26 dezembro 2007
Salvo pelo Orkut
Em muitas redações o acesso ao site de relacionamentos Orkut e ao MSN é proibido. É para evitar que o jornalista “fuja” do trabalho enviando mensagens.
Li a entrevista de uma jornalista (ou era estagiária) da Folha de São Paulo, na qual afirmava que usava o Orkut como ferramenta de trabalho.
Quando deseja conseguir um personagem para uma matéria entra numa comunidade relacionada. Foi assim que conseguiu personagens para uma reportagem sobre pais adotivos.
No início de outubro entrei nas comunidades dos dois times de Campina Grande – Campinense e Treze – a fim de conseguir personagens para uma reportagem especial.
Não surtiu muito efeito. Mas no MSN encontrei um colega que foi um dos personagens da matéria.
Até bem pouco tempo o acesso a esses sites eram proibidos na redação da TVPB. Não sei quem liberou. E espero que ninguém da direção esteja lendo esse post.
Mas semana passada foram o Orkut e o MSN que salvaram a nossa reportagem.
A sobrinha da ex-prefeita da cidade havia morrido num acidente de carro quando viajava para Recife, a cerca de 80 quilômetros de Campina. Os familiares sobreviventes foram levados para um hospital em João Pessoa.
Mantivemos contatos com familiares e amigos da vítima para conseguir uma foto.
Todos tinham viajado para João Pessoa.
Foi aí que a produção acessou o Orkut para conseguir a foto da vítima. A produtora encontrou pessoas com o mesmo nome.
As mensagens de luto dos amigos no Orkut confirmaram quem era a vítima do acidente.
Sinceramente eu não sei como é que após a morte de alguém as pessoas já acessam o Orkut para deixar mensagens. Mas tudo bem.
Só que as fotos não davam para ser exibidas na tevê.
Por sorte encontramos uma colega nossa - da assessoria do Governo do Estado - no rol de amigos da vítima.
E por mais sorte ainda ela estava online no MSN com outro produtor. E o melhor: ela tinha inúmeras fotos da vítima, pois era amiga íntima.
Na mesma hora ela nos enviou as fotos pelo MSN que salvaram a reportagem.
Para conseguir as fotos os produtores trabalharam quase toda a tarde.
E o resultado positivo só foi possível porque liberaram o acesso ao Orkut e ao MSN na redação.
Tomara que depois deste post não seja restringido novamente.
Afinal o Orkut também é uma ferramenta de trabalho do jornalista.
Difícil vai ser algum diretor acreditar nisso.
14 dezembro 2007
Uma lição do Mané
Manoel dos Santos, o nosso Mané Garrincha, não me impressionou apenas por ter inventado o drible ou por beber mais que qualquer desses carros total flex. Cada movimento fora do planejado ou um novo desafio que me é apresentado na carreira recorro à simplicidade do craque.
Não me recordo exatamente em qual trecho do livro "Estrela Solitária" está o trecho que vou citar aqui, agora.
No vestiário, às véspera de mais uma Copa do Mundo, ele viu os companheiros de Seleção Brasileira tremerem nas bases. A torcida ainda amargava, nas décadas de 1950 e 1960, aquele trauma do Maracanazo e os jogadores, obviamente, sentiam a pressão.
Descendente de índios, quase um deficiente físico (como já disse Nilton Santos), condenado à pobreza por ser semi-analfabeto, Garrincha não tinha o mesmo sentimento que os demais antes de jogar uma Copa do Mundo.
Para ele, tanto fazia jogar futebol em Pau Grande, hoje distrito de Magé, no Rio de Janeiro, no Maracanã, na Rua Bariri, no Rasunda Stadium. Ele queria apenas fazer o que gostava: jogar futebol.
Nunca sentiu a pressão do momento. Chegou, inclusive, a reclamar do sistema de disputa da Copa do Mundo porque não tinha segundo turno; confundiu a Inglaterra com o São Cristóvão, por atuar com o uniforme branco; sem contar a já batida história de que todo adversário se chamava João ou José. Podia ser Bobby Charlton ou Jordan, do Flamengo.
