29 março 2006

Ergonolepticamente falando

Tinha a idéia de escrever sobre isto que você vai ler abaixo quando nosso humilde blog completou mil acessos únicos (mil computadores diferentes), no início do mês de março. Mas como outros assuntos surgiram, fica para este post a missão de nos fazer alcançar o acesso número 1.300.

Queria "responder" a um comentário feito ainda no post "Suave Veneno", quando a leitora Karin Maria disse que o texto sobre as armadilhas de ser jornalista estava "interessante para adolescentes, mas para pessoas bem resolvidas não passava de razoável".

Tive várias certezas na minha vida/carreira desde que criei este blog ao lado do Da Silva. As duas únicas dúvidas que tive foram as seguintes:

1) Conseguiríamos mantê-lo atualizado?
2) Quem o leria?

A primeira pergunta acho que tá fácil de responder. Eu achei, simplesmente, sensacional escrever um blog. Além de acordar, tomar banho, dirigir e ficar pensando só na pauta do dia no jornal, fico formulando um texto na cabeça para escrever aqui. Como aprendi na minha própria monografia na UEPB que a leitura na internet é 25% mais lenta que em uma folha impressa, ainda não acertei a mão nos tamanhos do textos. Afinal, internet não me dá limite de tempo e espaço. Escrevo um bilhão de parágrafos no texto pelo simples fato de estar gostando de estar escrevendo sobre aquilo e, posteriormente, lendo o que eu mesmo penso sobre eu mesmo.

Posso escrever quanto quiser, a hora que quiser e, principalmente, corrigí-los quando bem entender (a correção é assunto para outro post. Me cobre!).

Já a segunda pergunta ("Quem lê?") é a dúvida que não consegui tirar. Acho que nunca conseguirei. Só sei que Da Silva repassa o endereço do blog para os alunos da UEPB e alguns outros amigos nossos.

Só.

Além de Campina Grande, João Pessoa e Brasília, nosso medidor de acessos registra presenças de internautas do Rio de Janeiro, Manaus, Natal, México, Japão, Estados Unidos, Itália.

Não sei se esses gringos estão querendo aprender português (aqui não parece ser o site ideal). Só que tá registrada a presença deles lá. Devem fazer parte dos 76% dos acessos que não passam mais que cinco segundos no Filhos da Pauta. Baseado nisso, fica difícil saber se o texto "Suave Veneno" foi mais interessante do que razoável, como avaliou a leitora Karin.

O que eu acho mais intrigante nisso tudo é que as informações que a gente coloca aqui ficam soltas no espaço sem fim.

Não é filosofia barata.

Se você entrar lá no Google (aliás, o Google é meu melhor amigo no trabalho) e digitar FILHOS DA PAUTA você vai encontrar lá nosso blog. Vai ver foi assim que a "bem resolvida" Karin Maria encontrou o texto Suave Veneno.

Ele tá rondando pela internet até que alguém como eu, que gosto de digitar palavras estranhas no Google, digite alguma coisa bem diferente para ver o que existe na internet sobre isso.

Por exemplo, ergonolepticamente. Vem de ergonoléptico, que nada mais é que o teste que se faz para saber a qualidade de um vinho.

Que tal digitar claudicante, ou licergia, hermenêutica ou concomitantemente?

Sei lá...

Acho sensancional o fato de qualquer besteira que eu escrever aqui estar flutuando em algum lugar para que qualquer outra pessoa possa ler. Diferentemente do jornal. Porque, quando escrevo sobre basquete -- é óbvio -- estou me dirigindo aos amantes/admiradores daquele esporte.

O mesmo acontece com os demais assuntos, economia, política externa, carnê do IPTU e assim vai.

Só posso dizer que, ergonolepticamente falando, viciei em blogs e já penso em criar outros para deixar boiando pela "rede mundial de computadores".

Como disse acima, ainda não acertei a mão no tamanho dos textos no blog. Agora mesmo tive que apagar dois parágrafos porque já estava dando outro motivo pelo qual quero fazer outros blogs. Não sobre jornalismo, mas sobre pedaços de histórias da vida dos outros, minhas matérias na íntegra, piadas, autobiografia...lo que sea!

26 março 2006

Você já leu o ombudsman?

Para quem está com preguiça de ler, por achar o texto "grande demais", é preciso dizer que jornalista é, por obrigação, uma pessoa bem informada -- ou pelo menos deveria tentar ser. O texto abaixo pode até ser "grande demais", mas é uma aula de jornalismo.

Primeiro, porque situa, na primeira parte do texto, o leitor na confusão em que está metido o governo federal neste momento. Depois (público x privado), por fazer uma análise jornalística do que a GRANDE IMPRENSA divulgou na semana que passou. O ponto cinco dos comentários do ombudsman mostra o que um pouco do que já foi escrito aqui sobre vaidade e parcialidade.

