03 janeiro 2006

Sobre as fontes

Sem exagero, azarar Daniella Cicarelli e namorá-la é mais fácil do que cultivar uma fonte jornalística. É sério. Primeiro porque Cicarelli está solta na bagaceira, ultimamente. Segundo, porque a fonte não quer beijo seu, mas só gosta de receber agrados.

Antônio Carlos Magalhães, vulgo ACM, tem uma frase boa sobre esse assunto. "Nunca dê dinheiro a quem quer informação. Nunca dê informação a quem quer dinheiro". Jornalista que procura o velho ACM pedindo um trocado para "inteirar o leite dos meninos lá em casa", o véi já sabe. Não é jornalista. É pilantra, enganador. Por outro lado, se a pessoa demonstra desprezo pela fortuna dele e explicita que quer informações boas (o que vale mais que dinheiro, na minha modesta opinião), ACM respeita. Se eu não me engano, ele já foi ministro das comunicações. Tem know-how nisso!

Pois bem. Tenho sofrido com minha única fonte segura e riquíssima de informações. Nos últimos dias, tenho batido sem dó nem piedade na coisa que ele administra. Crítica atrás de crítica. Até que um dia (para ser mais exato, dia 9/12, meu aniversário) acordo com uma ligação do camarada.

- Muito obrigado pela reportagem que você publicou hoje. Acabou de "me fuder" (com o perdão da palavra - parenteses meus!)

Ele falou alto, resmungou, ameaçou deixar de me passar informações e eu ainda cambaleando na cama. Estava dormindo quando ele me ligou, era cedinho da manhã, tipo umas 7h30. Ouvi um bocado. Ao terminar, soltei a única coisa que ele não estava preparado para ouvir:

- Você pensa que eu sou seu funcionário? Eu não estou a serviço da sua instituição. Nós temos uma parceria sadia e isso consiste em aceitar críticas. Você não está cumprindo com sua parte. Quando é para divulgar as suas coisas com letras garrafais no jornal, você não me liga agradecendo...

Pronto, a fera amansou mas eu já tinha perdido o sono. No dia seguinte, fiz outra matéria dando porrada nele de novo. Ele me ligou fazendo brincadeiras. Mas na outra semana precisei dessa figura de novo para apurar uma história que poderia repercutir nacionalmente. Na cara de pau, liguei e ele me passou tudo, como se eu só tivesse o elogiado nos últimos dias. A matéria não ficou legal, mas liguei e agradeci a força dele mais uma vez.

De repente, me toquei que poderia estar perdendo a confiança do camarada. Com ele, eu já dei furo na Folha de S.Paulo e Estadão (meu único, eu acho). E de fato estava perdendo. Ele já não me atende sempre, não tem tanto interesse em me passar algumas informações. Em pouco mais de um ano na redação do Correio Braziliense, posso dizer que tenho duas fontes. Essa pessoa em questão é uma e a outra fonte são duas pela metade. Duas pessoas me passam as coisas pela metade e eu tenho que morrer para conseguir as informações. Então, cada um vale por meia fonte.

Não forcei a barra para fazer matéria de qualquer jeito, nem fiquei de conversa fiada para o lado dele. No momento certo apareceu assunto e emplaquei uma página inteira com a história do camarada. Fiz a matéria com a história que ele trabalha e ainda não foi publicada. Mas tenho certeza que ele vai me ligar agradecendo e já vai me passar uma novidade (espero!).

Como eu disse, as fontes só passam informações que beneficiam elas próprias. Pode existir alguém que pense que jornalista não deve ser amigo de ninguém, não deve aceitar convites para almoçar, para jogar futebol descompromissadamente ou qualquer coisa do tipo. Mainardi, por exemplo, deve pensar dessa maneira. Mas ele é colunista, quase um escritor, então não conta como jornalista.

Mas fique sabendo que existe, sim, amizade entre jornalista e personagens. Quer amizade maior do que a pelada semanal entre jornalistas e deputados federais nos domingos em Brasília? Eles jogam bola e depois vão tomar cerveja. Nada impede que a Câmara dos Deputados (aquele prostíbulo- parenteses meu, de novo. Não me contive) seja execrada em todo e qualquer noticiário nacional.

Outra coisa, os grandes jornais e revistas designam uma verba mensal para que os jornalistas almocem ou jantem com suas fontes. Como você acha que os furos pipocam nas Vejas, Folhas de SP, Estadões da vida? São em conversas informais que a maioria das bombas estoura. Detalhe, quem paga a conta são os jornalistas, claro!