Isso era reflexo da alma pura do craque. Contaminada e vencida, "apenas", pelo alcolismo.
Fiz esse tremendo nariz-de-cera para contar a história do meu outro blog. De férias em Campina Grande, fui assistir ao último jogo da Série C do Campeonato Brasileiro e resolvi tirar umas fotos.
Conversa-vai-conversa-vem, cerveja para lá e para cá, ouvi uma série de histórias engraçadas das testemunhas que estavam no estádio naquele momento pitoresco e resolvi contá-las no Tudo Sobre Nada (muitodenada.blogspot.com).
As fotos mais o texto saíram quase que no piloto automático. Nem me preocupei muito em deixar as idéias hierarquizadas por grau de importância. Até porque, havia bebido naquele dia do estádio e fiz um breve relato totalmente espontâneo em um espaço pessoal, sem regras jornalísticas estabelecidas.
Mandei o link do texto para aquelas pessoas que gostam do futebol e de suas histórias malucas. Como resultado, meu humilde blog pipocou em acessos e comentários (continua até hoje, 11 dias depois de publicado); meu editor, em Brasília, leu o texto, achou sensacional e me pediu autorização para publicá-lo.
O relato do último jogo da Série C saiu nas páginas do Correio Braziliense em 7 de dezembro, com direito a foto tirada por mim, fugindo do padrão do espaço em que foi publicado.
Se tivesse recebido a pauta do meu editor para escrever sobre aquele jogo não faria tão bem feito como saiu no blog.
Moral da história:
Garrincha morreu há 25 anos sem saber de muitas coisas. Sem saber, por exemplo, que deixou essa lição de simplicidade: quando se tem habilidade para produzir algo que gosta, não interessa a situação, faça tudo que sabe, porque será bem feito.
30 novembro 2007
O filho está crescendo
“Não vai ser fácil manter este espaço atualizado”.
Esse trecho do primeiro post do Filhos da Pauta revela que eu e o Daniel sabíamos a dificuldade de manter um blog atualizado. Mesmo com as falhas de atualização este humilde espaço completou dois anos de existência.
Estã durando tanto porque contamos com o reforço substancial do grande Pedro.
Confesso que no começo pensei que o blog seria um espaço de inteira liberdade de expressão. Poderia escrever o que quisesse e sobre qualquer assunto. Não é bem assim. Como qualquer veículo de comunicação (o blog se transformou numa ferramenta alternativa) é preciso responsabilidade.
Afinal, tudo que é escrito está na rede. Se está na rede, obviamente, é facilmente encontrado pelo todo-poderoso Google.
Faz parte do (invisível) “Manual de Redação do Filhos da Pauta” não citar nomes de pessoas. A não ser que o personagem nos autorize ou se o próprio personagem da história seja um de nós.
Mesmo assim muitas histórias desagradaram os personagens. Basta lembrar da polêmica do post “Gafes”.
Para mim, este blog é também uma extensão da sala de aula. Sempre faço referências aos meus alunos sobre uma ou outra história contada aqui. O FDP é um canal de diálogo entre pessoas que não se conhecem. Eu, por exemplo, não conheço o Pedro. Já dialoguei através de comentários com outro que nunca vi pessoalmente, o Felipe. Exemplos não faltam.
Esses são alguns dos motivos que fazem os blogs crescerem tão rapidamente. Estima-se que a blogosfera reúna mais de 73 milhões de blogs. Esse número aumenta a uma razão de 175 mil por dia.
O jornal espanhol El País publicou o artigo "Os weblogs fazem dez anos de agitação" no qual afirma que: "Nunca um meio de comunicação cresceu a tal velocidade".
Em 1º de abril de 1997, Dave Winer lançou na rede a primeira postagem. De lá pra cá o blog deixou de ser uma brincadeira de adolescente ou um diário virtual. É um veículo de comunicação importante no mundo.
