30 dezembro 2006

Fidel, Andy e a mídia

Por Pedro Henrique Freire

Andy Garcia e a mídia mundial tem algo em comum. O filme CidadePerdida, dirigido pelo ator, mostra uma Cuba injusta nas mãos deFidel Castro e Ernesto Che Guevara. Uma Cuba que reprime a arte e tiradas pessoas o direito de morar em suas casas que construíram comtrabalho e suor. Uma Cuba que confisca propriedades e faz dos ricospobres e dos pobres mais pobres.

Garcia (que representou o calculista e ambicioso Vicent Corleone em OPoderoso Chefão – Parte III) levou para o cinema o desejo e a opiniãode uma leva de neoliberais e figuras capitalistas – que demarcamterritórios nos EUA e no resto do mundo.

Assim como na saga dos Corleone.

Caso alguém pergunte sua opinião sobre o regime de Fidel Castro, instalado há 47 anos, o que você responderia? Uns dizem que é quaselírica a resistência que Fidel e sua família fazem aos EUA de Bush etantos outros presidentes. Mas o socialismo instalado ali representaum atraso. Por um fato simples: não existe democracia.

Outros diriam que aqueles que lutaram por um ideal na insurgência que levou o ditador ao poder devem hoje perceber que o ideal não era ademocracia camuflada e asfixiada pelo então general Batista. O idealera Fidel e suas vontades. Trocaram uma ditadura por outra. Uma a la Pinochet: desenvolvimentista e violenta. E outra atrasada e cheia decensuras.

Uns terceiros podem até falar que o socialismo é o caminho. Que a economia inegociável e uma figura que governa, há tanto tempo, seu povo sob as teorias de Marx é uma avenida de igualdade e liberdade, embora não seja de tanta fraternidade assim.

Enfim, é por isso que quando meu amigo Daniel Brito me propôs um texto sobre como a mídia mundial reagiria com a morte de Fidel (o que não está muito distante, dizem). Respondi que muitas matérias viriam recheadas de confetes, preparando terreno para que o império americano intervenha de maneira quase imediata (imprensa dos EUA).

Outras viriam com um quê de imparcialidade, mostrando as supostas atrocidades do ditador, os atrasos em Cuba e, claro, a magnífica subida ao poder ao lado de Guevara e centenas de barbudos revolucionários. Mesmo assim, a imagem de um socialismo fracassado estaria latente (mídia brasileira e outras).

Ao final do império de Fidel, portanto, a mídia reforçaria a imagem de Cuba como o país que se perdeu dentro de suas teorias impraticáveis e revelaria que aprendeu bastante ao viver em uma democracia de verdade, podendo ouvir, ver e falar o que quiser.

O jornalismo é liberdade.

A mídia é capitalista.

Para felicidade de Andy Garcia e tristeza de Fidel.

26 dezembro 2006

Análise dos grandes portais

Por Daniel Brito

Aos poucos, a internet vai substituindo a televisão na vida dos brasileiros de classe média/alta. Em vez de correr para a frente da tevê para ver um noticiário ao chegar em casa, o hábito agora é disputar a cadeira do computador para acessar a internet.

Aqui em casa é mais ou menos assim.

Isso gera o (excelente) hábito da leitura e destaca a figura do "sabe-tudo". Aquela pessoa que tudo viu, tudo leu e tudo entendeu. É diálogo comum em mesas de botecos de Brasília:

- Deu no Globo.com que Clodovil xingou Marisa Monte.
- Ah, é? O que ele falou?
- Eu só vi a chamada lá, ele dizendo que ela só canta para comer...
- É mesmo? E quê mais?
- Ah, nem li o resto da notícia, só vi o título lá mesmo.

Isso é só uma ilustração do que as notícias da internet costumam causar nas pessoas. Deve acontecer em todos os cantos do país, claro. Tipo: "Eu vi, mas não li até o final".

É muita notícia disponível facilmente se esfregando na cara do internauta. Muitas delas inúteis, como esta de Clodovil, por exemplo. Mas são essas que fazem o sucesso de um portal.

Veja o caso do próprio Globo.com. Logo na Home dele tem quatro grandes espaços para notícias. Um no alto, para a manchete, e três "tripinhas" embaixo da manchete: uma para notícias gerais (inflação, Iraque, Lula), uma para esportes e outra para "entretenimento" (popularmente chamado de FOFOCA).

Na espaço da manchete há a principal notícia do dia. Hoje, por exemplo, é sobre a auditoria na TAM, e o resto, neste momento, estão lá, logo abaixo:
1 - Saddam será executado em 30 dias;
2 - Pelada reúne Diego, Robinho e Elano, em SP;
3 - Uma Thurma é operada após acidente;
Foto-legenda: China revela porcos que brilham no escuro.

De notícia, notícia mesmo, aquela que vai estar nos jornais amanhã, talvez até na primeira página deles, apenas a da TAM (que é a manchete do site) e a de Saddam. O resto é amenidade para os leitores "sabe-tudo".

Tudo bem que a Globo criou o G1 para fazer jornalismo de verdade, mas a página principal é voltada para curiosos e pessoas interessadas em fofocas.

O G1 concorre diretamente com o UOL. Pertencente ao Grupo Folha (de S. Paulo), o Universo On-Line (UOL) é o maior (e melhor) portal da internet verde-amarela. Tem de tudo. Muito do que se vê nos jornais impressos e nos telejornais aa noite saiu do UOL.

É a minha primeira parada quando acesso aa internet. Dá destaque ao jornalismo hard news e não deixa de colocar as amenidades, porém, em menor destaque na parte de baixo da página principal. Desde horóscopo aos manjados sites de bate-papo, passando por dicas de turismo até trânsito de São Paulo.

O Estadão poderia fazer frente ao UOL, mas não me parece interessado em marcar terreno no mundo virtual.

A terceira maior força no jornalismo "internético" na minha modesta, opaca e pálida opinião, é o Terra. Investe muito em formas de acesso: banda larga, internet phone, coisas do tipo. Na Home do site há mais destaque para publicidades do que para notícias. Pode entrar lá e ver.

Talvez por isso, o Terra esteja em todos os lugares. Eles têm jornalistas em vários cantos do planeta. Tinham seis ou cinco na Copa do Mundo da Alemanha, por exemplo.

Justamente porque vendem bem os espaços na capa do seu site. É muito difícil vender anúncios na internet (tema para outro post).

Sem limite de tempo e espaço e com a opção de ser lido, visto e ouvido, o jornalismo da internet está deixando de engatinhar e começando a andar com as próprias pernas.

É bom ficar atento, para não perder nenhum passo nessa revolução.

23 dezembro 2006

Nova geração de jornalistas

Por Daniel Brito

Já ouvi uma meia dúzia de três ou quatro jornalistas mais antigos dizerem de boca cheia:

"Ainda bem que nem todo mundo sabe escrever"

É uma brincadeira, claro, mas é verdade.

Se TODO MUNDO escrevesse bem, (ou, pelo menos, organizasse as idéias corretamente em uma folha de papel) o que teria de jornalista e escritor no mundo não seria brincadeira. Mas escrever não é fácil.

Um exemplo: tentei explicar como foi feita a escolha do Prêmio Esso de Jornalismo deste ano e meu texto gerou dúvidas nos nossos quatro ou cinco leitores fiéis.

Foi mal escrito?
Pode ser.

Não tem problema, eu ainda aprendo a explicar melhor minhas idéias. Como esta que vou tentar aqui agora.

A internet fez com que mais pessoas lêssem mais e escrevessem mais. Quanto mais se lê, mais vontade se tem de escrever. Quem esccreve, gosta de ser lido e assim sucessivamente.

A partir desta idéia, acredito que estamos prestes a presenciar um BOOM de jornalistas. Sim, porque a internet abriu espaço para que contabilista, bombeiro, arquiteto, advogado, estudantes de ensino médio (principalmente eles), até mesmo jornalistas escrevam à vontade sem limite de tempo e espaço na Rede Mundial de Computadores.

Escrevi algo parecido a isto no artigo "Ergonolepticamente falando", no início do ano.

Já viu a quantidade de blogs soltos por este mundo?

É gente interessada em ser lida. Existem duas maneiras básicas de saber se está sendo notada:

1 - Os comentários deixados no seu blog;

2 - Trabalhando por um grupo de comunicação (desde jornal, tevê, portais de internet) e escrevendo textos ainda mais interessantes.

Quanto mais pessoas escrevem na internet (repito, principalmente os estudantes), mais jornalistas e/ou escritores surgirão. Esse hábito vicia. Eu, Da Silva e Predo estamos aí para confirmar a tese.

A nova geração de jornalistas que virá daqui cinco ou dez anos será especializada em textos na internet.

Isso aí já é assunto para outro post.

19 dezembro 2006

A conquista do Prêmio Esso

Por Daniel Brito

Concorrente na categoria Regional Centro-Oeste no Prêmio Esso de Jornalismo 2006, a série de reportagens Amores Possíveis, da repórter Conceição Freitas surpreendeu a todos, na noite do último dia 12, no Copacabana Palace. Inclusive seus companheiros de Correio Braziliense.

O Prêmio Esso de Jornalismo, para quem não sabe ou não se lembra, é a máxima distinção no jornalismo nacional. Neste texto aqui, quero contar um pouquinho do que consegui apurar sobre a vitória de Conceição Freitas deste ano.

Em 11 matérias, a jornalista do Correio Braziliense, lotada na editoria de Cidades, contou histórias de amor que fugiram do lugar comum. Como um casal de idosos que retoma o namoro depois de 40 anos separados; a moça que aprende a linguagem de surdo e mudo para se casar com um deficiente auditivo; a catadora de lixo apaixonada por um companheiro de profissão que é viciado em bebida alcóolica, mas não o larga porque sabe que "nunca é traída".

São, realmente, história curiosas e MUITO bem contadas por Conceição. Não tenho muito contato com ela na redação do CB, mas tenho profunda admiração por seu estilo de texto.

Isso fez a diferença (não a minha admiração, mas o estilo dela).

A comissão julgadora do Esso gostou tanto da série que tirou Amores Possíveis da categoria regional e a colocou na categoria principal (melhor reportagem do ano). Normalmente, quem ganha o Prêmio Esso de melhor reportagem são os repórteres de política.

Ano passado, Renata Lo Prete, da Folha de S. Paulo, levou pela entrevista do mensalão com Roberto "Canalha" Jefferson. Em 2000, o Correio havia ganho com a denúncia de desvio de dinheiro da obra do TRT de São Paulo pelo então senador Luiz Estevão.

A escolha dos vencedores é feita, inicialmente, pela comissão de 26 jornalistas de diversas partes do país. Eles reúnem-se duas ou três semanas antes da noite de cerimônia e escolhem os melhores em cada categoria.

No dia do evento, pela manhã, cinco jornalistas que NÃO fizeram parte da comissão dos 26, lêem os trabalhos e escolhem os melhores entre os melhores. Todos os anos esse grupinho de cinco jornalistas muda.

Em 2006, o chefe da comisssão final era um camarada chamado Audálio Dantas. Se você tem menos de 25 anos, não deve ter na memória o imenso trabalho que esse alagoano já fez pelo jornalismo brasileiro.

Coloco, abaixo, um trecho de um texto da Unisinos que conta algumas das ações de Audálio nas redações deste país:

Trabalhou na revista O Cruzeiro, Quatro Rodas, Realidade e Veja. Cobriu, sem querer, a guerra entre Honduras e El Salvador, enquanto fazia uma reportagem sobre os pontos turísticos do México.
Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, presidente da FENAJ, da Imprensa Oficial de São Paulo, e do Conselho da Fundação Cásper Líbero.
Como escritor, escreveu três livros, porém existe um principal. "Quarto de Desejo", relata a vida da favelada Carolina Maria de Jesus. Outro livro bastante famoso de Audálio Dantas é "O Circo do Desespero", de 1976, no qual ele reúne suas principais reportagens.

Ele era presidente do Sindicato dos Jornalistas de SP quando Wladimir Herzog foi assassinado.

Pois bem, como você pôde perceber pelo breve currículo, Audálio, hoje com 77 anos, é mestre da escola do jornalismo social/psicológico. Aquele que observa as coisas simples da vida e transforma numa grande reportagem.