Vale a pena ler, refletir e comentar...

OMBUDSMAN
Folha de S. Paulo - domingo, 26 de março

O caso do ministro e do caseiro

MARCELO BERABA

A semana foi dominada por um escândalo, a quebra ilegal do sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa. Francenildo foi apresentado pelo "Estado de S. Paulo" na edição do dia 14 de março, e a manchete do jornal resume a importância de seu testemunho: "Caseiro desmente Palocci e diz que ministro visitava mansão".

A "mansão" era uma casa alugada no Lago Sul de Brasília por ex-colaboradores de Antonio Palocci da época em que foi prefeito de Ribeirão Preto e teria sido utilizada para lobby. O ministro da Fazenda garantiu, em diversas ocasiões, que jamais esteve na casa. Francenildo foi a segunda testemunha a aparecer, depois do motorista Francisco das Chagas Costa.O depoimento do caseiro criou uma situação ainda mais difícil para Palocci, já acuado por várias acusações referentes, principalmente, aos períodos em que foi prefeito. No dia 16, uma quinta-feira, Francenildo reafirmou, na CPI dos Bingos, que vira o ministro na tal casa, mas uma liminar do STF, concedida a um senador do PT, suspendeu a sessão.

Na sexta-feira à noite, a revista "Época" inaugurou o seu "Blog Brasil" (www.blogbrasil. globolog.com.br) com uma informação exclusiva e de repercussão imediata: "Extratos revelam depósitos para caseiro". A informação antecipava a reportagem que seria publicada na edição em papel que estava sendo concluída.

Os repórteres da "Época" tiveram acesso aos extratos da conta do caseiro na Caixa Econômica Federal e decidiram publicá-los, mesmo sabendo que tinham sido obtidos ilegalmente, por os considerarem "jornalisticamente relevantes". O título da revista é uma pergunta: "Quem está dizendo a verdade?".

A revista levantou a hipótese de o caseiro ter recebido dinheiro para testemunhar contra o ministro Palocci. O caseiro negou. Informou que o dinheiro tinha sido depositado por um empresário do Piauí que não o reconhece como filho. A história é confirmada pelo empresário.

Mesmo assim, a revista cravou que "os extratos põem em dúvida a credibilidade do caseiro". Por quê? Mais adiante a revista afirma que "o caseiro pode até não ter mentido [em relação ao ministro Palocci], mas escondeu de todos que tinha tanto dinheiro". E por que teria de revelar que tinha o dinheiro?A reportagem da "Época" deslanchou dois movimentos. Do lado do governo, uma operação para preservar o ministro e desmoralizar o caseiro, antes testemunha e agora investigado pela Polícia Federal e pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, do Ministério da Fazenda. Do lado da oposição, da imprensa e de várias instituições e personalidades, uma onda de repúdio pela violação criminosa do sigilo bancário.

Público x privado

Pouco se discutiu a respeito da decisão da "Época" de publicar os extratos obtidos ilegalmente. Meu ponto de vista sobre a reportagem da revista:

1 - A violação do sigilo bancário é um crime grave e justifica a indignação estampada nos editoriais dos jornais e nas cartas de leitores. Além dos prejuízos pessoais provocados ao caseiro, é um atentado à democracia.

2 - O fato de a revista ter publicado o extrato não significa que ela também tenha cometido o crime. No caso, a responsabilidade pela manutenção do sigilo era da CEF. Há, a meu ver, um fator fundamental que pode justificar -como já ocorreu inúmeras vezes- a publicação de informações verdadeiras de origem ilegal que chegam às mãos dos jornalistas: o interesse público.A Folha tinha ciência de que as fitas do BNDES que gravavam conversas sobre o escândalo da privatização das telefônicas, em 1998, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, tinham sido feitas ilegalmente. Verificada a autenticidade delas, decidiu publicar as partes que tinham interesse público (e nunca revelou os trechos com intimidades dos grampeados).

3 - No caso dos extratos de Francenildo, a revista "Época" cometeu, na minha opinião, os erros de ação e de omissão. Explico.

4 - A revista foi precipitada ao tornar pública a história familiar do caseiro. Naquela sexta-feira, dia 17, a publicação não tinha nenhum indício para colocar em dúvida a credibilidade da testemunha. O que ela tinha em mãos eram suposições, e deveria ter se dado mais tempo para investigar antes de publicar. A relação de Francenildo com o empresário que ele diz ser seu pai faz parte da sua vida particular. É até possível que o caseiro esteja mentindo e que o dinheiro tenha outra origem. Mas até agora nada foi provado.

