confesso, também, que queria ter uma oportunidade de bater um papo com Daniella Cicarelli para comprovar minha tese das fontes... (Que a minha namorada não leia isto!)