O livro sobre a empregada doméstica mineira Carolina Maria de Jesus, que virou famosa depois do Quarto do Desejo é um exemplo.

Mais ou menos que Conceição fez com a série Amores Possíveis.

Concorrendo com a reportagem que denunciou a máfia da compra irregular de ambulâncias pelos deputados sanguessugas (também feita pelo Correio), Conceição Freitas foi contemplada com o Prêmio Esso de Jornalismo 2006.

Graças a Audálio Dantas.

Profissão perigo

Uma notícia dessa nós não poderíamos deixar de ler. Afinal, são atentados contra jornalistas e contra o jornalismo. Abaixo, uma notícia da Agência France Presse. Com a seguinte constatação: 2006 foi o ano em que mais jornalistas morreram em serviço. Matança parecida só havia ocorrido na Segunda Guerra Mundial.

94 jornalista morrem em serviço em 2007

GENEBRA (EUA) - Mais jornalistas foram mortos em 2006 do que em qualquer outro ano, com o Iraque aparecendo como o local mais mortal do mundo para funcionários da mídia pelo terceiro ano consecutivo, informou nesta terça-feira um grupo suíço de defesa da imprensa.

A organização Press Emblem Campaign (PEC), sediada em Genebra, registrou a morte de 94 jornalistas no exercício da profissão em 2006, o que representou um aumento de 38% com relação aos 68 mortos em 2005. As mortes de funcionários da mídia no Iraque quase dobraram de 25 para 48 no mesmo período. Pelo menos 103 jornalistas morreram no Iraque desde a invasão americana, em 2003, tornando a guerra naquele país o conflito mais sangrento para jornalistas desde a Segunda Guerra Mundial, destacou a PEC em um comunicado.

A organização registrou ainda o assassinato de oito jornalistas no México em 2006, sem que os criminosos tenham sido levados à Justiça, e de quatro na Rússia, entre os quais a repórter investigativa e crítica do Kremlin Anna Politovskaya. Quatro jornalistas foram mortos tanto no Sri Lanka e nas Filipinas; três em Paquistão e Colômbia; dois em China, Índia, Angola e Líbano; e um em Brasil, Equador, Venezuela, Somália, República Democrática do Congo e Sudão.

Os registros da PEC incluem mortes de jornalistas funcionários de organizações, freelancers, cinegrafistas, fotógrafos, assistentes e técnicos, mas não agentes de segurança, motoristas e intérpretes.

O secretário-geral da PEC, Blaise Lempen, disse que na maioria os jornalistas foram mortos por milícias, insurgentes, grupos paramilitares e serviços de segurança.

14 dezembro 2006

O esdrúxulo também é notícia

Pedro Henrique Freire

Uma amiga minha aqui da redação do CorreioWeb sempre diz a seguinte frase: “O esdrúxulo também é notícia”. E é mesmo! Notícias assim fazem do jornalismo uma fonte inesgotável de criatividade. E mais: são responsáveis por deixar o dia mais leve, sem tanta informação sobre tragédia, escândalos e aquelas coisas que já estamos “por aqui” de ler, ouvir e assistir.

Portando, para o bem das notícias esdrúxulas e do jornalismo curioso, ai vão algumas notícias (em forma de pílulas), que a Agência France Presse publicou neste ano de 2006.

Da France Presse
PARIS (França) - O ano de 2006 foi cheio de histórias insólitas com protagonistas diversos e inesperados.

Baleia no Tâmisa
Em 20 de janeiro, os londrinos perderam sua fleuma tradicional ao descobrir uma baleia nas águas do rio Tâmisa. O cetáceo, uma espécie de golfinho primitivo de 5,85 metros, estava ferido e morreu no dia seguinte, devido à água doce.

Cordeiro de seis patas
Em 19 de março, na Bélgica, uma ovelha de Limburgo pariu um cordeiro de seis patas. Como o animal era incapaz de se locomover por sua própria conta e se aproximar da mãe, o criador teve que alimentá-lo com mamadeira.

Pavões com gosto eclético
A polícia britânica informou em 17 de junho que Mister P., um pavão apaixonado, passava 17 horas ao dia fazendo a corte a uma bomba de gasolina em Brierly (sudoeste). Os irmãos de Mister P. também demonstraram o mesmo problema: um está louco por um gato e outro quer conquistar um semáforo.

Ovo divino
Em 13 de julho, uma galinha cazaque deixou perplexos seus donos ao pôr um ovo que na casca trazia inscrita a palavra "Alá" em árabe. Os agricultores da cidade de Stepnoi, nordeste do Cazaquistão, registraram o ovo e sua inscrição na mesquita local.

Placa da sorte
Uma placa com o número "888", que na China significa boa sorte, foi leiloada em 22 de abril por 237.000 iuanes (cerca de 30.000 dólares) em Cantão. As estradas chinesas são apontadas como as mais perigosas do mundo. Segundo números oficiais, em 2005 houve 456 mil acidentes e 99.000 mortes.

Rum assassino
Operários descobriram em 3 de maio um tonel de rum jamaicano enquanto restauravam uma casa na Hungria, e beberam o conteúdo de 300 litros de álcool antes de descobrirem, horrorizados, que o barril também continha o corpo mumificado de um homem nu. Uma investigação policial determinou que o corpo pertencia a um diplomata húngaro morto há 20 anos na Jamaica.

A correspondência mais demorada do mundo
Um cartão postal demorou 96 anos para chegar da Bélgica a um povoado da Normandia (França), onde foi entregue em 16 de maio à família da destinatária, falecida em 1978. Enviada em 29 de setembro de 1910, a correspondência chegou dias depois ao escritório dos correios de Mesnil-Guillaume, cidade situada a 3 km da residência de Yvonne Boucher, e ali ficou até 1978.

Pastor morre afogado ao tentar imitar Jesus
Um pastor da Igreja do Despertar (pentecostal) se afogou em 28 de agosto em uma praia da capital do Gabão, Libreville, quando tentava caminhar sobre as águas como fez Jesus Cristo. O religioso, de origem camaronês, quis cruzar a foz do rio Komo, travessia que dura 20 minutos de barco, mas afundou na presença de um fotógrafo que estava presente para imortalizar a façanha e de vários fiéis que esperavam uma cura milagrosa.

Para juízes egípcios beleza não é fundamental, já a higiene...
Um tribunal do Cairo negou em 5 de março o pedido de divórcio de uma mulher que queria se separar do marido por um estrabismo que, segundo ela, a deixava "de cabelo em pé". O marido tirou os óculos na frente dos magistrados e perguntou: "Assusto vocês?". "Não", respondera, e a esposa perdeu o caso. Em 28 de setembro, outra mulher pediu o divórcio por incompatibilidade de odores com o marido e os juízes não a levaram muito a sério. Mas quando o marido apareceu, os magistrados não puderam suportar o mau cheiro e suspenderam a audiência de reconciliação.

"Masturbatona"
Mais de 250 pessoas participaram em 5 de agosto, em Londres, da primeira "masturbatona", uma competição destinada a financiar a luta contra as doenças sexualmente transmissíveis. "Eu não sei nadar, nem correr bem, mas isto eu posso fazer por uma boa causa", declarou à imprensa um dos competidores.

11 dezembro 2006

Quando venci a preguiça

Por Daniel Brito

A preguiça dos tempos de colégio insistia em me perseguir.

Apurar, para quê?
Vou copiar...

Perguntar?
Deixa o entrevistado falar à vontade...

Escrever...melhor copiar o release.

Há 10 anos começava no jornalismo. Carregava essas verdades-absolutas. Era repórter de rádio em João Pessoa. Afinal, em apenas seis meses de atividades, já conseguia falar ao vivo num programa de rádio sem gaguejar.

"É muito fácil ser jornalista", presumi em setembro de 1996. Nesta mesma época já não freqüentava o colégio diariamente. Resolvi largar os estudos e me dedicar ao jornalismo.

Santa ignorância.

Não adiantava apelo de pai, mãe, irmãos, namorada, amigos, pais dos amigos. Meu negócio não era estudar. Era trabalhar em rádio. Mais precisamente dentro do estúdio da rádio "103,3 - FM O Norte".

Recebia a pauta de ir ao jogo de futebol de areia e derrubava a pauta. Apresentação de mestres de Kung Fu... nada feito. "Não tinha ninguém lá para falar sobre o evento", justificava a ausência. Resultados dos jogos do Campeonato Paraibano realizados no domingo à noite: "Tarde demais".

Queria apenas falar na rádio. Falar e ser ouvido. Como se tivesse SEMPRE algo interessante a dizer.

Duas frases mudaram a minha idéia sobre o resto da minha vida.

1 - "Ou você apura as informações direito, ou você será um profissional tão bom quanto o estudante que é agora".

Frase do meu pai às 21h de domingo, enquanto ligava para as rádios do interior da Paraíba para pegar os resultados dos jogos de mais uma rodada do Campeonato Paraibano de 1996.

Para um adolescente que reprovara duas vezes o ensino médio, o comentário atingira átrio e ventrículo direitos.

2 - "Quanto mais você for visto, quanto mais você circular, quanto mais matérias fizeres, mais chances terás de ser lembrado em oportunidades melhores lá na frente".

A frase está melhor escrita do que a maneira como foi dita, há 10 anos. Foi proferida pelo saudoso amigo Werton Soares, falecido há seis anos, e um grande professor, alertando sobre os perigos de minha indisposição de fazer matérias na rua.

Átrio e ventrículo esquerdos destroçados.

Foi o suficiente para entender que ficar trancado na redação pegando a rebarba dos outros e auto-elogiando minhas atuações me transformaria no pior dos profissonais.

Enquanto me derem a chance de escolher, prefiro continuar fazendo minhas "materinhas repetitivas".

Humildemente

04 dezembro 2006

Post de aniversário

Saudamos os nossos sete leitores mensais com as melhores frases e citações dos primeiros 12 meses de existência dos Filhos da Pauta.

A seleção foi feita por Daniel Brito, Leonardo Alves e Pedro Henrique Freire e dividida por "editorias".

Se você quiser contribuir conosco, deixe, no local destinado aos comentários, qual melhor citação ao longo deste ano.