5 - A revista estava, no entanto, com uma grande história e não deu atenção: os extratos foram obtidos através da violação criminosa do sigilo bancário do caseiro dentro da CEF, banco subordinado ao ministro Palocci. Este, por enquanto, é o grande escândalo. A revista ignorou o crime e, mesmo diante da falta de provas contra Francenildo, decidiu expor publicamente sua vida familiar. Uma completa inversão de critérios jornalísticos.

Sem comparação

Muitos leitores escreveram questionando a indignação manifestada pelos jornais com a quebra do sigilo bancário de Francenildo. Procuraram comparar o caso com o do ministro Palocci, que teria tido a sua intimidade violada quando foi revelado que freqüentava a casa do Lago Sul. Acho que não tem comparação. O ministro é um homem público e ele sempre informou que nunca esteve na casa. Se for provado o contrário, terá cometido uma mentira grave.Também não vejo como comparar o que ocorreu com o caseiro com o vazamento de informações sigilosas, obtidas legalmente, de acusados de estarem envolvidos com o valerioduto. São homens públicos investigados por terem se beneficiado de esquemas ilegais de levantamento de recursos para o enriquecimento pessoal ou para uso político.

Marcelo Beraba é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2004. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.

23 março 2006

Parcial (mas nem tanto)

Quer queira, quer não, atletas, treinadores, dirigentes, até políticos e pessoas que costumamos entrevistar diariamente são nossos companheiros de trabalho. Precisamos dos serviços deles para fazer o nosso.

Se eles não quiserem falar com a imprensa, temos uma única alternativa: descer o cacete no jornal, na TV, na rádio ou no espaço que temos, como o blog, por exemplo.

Veja o caso do Brasiliense, time de futebol de Brasília. Criado há cinco anos pelo senador cassado (é com dois S mesmo) Luiz Estevão, o clube é odiado por todos os repórteres esportivos do Distrito Federal.

Como se não bastasse o fato de Lulu (Luiz Estevão) acreditar cegamente e divulgar sempre que tem a oportunidade que repórter de esporte "é o mais burro da editoria. Porque ninguém em uma redação de respeito quer trabalhar com futebol, só os que não entendem sobre nenhum outro assunto", ele proibiu a imprensa de assistir aos treinos lá no campo do time (que por sinal, é público).

Ou seja, além de termos um excelente motivo para dar porrada em Lulu diariamente no jornal, tem o agravante do desrespeito pessoal mesmo. Então, ele é o caso de "companheiro de trabalho non grata" (termo criado por mim agora).

Mas há casos como os dos jogadores de basquete. Acompanho de perto o Campeonato Nacional masculino de basquete em viagens pelo Brasil e acabei me tornando ligado a alguns atletas. Alguém se lembra de Pipoka? Ele é de Brasília, tem 40 anos, participou de três Jogos Olímpicos ao lado do Mão Santa Oscar Schmidt, mas continua jogando profissionalmente.

Ele é o oposto de Lulu. Qualquer matéria que eu faça sobre ele será tedenciosa. Primeiro, porque, assim como Estevão, ele merece um texto tendencioso (só que o senador cassado merece o outra tendência). Segundo, porque Pipoka é uma figura da cidade de Brasília, querida e ovacionada.

Acontece que, dia desses descobri que o time dele não paga salários há dois meses. No futebol, isso é assunto corriqueiro, mas no basquete não. O time de Pipoka, o Universo BRB, é o braço forte de um grupo nacional que engloba seis ou sete universidades pelo país, cujo dono é senador da república (não, não é Lulu), Wellington Salgado de Oliveira. Em outras palavras, não há motivos para atrasos.

Por ser novidade no basquete, corri atrás das fontes para detonar o tal senador no jornal. A primeira pessoa que fui conversar foi Pipoka. A matéria é de interesse dos jogadores. Para minha surpresa, Pipoka reconheceu o atraso nos pagamentos, mas pediu desculpa e disse que não falaria, temendo represálias. Minha matéria dando porrada no senador "companheiro de trabalho" dono do Universo BRB nasceu morta.

Eu tenho todas as informações para detonar a diretoria do time de basquete. Quando foi o último pagamento, quanto é folha salarial, o que foi combinado e o que foi feito pela diretoria. Mas como Pipoka, um dos beneficiados com a publicação da matéria, pediu para não falar, abortei a missão. Nada de salários atrasados no Universo BRB.

Podem dizer que sou parcial, mas, convenhamos, você conhece alguém imparcial?

Eu não.

Veja um caso do estagiário de esportes de um jornal concorrente ao meu. De tanto cobrir os treinos do time de vôlei feminino de Brasília, o camarada passou a sair na night com as jogadoras, e receber ligações a cobrar das atletas.
Ao final da temporada, ele traçou duas grandalhonas (no mal sentido mesmo).

