21 maio 2010

Revolta de um jornalista (sério)

Por Léo Alves

Conheci Nildo na faculdade de jornalismo. Eu na condição de professor (ou de mediador, como gosto de dizer) e ele de aluno. Sempre foi uma pessoa que demonstrou sinceridade e posições firmes, algumas vezes interpretada como radicais. Nildo, agora Lenildo Ferreira, se formou e hoje atua na no jornalismo político, uma área muito visada e sedutora por estar muito perto do poder. O agora jornalista mantém sua posição séria e sincera no seu dia-a-dia. Seus textos - principalmente os publicados no Blog do Lenildo - nem sempre agradam. E quando o texto não agrada os anônimos se aproveitam para criticar o autor. Como sofri isso (e muito) num blog de esportes que fechei há mais de dois anos reproduzo abaixo a revolta de Nildo publicada em seu blog que expressa também minha posição em relação aos comentários covardes dos anônimos:

NA FRENTE DE COMPUTADORES, COVARDES, BABÕES E AFINS ESCULHAMBAM JORNALISTAS. E OS JORNALISTAS SÃO AS GENIS DA PARAÍBA

Sempre tem alguém disposto a xingar os jornalistas. O jornalista é burro, o jornalista é comprometido, o jornalista é vendido, o jornalista é desinformado. Xingar jornalista, principalmente aqui na Paraíba, é mais que uma moda. É quase uma tradição, uma obrigação, uma profissão de fé.

O danado é que, na maioria das vezes, quem condena a suposta parcialidade do jornalista é algum puxa saco de político, daquele que mata e morre pelo deputado Fulano, o vereador Sicrano, o governador Barnabé. É, portanto, o cara que vota inquestionavelmente em seu candidato, mesmo que ele seja incompetente, mesmo que ele seja burro, mesmo que ele seja corrupto. E se acha, mesmo assim, no direito de ofender os jornalistas.

Outro caso comum é o dos anônimos, gente que liga para as rádios, manda e-mail, comenta nos sites e blogs, quer sob um nome falso, quer sob nome nenhum. Mas se acha no direito de condenar quem, nessa Paraíba sem a menor liberdade de imprensa, em que manifestar opinião é pôr o pescoço à disposição do carrasco, ousa dizer o que pensa.

Aqui no blog, vez por outra aparece uma crítica, claro. Nada mais normal que a discordância. O que, na maioria das vezes, inviabiliza a liberação do comentário crítico é o nível do comentário, muitas vezes permeado de ofensas e xingamentos. É que tem muita gente que acha que a melhor forma de responder uma crítica de um jornalista é esculhambando com ele.

Dia destes, após publicar uma postagem criticando a elitização das honrarias concedidas pela Câmara de Vereadores, algum internauta muito ofendido registrou seus impropérios, dos quais não me dei ao trabalho de ler mais que as primeiras quatro ou cinco palavras e deletei. Provavelmente seria algum parente de homenageado, ou mesmo algum xeleléu de vereador.

Se argumentasse feito gente, o espaço estaria garantido. Mas não sou e nem quero ser o cara mais paciente, cabeça fria e moderado do mundo, para agüentar desaforo de ninguém. Sou jornalista, e busco pautar-me pelos princípios éticos em que creio. Mas, primeiro, não reconheço em ninguém a autoridade para estabelecer quais são esses critérios éticos e, segundo, antes de ser jornalista, sou homem, e não sou dos mais pacíficos.

Veja-se, por exemplo, um caso que liberei o comentário. Está na postagem do dia 02 de maio (veja AQUI). Comecei o texto assim: “Então secretário de Cidadania e Administração Penitenciária, Roosevelt Vita, um dos "chegados" do governador José Maranhão, em agosto do ano passado ofendeu os moradores dos bairros Catolé (...)”.

Pois bem, um certo internauta, assinando Roma Assessoria, comentou assim: “O analfabeto parece ser você pois esse senhor não é mais secretario de cidadania e justiça infome-se jornalistarzinho (sic)”. O nível ortográfico já diria que trata-se de uma autoridade em analfabetismo. Tive de responder ao comentário: “Caro ANALFABETO, você leu em algum lugar daqui "cidadania e justiça"? Caro IMBECIL, você não viu logo na primeira palavra do texto um "ENTÃO"??? Esse "então" significa que ele foi (secretário de administração penitenciária), e não é mais. Você, sim, Vita pode chamar da analfabeto”.

Somos jornalistas, mas somos homens, e não lixeira para que toda a sorte de imbecil vomite seus atrevimentos, aproveitando-se do fato de não estar cara a cara conosco.

Lenildo Ferreira

14 maio 2010

Pendurando as chuteiras (talvez por enquanto) - parte final

Por Léo Alves

Como dito no último parágrafo do post anterior, seis meses depois de entrar no Diário da Borborema, saí para assumir um cargo (concursado) no Banco do Brasil em abril de 2000. Esqueci de dizer que antes de ir pra o Diário havia feito o concurso e um teste para repórter na TV Paraíba, no qual fui reprovado.