Frases/diálogos de impacto
4 de dezembro de 2005
- Boa tarde, o senhor já fez exame de próstata?
- Já, respondeu um senhor de aproximadamente 60 anos, com a cara de safado.
- Teve preconceito?
- Não... Ele fez um silêncio. Eu continuei com o microfone como se esperando mais alguma coisa. E não é que veio.
- Não, não tive preconceito. Ele só colocou um ferro no meu ‘furico’, disse o senhor se referindo ao exame de toque retal.
Imediatamente liguei pra redação.
- Adriana, o fala povo caiu.
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14 de maio de 2006
"Repórter de esportes é o cara mais burro de uma redação de jornal. É o tipo de pessoa que não foi aceita em nenhuma editoria do jornal e acabou tendo que fazer futebol mesmo"
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17 de agosto de 2006
“Olha, Pedro”, disse o deputado, “honra de homem se lava com sangue. Tu toma cuidado”.Não tive muito tempo para me recompor da declaração. Só soltei um tímido: “Quê isso, deputado!”. A única coisa que conseguia pensar era num gravador.
Que droga!
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11 de setembro de 2006
- Noventa e nove por cento das pessoas do planeta trabalham, para o bem ou para o mal, para pagar a hipoteca.
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6 de novembro de 2006
“Meu trabalho como jornalista pode ajudar mais a sociedade onde vivo do que o meu voto. Não preciso votar. Vou anular!"
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Opiniões marcantes
12 de fevereiro de 2006
Seu contato com a fonte pode durar apenas poucos minutos. E nesses poucos minutos você tem que pegar todas as informações. Se isso não ocorrer, já era. Existem outros casos que não dependem do repórter. Principalmente em tevê, onde o resultado do trabalho depende muito do cinegrafista.
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11 de abril de 2006
Eu não sou nada malicioso, mas gosto de fazer mais ou menos assim.
1 - Converso amenidades com o entrevistado;
2 - faço perguntas óbvias (tipo: "é muita emoção?");
3 - Tento conquistar a "amizade" do entrevistado;
4 - Dou a "facada", ou seja, entro no assunto espinhoso.
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11 de maio de 2006
São dois pesos e duas medidas. Dois estados, dois jornais e dois tipos de jornalistas. Um dia, todos entenderão, ao menos, o sentido básico do jornalismo: os dois lados. Pois em muitos cantos, isso tem que ser rechaçado em função de alinhamento político.
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12 de julho de 2006
Pode ser que eu mude de idéia. Mas, no momento, acho que jornalismo é um mar e nós, repórteres, navegamos nele. Ou melhor, somos levados por ele. Então, como mudar a rota do barco se não sabemos de onde vem a chuva? Como reservar espaço para matérias que nem mesmo sabemos se é notícia?
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8 de agosto de 2006
Alguns esportistas não admitem perguntas estúpidas, principalmente de quem não é da área. Quando o repórter é da área o cara até releva. Porque conhece o repórter. Falo por experiência própria. Já fiz perguntas imbecis, mas tive respostas pelo menos educadas
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18 de outubro de 2006
Tomo os devidos cuidados para não cometer erros absurdos, checo todas as informações vitais de uma matéria e reviso com freqüência meus textos. Mas não me prendo a detalhes. Coisa peculiar aos perfeccionistas. Talvez por isso minhas matérias saem com erros aqui ou acolá. Não é porque eu quero.
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Histórias curiosas
28 de novembro de 2005
Conversamos por 15 minutos. Tirei uma foto ao lado dele. Em seguida, perguntou do Brasiliense. Contei que o time estava mal, mas ganhara do Santos. Quando falaria que o Santos não jogou nada, principalmente Ricardinho, me lembreique tava conversando com ninguém menos que o técnico da Seleção Brasileira. E o técnico da Seleção Brasileira está pensando em levar Ricardinho para a Copa.
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17 de março de 2006
Eu quase caio da cadeira. Não acreditava que o cara fosse me passar tudo de bandeja. Pelas histórias que li, o repórter tem que ter sorte para descobrir os dados da denúncia. Vibrei por dentro. Procurei agir com naturalidade para mostrar que não estava surpreso. E que estava para apurar as denúncias mesmo.
E ele continuou:
- Estou aqui com uma lista de 35 pessoas beneficiadas que são parentes de funcionários da prefeitura.
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23 de março de 2006
De tanto cobrir os treinos do time de vôlei feminino, o camarada passou a sair na night com as jogadoras, e receber ligações a cobrar das atletas. Ao final da temporada, ele traçou duas grandalhonas (no mal sentido mesmo).
Vamos ser companheiros de trabalho, mas daí a virar amante já é exagero...
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3 de abril de 2006
Os filhos dos jornalistas (eram dois repórteres, um homem e uma mulher) começaram a sofrer ameaças, eles passaram a ver a mesma pessoa com cara ameaçadora na portaria do prédio delas, na porta da escola do garoto e coisas do tipo. Teve uma repórter que pediu demissão do jornal por causa disso.
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20 de abril de 2006
Dizem que ele tomou umas e outras num bar perto do jornal. Depois, pegou uma marreta, arrombou a porta e quebrou o parque gráfico. Quando voltou para o bar contou o feito. Alguém perguntou: “quebrasse a redação também?”. Tem sempre alguém que quer a desgraça maior. Não deu outra, Edson Gaudêncio voltou e quebrou a redação.
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21 de junho de 2006
Saí para ganhar a metade. Só pararam de tentar me seduzir quando disse que poderia chegar a ser presidente do BB, mas toda vez que lesse uma notícia no jornal que não fosse eu que tivesse escrito, ficaria triste.
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1º de novembro de 2006
Sarney deixava o povo burro. Sério! Se ele fizesse o povo pensar, perderia votos. Depois, acionava dezenas de rádios, a TV (Globo-MA) e o jornal em prol de sua campanha. Bom, então ele unia a asneira do povo, os veículos de comunicação e seu talento político... e pronto! Estava eleito e elegia quem quisesse.
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20 de novembro de 2006
Você chega na redação e fala: tenho isso, isso, isso e isso. Quero começar meu texto com isso. Achei mais forte e foi o assunto mais polêmico que apurei. Aí vem a resposta: “Bom, mas nós não podemos publicar. Começa mesmo com o assunto tal”.
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Humildes Constatações
13 de janeiro de 2006
Quase todos os jornalistas têm uma assessoria pra complementar o salário. Como gostam de dizer alguns políticos “é uma laminha que a gente paga”. Basta dar uma lida nas colunas políticas que logo se percebe de que lado o colunista está. Por aqui na Paraíba é assim.
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30 de julho de 2006
Minha maior dificuldade é entrevistar crianças. Sinceramente não consigo ser compreendido por elas. Na maioria das vezes o máximo que consigo na primeira resposta é um “é..”. Tento mais uma vez. E tenho um balançado de cabeça como resposta. Tentativas esgotadas.
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13 de agosto de 2006
A crítica, quando bem feita, evita que a outra pessoa te trate com o pior dos sentimentos: a indiferença.
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19 de setembro de 2006
Quando você acorda, toma banho, e pensa que, quando chegar ao trabalho, a primeira coisa que fará é procurá-la. E, partir daquele momento, ela guiará seu dia. Tudo que ela quiser, você fará. Ela é a musa, dona da inspiração, chefe do seu dia (às vezes da noite). Por isso, é fácil amá-la e odiá-la, tudo ao mesmo tempo.
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25 de setembro de 2006
O legal de trabalhar em esportes é que, durante o plantão de final de semana, você vai a lugares que já iria se estivesse de folga. E mais: ainda pode falar com os protagonistas da história.
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29 de setembro de 2006
Talvez não percebamos, mas o que ocorre hoje pode ter um significado definitivo na formação dos nossos filhos e netos. Eles irão aprender na escola quem é o Lula e seus comparsas. Enquanto tudo isso não passa, vamos registrando, apurando,discutindo, criticando, escrevendo.
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12 de novembro de 2006
No jornalismo, você ajuda hoje para ser ajudado amanhã. Esse meio é imprevisível: ninguém é chefe para sempre e ninguém é subordinado para sempre.

26 novembro 2006

A demissão de Mário

Pedro Henrique Freire

Mais bem pensada do que correta, a atitude de Lúcio Mário foi, acima de tudo, digna. Diretor de redação de um jornal importante, ele colocou a cabeça a prêmio. É esse mais um retrato da profunda crise que atormenta a imprensa brasileira. Cada vez mais, jornais quebram ou, para sobreviver, entregam sua linha editorial para governos e políticos. Essa segunda opção é claramente mais usada.

Foi com essa reflexão que Lúcio Mário chegou para trabalhar naquela sexta-feira de sol escaldante. Tranqüilo, como sempre, tratou logo de ficar informado sobre os assuntos do dia e o desempenho do jornal em relação ao concorrente. Mais uma decepção: a equipe de política local pegara um furo espetacular. “Paciência”, pensou.

Apesar de estar acostumado a tomar furos, devido a equipe reduzida e profissionais sem fontes relevantes, aquilo parecia um anúncio de um dia difícil. Dito e certo. Às 15h, o diretor-geral do jornal pede uma reunião. Nela, estarão os superintendentes comerciais, conselheiros, o diretor executivo e, claro, o de redação.

Antes de entrar na sala, ele previu que teria que demitir alguém. Foi assim no último verão, quando tivera que mandar para rua 10 funcionários de uma só vez, entre jornalistas, paginadores e fotógrafos. Dessa vez, o movimento da direção era o mesmo. “Como sempre, quem sofre baixa é a redação”, pensou Mário. Ele nunca entendeu porque a redução de custo de uma empresa jornalística sempre atingia mais profundamente a redação se o motivo da existência da empresa (a notícia!) é criado lá.

- Sentem-se, senhores. A notícia que vou dar não é boa. Quero ser objetivo para que possamos tomar providências mais rapidamente – informou o diretor geral. Um sujeito gordo, de cara fechada e voz grossa.

- Pela postura dos senhores, temos aqui realmente um caso sério – disse Lúcio Mário, procurando a descontração.

O discurso devastador do chefão foi o seguinte:

- É verdade, Mário. Como você sabe, a empresa não vai bem. Aqueles cortes do verão passado irão se repetir. Estamos quebrando e preciso diminuir o tamanho da empresa, senão vamos morrer. Antes que tenhamos que fechar as portas e mandar todo mundo embora, quero que você me encaminhe até o final da tarde uma lista com 40 profissionais da redação. Tenho que demiti-los ainda nesta semana.

Em choque, Mario silenciou. Pensou nas famílias dos repórteres que seriam demitidos e nos amigos que fez durante aqueles quase 10 anos comandando uma equipe de 87 profissionais. Agora tinha que criar uma lista negra com metade da redação. Era um momento potencial para ser odiado por seus colegas de trabalho pelo resto da vida.

Ele decidiu por tirar o seu da reta:

- Senhor Albuquerque, eu entendo a situação do jornal e também a necessidade de cortes. Mas sugiro que eles não sejam concentrados na redação. Em outros setores da empresa, há excessos de funcionários e até funcionários ocioso. Isso é o que se houve falar. Por uma questão pessoal, eu também não poderei elaborar essa lista. Gostaria que o setor comercial o fizesse. Isso seria muito ruim para minha carreira e imagem como jornalista. Pediria que entendesse minhas razões e analisasse as sugestões.

Mário terminou o comentário com um pingo de suor atingindo seu colarinho. Conseguiu ser objetivo e firme, embora estivesse nervoso. Mas não superou a resposta do chefe:

- Não se trata de razões pessoais, Mário. Não estou aqui pedindo nada. Estou descrevendo uma situação e exigindo a sua lista até o final da tarde. Ou você faz isso, ou será demitido.

O FIM
- Então me demito. Cansei de ser vítima dos equívocos comerciais. Já mandei para rua muitas pessoas. Tive problemas profissionais por isso. Não mais serei algoz de ninguém. Tenho respeito pelas famílias dos meus funcionários. Não acato a ordem e por isso deixo este jornal a partir de hoje. Passar bem.

20 novembro 2006

Sem frustração

Pedro Henrique Freire

A questão das “rec”, bem explicitada por Léo no texto anterior, me fez lembrar de outra exigência comum nas redações. Bastante conhecidas pelos jornalistas, elas seriam a antecipação das matérias recomendadas, mas não deixam de ser recomendações. Enquanto as “rec” falam bem, esta outra exigência diz o seguinte: jamais fale mal.

Parece a mesma coisa? Bom, mas é um pouco diferente. Esse fato ocorre quando, por exemplo, você vai fazer uma matéria factual. Uma boa pauta. Mas, dentro dessa história, há alguma coisa em conflito direto com a linha editorial do jornal (leia-se com o anunciante).

Em conversa de bar com jornalistas a gente ouve os mais variados motivos para o jornal boicotar um assunto. Um que me chamou atenção foi o seguinte:

Um veículo qualquer deixou de publicar (por várias semanas), um assunto de terras. Um certo plano de expansão que poria fim à grilagem ou cessaria a distribuição ou venda de lotes. Bom, o fato é que nada foi publicado. Tudo porque um forte anunciante tinha terras por lá e esses espaços eram alvos preferidos do tal projeto.

O mais comum é quando uma verdade não pode ser dita. Ou seja, você chega na redação e fala: tenho isso, isso, isso e isso. Quero começar meu texto com isso. Achei mais forte e foi o assunto mais polêmico que apurei. Ai vem a resposta: “Bom, mas nós não podemos publicar. Começa mesmo com o assunto tal”.

No outro dia, jornais com posturas diferentes dão a notícia como receberam: quentes! E alguns repórteres companheiros de apuração ainda perguntam. “Por que você não começou com aquela história?”. Eu respondo: “Adivinha por que?”. É fácil saber.

Bom, essas não são especificamente aquelas matérias recomendadas. Mas são recomendações com a mesma envergadura. Tolhem o bom jornalismo da mesma forma. Infelizmente, temos que nos relacionar sempre e quase todos os dias de profissão com esse fato.

Não sou defensor da autocensura, mas prefiro que meu chefe me faça um sabedor das questões publicáveis e as não publicáveis. Assim, consigo agilizar minha pauta e não me frustro.

15 novembro 2006

O jornalista e as 'rec'

Por Léo Alves

Nenhum repórter gosta de ouvir: “cuidado que essa matéria é recomendada”. Talvez não sejam apenas os repórteres que têm repulsa pelas famosas “rec”. Quando ela (a rec) aparece, a redação tem fazer tudo para atender o pedido (em tom de ordem) do patrão.