Vamos ser companheiros de trabalho, mas daí a virar amante já é exagero, né?

PS - não estou fazendo apologia à parcialidade do repórter. Só me refiro ao sentimento que o repórter tem na hora de escrever ou apurar uma matéria. Porque antes do espírito profissional, existe um sentimento na pessoa que escreve uma reportagem. É este sentimento que me referi neste post, OK?

21 março 2006

A arte de ser chefe

Não sei o que deu na minha cabeça, mas eu passei a odiar todos os chefes. Tudo bem, todos não, vai. A maioria, o meu chefe atual, Paulo Rossi, é extremamente gente boa. Nem parece chefe, por isso não conta. Passei a odiar os chefes dos outros, então.

Um companheiro de redação, o experiente repórter Roberto Naves, soltou uma frase sensacional sobre a "A Arte de Ser Chefe":

"Chefe não quer saber quantos problemas você vai enfrentar para fazer a matéria pedida. Quer apenas dar a ordem e ponto final".

Neste momento que estou escrevendo esse post me veio à cabeça três tipos de chefe:

1 - Autoritário;
3 - Inexperiente;
2 - Rei sem coroa.

1 - O autoritário é famoso. É a figura mais horrenda que existe. Ele aparenta estar sempre sob pressão por parte do próprio chefe dele. Veja bem, se em uma guerra, um pelotão perde, a culpa do fracasso não vai para os soldados, mas para o capitão do pelotão. Esse chefe aproveita para descarregar toda a pressão proporcionada pelos superiores dele nos pobres e humildes soldados. O chefe autoritário tem vida longa, porque todos têm medo dele. Mas como o mundo dá muitas voltas, ele pode acabar sendo demitido e o autoritário estará, como se diz em Brasília, "fudido e mal pago". Se esse camarada estiver desempregado ele estará mal visto no mercado e sem nenhum amigo a quem recorrer. Só os babões de plantão, que mesmo levando porrada diariamente, fazem questão de agradar o mandão.

2 - A carreira jornalística arma algumas armadilhas aos mais novos (aos mais velhos também, mas como sou novo, não posso falar pelos mais velhos). Muitas vezes, por corte de gastos, por uma prova de competência precoce, ou por um golpe da sorte, focas acabam se transformando em chefes. Como citei no post "Suave Veneno", é inevitável que a alta dose de veneno tome conta do espírito do recém-formado. Às vezes o cara é totalmente gente boa, toma cervas com você enquanto é repórter, troca idéias, mas basta ser promovido para o sucesso subir à cabeça. Queimar etapas dentro de uma redação é uma das piores coisas que pode acontecer a um jornalista novato, os chamados focas. O que agrava a situação é que ele vai se tornar um chefe autoritário no futuro, porque ele pensa que você, por ter mais ou menos a mesma idade dele, está querendo derrubá-lo, justamente por saber que talvez não tenha o conhecimento necessário para estar na posição de chefe. No final das contas, o cara acaba se tornando uma figura odiada na editoria.

3 - Como eu disse, tenho a sorte de ter um chefe extraordinário. Gente boa, compreensivo, e inteligente. As falhas dele eu não conto aqui, porque ele pode acabar lendo. Anyway, ele é um pequeno exemplo de "Rei sem Coroa". É o cara que manda sem precisar ter o direito de mandar. É um líder natural. Rei sem coroa é o cara que te pede para fazer tal tipo de matéria complicadíssima e que não tem nada a ver com o que você trabalha, mas você faz mesmo assim pelo simples fato de ajudar aquele chefe. Porque ele merece. Ele é quase um amigo do peito. É aquele tipo de pessoa que cobra as coisas mostrando teu potencial para fazer coisas interessantes.
É dificílimo encontrar uma pessoa desse naipe. Sorte de quem tem um desses.

E você, qual tipo de chefe é o seu?

17 março 2006

Sorte de principiante

Na sexta-feira passada fui informado pela produção que deveria chegar na segunda às 11h30. Meu horário normal de trabalho é a partir das 14h. Estava escalado para ir a Boa Vista, uma cidade que fica a uns 50 quilômetros de Campina Grande, no cariri paraibano. O assunto era “denúncia no Bolsa Família”. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais denunciava que 15 pessoas - em extrema pobreza - tinham sido cortadas do programa. Na pauta que recebi tinha entre parênteses que se pudesse, investigasse a denúncia de que uma esposa de vereador recebia o benefício na cidade. A produção ajeitou tudo direitinho. Marcou com o presidente do Sindicato, que me levaria a uma mulher que foi cortada, e com o Secretário de Ação Social da cidade para explicar o motivo dos cortes. A matéria era interessante, mas necessitava cuidados para não entrar numa briga política, Afinal é ano de eleições.