A vida no BB me oferecia um salário melhor, folgas nos feriados e finais de semana, além da famosa estabilidade. Aparentemente não sairia mais dali. Porém, passados 10 meses, uma angústia tomou conta de mim. Primeiro, porque a vida de bancário não é menos estressante que a de jornalista. Além disso, tinha que viajar todos os dias mais de 60 quilômetros – dos quais em 22 tinha 72 curvas (contava para não dormir ao volante) para chegar à agência onde trabalhava na região do Cariri.

Dois meses depois, surgiu a oportunidade para voltar ao Diário da Borborema, agora como repórter esportivo. A negociação para minha volta foi intermediada por Daniel, que era repórter da TV Borborema na época. O gerente do banco não queria me liberar, pois em poucos meses havia me tornado responsável pela agência. Até que disse pra ele:

- Eu posso chegar a ser presidente do Banco do Brasil, mas vou estar infeliz porque sempre que ler uma notícia vou me lembrar do que podia estar fazendo.

Liberado do BB, aceitei a proposta, mesmo reduzindo meu salário pela metade. Era o preço para voltar ao jornalismo, já em 2001. O preço foi muito bem pago. Poucos meses depois voltei a ser editor (o salário melhorou) e no final do ano a editora Neide Nascimento me convidou para ser repórter da TV Borborema, onde havia participado de um debate esportivo na condição de editor do jornal.

Relutei de início, mas aceitei. O colega Daniel afirmou categoricamente que “televisão numa era a minha praia”. Em parte, ele tinha razão porque nunca me senti muito à vontade com a reportagem. Mesmo assim, passei quase cinco anos na TV e no jornal até ser chamado para a TV Paraíba para ser repórter.

Senti-me como um jogador de futebol que é dispensado de um time e oito anos depois é contratado por ele. Em 2005 chegava à afiliada Globo com a consciência de que anos atrás realmente não tinha condições profissionais de assumir o posto a que me candidatei. Fui reprovado na época de forma merecida.

Meu primeiro desafio foi convencer o editor-chefe, Rômulo Azevedo (meu professor na UEPB), que estava pronto para a função.

Explica-se: minha contratação foi pedida pelo editor regional, Luiz Augusto Pires (hoje na Rede Amazônia), mesmo contra a vontade de Rômulo. Uma pessoa foi fundamental para minha chegada ao Grupo Paraíba, o editor Expedito Madruga, com quem havia trabalhado nos Associados anteriormente, e que levou minhas reportagens para Luiz.

Com trabalho consegui convencer Rômulo que não estava ali por acaso. Mais pra fente, ele mesmo comentou numa festa de confraternização que cometeu um erro ao ser contrário a minha ida para a TVPB.

Pouco mais de ano sob as orientações do professor Rômulo até que uma nova chefia assumiu a TV. No segundo semestre de 2006, saiu Rômulo e assumiu Carlos Siqueira, que estava na casa havia quase 20 anos como repórter e apresentador.

Nos primeiros meses de Siqueira, mais uma mudança: saí da reportagem e fui deslocado para a produção. Confesso que não encarei com naturalidade a mudança. Pensei em sair. Tive proposta para voltar aos Associados, mas decidi ficar para aprender mais.

E a partir de 2006 descubri que telejornalismo é muito mais (muito mais mesmo) que apenas botar o rosto no vídeo. Com a confiança de Siqueira (que me ensinou muito sobre a arte de ser chefe), fui produtor, chefe de produção, editor assistente do Globo Esporte local e editor de telejornais. A experiência me fez entender um pouco mais sobre os caminhos da notícia.

Tudo na vida é um ciclo e o meu na TV Paraíba chegou ao fim.

Como diz o título deste post, o ciclo de redações foi encerrado (pelo menos por enquanto). Saí para encarar o desafio de um mestrado. Desde 2004 – paralelo à vida de jornalista – passei a dar aulas no curso de jornalismo da UEPB. A partir de então, busquei um mestrado para encarar com mais foco a academia. Como a realização, decidi abdicar da vida em uma redação para cursar com mais dedicação a pós.

Não foi fácil tomar essa decisão, mas ela já vinha sendo amadurecida havia alguns anos. Afinal chegam momentos na vida que é preciso decidir entre uma coisa e outra.

Nesse tempo todo aprendi muito mais que ensinei. Ri muito mais que chorei. Os momentos de tristeza foram tão poucos que são superados pelos inúmeros de alegria. Tenho muito mais a agradecer que ser agradecido. Nesse tempo, fiz muito mais amigos. Algumas amizades - é verdade - não resistiram e não resistirão à falta de contato na redação. São os amigos de trabalho. Não menos importantes que outros. Certamente devo ter feito alguma inimizade, mesmo que ela nunca tenha sido revelada. E isso faz parte da vida. Como diz o poema de Vitor Hugo:

“Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo”

Independentemente do estresse do dia-a-dia (que me levou a um cateterismo), das alegrias, das poucas tristezas, o importante é que durante o tempo em que estive nas redações me realizei profissionalmente, algo que com certeza não teria acontecido se tivesse sido engenheiro ou bancário. E por isso, “somente” por isso, esses anos de jornalismo valeram muito a pena.