Não há desculpa. Não tem como dizer “que não deu para fazer porque todos os repórteres estavam ocupados”. A ‘rec’ caiu na sua mão e você que se vire. Até porque, indo ao extremo, é o seu emprego que pode estar em jogo.

O pior é que muitas vezes a 'rec' só vira matéria porque é recomendada. Não existe outro motivo. Já tive que fazer inauguração de clínica oftamológica, de restaurante, de loja de roupa. Confesso que tentei encontrar um bom gancho para matéria, mas minhas limitações jornalísticas não permitiram.

Quase sempre o patrão (dono da empresa que você trabalha) está no local da matéria ‘rec’. E aproveita para apontar um monte de gente que deve ser entrevistada. Se isso não acontecer, a dica é perguntar-lhe se tem alguém que ele gostaria que fosse entrevistado. Obviamente existe o risco de o patrão perguntar: “você não sabe fazer seu trabalho?”. É um risco que se tem que correr. Afinal é melhor que no outro dia ouvir: “por que você não entrevistou fulano?”.

O problema é encaixar o monte declarações dos entrevistados na matéria. Mas volto a dizer: isso é problema seu, aliás, nosso.

Confesso que depois que fui para a produção da tevê (há cerca de dois meses deixei a reportagem) comecei a ver o outro lado das ‘rec’. Pois é, tem dias que ela salva parte da produção. Há cerca de um mês duas matérias acabaram caindo. Estavámos com um horário vago. E não é que apareceu uma ´rec' em cima da hora. Salvou o restante da produção. Porém se as matérias não tivessem caído teríamos que derrubá-las para fazer a ‘rec’.

As recomendadas existem e, acredito, que sempre vão existir. Não adianta eu, você ou qualquer outro jornalista fazer biquinho, entronchar a cara, se chatear. Nós temos que fazê-la. É o patrão que está pedindo.

O nosso desafio (dos chefes de reportagem e produtores) é tentar descobrir um bom gancho e transformar a matéria recomendada num fato jornalístico. Será melhor para o repórter e para o telespectador (ou leitor). E de quebra o patrão ainda ficará feliz.

12 novembro 2006

Não roube pauta dos outros

Pedro Henrique Freire

O que você, jornalista, acha dos seus amigos jornalistas? Não aqueles que trabalham ao seu lado. Mas aqueles que estão no batente adversário. Digo: os repórteres concorrentes, que fazem as mesmas pautas que você. Qual sua opinião pessoal sobre eles?

Como já vimos em alguns textos aqui mesmo no blog (artigo Eu NÃO sou perfeccionista), alguns servem para criticar sua atuação. Eles lêem sua matéria e começam a botar defeito. Quando não o fazem na sua frente, o fazem por trás. Eu já vi muitos exemplos disso. Não me assusto mais com nenhum deles. Afinal, nossa profissão tem dessas baboseiras.

Mas não estou aqui para falar das coisas ruins da concorrência. Quero enaltecer um pessoal que, quase sempre, encontro em pautas, sobretudo de política. Não citarei nomes. Se algum deles ler esse texto, entenderá a referência.

A história é a seguinte. Em uma redação de jornal, a concorrência ocorre até mesmo com o companheiro do lado. Por insegurança ou por ser, puramente, um chato, o “tal” faz questão de lhe prejudicar, não te dá a mínima força. E olha que ele é seu colega de editoria.

Mas o bom é quando você tem uma ótima relação com os jornalistas ao seu redor e também de outros veículos.

Exemplo assim ocorre comigo quase todos os dias. Tenho amigos em outros veículos. Sempre que eles precisam, me prontifico a ajudá-los. É normal, quando um chega em pauta atrasado, outro chamá-lo e passar todas as informações. Ainda diz assim: “Olha, o mais importante que rolou aqui foi isso. Se você precisar de mais coisa, me liga mais tarde que te passo tudo”.

Incrível para uns? Mas o raciocínio desse grupo é: por que não ajudá-lo se a notícia não é exclusiva de ninguém?

Mas essa relação, claro, tem seus limites. Todos, acho eu, aprenderam a respeitar, de maneira inconsciente, aquele assunto que só o outro tem. Muitas vezes me contaram uma história inteira e depois disseram que aquilo seria um furo, que só seu jornal daria no outro dia. Quando isso ocorre, nem precisam falar que não devo correr atrás da história. Eu já sei que seria errado.

Na minha opinião, se fizesse isso estaria desrespeitando a ética das relações pessoais entre os colegas de profissão. Isso seria roubar a pauta do outro. Não considero certo, ainda mais quando se tem uma relação tão boa com os" concorrentes".

Moral da história: no jornalismo, você ajuda hoje para ser ajudado amanhã. Esse meio é imprevisível: ninguém é chefe para sempre e ninguém é subordinado para sempre. Quem sabe disso, sabe da importância de ser ético com as pautas alheias e com a boa relação formada entre colegas de “apuração”.

O mundo dá muitas voltas. O mundo jornalístico... ixi! Nem se fala.

09 novembro 2006

Puxão de orelha

“Surfando” na internet, me deparei com a notícia abaixo. Chamou-me atenção o fato de a Agência Senado publicar o, digamos, "fogo amigo". O Senador, sentindo-se “calado”, voltou-se contra os mais próximos veículos de comunicação à sua volta: a Agência Senado e Rádio Senado.

Vejamos a notícia:

Almeida Lima queixa-se dos veículos de comunicação do Senado, que estariam omitindo falas de senadores

Em discurso do Plenário nesta quarta-feira (8), o senador Almeida Lima (PMDB-SE) disse que os veículos de comunicação social do Senado estão omitindo pronunciamentos de senadores. Ele lembrou que protesto semelhante já havia sido feito pelos senadores Jorge Bornhausen (PFL-SC) e Tasso Jereissati (PSDB-CE) em relação ao programa A Voz do Brasil, cujo bloco de responsabilidade do Senado Federal é produzido pela Rádio Senado.

Tudo bem que o jornalismo é institucional. Como o cara é senador, pode “puxar a orelha” dos jornalistas. Mas, lendo isso, refleti sobre o seguinte: quantos jornais “mercadologicamente imparciais” fariam um negócio desse? Dentro do meu humilde conhecimento jornalístico, não resgatei nenhum exemplo. Se alguém souber de um, me fale.

Isso aí é a prova da submissão da Rádio e Agência Senado. Para eles, pega mal. Mas, se fosse em qualquer outro desses de circulação nacional, fortaleceria a linha. Na minha humilde opinião, pareceria um jornal corajoso.

Mais um trecho da reportagem:

Almeida Lima também acusou omissão de seu nome em matéria publicada pelo Jornal do Senado nesta quarta-feira (8), sobre pronunciamento do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) ("Azeredo diz que proposta não quebra privacidade"). Almeida Lima explicou que fez aparte ao discurso do colega, mas sua participação acabou não sendo registrada pelo jornal.

Outro:

Mais grave ainda, segundo Almeida Lima, é a informação que obteve - preferiu não citar a fonte - de que há um estudo sendo realizado no Senado com o objetivo de acabar com a transmissão ao vivo das sessões plenárias e dos trabalhos das comissões da Casa, sob a alegação de que há pouca audiência nos programas transmitidos ao vivo.

06 novembro 2006

Já fez sua boa ação hoje?

Pedro Henrique Freire

Negócio é o seguinte. Antes das eleições eu pensava: “meu trabalho como jornalista pode ajudar mais a sociedade onde vivo do que o meu voto. Não preciso votar. Vou anular!" Ai vinha uns companheiros: “Rapaz, num diga um negócio desse, não! Isso é uma “falta de absurdo”! Tu tem que votar, rapá”.

Beleza. Não votei porque não pude. Não moro na minha cidade, então tive que justificar. Depois das eleições, analisei as transformações no quadro político brasileiro, sobretudo a renovação no Maranhão e na Bahia. Pô, fiquei puto. Queria ter votado. Ter participado e ajudado a derrotar oligarquias, registrar a indignação contra a corrupção e outras “cositas” que nos fazem exercer a cidadania.

Bom, passado esse sentimento, outro dia voltei a pensar nisso. Comecei a achar de novo que meu trabalho é mais importante que meu voto. E é mesmo! Mas cheguei a conclusão, simples e até burra, que votar e ser jornalista irão contribuir muito mais com a população do que só uma dessas coisas. “Sou burro?”, pensei.

Talvez até fosse. Mas depois que percebi a importância do voto, mesmo engolido pelo mar de corrupção que invade o Brasil como um tsunami, fiquei mais inteligente. Hoje eu voto e faço matérias que ajudam em alguma coisa alguém.

Hoje, por exemplo, fiz uma matéria sobre as terríveis condições de vida que levam os adolescentes delinqüentes da, digamos, Febem de Brasília. Dormem em meio a ratos, comem mal pra cacete, apanham sempre que “dão uma de doidão” e estão internados em celas superlotadas. Os caras vivem mal mesmo.

E eu aqui, na frente do computador, denunciando a irresponsabilidade do governo e achando que fiz uma boa ação. Será que fiz?

01 novembro 2006

Adeus, Sarney

Pedro Henrique Freire

O refrão “adeus ano velho, feliz ano novo” será cantado com gosto no Maranhão na festa de revéillon. Tudo pela vitória do pedetista Jackson Lago ao governo do estado? Não. Não será pela vitória dele, mas pela derrota do grupo Sarney, mais diretamente representado pela filha Roseana (PFL) – aquela do caso Lunus.

Negócio é o seguinte: a derrota dela foi também o fracasso de um gigantesco grupo de comunicação.

Para explicar melhor isso, direi como o grupo Sarney ganhou as eleições nos últimos 40 anos (antes de perder essa).

Primeiro de tudo, ele deixava o povo burro. Sério! Se ele fizesse o povo pensar, perderia votos (imaginem o por quê). Depois, acionava dezenas de rádios (AM e FM), a TV (Globo-MA) e o jornal O Estado do Maranhão em prol de sua campanha. (É bom lembrar que esse maquinário de comunicação é todo dele e boa parte nasceu quando era presidente da república).

Bom, então ele unia a asneira do povo, os veículos de comunicação e seu talento político... e pronto! Estava eleito e elegia quem quisesse.

Mas neste ano a coisa mudou de rumo. Mesmo com tudo isso, a senadora Roseana Sarney (que já governou o estado por oito anos) não conseguiu mais da metade dos votos e foi enviada direto de volta ao Senado, onde passará mais quatro anos.

O bom de tudo isso é que não foi o grupo de comunicação que falhou na transmissão. Mas, sim, o povo que ficou mais inteligente e deu “adeus aos velhos tempos”, desbancando a última grande oligarquia do país.

Viva a democracia... mesmo que tardia!

30 outubro 2006

Lula: a segunda chance

Pedro Henrique Freire

Outro dia, criou-se na redação uma discussão saudável. De um lado, eleitores do Lula. De outro, do Alckmin. “Eu vou votar no Lula”, disse um jornalista. “Nossa! Logo você... uma pessoa tão inteligente”, retrucou outro colega. Isso causou a ira de alguns companheiros. Para eles, votar no Lula não é sinônimo de asneira. Votam no Lula porque não suportam o Alckmin.

Vendo aquela confusão, comentei. “Gente, o povo brasileiro está sem saída”. Ainda assim, existiram mais brasileiros que preferiram os quatro anos de escândalos do Lula a mais quatro anos iguais aqueles oito do FHC.

Ao final do quadriênio à frente do Palácio do Planalto, aquele “Lulinha Paz e Amor” de 2002 deve está cansado de esbravejar, xingar e beber um pouco para apagar a irritação com tanta denúncia. Mas uma coisa ele tem que admitir: a oposição tucana mandou bem. Explorou os podres do governo. Deixou-o com as calças arreadas.

Tudo isso, temos que colocar na mesa, se deveu aos vícios de servidores tucanos herdados por Lula. A Polícia Federal é um exemplo. Teve tanta liberdade que fu*d* com o presidente. Lá dentro, o ninho tucano ocupa uma floresta inteira. Será que o mesmo aconteceria no governo FHC? Duvido. Tudo naquela época era abafado, como num balé de armação herdado pela ditadura.