Quando cheguei em Boa Vista, por volta de 12h30, tive que andar mais 14 quilômetros em estrada de terra até chegar à casa de Rosa Maria. Seguimos o carro do presidente do sindicato. Dona Rosa, 49 anos, um filho pra criar, separada do marido, vive da venda do carvão que faz no quintal da casa, onde mora de favor. Ganha no máximo 70 reais por mês. Quando ganha. Tem meses que o dinheiro não dá nem pra comprar comida. Quando isso ocorre depende da ajuda de vizinhos para comer. Essa era a minha personagem. Há três meses, Dona Rosa não recebia mais o benefício do Bolsa Família.

Depois de entrevistá-la fui até a casa de outra personagem, que logo de cara vi que não renderia pra matéria. Mesmo assim peguei todas as informações e a entrevistei. Estava tranqüilo. Dona Rosa era a personagem perfeita. De volta à cidade, conversei com o presidente do sindicato. Comecei a sondar para confirmar algo que já sabia: ele é adversário político da atual administração de Boa Vista. Na conversa perguntei se ele sabia o nome da mulher do vereador. Disse que não. Pedi para descobrir e me ligar dizendo. Queria mesmo era denunciar esse favorecimento. Com o nome da mulher tentaria conseguir junto ao Ministério do Desenvolvimento Social a lista de beneficiários da cidade. Imaginava que o Secretário de Ação Social fosse esconder o nome a todo custo. Lembrei logo do livro de Lúcio Vaz (A Ética da Malandragem). Nele o jornalista diz que quando for investigar uma denúncia não fale logo dela com a fonte. Essa seria minha estratégia com o secretário. Pensava em perguntar quantas pessoas eram beneficiadas na cidade, os critérios de escolha, sobre o recadastramento e o caso de Dona Rosa. Só depois falaria sobre a denúncia.
Por volta das 15h30, o secretário chegou a Prefeitura de Boa Vista. Veio só atender a nossa equipe. A prefeitura só funciona pela manhã. Perguntou se eu queria ser atendido ali ou na Secretaria. Preferi a segunda opção. Sabia que lá estavam todos os dados. Antes de eu começar a explicar o motivo da minha ida à cidade o secretário me interrompeu.
- Já estou sabendo que você veio aqui por causa das denúncias. Vou lhe mostrar tudo. Minha administração é transparente.
Eu quase caio da cadeira. Não acreditava que o cara fosse me passar tudo de bandeja. Pelas histórias que li, o repórter tem que ter sorte para descobrir os dados da denúncia. Vibrei por dentro. Vi que a matéria iria render melhor que esperava. Procurei agir com naturalidade para mostrar que não estava surpreso. E que estava para apurar as denúncias mesmo. E ele continuou:
- Estou aqui com uma lista de 35 pessoas beneficiadas que são parentes de funcionários da prefeitura.
Bingo de novo. O cara já estava me mostrando a lista de favorecidos. Na cidade, cerca de 380 pessoas recebem o benefício. As 35 representam quase 10% do total, um número considerável. Fiquei até sem jeito de perguntar algo. Mas fui em frente. Peguei o primeiro nome da lista, que ganhava R$ 329,00 e perguntei por que ele recebia o Bolsa Família. O secretário explicou mostrando um documento do Ministério do Desenvolvimento Social, onde afirma que 14% dos beneficiados têm emprego formal. O critério, segundo o documento, é se a pessoa tem renda per capita de até R$ 100,00. O meu personagem tinha cinco pessoas na família, o que dá uma renda per capita de R$ 65,00. Foi a justificativa dele. Esperto, meu cinegrafista começou logo a filmar a lista e eu discretamente anotando os nomes, olhando os valores. Quando passei a folha, vi que uma mulher com renda de R$ 2.655,00 estava na relação. Essa não tinha explicação. O secretário admitiu.
- Eu sou transparente na minha administração (essa era a frase preferida dele, parênteses meu). Realmente essa mulher está irregular, mas só posso fazer alguma coisa depois do recadastramento.
Ainda consegui mais alguns nomes, com valores dos salários e quanto recebe do Bolsa Família. No meio das confirmações, o secretário sai com essa:
- Sim, não adianta você vir aqui e a gente não falar da mulher do vereador. Já estou sabendo disso e vou me defender.
Eu nem havia perguntado. Mais uma vez estava recebendo a denúncia de bandeja. Ele mostrou um ofício onde solicitava desde agosto a exclusão dela, o que não aconteceu. Eu tinha mais um elemento importante para matéria. Tudo isso foi numa conversa em off. Meu medo era de que na hora de gravar, ele não quisesse. Estaria ferrado. Pelo tempo que passamos conversando pedi ao cinegrafista para mudar de fita. Não deu outra. Gravei vinte minutos de entrevista, nos quais ele confirmou tudo que havia me dito em off. É claro que eu não esqueci do caso de Dona Rosa. O secretario explicou que ela foi cortada porque havia informado uma renda de R$ 120,00. Tinha todos os elementos para a minha matéria.