Nas últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos, as equipes dos candidatos - George W. Bush e John Kerry - mobilizaram a opinião pública, criando correntes por meio de blog.
No mundo das empresas a norte-americana Kryptonite, líder de fabricação de cadeados e travas teve um prejuízo estimado de US$ 10 milhões. Foi obrigada a substituir quase 40 mil cadeados de seu estoque e levou um bom tempo para recuperar sua reputação.
Tudo porque um blogueiro percebeu que poderia abrir uma das trancas, que era vendida a US$ 100, usando apenas uma caneta Bic comum e colocou em seu blog um vídeo que provava ser possível o "arrombamento".
Em questão de horas, todos os blogs falavam do assunto. A companhia só soube cerca de uma semana mais tarde, quando todos os meios de comunicação já falavam a respeito.
O Filhos da Pauta ainda não causou (e nem pretende) causar um estrago tão grande. A idéia é trazer assuntos, na maioria das vezes relacionados ao jornalismo, que possam ser discutidos com o nosso pequeno número de leitores.
E como há dois anos o desafio continua sendo manter este espaço atualizado...continuaremos tentando.
20 novembro 2007
Jornalistas contadores de histórias
Outro dia, lia jornal enquanto lanchava e comecei a conversar sobre formas de se fazer jornalismo com o repórter Marcelo Abreu, um maranhense com sensibilidade e veia literária que trabalha há anos no Correio Braziliense. Enveredamos por um papo agradável e ele me contou de suas experiências como "repórter itinerante".
O nome não é bem esse. Mas o conceito é o seguinte: como o Grupo Associados tem jornais em várias capitais, ele viaja para as cidades e começa a fazer matérias para outros veículos do grupo. "Preciso de um fotógrafo, um carro e uma página. Gosto de ser repórter e contar histórias", disse, lembrando de sua passagem por Pernambuco.
Para resumir Abreu, é preciso explicar bem o que ele faz. É um repórter diferente. Gosta de contar histórias. Dispensa as regras da hard news e escreve sobre comportamentos, dramas, e, sobre anônimos com uma vida que chama atenção por algum motivo.
Pois bem.
Ele me contava sobre uma série de reportagens que fez sobre o Holiday, um prédio de Boa Viagem (Recife), que já foi um glamour, mas hoje é reduto de traficantes, prostitutas, travestis e, claro, pessoas como qualquer outra que não optam pelo crime ou por maneira, para alguns, reprovável, de viver.
Exatamente isso que ele quis contar. Que naquele prédio de quitinetes e apartamentos baratos postado entre caros hotéis e edifícios de alta classe, existiam pessoas de bem, que queriam viver como qualquer outra. Eram humanas, humildes e mereciam atenção da sociedade.
Após a série publicada, Abreu disse que sua caixa de e-mail lotou. A mensagem que pareceu ter lhe chamado mais atenção foi de uma psicóloga, que lhe escreveu o seguinte: "Eu entrei com você no Holiday". A frase reflete bem a maneira que Abreu faz jornalismo, com texto detalhista e envolvente.
Para dizer isso com mais precisão, eis os dois primeiros parágrafos que Abreu para a história do Holiday, publicado no Diário de Pernambuco e no Correio Braziliense:
De longe, ele lembra o formato de uma meia-lua. A intenção foi essa mesmo. Deixá-lo com cara de meia-lua. Construção arrojada, pé direito alto, sete colunas de 36 metros de profundidade para sustentação. Concepção modernista, mão-de-obra retirante. Ainda hoje, não há como não parar para olhar. É, apesar do visível desgaste, da decadência e do rosa desbotado que encarde a fachada, uma rara obra de arquitetura. Um marco. Em 1957, na inauguração, um enorme tapete vermelho enfeitou a entrada principal. A cidade parou. Carros suntuosos estacionaram nos arredores. Uma gente bem-nascida ali entrou. A elite se deliciava com a vista do prédio, a 50 metros da praia. À frente, não havia outro edifício. Eram apenas ele e a imensidão do oceano.