No governo Lula, a Procuradoria-Geral da União passou a fazer sorteios para investigar municípios. Aquela cidade tinha suas contas devassadas independentemente do partido. No governo FHC, o mesmo órgão engavetava tudo que poderia constranger o presidente ou seu governo.

Concordo que o governo Lula foi uma vergonha na área social, um desastre no relacionamento político e, até mesmo, no trato com o dinheiro público. Mas o governo FHC foi igual ou pior. Pior porque durou o dobro. Pior porque teve tempo para fazer mais e não fez.

E o que esperamos do Lula? Ele ganhou mais tempo e deverá fazer bem mais do que já fez. Caso contrário, marcará a história como um governo corrupto e “meia boca”, assim como foi o do senhor Fernando Henrique Cardoso. Não queremos mais um governo sem futuro. Sem futuro como a discussão que nós, jornalistas, travamos em plena redação.

A vitória deste domingo não teve nada a ver com aquela de 2002. O povo não votou em mudança. Votou na permanência de um migrante nordestino, ex-pobre, no poder. Lula venceu mais pelo que foi do que pelo que fez.

Ps: Será que continuaremos a contagem regressiva para o próximo escândalo?

26 outubro 2006

Se eu fosse Lula...

Por Daniel Brito

Com a eleição ganha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já deve estar pensando em como vai manter-se vivo pelos próximos quatro anos. Sim, porque ele não vai deixar de ser bombardeado pelos jornais e tevês daqui até 2010.

Diferentemente do que havia publicado no início do segundo turno, os jornalistas se mostraram avessos ao PT ou aa esquerda nesta eleição. Tá, tudo bem. Os jornalistas não, porque eles cumprem ordens. Os DONOS das maiores empresas de comunicação do país odeiam qualquer tipo de esquerda. Com exceção, é claro, do pessoal da CArta CApital.

Mas uma prova de que a imprensa tem jogado contra o governo Lula são as manchetes dos últimos dias. Quando o IBGE anuncia a queda no desemprego, a notícia vai para o pé da página. Quando a investigação do tal dossiê anda um passo para frente, ela é estampada.

Números de pesquisa eleitoral, então...

Por isso, que muita gente diz que Collor caiu por muito menos que Lula. Mas Lula está agüentando o que nenhum outro presidente agüentou. Qualquer movimento que ele dá é motivo para críticas. Quando a grande imprensa pega leve, é crítica. É preciso reconhecer que tem muito de preconceito nas objeções publicadas diariamente.

Portanto, se EU tivesse a oportunidade de estar no lugar de Lula por um dia (24h), faria questão de me reunir com os donos das maiores empresas de comunicação do Brasil. Na conversa, pediria para que pegassem leve para o "meu" lado em troca de recheados contratos de publicidades.

O misterioso herdeiro Irineu já conversou em reservado com Lula na terça-feira passada. O que significa dizer que a MAIOR empresa de comunicação do país não deve pegar pesado para o lado do presidente reeleito.

É assim que os maiores políticos marqueteiros têm mantido altos índices de popularidade em seus currais eleitorais. Taí Minas Gerais que não me deixa mentir....

23 outubro 2006

Luto na imprensa da PB

Por Léo Alves

Neste final de semana, o jornalismo esportivo da Paraíba perdeu um de seus grandes nomes: Humberto de Campos. Tive o prazer de trabalhar com Humberto durante três anos e meio no Diário da Borborema. Meu amigo Daniel Brito também o conheceu. Aliás, Humberto foi um dos primeiros a acolher o grande DB, em Campina Grande. Abaixo republico minha coluna que escrevi para o Agora Esportes (www.agoraesportes.com.br)

Adeus a Humberto de Campos

Desde criança gostei de escutar jogos pelo rádio. Talvez surgisse nessa época minha inclinação para o jornalismo esportivo. Cresci ouvindo Humberto de Campos, Joselito Lucena, Edvaldo Gouveia e outros grandes profissionais da radiofonia esportiva.
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Quando decidi seguir o jornalismo esportivo, inspirado por meu tio Gutemberg Simões (Rádio Borborema), essa turma da “velha guarda” me servia de modelo. A história e o respeito que eles tinham junto aos ouvintes era algo com que sonhava qualquer um “aspirante” a jornalista como eu.

O primeiro contato que tive com Humberto de Campos foi 1999, quando trabalhei pela primeira vez no Diário da Borborema. Foi coisa rápida. Durante os seis meses que passei no DB (depois fui para o Banco do Brasil) não conversei com Humberto nada além do profissional.

Em 2001 retornei ao Diário da Borborema. Na época, o jornal mudava o projeto gráfico e criava a coluna Binóculo F.C, que era feita por mim com a colaboração de Severino Lopes, Daniel Brito e, por fim, Luceildo Carvalho. Humberto viria a se torna leitor assíduo da coluna. Prova disso era que vez por outra citava algum tópico do Bin F.C em sua coluna. Lembro que fiquei muito alegre quando vi pela primeira vez a referência de Humberto ao Bin F.C.

Comentei à época (com Daniel Brito) que era um reconhecimento ao meu trabalho. Por inúmeras vezes Humberto elogiou ou se inspirou em algum tópico do Bin F.C para citar em sua coluna. Perdoe-me a vaidade, mas sempre me sentia lisonjeado. Sentia que estava conquistando meu espaço (e respeito) junto aos grandes profissionais da imprensa esportiva. É lógico que também aumentava responsabilidade.

Nos três anos e meio que passei no Diário da Borborema, quase todos os dias da semana, encontrava com Humberto na redação. Era a mim que ele entregava suas colunas preparadas em casa. Chegava sempre com o porta-disquete nas mãos. Tirava um deles e pedia para copiar a coluna nos arquivos da redação. Vez por outra me pedia para “formatar” seus disquetes.

Quem o conhecia sabe que Humberto não tinha muita afinidade com a informática. Porém, sobrava-lhe habilidade com as palavras. Dizia o que precisava ser dito, sem preocupar em agradar “A” ou “B”. Criticava com classe, com estilo, em alto nível. Tão alto que muitas vezes as pessoas que eram criticadas por ele não compreendiam.

Com a convivência descobri que por trás daquela aparência sisuda, chata, daquele “vozerão” existia um homem que gostava de brincar. De preferência,brincadeiras inteligentes. E foi assim que passei a maior parte do tempo convivendo (os poucos minutos) diariamente com Humberto.

Adorava brincar com o fato de ele vez por outra citar em sua coluna a nebulosa “venda de Ruiter”, sua preocupação com o uso inadequado do verbo “reverter” e com sua raiva com denominação (segundo ele) errada de “Penta”, “Hexa”. Isso sem se falar nas famosas expressões “colóquio flácido para acalentar bovinos”, para não dizer conversa para boi dormir, ou “pequenina e heróica”, quando se referia à Paraíba.

Ainda tinham aquelas coisas que ele adorava dizer que não serviam pra nada (não tinham futuro): dançar com irmã, chover no molhado, muro em cemitério e peito em homem.

Foram expressões como essas que ficaram famosas junto à sua “meia dúzia de leitores”, como costumava brincar.

Humberto era um apaixonado por cinema, por futebol, pela vida e, claro, pelo português bem escrito.

Odiava quando alguém (as revisoras do DB) inventavam de mudar suas colunas. Lembro uma vez que ele escreveu uma coluna intitulada “Ao Sul do Equador”. Uma das revisoras inventou de trocar o ‘Sul’ por ‘sul’. Foi motivo para em outra coluna Humberto solicitar que ninguém mexesse nos seus escritos.

A partir de então, eu e o Moranquinho (era assim que Humberto também chamava Luceildo Carvalho, do DB, numa referência à semelhança dele com Lairton dos teclados, o Morango do Nordeste) passamos a chamá-lo de “Ao Sul (com a língua dobrando) do Equador”.

Desde que saímos do Diário da Borborema, eu e Humberto sempre nos encontrávamos nos estádios em dias de jogos. Não dava tempo para nada além de um ‘oi’, afinal estavámos na correria do trabalho.

É difícil para mim (ou para qualquer outro) definir Humberto de Campos em apenas uma coluna. Até porque estou longe de ser um colunista como ele. Ainda me falta habilidade com as palavras.

Mas para quem conheceu Humberto é dispensável dizer que abriu-se uma lacuna na crônica esportiva paraibana. ‘O mais discutido’ sempre foi exemplo de profissional. Como ele mesmo gostava de dizer: se Humberto “não existisse merecia ser inventado”.

22 outubro 2006

Histórias da F1

Por Daniel Brito

A melhor definiçao sobre o trabalho de um jornalista na Fórmula 1 me foi dada por um repórter do Estadão:

- Aqui, a gente conta os dias que faltam para acabar e vai cortando os riscos na parede, igual presidiário.

Para mim, que estou em um hotel a 20km do autódromo de Interlagos, realmente é de se contar os dias que faltam. Todo dia, tenho que sair do Paraíso, atravessar a avenida mais congestionada de São Paulo (23 de maio) e chegar no local da corrida. De táxi...

Meu recorde foram 90 minutos no trânsito. Vinte quilômetros em uma hora e meia....

Para nào ficar preso nas alamedas paulistanas, hoje, domingo, dia da prova, acordei às 4h45 e saí do hotel às 5h30. Cheguei em meia hora. Com trânsito um pouco menor.

Nenhum jornalista internacional falou bem de São Paulo até agora. A insegurança, a sujeira e o trânsito fazem qualquer um odiar esta cidade. Mas como experiência jornalística, a Fórmula 1 é algo comparável a Copa do Mundo, Olimpíada, talvez Jogos Pan-Americanos e/ou Grand Slam de tênis.

Como ainda faltam sete horas para o início da corrida e estou sozinho na sala de imprensa, sem ter o que fazer, resolvi colocar alguns tópicos do que já vivi por aqui desde quinta-feira.

* Os jornalistas espanhóis têm um jeitào de preguiçosos. Nunca são vistos andando pelo paddock (regiào atrás dos boxes, destinado a repórteres e convidados das escuderias). Na sala de imprensa de quase 200m de extensão, com mais de 230 jornalistas de impresso instalados, escolhi ficar ao lado dos espanhóis. Queria pegar alguma repercussão de Fernando Alonso, que será campeão hoje. Para meu azar, os caras do La Vanguardia, ABC e El Mundo não saem de frente dos telòes com estatíticas da corrida na sala. Quando são vistos próximos aos boxes da Renault, estão tomando café com um mecânico, batendo um papo com um desconhecido. Fico me perguntando, será que eles não têm chefes não?

* Os gringos não gostam que outros jornalistas peguem carona na entrevista deles. Se não for coletiva, cada um tem que esperar a sua vez. Fui entrevistar o bicampeào Niki Lauda ao lado de dois britânicos. Ele falou coisas legais sobre Schumacher, sobre Fórmula 1... várias coisas. Anotei tudo, estava quase ligando para a redação para abrir uma página com essa entrevista, mas os ingleses me interpelaram: "Meu nome é fulanodetal e este é meu companheiro Sicranodetal, nós somos do Sunday Telegraph e nós havíamos agendado esta entrevista com Niki anteriormente, por isso ele falou tantas coisas interessantes. Como só a publicaremos no domimgo (a entrevista foi quinta), gostaríamos de pedir para você não publicar nada antes disso, por favor. alguém pode traduzir e perdermos nosso material". Obedeci em parte. Dei destaque a uma declaração de Lauda na edição de sexta-feira sobre a aposentadoria de Michael Schumacher. Ninguém traduziu...

* Todos os pilotos têm o ar blasè. Metidos, arrogantes e mal humorados. Nào tente conversar com eles se não fora hora de entrevistas. Nas entrevistas, contudo, eles respondem com respeito, ainda que eles preferissem que você falasse a língua dele. Até Rubinho responde o feijão-com-arroz em inglês.

* Não convidem os companheiros de equipe Mark Weber e Nico Rosberg para a mesma mesa de entrevistas. Rodeado por ingleses, franceses e brasileiros, os pilotos da Williams trocaram farpas antes que qualquer jornalista formulasse alguma pergunta. "Não quero ficar na mesma mesa dele (Weber)", determinou Nico à assessoria de imprensa da equipe. Weber tentou levar na esportiva, mas o novato insistiu. "Me chateia dar entrevista com você aqui", repetiu duas vezes em voz alta. Logo, Mark Weber foi chamado por um repórter de tevê para uma entrevista em separado.