Depois da entrevista fiquei pensando na sorte que tive. Esperava encontrar um monte de dificuldades. Mas em nenhum momento o secretário foi chato. Pelo contrário foi solicito até demais. No final ainda nos trouxe um pedaço de bolo de seu aniversário, que havia sido no dia anterior. Lanchei e voltei pra Campina não só de barriga cheia. As duas folhas de ofício estavam cheias de informações. Quando contei a história na redação ninguém acreditou que tivesse conseguido tudo de bandeja e ainda por cima ter comido do bolo do secretário. Não lembro quem foi que saiu com uma piada sarcástica:
- E se o bolo tivesse envenenado?
Na hora nem me lembrei desse detalhe. Comer um pedaço de bolo era uma atitude política (como gosta de dizer Daniel), de cordialidade.

Cheguei com o texto montado na cabeça. Comecei a matéria com a história de Dona Rosa, depois passei para a denúncia (não usei essa palavra no off) do sindicato, em seguida coloquei a versão do secretário para o caso de Dona Rosa. Depois disso, disse que enquanto Dona Rosa não recebia o dinheiro, outras pessoas que não precisavam estavam no Bolsa Família. Denunciei tudo que sabia. E o melhor: com a entrevista do secretário que disse “que sabia das irregularidades”. A matéria foi ao ar na terça-feira ao meio dia (JPB1) e à noite (JPB2). E repercutiu. Ontem o Ministério do Desenvolvimento Social mandou uma nota, na qual diz que o benefício da mulher do vereador foi cortado. O último saque foi em janeiro. Porém o secretário me mostrou que o cartão novo dela chegou no início do mês. Outro ponto: o marido dela assumiu o mandato em janeiro do ano passado e só agora se toma uma providência. Hoje também o secretário foi procurar uma rádio para pedir direito de resposta da matéria veiculada na TV Paraíba, afirmando que a matéria não foi verdadeira. Não teve o direito porque foi no lugar errado. Ele Deve ter levado um esporro de alguém mais experiente (você sabe de que experiência estou falando né?) da prefeitura por ter falado demais. Ficou tão desorientado que nem foi na tevê. Também se for não vai ter muito o quê argumentar. Temos os vinte minutos de entrevista gravados.

Foi a minha primeira denúncia fora do âmbito esportivo. Dessa vez foi fácil. Agora é se preparar pras bombas que vêm pela frente. Não posso mais contar com a sorte de principiante.

12 março 2006

Vaidade FC

A classe de políticos é a mais difícil para o jornalista lidar. Pelo menos é o que escuto meus amigos dizerem. Como nunca trabalhei diretamente na editoria de política não posso afirmar nada. A única coisa que posso dizer é que se os políticos são difíceis de lidar, jogadores de futebol não ficam atrás. Aliás, jogadores, dirigentes e treinadores. Uma turma muito vaidosa. Com algumas raras exceções. Independente do time, a maioria dos jogadores tem escalação garantida no ‘Vaidade Futebol Clube’. Basta uma notícia sobre a má fase de um atacante para ele ficar chateado com o jornalista. Como se existisse uma outra forma de dizer algo a respeito de um atacante que há dez jogos não faz gol. Na época em que trabalhei no Diário da Borborema (2001/2005) a coluna Binóculo FC colecionou alguns desafetos. Não desafetos declarados. Mas jogadores, dirigentes e treinadores que me olhavam com ‘cara feia’ a cada notinha venenosa que era publicada.