Naquele dia, inaugurava-se a era dos arranha-céus de Boa Viagem. Seria o endereço de fim de semana das famílias abastadas. Ou moradia dos filhos de gente rica que vinham do interior para estudar na capital. Apartamentos pequenos — quitinetes, um ou dois quartos. Conceito moderno até então. Na verdade, ele todo era ousado. Ter um imóvel ali, na Recife de 1957, era sinônimo de luxo. Até o nome era chique: Edifício Holiday. Endereço: rua Salgueiro, 73, Boa Viagem. Não precisava dizer mais nada. Hoje, é melhor não dizer.
Essa divagação toda é pra dizer que esse ai em cima é, na minha humilde opinião, uma fórmula necessária para todo jornal. Atualmente, tudo é igual a internet. Mas histórias como a do Holiday podem fazer a diferença.
Assim como Abreu, outros repórteres são também importantes para compor esse modelo. A gaúcha Eliane Brum é uma delas. Escreve histórias sobre gente. Já publicou um livro (A vida que ninguém vê) com elas.
Gostaria que me dessem mais exemplos sobre jornalistas que contam essas histórias assim, para entreter e conquistar o leitor. Não apenas informar. Devo ter lido outras coisas parecidas, mas conheço mesmo somente esses dois. E o pouco que conheço gosto bastante.
12 novembro 2007
Mailer: egocêntrico, polêmico, talentoso...
Norman Mailer entra na sala da coletiva de imprensa de mais uma luta de Muhammed Ali. Bêbado, começa a brigar com os jornalistas presentes. Cria confusão. Esbraveja. Dá vexame. E grita também na direção dos personagens que estavam sendo entrevistados, mesmo sendo fã de um deles. A cena, descrita no livro O rei do mundo, de David Remnick - sobre Ali -, me lembra dois momentos distintos. O primeiro foi numa aula de redação na faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O professor Luís Alberto Scotto, um dos meus grandes mestres, afirmava que todos os "membros" do chamado new journalism eram "broncos". Discutiam, brigavam, polemizavam, tinham egos enormes.
A segunda lembrança é um trecho da introdução escrita pelo próprio Mailer no livro Super-homem vai ao supermercado. "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão. É um modo promíscuo de ganhar a vida. Assim como um advogado não tem um amor à verdade que se compare aos interesses do seu cliente, um repórter não tem respeito algum pela nuance. O sentido de uma situação não é o que ele explora: na verdade, ele frequentemente evita a atmosfera, já que é difícil capturá-la num texto escrito às pressas."
Esse era Norman Mailer. Egocêntrico, polêmico, e também muito talentoso. Esses três adjetivos podem muito bem descrever Mailer. Como escritor, há anos que não escrevia nada relevante. Seu último livro de qualidade - juntando ficção e não ficção - é A canção do carrasco, lançado em 1979. Sendo que ele nem teve o trabalho de apurar. Somente pegou todo o material e deu um trato. Mas isso não invalida suas grandes obras. Basta ler em Super-homem vai ao supermercado o texto sobre a convenção democrata de 1960. Ele conseguiu, antes de todos os jornalistas e analistas políticos, entender o incipiente marketing político que nascia com John Fitzgerald Kennedy.
Agora, nenhum dos seus livros - Os nus e os mortos, Exércitos da noite, A história de Lee Oswald - um mistério americano (onde dava voz aos entusiastas da teoria da conspiração), chega perto de A luta. Com palavras, Mailer conseguiu descrever tudo que acontecia de bom e ruim nos meados dos anos 1970 nos Estados Unidos. Racismo, pobreza de espírito dos norte-americanos, economia, tudo isso como pano de fundo para a volta de Ali aos ringues na luta contra George Foreman no Zaire. Mailer transformou boxe, que o dicionário explica como jogo de murros, em poesia pura.