* A palavra mais falada pelos jornalistas no centro de imprensa em Interlagos, fora Fórmula 1, claro, é caipirinha. São mais de 200 profissionais, a maioria da Europa instalados em uma sala com mais de 100m de extensão, em frente à linha de chegada do circuito.

* "Está pensando que eu vou falar com a primeira pessoa que aparece na minha frente com bloquinho e caneta na mão". Esta foi a simpática maneira de Flávio Briatore, chefão da Renault, negar entrevista para mim.

* Entrevista coletiva após treino é um grande empurra-empurra. Na Espanha, por exemplo, eram tantos jornalistas em cima de Fernando Alonso, que o piloto caiu no chão empurrado por um cinegrafista desequilibrado. Ontem, durante a entrevista de Rubens Barrichello, um repórter brasileiro empurrou um italiano, que começou a gritar. Rubinho interrompeu a resposta e ordenou: "dá para você sair deste lugar, ô?". O jornalista obedeceu.

* Com três idiomas é possível fazer qualquer coisa no paddock da Fórmula. O primeiro é o inglês. Todos falam inglês, como eram de se esperar. Até Felipe Massa deu entrevistas em inglês aos brasileiros, na quinta-feira. Em seguida, o alemão, idioma em que Michael Schumacher dá as melhores respostas aos jornalistas. Por último, o italiano, língua da Ferrari, da maioria dos funcionários da Renault. Há quem diga que o jornalista que falar italiano para Flávio Briatore é muito bem recebido.
Será?

PS - Alguns dos asteriscos já foram publicados no Correio Braziliense desta semana.

17 outubro 2006

Eu NÃO sou perfeccionista

Por Daniel Brito

Quantas pessoas trabalham/estudam contigo reconhecem os próprios erros?
Quantas se dizem "perfeccionista"?

É duro reconhecer um erro. É fácil demais ouvir em um bate-papo entre companheiros de trabalho:

- Porque eu sou muito chato comigo mesmo. Eu me cobro muito, sabe? Sou super perfeccionista...

Isso é um dos auto-elogios mais ridículos que existem. Aos meus ouvidos soam como:

- Da licença, mas eu sou é f*da mesmo!

Eu, por exemplo, estou cercado de perfeccionistas. Pessoas que se classificam assim e não tem vergonha de espalhar essa impressão. Nas últimas semanas, conversei com três ou quatro repórteres que se confessaram perfeccionistas.

Eu poderia manter a conversa no nível e dizer:

- Pois eu sou igual a você, também sou perfeccionista.

O negócio é que eu não sou.

Tomo os devidos cuidados para não cometer erros absurdos, checo todas as informações vitais de uma matéria e reviso com freqüência meus textos. Mas não me prendo a detalhes. Coisa peculiar aos perfeccionistas.

Talvez por isso minhas matérias saem com erros aqui ou acolá.

Não é porque eu quero. Eu posso errar por três motivos:

1 - desatenção;
2 - informação repassada errada;
3 - mentira do entrevistado.

Pode acontecer com qualquer um. Nem sempre eu tenho tempo de apurar se a "mentira do entrevistado" é mentira mesmo. Até porque, não sou perfeccionista.

O mais curioso é que tem sempre um grupinho na minha cola à espera dos meus errinhos. Isso vem desde os tempos que eu era repórter de rádio em 1996, em João Pessoa. Em 1999, quando virei repórter de tevê, na Grande Campina , tinha um batalhão de gente me detonando a qualquer deslize. Hoje, no jornal impresso, continuo sendo alvo do big brother da concorrência.

Se eu disse que a competição tinha 332.182 atletas e eram 331.182, ERRO FEIO!
Se contei a história por um ângulo diferente: VACILEI!
Se esquentei uma matéria besta: EXAGEREI!

Há algum tempo isso me incomodava. Imaginava que as pessoas que me fiscalizavam fossem tão boas quanto elas queriam que eu fosse.

Hoje, contudo, estou tranqüilo. Até porque (sem querer ser demagogo), aprendo com as cornetadas-amigas.

Quer um exemplo:
A partir de amanhã estarei em São Paulo, cobrindo a Fórmula 1. Em Brasília ficarão os big brothers garimpando meus erros.

E vão encontrar, afinal, não sou perfeccionista!

16 outubro 2006

Ducha fria

Léo Alves*

A marca é a personalidade do produto. É nela que o consumidor busca o valor agregado. A marca é um patrimônio fabuloso da empresa. A marca Coca-Cola, por exemplo, vale mais de R$ 35 bilhões. E esse valor não inclui o patrimônio físico.

A marca é tão forte que acaba confundindo-se com o próprio produto.

Olha os exemplos:

1 - A maioria das pessoas prefere chamar Bombril em vez de esponja de aço;
2 - Gillete, no lugar de lâmina de barbear;
3- Xerox em vez de cópia ou fotocópia.

Tinha uma época em que as mulheres preferiam chamar o absorvente de Modess, que é uma marca registrada.

Essa “confusão” representa o valor agregado ao produto. É um resultado de um trabalho bem feito de posicionamento da marca. Está ligada à credibilidade do produto junto ao consumidor.

Existem, porém, casos de marcas que desapareceram do mercado. E outras que nunca conseguiram se firmar. Motivo: ao adquirir o produto, o consumidor ficou insatisfeito. Quando isso ocorre é muito difícil mudar a opinião de quem está pagando.

Um caso clássico no Brasil é o da CCE. Os eletrodomésticos sempre davam (não sei se ainda dão) problema. Criaram até uma definição para CCE (Começou Comprando Errado). Hoje, os produtos são os mais baratos do mercado. Mas ninguém confia.

Fiz toda essa (grande) introdução - que ficou parecendo uma aula de marketing - para mostrar os fatores que podem influenciar a credibilidade de uma marca.

Há algumas semanas uma empresa brasileira teve sua imagem (marca) arranhada. Mas não foi por nenhum dos fatores que apresentei. Foi por causa do escândalo da compra do dossiê contra o tucano José Serra. Esse case não está descrito em nenhum livro

Abre parênteses
(eu disse case só para ficar mais charmoso. Já observou como os marqueteiros adoram enfeitar o vocabulário. É case, briefing, share, target. Só para impressionar o cliente.)
Fecha!

Sim, mas a marca prejudicada é a Lorenzetti, empresa de chuveiros elétricos. Tudo por causa do sobrenome do churrasqueiro de Lula acusado de participar da compra do dossiê, Jorge Lorenzetti.

A empresa que está há mais de 80 anos no Brasil tem credibilidade. Contudo, viu seu nome associado ao de alguém envolvido num escândalo.

A preocupação com essa ligação é tão grande que a empresa distribuiu o seguinte comunicado à imprensa:


“Durante a última semana temos observado diversas associações do nome do sr. Jorge Lorenzetti, suposto integrante do esquema de compra de dossiê, com a Lorenzetti S.A, tradicional empresa brasileira que há mais de 80 anos contribui para o desenvolvimento do País, gerando milhares de empregos diretos e indiretos. Gostaria de esclarecer que esse senhor não tem nenhum vínculo de parentesco familiar, pessoal ou profissional com esta empresa e seus acionistas. Infelizmente, trata-se de um homônimo. Ao longo de sua história, a Lorenzetti construiu uma imagem de ética, pela qualidade de seus produtos e pelo respeito aos seus consumidores.

EDUARDO JOSÉ COLI, vice-presidente-executivo da Lorenzetti S.A.
São Paulo”


Não sei se vai dar certo. Mas pelo que entendo de marketing essa era a única coisa que a empresa podia fazer.

*Jornalista com especialização em marketing pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB)

11 outubro 2006

"Aspas" que nasce torta...

Pedro Henrique Freire

Reposta 1
“...O que nada impede de eu ir pra rua, fazer minhas campanhas e tudo, né? O que eu não quero, porque meu eleitorado não vai entender... como é que, né não? Você vai para uma campanha, dá o sangue, né? E depois você tá no mesmo..., né? Ele não vai entender”

Resposta 2
“O próprio Alckmin me ligou, me pediu... e tudo. Gente, eu preciso... vem cá... O meu eleitorado vai votar no Alckmin. (...) Tem coisa que você... num é? Política não é assim: acabou, acabou tudo. Não é assim. Fica mágoas. Eles sofreram muito...”

Os dois trechos acima são resultado de uma entrevista corriqueira com um político de Brasília. Nesse caso, as perguntas soam diretas. Mas as respostas... Nada aí em cima foi modificado. Os dois parágrafos são partes diferentes de uma mesma entrevista. Percebe-se, portanto, a dificuldade de articulação da fonte.

Jornalisticamente, o motivo de essas respostas estarem transcritas aí é o seguinte: o que você, jornalista, faria para amarrar essas idéias? Tratando-se de uma fonte importante, não seria possível, simplesmente, pegar as informações e abster as “aspas”. E mais: você também não poderia modificar o que a pessoa falou para adequar a seu texto. O que fazer?

Sinuca de bico
Estava em apuros. No popular, numa “sinuca de bico”. Quando peguei essas declarações e sentei na frente do computador para escrever, coloquei no discurso indireto quase tudo e pincelei as aspas com aquilo que considerava “comentários-chave”. Empobreceu o texto, mas resolveu. (Fiz a escolha certa?)

Ainda assim, quando a matéria estava sendo editada, fui chamado pela chefia. “Pedro, o que quiseram dizer com isso?”. Expliquei o que minha fonte estava querendo dizer e acrescentei. “Com ela é complicado arranjar uma “aspas” que preste. Ela nunca completa um pensamento e fala tudo atravessado”, disse.

A superior concordou, mas insistiu que pensássemos em outra forma para aquela declaração: mais simples e fácil de entender. No começo falei que não mudei porque não costumava mexer em frases de gente importante (apesar de ter colocado uns elementos de ligação entre parênteses para ficar melhor).

Resolvemos, então, inverter a ordem das duas frases. Não acrescentamos palavras. Mas demos um “trato” naquele pensamento, até então, meio “torto”. Foi modificado, mas ficou, de fato, melhor.

Depois de tudo, veio a dúvida: aspas que nasce torta, se endireita? Até que ponto é ético mudar declarações, digamos, desajeitadas?

04 outubro 2006

Os esquerdistas estão chegando

Por Daniel Brito

Eu teu uma ligeira impressão que os jornalistas são esquerdistas. Muito dessa minha idéia se deve à história recente do país, quando os jornalistas lutaram contra os direitistas entre 1964 a 1985.

Desde que os esquerdistas do PT assumiram o governo, essa história de jornalista de esquerda foi esquecida. Poucos são os jornalistas que NÃO deram porrada em Lula. Acho até que o próprio presidente se surpreendeu com a relação que mantém com a imprensa.

Hoje não, porque ele já deve estar vacinado, mas nos primeiros anos de governo ele deve ter se sentido traído pelos jornalistas. Sim, porque o PT era o grande municiador de denúncias durante o governo FHC aos repórteres de política.

José Dirceu, José Genoíno, o próprio Antoni Palocci tinham seus jornalistas preferidos. Atualmente, não sei se eles ainda têm a mesma consideração. Foram tantos os desmandos e a arrogância das petistas no primeiro escalão do governo federal que a relação com a imprensa azedou.

Em uma enquete feita pela Revista Imprensa no mês passado, as grandes redações do país votam em Geraldo Alckmin.

Diante da possibilidade de os políticos de centro-direita (PSDB) assumirem o governo mais uma vez, os próprios jornalistas estão aliviando um pouco a barra de Lula e dos seus correligionários. Não que alguém esteja trocando de lado e deixando de dar porrada no governo, mas as opiniões favoráveis começam a aparecer.

Eu havia separado algumas aspas de artigos na Folha de S. Paulo, no Globo e no Correio Braziliense, mas apaguei o email que continha esses trechos e não consigo encontrar mais. Anyway, preste mais atenção ao noticiário político nacional.

Os esquerdistas estão reaparecendo. Não porque querem, mas porque é quase que uma obrigação evitar com que o grupo político que esteve ligado aos militares retorne ao poder após 21 anos de abertura.

02 outubro 2006

Por onde começar ?

Léo Alves

A reportagem investigativa é o que se pode chamar do grande “sonho de consumo” de boa parte dos jornalistas. É ela (a reportagem) que, na maioria das vezes, dá visibilidade ao profissional. Afinal a informação é exclusiva.