Esse pessoal tem a mania de só querer ouvir elogios. Se for atacante adora ser chamado de ‘matador’, ‘artilheiro’. Competente é o adjetivo preferido dos treinadores e dirigentes. O pior é que quando time vai mal, a culpa é sempre da imprensa “que está trabalhando contra”. Como se nós jornalistas entrássemos em campo. Quando a imprensa divulga algo errado que o jogador fez, a raiva é maior ainda. Semana passada, o zagueiro Antonio Carlos, do Juventude, foi acusado de atitude racista contra Joevânio, Grêmio. Em entrevista, Antonio Carlos disse que “a imprensa se deveria se preocupar com outras coisas”. O cara comete um crime e acha ruim quando é divulgado. Se não quer virar notícia, não faça besteira. Ano passado, no Campeonato Paraibano, o meia Maurício do Treze, que já passou pelo Brasiliense, agrediu o árbitro no final de um jogo realizado em João Pessoa. Todas as televisões filmaram. Quando fui ao Presidente Vargas (estádio do Treze) fazer uma matéria, ele estava puto com a imprensa por ter divulgado as imagens. Soltou algumas indiretas, mas não dei crédito. Até porque sempre o achei meio estrela. Toda as vezes que alguém o convida para entrevista, ele demonstra má vontade. Pelo jeito, Maurício (os colegas de Brasília podem me esclarecer isso) não gosta muito da imprensa. Talvez a sua cisma seja só comigo. Também se for, não estou nem um pouco preocupado.

Para aumentar meu conceito de “estrela” a respeito de Maurício, semana passada ele veio questionar o porquê da tevê só passar poucos lances de uma partida. Ele se referia ao jogo do Treze contra o Nacional de Patos. O problema não foi o questionamento. E sim as insinuações de que a imprensa trabalha contra o Treze.
Cheguei ao Presidente Vargas e fui chamar um jogador, acho que um zagueiro para entrevistá-lo. De repente, Maurício pergunta:
- Quem edita os jogos na televisão?
- Sou eu quem escolhe os lances.
- Do jeito que você editou parece que o Nacional deu um sufoco na gente. A imprensa só que lascar a gente. Até parece que é coisa direcionada.
- Maurício não é bem por aí não.
Disse e fui entrevistar o zagueiro, que já me esperava no banner. Também não queria polemizar. Mas o meia queria mesmo discutir depois foi em minha direção. Nessa hora estava perto do banco da comissão técnica. Ele chegou logo pedindo para falar:
- Deixa eu falar, eu explicar.
Depois de escutar suas reclamações pelo fato de os “melhores momentos” (o nome já diz tudo) ter tão poucos lances fiz uma pergunta:
- Maurício você entende como funciona uma televisão, quais são os critérios de edição? É impossível você exibir todos os lances.
- Mas é que parece que vocês querem prejudicar a gente.
- Olha, antes de você criticar alguma coisa você precisa entender como é o jornalismo. E outra coisa. Não me vem com essa história de conspiração contra vocês. Além disso você nem conhece, não conhece a minha postura, o meu caráter. Você me conhece daqui (do estádio) de dar boa tarde a vocês e nada mais. Procure me conhecer.
Como ele ainda insistiu com as reclamações eu disparei:
- Me diz uma coisa eu já disse como você deve bater um pênalti, bater na bola? Se você deve jogar com meião baixo ou alto?

- Não, não.
- Então cara, não se mete no meu trabalho.
Depois dessa ele ainda retrucou algumas coisas, eu argumentei outras. Mas foi o fim da discussão. Poderia ter sugerido a inversão de papéis. Ele iria fazer a matéria e eu jogar no lugar dele.
Foi a segunda vez que aconteceu algo desse tipo comigo. A outra foi com o técnico Celso Teixeira, na época em que estava no Treze. Ele pediu para o assessor de imprensa ligar dizendo que não havia gostado de uma matéria publicada no Diário da Borborema.
- Fala pro Celso que eu também não estou gostando do time que ele está botando em campo. Então diz pro Celso que a gente faz o seguinte: ele vem fazer o jornal e eu coloco o time em campo. Assim, está tudo resolvido.

Os dirigentes não ficam atrás. Quando se publica atraso de salário, problemas na administração dos clubes, eles ficam puto. Certa vez eu tive que dizer a um dirigente que eles eram muito melindrosos, cheios de frescura.

Jogador de futebol, técnico, dirigentes são pessoas públicas. E como pessoas públicas estão sujeitas a críticas e elogios. O problema é que ainda vai demorar muito tempo para essa turma entender isso. Talvez nunca entendam. E nós jornalistas continuaremos sofrendo com as crises de vaidade deles. São os “ossos do ofício”.

06 março 2006

Suave veneno

Tem gente que quer ser jornalista para substituir Glória Maria no Fantástico. Tem gente que prefere ser o novo Galvão Bueno. Tem gente que sonha em substituir Marcos Losekan como correspondente internacional. Outras pessoas fazem vestibular para Comunicação para ser reconhecido na rua e dar autógrafo.

Se você se encaixou em uma dessas três opções acima, me desculpe, mas você está errado! Você não quer ser jornalista. Quer apenas aparecer, quer ser mais importante do que a notícia. Mas se você leu este texto e conseguiu substituir Gloria Maria ou Galvão Bueno, me avise porque quero dar os parabéns pessoalmente. (Afinal, Gloria Maria e Galvão Bueno existem mesmo?)