11 maio 2010

Pendurando as chuteiras (talvez por enquanto) – Parte 1

Por Léo Alves
Entrei no curso de jornalismo a contragosto do meu histórico escolar. Havia concluído no segundo grau o curso técnico de eletrônica. Embora a única coisa que consegui fazer nessa profissão foi deixar minha casa toda no escuro (depois do curto-circuito) ao tentar trocar o botão liga-desliga da televisão da minha mãe. Ainda hoje o grito dela ecoa na minha mente:

- LeonaAAAAAAAAAardo, o que foi isso?

Depois de quase um minuto de silêncio (do medo) e outro grito da minha mãe (certamente achando que eu tinha morrido) consegui responder.

- Mãe, foi nada não. Só errei aqui um negócio. (Esse erro eu nunca descobri porque não segui a carreira para investigá-lo).

Se bem que noutra tentativa (não sei se foi antes ou depois do curto) fiz a ligação elétrica do meu quarto. Tudo aparentemente perfeito. Porém a tevê só ligava quando a luz estava ligada.

Mesmo com essas experiências frustrantes ainda insisti e fiz vestibular para engenharia (mecânica) e para jornalismo. Fui aprovado nos dois. Passei cerca de um ano e meio nos cursos, mas em 95 decido abraçar o jornalismo.

Inspirado por meu tio Gutemberg Simões - que é repórter esportivo - sempre sonhei em seguir esse caminho. O detalhe é que ele era contra (talvez por saber das mazelas que fazem parte do futebol). Como “titio” não quis me dar espaço em seu departamento de esportes fui levado para a rádio concorrente (a Caturité) pelo colega Morib Macedo, que na época também engatinhava na profissão.

Como plantonista esportivo não tive muito sucesso. Trabalhar com vários rádios chiando no meu ouvido (antigamente era assim, não tinha a net) para pegar os resultados dos jogos não era meu forte. Passei alguns meses, mas nem lembro se fui convidado a deixar o departamento ou sai por conta própria. Pouco tempo depois fui chamado pela própria rádio para tirar férias de um padre, que tinha um programa onde as pessoas enviavam cartas pedindo músicas religiosas.

Durante mais de um ano assumi o “Cartas e Canções”. Inicialmente gravava o programa com amigo operador Araújo, que me deu uma grande força nos momentos de nervosismo. Nesse tempo muitas ouvintes me confundiam e achavam que eu era “Padre Léo”.

Passada a experiência católica, meu tio me convida para ser repórter na rádio (a extinta Borborema, hoje Clube) em que ele trabalhava ao lado de Romildo Nascimento. Os dois me ensinaram os caminhos da reportagem. Nem assim consegui emplacar. Isso porque em 96 (era setorista do Treze) ainda era muito imaturo profissionalmente. Faltava-me o senso de responsabilidade e noção de jornalismo. Uma das maiores m* que fiz na carreira foi ler um jornal do dia anterior no programa esportivo que fui escalado para apresentar. Dá pra imaginar a quantidade de ligações que recebi (o bom é que ninguém lembra, só eu).

Novamente me afastei, só retornando em 98. Agora de fato para me seguir na profissão. Mais maduro e mais consciente do era o jornalismo esportivo passei mais de um ano sendo setorista do Campinense. Em 99 – já formado – chegava à rádio para fazer o noticiário e ao ler os jornais me perguntava como era que a “pessoa” conseguia encher uma página todos os dias.

E não é que em setembro de 99 fui chamado para um teste no Diário da Borborema. A experiência na rádio me ajudou a assumir a função (logo isso) de editor de esportes. Na verdade era repórter. Uma semana depois foi pedia minha contratação. Nesta época já conhecia o parceiro de blog, Daniel Brito.

Não fiz mudanças no estilo de fazer o jornal. Aliás o fato de ser tradicionalista torna-se uma falha como diz DB. Como Brito circulava bem entre os colegas de O Norte, que também faz parte dos associados, perguntei como estava sendo a repercussão por lá.

Ele disse que Expedito Madruga (então editor de esportes de O Norte) gostava dos textos, mas achava estranho na terça-feira ainda falar do jogo do domingo, quando todas as rádios e televisões já haviam mostrado a partida, o assunto era velho.

Como se percebe não tinha muita noção das rotinas do jornalismo impresso. Mudei isso e várias outras coisas, mas só passei seis meses no jornal. Por opção. Como este post já está grande, o motivo da minha saída e o resto da história conto no próximo, provavelmente na sexta-feira. Até lá.