20 novembro 2006

Sem frustração

Pedro Henrique Freire

A questão das “rec”, bem explicitada por Léo no texto anterior, me fez lembrar de outra exigência comum nas redações. Bastante conhecidas pelos jornalistas, elas seriam a antecipação das matérias recomendadas, mas não deixam de ser recomendações. Enquanto as “rec” falam bem, esta outra exigência diz o seguinte: jamais fale mal.

Parece a mesma coisa? Bom, mas é um pouco diferente. Esse fato ocorre quando, por exemplo, você vai fazer uma matéria factual. Uma boa pauta. Mas, dentro dessa história, há alguma coisa em conflito direto com a linha editorial do jornal (leia-se com o anunciante).

Em conversa de bar com jornalistas a gente ouve os mais variados motivos para o jornal boicotar um assunto. Um que me chamou atenção foi o seguinte:

Um veículo qualquer deixou de publicar (por várias semanas), um assunto de terras. Um certo plano de expansão que poria fim à grilagem ou cessaria a distribuição ou venda de lotes. Bom, o fato é que nada foi publicado. Tudo porque um forte anunciante tinha terras por lá e esses espaços eram alvos preferidos do tal projeto.

O mais comum é quando uma verdade não pode ser dita. Ou seja, você chega na redação e fala: tenho isso, isso, isso e isso. Quero começar meu texto com isso. Achei mais forte e foi o assunto mais polêmico que apurei. Ai vem a resposta: “Bom, mas nós não podemos publicar. Começa mesmo com o assunto tal”.

No outro dia, jornais com posturas diferentes dão a notícia como receberam: quentes! E alguns repórteres companheiros de apuração ainda perguntam. “Por que você não começou com aquela história?”. Eu respondo: “Adivinha por que?”. É fácil saber.

Bom, essas não são especificamente aquelas matérias recomendadas. Mas são recomendações com a mesma envergadura. Tolhem o bom jornalismo da mesma forma. Infelizmente, temos que nos relacionar sempre e quase todos os dias de profissão com esse fato.

Não sou defensor da autocensura, mas prefiro que meu chefe me faça um sabedor das questões publicáveis e as não publicáveis. Assim, consigo agilizar minha pauta e não me frustro.

3 comentários:

Anônimo disse...

Realmente Pedro, é muito ruim se frustrar dessa maneira, ainda mais quando você imagina que vai ser 'A' matéria. Infelizmente, faz parte da profissão, assim como as "recs".
E acredito que encontraremos isso em qualquer veículo que estivermos trabalhando. Não tem como fugir!

Anônimo disse...

É Lôro, frustrações assim são péssimas.
Na minha profissão é horrivel elaborar um projeto, fazer tudo feliz e certo, aí na hora o chefe vira e corta todas as asinhas, ou então você tem que eliminar as coisas mais legais por causa da verba...
acredito que deve ser o mesmo sentimento de frustração...
Faz parte...
beijos

Léo Alves disse...

O grande Pedro abordou outra forma de "rec". Realmente é difícil não se frustrar quando cortam nossas asinhas, como disse a iêda. Mas fazer o quê? É a profissão.