Mas conseguir furos tem seus riscos. Lúcio Vaz, do Correio Braziliense, que o diga. O jornalista teve sua morte tramada pelos sanguessugas.

Toda investigação parte de uma denúncia. E as denúncias só chegam a nós jornalistas pelas mãos de alguém que está insatisfeito com o denunciado. Os políticos são mestres em ferrar os adversários. Entregam documentos e indicam o caminho que deve ser seguido para se chegar a fraude. Depois pedem sigilo de fonte.

A primeira impressão é de que você está sendo usado. Pode até ser. Mas se existe fraude tem que ser denunciada. É a nossa função. Independente da fonte.

Pois bem. Nos últimos meses “caíram” em minhas mãos documentos que são indícios fortes de fraudes em dois setores. Pelo que consegui analisar até agora são pontas de dois icebergs.

O meu grande dilema é saber por onde começar a investigação.

A primeira denúncia é na área esportiva. Os documentos foram entregues por um cara que está puto da vida com um dos possíveis envolvidos. O detalhe é que o envolvido conta com a ajuda de um (ou mais) funcionário de um órgão federal.

O problema está justamente aí. Não tenho como ligar para a sede do órgão porque corro o risco de falar com um dos envolvidos, que certamente desconfiarão do meu interesse pelo assunto.

Nesse caso vou precisar da ajuda dos amigos candagos, Pedro Henrique e Daniel Brito, para checar algumas informações na sede do órgão em Brasília. Com isso pretendo evitar que os “meninos sabidos” daqui fiquem alertas.

O outro caso envolve uma prefeitura paraibana. Preciso apenas de um pouco de paciência para analisar o site do Tribunal de Contas do Estado (TCE). É só cruzar os dados que o resto do iceberg da fraude aparece.

Como na Paraíba vamos ter segundo turno para governador o momento é delicado. É difícil publicar algum tipo de denúncia.

Nesse período de campanha vou aproveitar para colher mais dados, fundamentar melhor a matéria.

Confesso que o maior dilema está em não saber se terei espaço para publicar a reportagem. Independente do que possa acontecer farei minha parte. Isso me deixará mais tranqüilo. Porém, não menos frustrado.

29 setembro 2006

Sobre a verdade...

Pedro Henrique Freire

Enquanto eu lia o novo livro o teólogo-militante-socialista Frei Betto, A Mosca Azul, escutava o Jornal da Globo escarrar notícias sobre a crise do governo Lula. No livro, Betto falava dos cinco F´s do brasileiro: fé, festa, futebol, feijão e farinha. Contava que, nos quatro anos que esteve na prisão, resolveu escrever para parentes e amigos. Suas cartas, tempos mais tarde, viraram livro.

Enquanto isso, o Jornal da Globo apontava os “chegados” do Lula metidos em falcatruas das mais “brabas”. Comecei a refletir sobre o registro dos dois momentos: o da prisão (lá nos tempos idos) e a crise política atual. Em todos os períodos existiam pessoas dispostas a registrar aquilo que acontece no momento em questão. É o papel da imprensa. Frei Betto comentou a história do Brasil da prisão (já que a ditadura não permitia que ele o fizesse fora dela). Nós, jornalistas, escrevemos de fora para dentro.

Não estamos metidos em nada daquilo. Temos um olhar crítico e isento sobre a prisão que sufoca os políticos e os faz decair moralmente. Estamos escrevendo a história, falando a verdade.

Talvez não percebamos, mas o que ocorre hoje pode ter um significado definitivo na formação dos nossos filhos e netos. Eles irão aprender na escola quem é o Lula e seus comparsas. Enquanto tudo isso não passa, vamos registrando, apurando, discutindo, criticando, escrevendo.

Estamos numa posição privilegiada.

O pior é quando registramos tudo de dentro para fora. Dou um exemplo clássico: Maranhão. No momento, o registro político não existe por lá. Explico o motivo:

Os dois principais jornais, concorrentes naturais, defendem grupos políticos opostos. Quando um diz uma coisa o outro publica outra totalmente diferente. É como se eu dissesse: Roseana Sarney lidera as pesquisas de intenção de voto. No outro dia, o concorrente diz que nada daquilo é verdade. São duas versões absurdamente diferentes para a mesma história.

Eu pergunto: qual o registro histórico teremos? Nenhum. Qual a importância do leitor numa circunstância como essa? Nenhuma. Que responsabilidade ética tem o jornalista que faz isso? Nenhuma. Daqui a 10 anos, se resolver consultar os jornais para saber como estava a política do estado, não saberemos o que é verdade ou mentira. Isso é um boicote à necessidade de informação do povo.

É esse o mal de enxergar a notícia de dentro, de se envolver muito com ela. Somos automaticamente influenciados.

Depois que apanhou muito da ditadura, Frei Betto, que não é jornalista, registrou os horrores das inconseqüentes atitudes de milicos irresponsáveis. Foi influenciado por isso. Mas ele não tinha responsabilidade nenhuma com o grande publico: escreveu para parentes e amigos.

Os jornalistas não. Temos a responsabilidade com o envolvimento e a construção crítica de nossos leitores, ouvintes ou telespectadores. Podemos dar-lhes, aos poucos, uma visão diferenciada de qualquer coisa.

Só assim, conseguiremos que a filosofia da maioria do povo brasileiro não continue como a do final dos anos 60: feita de fé, festa, futebol, feijão e farinha.

27 setembro 2006

Um artigo (aparentemente) Lulista

Por Daniel Brito

Muito da revolta da população com Lula se deve ao trabalho da imprensa. Não tô aqui querendo culpar meus companheiros de trabalho pelas denúncias diárias de corrupção, nem defender Lula. É apenas uma constatação.

Roubalheira, desmandos e gastos desordenados sempre existiram no Brasil. Antes mesmo de o Brasil se chamar Brasil já existia corrupção aqui. Senão, vejamos:

1 - Pero Vaz de Caminha, o camarada responsável pela primeira carta escrita no Brasil para Portugal, disse que a expedição de Cabral fora maravilhosa, que a Terra de Vera Cruz era o melhor lugar do mundo. Lá no final da carta, Vaz de CAminha pediu ao Rei de Portugal, um emprego para um parente.

Tá, tudo bem, não é corrupção. Mas já é o primeiro indício do nascimento do jogo-do-poder na maior colônia portuguesa.

2 - Quando fundou as tais capitanias hereditárias, o rei português mandou para o Brasil um político afastado da vida pública de Portugal, por ter desviado verba de uma obra.

3 - D. João VI veio para o Brasil já no Século XVII fugindo de Deus e o Diabo na Europa, sob a orientação dos ingleses. Em troca, ofereceu todo tipo de benefício a eles (ingleses): não pagavam impostos, não precisavam cumprir as leis vigentes na época para os colonos e assim por diante. Joãozinho encheu o saco do Brasil, voltou para Portugal, mais uma vez debaixo das asas dos britânicos e deixou o pobre do filho aqui tendo que obedecer as regras dos ingleses e forçado a declarar Independência do país.

Grande Independência!!!

Esse breve relato da história política dos três primeiros séculos de vida do Brasil são meramente ilustrativos.

Porque o que eu quero mostrar é que se você NÃO vai votar em Lula por roubo, corrupção ou qualquer outra coisa parecida, pode arrumar outra desculpa. Isso vai haver em qualquer governo.

Nosso Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. Quer coisa pior do que deixar o país às escuras porque privilegiou a emenda da reeleição no congresso e esqueceu-se que poderia haver uma crise de energia???

Todas as denúncias contra FHC foram engavetadas por um camarada chamado Geraldo Brindeiro, Procurador Geral da República. Por que não houve tantas CPIs no governo do PSDB? Porque eles souberam manejar melhor o congresso do que os petistas.

A Folha de São Paulo fez uma matéria no início desta campanha eleitoral mostrando que Geraldo Alckmin barrou mais de 70 CPIs enquanto governador de São Paulo. Como se barra essas comissões?

Pergunte aos deputados que votaram contra elas.
Ou peça para um deles mostrar a conta bancária.

Com deputados satisfeitos, não existem denúncias à imprensa. Taí Roberto Jefferson para comprovar.

Sem denúncias, não há CPIs, rigth?

É o que eu, humildemente, acho.

Portanto, se você quer um motivo para NÃO votar em Lula, arrume outro, porque corrupção é desculpa antiga.

Eu, por exemplo, não votarei em Lula porque depois de tantas denúncias, acredito que ele não tenha mais ninguém de confiança solto para montar um governo.

É isso...

25 setembro 2006

Repórter Super-sincero

Por Daniel Brito

Quando estou sem absolutamente nada para fazer, me pergunto o que eu faria se estivesse cara-a-cara com alguma figura polêmica e tivesse que entrevistá-la. Por exemplo, Suzane Von Richtofen (é a primeira pessoa que me veio à cabeça agora).

Até desenhei uma cena na minha mente .

No meio da entrevista, eu tô lá, ouvindo aquelas justificativas e começo a desabafar:

- Sua p*ta, vagab*nda. Não tem medo de morrer não????

Ela abriria os olhos, assustado com minha reação e começaria a chorar. Ou, quem sabe, falaria coisas que nem um repórter conseguiu arrancar dela. Acho que todas as pessoas do planeta têm vontade de fazer ou falar algo parecido para ela.

É impossível isso acontecer, realmente. Mas que dá vontade, isso dá...

Tem o caso da jogadora de vôlei Mari. Foi ela quem errou a bola que tirou o Brasil da final dos Jogos Olímpicos de Atenas, há dois anos, contra a Rússia. De repente, tô levando aquela entrevista monótona com ela e aumento o tom:

- Oh, Mari, vem cá, que p*rra foi aquela no jogo contra a Rússia em Atenas?, grito, jogando o bloquinho de anotações no chão e cruzando os braços com cara de indignado.

Não quero imaginar o resto desta entrevista.

Costumo dizer que o legal de trabalhar em esportes é que, durante o plantão de final de semana, você vai a lugares que já iria se estivesse de folga. Tipo jogo de futebol. E mais: ainda pode falar com os protagonistas da história.

Só não pode ser super-sincero.

Como eu quis ser com o velejador Robert Scheidt. Sete vezes campeão mundial da classe laser, a categoria iniciante na vela, ele já meu deu uns dois foras em entrevistas. No início de setembro, levei o terceiro.

Ele participava de um campeonato em Brasília e tinha a missão de fazer um perfil dele. Aquela conversa furada:

Nome
peso
altura
idade
time de futebol
hobby
ídolo
livro
filme

Ah, aquelas baboseiras dos cadernos de TV.

Anyway, fui fazer com um pé atrás. Ao meu lado estava o professor Fernando Millani, que passava alguns dias no DF e me acompanhou em um dia de pauta.

Veja o diálogo:

- Robert, posso fazer umas perguntinhas para publicar um perfil teu no Correio Braziliense de amanhã?
- É um minutinho só?, disse andando apressado e dois passos à minha frente.
- Um minutinho. Momento mais marcante na carreira?
- Minhas vitórias...
- Momento mais difícil?
- As derrotas.
- O que você imagina que estará fazendo daqui cinco anos?
- Velejando.
- Qual é o seu segundo esporte?
- ... Tênis (ja de cara fechada).
- Quando você nào está velejando, o que você gosta de fazer (uma outra maneira de perguntar: hobby?)
- ... Cara... Faz o seguinte: liga para a minha assessoria que eles já tem todas essas respostas lá.

Bom, não precisa dizer que fiquei com a cara mexendo na frente dele, sem reação.

E você, o que faria se estivesse no meu lugar:

1) Ficaria com a cara mexendo igual a mim e sem resposta
2) Encarnaria o super-sincero???

22 setembro 2006

Ligações partidárias

Por Léo Alves

Não tem como escapar. Nesta época, para onde se vira o assunto é política.

Jornais
rádios
tevês
sites
revistas estão cheios de assuntos relacionados aos candidatos.

A maioria é denúncia de corrupção.

Superfaturamento de obras, dossiês, compra de votos, sanguessugas, confraria. Vou parando por aqui porque a lista é grande.