Se partimos do pressuposto que o new jounalism aliava técnicas de apuração jornalísticas com redação de ficção, Mailer estaria na segunda divisão dos escritores. Caras como Tom Wolfe, Gay Talese e Jimmy Breslin - nos tempos da disputa entre as revistas Esquire e New Yorker - formariam a primeira divisão. Claro que não dá para esquecer de Truman Capote com o fantástico A sangue frio, que podemos colocar como o "marco inicial" do new jounalism em larga escala. Agora, Mailer e Capote não eram jornalistas, nem queriam ser. Os dois usaram o jornalismo em uma época que não tinham inspiração para escrever o que eles mesmos chamavam de "o romance". A grande reportagem era uma forma de não perderem a mão.
Não dá para negar a contribuição de Mailer à literatura. Ele mesmo foi reconhecido duas vezes pela crítica norte-americana, ao receber duas vezes o Pulitzer: em 1968 com Os Exércitos da noite, e em 1979 com A canção do carrasco. Mas não deixa de ser irônico o cara que sempre criticou o jornalismo ser colocado como romancista e jornalista em todos os obituários. Onde quer que esteja, ele deve estar repetindo a frase lá de cima: "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão".
* O perfil de Mário Coelho está no post Mãos ao alto (http://filhodapauta.blogspot.com/2007/10/mos-ao-alto.html#links)
04 novembro 2007
Gafes
Por Léo Alves
Vou contar algumas gafes envolvendo jornalistas. Não citarei nomes. Até porque o intuito não é ridicularizar nenhum colega. Afinal todos nós estamos sujeitos a cometer uma gafe.
Situação 1 – Entrevista coletiva com o então pré-candidato a presidente do Brasil (já faz tempo hein?) Anthony Garotinho.
A repórter de tevê recebe a pauta. Anthony Garotinho vai conceder entrevista coletiva na sala de espera do aeroporto.
Ansiosa, a repórter diz, no carro, que não sabe o que vai perguntar.
- Pergunta sobre as denúncias de corrupção que tem contra ele, sugere o motorista.
- É mesmo.
Sala lotada de jornalistas. Cada um se dirige e faz uma pergunta. Chega a vez da repórter.
- Garotinho o que você tem a dizer sobre as denúncias que existem contra você?
- Que denúncias?
- As denúncias.
- Que denúncias? Se você disser quais são as denúncias eu posso te responder.
- Éééé...Ahhh...éee. As denúncias que existem.
- Já te disse que você precisa dizer quais as denúncias. Que eu saiba não existe nenhuma denúncia contra mim.
Jornalistas se olham. Silêncio. A entrevista continua com a próxima pergunta.
No fim das contas não existia na época nenhuma denúncia contra Garotinho.
Moral da história: nunca confie totalmente no motorista do carro da reportagem.
Situação 2 – Palestra de um ministro do STJ.
Aconteceu com a mesma repórter da situação anterior.
A repórter chega antes de a palestra começar para garantir logo a entrevista com o ministro.
Algumas autoridades conversam no canto do auditório.
A repórter se dirige ao único “estranho” da roda de conversa e...
- Ministro o senhor vai abordar na palestra de hoje...
- Com licença, eu não sou o ministro. Ministro é o meu pai. Vou chamá-lo, interrompe o cidadão.
Quando no ministro começa a se dirigir ao local onde estava a repórter, ela tenta justificar a gafe.
- É que vocês são muito parecidos. Eu me confundi.
Quem estava na hora garante que pai e filho não se parecem nem um pouco. E que os dois se olharam como quem não estava entendendo nada.
Moral da história: antes de entrevistar alguém procure conhecê-lo por foto.
Situação 3 – Encontro de capacitação de jornalistas.
O correspondente internacional de uma grande emissora de tevê, que ministrou uma oficina no curso, se reúne com os participantes durante a confraternização.
Entre uma conversa e outra, um dos participantes indaga:
- É impressão minha ou nos “ao vivos” de esporte você sempre fica nervoso? Você fica nervoso mesmo ou é só impressão.
- Acho que é impressão sua, pois estou acostumado a cobrir esporte. Já cobri cinco Copas, Olimpíadas...
- Ah, deve ser impressão mesmo.