O que não pode existir é corrupção. Não é nem questão de dinheiro. É o fato de você saber de alguma merda que sua fonte fez e esconder. Não divulgar, por amizade, por camaradagem e até politicagem (sim, isso é politicagem). Aí mora o erro em "ser amigo" de personagens. No caso desse cara que me ligou reclamando no dia do meu aniversário, sempre soube de algumas falcatruas dele. Admito que fico meio chateado em ter que divulgar, mas sinto que tenho a responsabilidade de divulgar as merdas que ele faz (ele está longe de ser santo. Mas também não é ladrão do Banco Central de Fortaleza). Acima do meu interesse, está o interesse da comunidade. Não é hipocrisia. Falo isso do fundo do meu coração. Até porque, ele não será minha última fonte. Muito pelo contrário. Mas é sempre ruim perder uma fonte, claro!

Vou dar dois exemplos muito ilustrativos.

1) A convite do Banco do Brasil, viajei a Londrina/PR para cobrir uma etapa do Circuito nacional de vôlei de praia. Encontreei com todos os figurões do BB. Um deles (que não vou citar o nome porque ele pode ler isso aqui - nééééé???), diretor "pica grossa" do parte de esporte do banco, tomou café da manhã comigo e falou assim:

- Cadê o Cruz (José Cruz, meu sub-editor)? Aquele cara só dá porrada na gente, mas é um puta jornalista. Reconheço que ele não dá ponto sem nó...

Pô, fiquei feliz por Cruz por ter ouvido isso desse cara. Ele não pareceu estar mentindo. Apesar de que, meses depois, foi defenestrado do BB por roubo e envolvimento no Mensalão. Anyway...

2) Lucas Figueiredo é repórter especial do Correio Braziliense e Estado de Minas. Área de cobertura: Agência Brasileira de Intenligência (Abin). Trocando em miúdos, a Abin é a CIA ou a KGB do Brasil, certo? Só que aqui só tem burros (calma que eu explico).
Pois esse Figueiredo escreveu em 2005 o livro Ministério do Silêncio. Conta toda a história da Abin, desde 1927, no governo de Washignton Luís até 2005. Aí fala do surgimento do serviço de inteligência brasileira, do SNI durante a ditadura, até os dias atuais. No prólogo, ele avisa:
"Nem todos os entrevistados aceitaram divulgar seus nomes nesta publicação. Portanto, não identifiquei nenhum agente da Abin. Qualquer erro é de minha inteira responsabilidade". Ele foi macho em colocar isso na página 3 do livro.

O livro é sensacional para quem gosta de jornalismo investigativo e de história do Brasil. Conta cada absurdo da ABIN (que ja teve 15 mil nomes nesses 75 anos). Simplesmente, a Abin nunca fez nada certo. Deveria se ligar em defender a integridade nacional de grupos estrangeiros e só investigou a vida do povo. Inclusive, Lula foi a primeira pessoa que teve a vida devassada pela agência a ser eleito presidente. E o que Lulão fez com a Abin? Nada. Manteve os erros do passado. Ou seja, a Abin continua investigando a minha, a sua, de Da Silva, de todos os brasileiros comuns e "inofensivos" para a soberania nacional.

Mas deixa eu chegar logo onde eu tava querendo chegar. Quem passou os podres da Abin foram os próprios agentes. Eles queriam denegrir a imagem do próprio local de trabalho? Não creio! Passaram as informações para Lucas Figueiredo porque confiam nele. Figueiredo já cativou os agentes e teve total liberdade para conferir alguns arquivos confidenciais na Abin.

Confesso que gostaria de saber como está a relação entre o jornalista e os agentes secretos atualmente, depois do lançamento do livro.

Confesso, também, que queria ter uma oportunidade de bater um papo com Daniella Cicarelli para comprovar minha tese das fontes... (Que a minha namorada não leia isto!)

3 comentários:

Léo Alves disse...

Essa história de cativar fontes é sempre um dilema para o jornalista. Mas acredito que as boas notícias surgem das fontes bem cultivadas. O grande problema é que elas (as fontes) confundem essa relação de troca e acha que o jornalista só pode divulgar os fatos que lhes interessam. Aos poucos (e com ética, acima de tudo) a gente chega lá, DB.

Anônimo disse...

Sempre que posso estou dando uma passadinha por aqui, esse blog é um prato cheio pra quem gosta de jornalismo, e eu como estudante(quase um jornalista) não poderia deixar de passar por aqui! Nosso professor Leonardo Alves ja nos falou muito sobre fontes, e muito do q ele falou, está nesse texto gostoso de ler feito pelo parceiro de Leonardo! os dois estão de parabéns! abraço!

DB disse...

Por experiência própria, Wanderley, acho que jornalista não tem que ficar "se trocando" com político no ar. Nao só políticos, mas qualquer outra pessoa. O prefeito foi inocente em acreditar que o que ele falou para o gravador não seria publicado. Diferentemente do que pensam os jornalistas de CG e de outros lugares no Nordeste, não é vergonha nenhum levar reclamação de personagens porque a matéria ou a pergunta não agradou a eles. Você não é jornalista para agradar a ninguém. Só ao seu chefe, se isso for possível.
Outra coisa é a subserviencia dos veículos de comunicação com os poderes públicos. Claro que isso existe em TODOS os lugares, mas no Nordeste é de forma acentuada...