Confesso que nunca vi (talvez antes não tenha prestado atenção) tanta sujeira num período eleitoral. Não me refiro ao contexto nacional, mas ao estadual. Os dois principais candidatos ao governo da Paraíba, Cássio Cunha Lima e José Maranhão, travam uma batalha de acusações.

Para isso, é claro, precisam da imprensa.

No período eleitoral, o veículo de comunicação não tem como esconder a que grupo político está atrelado. Pode até tentar disfarçar, mas o povo não é tão burro assim. O pior é que, quando se perde o equilíbrio, o veículo acaba servindo de escudo para o candidato que está apoiando. Entra numa briga política que não é sua. Pelo menos não deveria ser.

Prova dessa briga são as pesquisas eleitorais. A cada semana um grupo de comunicação divulga os números. Os dois principais candidatos se alternam na liderança, dependendo onde ela foi divulgada.

A divulgação só faz confundir ainda mais a cabeça do eleitor. Quem está com a razão?

Talvez os dois!
Ou nenhum!!!

A verdade é que os próprios institutos de pesquisa estão desgastados. Certo candidato disse em uma reunião com os correligionários que o “instituto X” vende pesquisa como quem vende ventilador. O interessante é que na eleição passada, o candidato havia usado o serviço do tal instituto.

Os candidatos também buscam apoio em publicações em revistas nacionais. É estratégico. Dá mais credibilidade à campanha mostrar que a revista tal publicou uma matéria contra o candidato adversário. Há duas ou três semanas, a revista Isto É publicou uma matéria contra o candidato ao Senado pela Paraíba, Cícero Lucena.

“Coincidentemente”, a Veja trouxe uma matéria contra Ney Suassuna. Precisa dizer mais alguma coisa?

Cada vez mais a imprensa perde a credibilidade. Segue o caminho dos políticos. Boa parte da população não acredita mais neles.

É quase impossível encontrar um que não esteja envolvido em falcatrua.

Político é político. Não há como dissociá-lo da corrupção. Como disse o ator Paulo Betti

“é impossível fazer política sem sujar as mãos”.

Para mim só existem dois tipos de políticos: o que rouba e o que rouba mais ainda. Ou melhor, o que se apropria do dinheiro público indevidamente e o que se apropria ainda mais.

Isso porque político não rouba. É “apenas” corrupto.

E pensar que no próximo dia 1º de outubro seremos obrigados a digitar pelo menos 21 teclas na urna eletrônica para colocar (ou recolocar) esses corruptos no poder.

19 setembro 2006

Um romance...

Por Pedro Henrique Freire

Quando comecei na faculdade, escrevia pouco. Não trabalhava. Portanto, não tinha pautas para apurar e escrever. Mas logo no primeiro ano de curso comecei a trabalhar em redação – no Maranhão – e senti na pele o que era ter que escrever todos os dias. Era comum eu chegar na redação e falar de lado: “Pô, hoje eu estou sem inspiração”.

Inspiração, pra mim, na época, era a certeza de um bom texto. Era a certeza que iria tirar das profundezas da minha mente as palavras ideais para um bom texto – aquelas que eu estava longe de usar no dia-a-dia.

Lembro que comentei isso até com um escritor maranhense que entrevistei para um trabalho da faculdade. Não me recordo o nome dele. Sei que perguntei: “O senhor escreve todos os dias?”. Ele disse que sim e eu emendei: “Mas o senhor escreve bem todos os dias?”. Ele me disse que não, mas que escrever era sua profissão, então não tinha tempo ruim, tinha que escrever.

Mesmo assim, era comum duas semanas depois ele jogar fora o que tinha produzido e começar de novo.

Foi quando caí na real que, na nossa profissão, não importa como você esteja, você tem que escrever e não pode ser de qualquer jeito: as pessoas precisam entender sua mensagem. E é pra já! Clareza, precisão e simplicidade. É tudo que devemos ter na hora de sentar a bunda na frente do computador e mexer os dedos para mandar algum recado. Isso, amigos jornalistas, requer uma concentração “filha-da-pauta”... literalmente.

É dela – da pauta – que surge toda a inspiração do jornalista. Quando você acorda, toma banho, e pensa que, quando chegar ao trabalho, a primeira coisa que fará é procurá-la. E, partir daquele momento, ela irá guiar seu dia. Tudo que ela quiser, você fará. Ela é a musa, dona da inspiração, chefe do seu dia (às vezes da noite). Por isso, é fácil amá-la e odiá-la, tudo ao mesmo tempo.

Continuando essa metáfora em clima romântico, me arrisco a dizer que o casamento entre jornalista e pauta não é perfeito, mas é um ótimo processo reprodutivo. Quando você apura a pauta, é fácil pensar logo em outra. Bingo! Está ai o fruto do casamento entre você, jornalista, e sua pauta. É assim que o jornalismo se renova.

Nos últimos dias, estou longe de ter grandes sacadas para os textos que escrevo. Está me faltando um pouco de concentração. Percebo que estou de mal com a pauta. Ela vem, me inspira, eu a admiro, mas por não pretender viver um grande romance com ela, acabo saindo de fininho, pegando o caminho mais fácil e escrevendo uma matéria “feijão com arroz”.

Pauta é o alicerce do jornalismo. Sem ela, nada funciona. Por isso, pense nela com carinho, sempre “discutindo a relação” e a melhor forma de deixá-la em perfeita sintonia com você. Afinal, ela irá lhe acompanhar pelo resto da vida. Quanto a mim, é nessas horas que gostaria de ser escritor e ter a possibilidade de escrever mal os dias que não encontro o amor pela pauta. Mas não posso. Escrever é minha profissão.

11 setembro 2006

Eu (também) tenho que pagar a hipoteca

Por Daniel Brito

Imagino como deve ser a vida dos jornalistas comunistas ou esquerdistas nos Estados Unidos. Pensam uma coisa e passam outra todos os dias nas matérias que escrevem. Dia desses, li que o Miami Herald bancava jornalistas "espiões" em Cuba para contar os podres da ilha.

Eles viviam escondidos no meio dos cubanos, alguns eram até cubanos. E o jornal detonava o regime de Fidel. Imagino que alguns deviam ter a mesma inclinação política do "ditador", mas, para sobreviver, entregavam tudo.

Como foi muito bem dito no filme "Obrigado por fumar", a frase que mais se encaixa em situações como esta é a seguinte:

- Tenho que pagar minha hipoteca

O protagonista é o Relações Públicas da indústria do tabaco nos Estados Unidos e participa de programas de auditório, entrevistas, debates sobre o uso do cigarro. Tem sempre uma pancada de gente reunida para falar mal do cigarro e ele TEM que falar bem.

Ele tem a OBRIGAÇÃO de defender o cigarro. Ficou famoso nos EUA fazendo isso, de acordo com o filme (que não história real). Ela (a história), inclusive, deixa a entender que ele fuma, apesar de não mostrá-lo tragando.

Até que uma jornalista do Washington Post o pergunta em um jantar:

- Por que você defende o cigarro?
- Tenho que pagar minha hipoteca, responde, desligando o gravador da bonita repórter.

Tem um outro lance sobre essa frase no filme, mas não vou contar para não fazer como minha namorada fez comigo. Me contou e, quando fui ver, não achei graça nenhuma.

Mas o nosso protagonista de "Obrigado por fumar" emendou a seguinte frase ainda neste jantar da entrevista para o WP:

- Noventa e nove por cento das pessoas do planeta trabalham, para o bem ou para o mal, para pagar a hipoteca.

Acho que neste ano não ouvi frase tão perfeita para o momento que vivo como esta.

Nunca tive ideologias.
Nunca fui defensor de fracos e oprimidos.
Sempre achei que tinha que trabalhar porque todos os 6 bilhões de habitantes do planeta têm que ter alguma ocupação.

De uns tempos para cá vinha pensando na minha profissão não apenas como maneira de subexistir, recebendo o salário todo mês, fazendo oito ou nove textos por semana... Mas como um conjunto de idéias que não precisa se preocupar com as necessidades econômicas ou até mesmo materilistas tanto minhas quanto da empresa em que trabalho.

Confesso que demorei para pensar desta maneira. Geralmente, essa ideologia vem nos primeiros anos de faculdade, quando se tem a nítida impressão que é possível mudar o mundo. Nos meus tempos de estudante (não foi há tanto tempo assim), condenava quem tinha essa idéia na cabeça.

Claro, sempre soube que todas as empresas têm interesses. Mas, pelo contexto em que estou inserido hoje (bem maior do que quando era um estudante na UEPB), observei o jornalismo de uma maneira muito mais decisiva.

Até a semana passada, quando descobri que o contexto em que eu estou inserido nada mais é que uma falsa realidade.

Levei um choque da realidade e entendi que o meu contexto é puramente comercial e capitalista (redundância??). Eu penso de uma maneira e terei que escrever de outra. Sou um objeto, praticamente.

Como já aconteceu com:
os cubanos do Miami Herald;
com os jornalistas brasileiros na época da ditadura (não tô me incluindo em uma ditadura, hein!?!?!?!)...

Vou até mais longe:
com os professores de universidades particulares;
com os juízes de direito comprometidos com organizações criminosas...

É essa a realidade.

Afinal, todos temos que pagar a hipoteca!!!

03 setembro 2006

Quem lê política na internet???

Por Pedro Henrique Freire

Quem é jornalista, escreve e quer ser lido. Claro, todos nós queremos.

Mas nem sempre é assim.

Em época de eleição, o medidor que indica o "ibope" dessa ou daquela matéria parece estar mais aguçado. O resultado é o seguinte: a gente escreve, escreve, escreve e parece que meia-dúzia-de-gatos-pingados leram o que nos esforçamos para colocar na TV, no papel ou na Internet.

O feed back é quase zero.

Quer sentir isso nas ruas? É só sair perguntando para quem aparecer pela frente sobre as últimas novidades de política. Aquelas com menor grau de formação – que deveriam ser vítimas das propagandas eleitorais ou jornais da TV – são as mais desinformadas.

Um outro dia perguntei a empregada daqui de casa:

- Em quem você votará para governador (do DF)?
- Heloísa Helena, respondeu ela.
- Mas ela é candidata a presidente, corrigi.
- Ah, é? Então eu vou votar no (Joaquim) Roriz.
- Tá, mas Roriz é ex-governador. Agora ele é candidato a senador.

Ela não soube dizer em quem iria votar porque não conhecia os candidatos. Quando disse um a um quem são os concorrentes ao Governo do Distrito Federal, as coisas começaram a clarear e ela soube dar sua preferência.

A reflexão que fiz foi a seguinte: as pessoas até conhecem alguns candidatos, a biografia, as coisas boas (ou ruins) que eles tenham feito. Mas só sabem de ouvir fulano ou sicrano comentar. Os meios de comunicação, para este caso, passam longe dos ouvidos e olhos do povo pobre.

É uma pena.

Agora você imagina a Internet, um veículo com pouca penetração em massa?

Por isso, as vezes acabo achando que não escrevo para ninguém. As minhas matérias, por exemplo, só ouvi comentários dos próprios jornalistas. Nessas eleições, ainda não senti orgulho de ver uma informação dada por mim modificando a vida de alguém. Mesmo trabalhando num site com 40 milhões de acessos únicos por mês, o retorno do público ainda é raso demais, embora tantas coisas polêmicas sejam publicadas.

O que devo fazer?

O melhor é continuar escrevendo na esperança que estou sendo lido.

Engavetadores gerais
Hoje, os jornais padecem de um enorme mal: o engavetamento. Dentro da ordem de preferência da alta cúpula da empresa, estão os anunciantes e, só depois, os leitores. Por isso, muitas matérias de política são engavetadas ou tiradas do ar numa decisão unilateral com o único objetivo de proteger esse ou aquele grande anunciante. Em época de eleição, o que já não era lido, aí que não será mesmo. Simplesmente por não ter sido publicado.

Ricardo Noblat diz:

"Hoje, os jornais ganham mais pelo que não publicam do que pelo que publicam".

Apesar de achá-lo um jornalista irresponsável, nascido para escrever em blogs – espaço onde poderá publicar somente o que bem entender – considero o comentário certíssimo.

Mesmo em época de eleição, quando todos deveriam abolir a censura para proteger o povo dos políticos corruptos, os jornais não estão nem aí para o leitor. Querendo ou não, o resultado é o seguinte: o leitor também não está nem ai para os jornais.