Na minha singela opinião, jornalista é aquela pessoa que gosta de escrever, de contar e ouvir histórias. De imaginar o que os leitores, ouvintes ou telespectadores, querem saber ou gostam de ver. Eu, apesar de estar iniciando minha carreira, acredito que me encaixo neste estilo.

Nada me deixa mais feliz do que ver um texto meu impresso em uma página de jornal. Não precisa nem ter meu nome (a não ser que o texto seja uma obra prima - o que é raro, admito), só em ver um trabalho meu ali me deixa realizado. É como o grande amigo/professor Ribamildo Bezerra me falou uma vez:

"Se você escreve para um universo de 100 pessoas e apenas uma delas entendeu sua mensagem, ela repassará para outras 100. Se uma dessas 100 entender a mensagem, repassará mais uma vez sua idéia. Está formado um ciclo".

Nem sei se ele se lembra que me falou isso em 1999.

Anyway, me sinto mais realizado vendo um texto meu no jornal do que minha imagem na TV. Não sei dizer porquê. Talvez porque eu não assista TV com freqüência. Só telejornais e futebol. É claro que se fosse chamado para trabalhar em TV novamente, voltaria, com certeza, mas acho o caminho do jornalismo impresso mais interessante para mim do que qualquer outro. Talvez internet se igualaria em interesse.

Além do fato de poder escrever mais, contar mais histórias e me especializar em algum assunto -- em TV você cumpre a pauta diária e tchau --, chega a ser venenoso ser interpelado na rua por alguém que você não conhece para falar sobre seu trabalho. Poucas são as pessoas que não gostam disso.

Quando morei em Campina Grande (1999-2002), acontecia com alguma freqüência isso comigo. Confesso, me envenenei. Felizmente, o veneno não se espalhou pelo corpo. Felizmente. Não achava ruim, mas não achava bom. Só sentia falta de ter um público mais seleto. Não tenho pretensão de ser escritor das grandes massas, nem ter o alcance de Truman Capote, Ruy Castro ou Monteiro Lobato.

Como disse William Bonner em uma declaração inteligente (e mal interpretada), só é exibido na TV o que Homer Simpson consegue entender. Homer Simpson, nesse caso, é o pai-de-familia comum, trabalhador, sem regalias em casa, pagador de imposto, CPMF e coisas do tipo. Alienado, até meio burro. Na TV, ele terá a informação superficial: "A bolsa de valores de tóquio está em queda".

No jornal, Homer também pode ter acesso àquelas informações transmitidas pela TV e mais alguma coisa específica, um diferencial. Por causa dele (diferencial), Mr. Burns, o dono da indústria que Homer trabalha, milionário, proprietário da maior parte das terras do mundo, também lê o jornal. Lisa Simpson, estudante, esforçada, dedicada e atualizada, idem.

Usei os personagens de desenho animado para ilustrar os tipos de leitores e telespectadores. Quando trabalha em TV, era constantemente abordado por Homers campinenses. Apesar de eu trabalhar com futebol, aquelas pessoas mal sabiam do que estavam falando e ainda diziam de qual maneira eu deveria trabalhar, como se fossem experts. Nesses Homers, estão incluídos alguns colegas de trabalho, diga-se! (Da Silva conhece bem)

O tempo passou, comecei a trabalhar em jornal impresso e acabei por parar no jornal de maior circulação da capital do país. Público totalmente diferente. Ministros, embaixadores, juízes, deputados, atletas olímpicos, até Homers e Mr. Burns lêem o jornal diariamente e opinam sobre ele (há esse serviço no Correio Braziliense).

Como não mostro minha cara em lugar nenhum, a não ser na redação do jornal, ninguém mais me importunou no meio da rua. Mas nos lugares que freqüento por causa do trabalho, percebo que o nível dos comentários sobre minhas reportagens é outro.

Não quero dizer que me sinto melhor ou pior com isso. Muito pelo contrário, a dose do veneno nas veias do jornalista aumenta. Ele passa a sentir mais importante, dono da verdade absoluta, e conhecedor de todas as realidades. É aí que mora o perigo.

Se por um lado, o jornalista de TV quer aparecer mais que notícia, quer que o cabelo seja notado, a roupa, o batom, a gravata sejam percebidos, o jornalista de impresso se considera a fonte inesgotável de sabedoria, lido por todos, comentado por poderosos, e procurado por pessoas influentes.

É no dia-a-dia do trabalho que eu consigo encaixar melhor uma frase dita quase que automaticamente por todos, mas que se encaixa como uma luva nas armadilhas que o jornalismo coloca no nosso caminho a cada texto escrito:

"Não nos deixei cair em tentação"

Amém