O autor da pergunta relatou que poderia ter ficado calado. Ele ainda acrescentou que certamente no próximo “ao vivo” o repórter iria lembrar dele.
Moral da história: nunca cometa gafe com outro jornalista.
30 outubro 2007
Pode criticar a Copa de 2014?
Não quero dar uma de estraga prazer. Pelo que acabei de ver na tevê agora há pouco, o "país inteiro comemora a escolha para ser sede da Copa do Mundo de 2014". Humildemente, vi tantos pontos inexplicados nessa "candidatura" do Brasil, que não me contive e tive que socializá-lo aqui neste espaço.
Vou, inclusive, amenizar nos comentários, porque a Copa é um evento mais político do que esportivo e qualquer opinião polarizada minha aqui pode me custar alguma coisa.
(Estou confiando que tem gente importante lendo este blog).
Eu amo futebol. É meu primeiro esporte. Tenho na cabeça o resultado de vários jogos sem importância da Copa do Mundo de 1990 para cá. Seria, realmente, um sonho ir de carro da minha casa ao estádio para ver um jogo do Mundial na minha cidade, mas daqui para lá, espero por esclarecimentos de quem quer que seja.
Eu poderia falar do grave problema de falta de prioridade dos governos estaduais e federais e, por tabela, do povo. O país vai investir mais na construção de estádios do que no combate a dengue, que já é considerada uma epidemia no país. Poderia falar que é obrigação de todos os governos dar transporte público, serviço de saúde e segurança todos os dias e não somente por causa da vinda dos turistas.
Alguém já leu quanto vai custar a organização desta Copa do Mundo? Nem a Fifa sabe. Quando seus emissários vieram ao Brasil, o que mais viram foram maquetes enfeitadas e danças típicas. Na minha singela, humilde, e pálida opinião, quanto mais enfeite eles colocam nos estádios (hastes brilhantes, tetos solares, rampas em espiral...), mais dinheiro público vai para o ralo.
O que se pretende fazer? Monumentos em formato de estádios de futebol ou arenas esportivas funcionais? Eu prefiro a segunda opção. Como eu não mando em nada mesmo, teremos potenciais elefantes brancos espalhados pelo país.
Em Brasília, por exemplo, vão construir um estádio para 76 mil pessoas. E em 2015, depois que a Copa acabar? Quem vai jogar lá? Legião, Paranoá, Dom Pedro II ou o Gama? Vai demorar mais 50 anos para ficar lotado de novo...
O Brasil só ganhou o direito de sediar esta Copa porque concorreu contra ninguém.
Ninguém!!!!!!
Se fosse para obedecer o sistema de rodízio, tão pregado pela Fifa até aqui, a Colômbia deveria sediar o evento. Sim, porque o Mundial de 1986 seria lá, mas com a contribuição do governo Ronald Reagan, as autoridades da Colômbia viram o narcotráfico perder o controle e, conseqüentemente, perderam para o México o status de sede.
Ora, se o Mundial tem que ser realizado na América do Sul, que seja no país que já teve esse direito um dia mas foi tirado de forma obscura pela Fifa, em 1983. Mais detalhes no livro Como eles roubaram o jogo, do jornalista britânico David A. Yallop. Baseado no que li sobre esse episódio no livro, acredito que daqui para 2014 o Brasil ainda vai perder essa Copa.
Estou sendo muito pessimista ou o noticiário diário que é otimista demais?
29 outubro 2007
Politicagem em pauta
Enquanto no Brasil se assiste novela ou Big Borther depois das 20h, na França debate-se políticas públicas. Leis anti-tabigistas, reformas no sistema de imigração, participação na União Européia e por aí vai.
Nos Estados Unidos, o noticiário de Washington DC é voltado para as comissões parlamentares do senado. Além, óbvio, da política externa do governo. Na Espanha, os jornais dão amplo destaque às reformas contitucionais de cada região. Na Inglaterra, não se discute cargos ou fofocas em jornais como o The Independent. Até porque só existem os partidos trabalhista, liberal e conversador no Reino Unido, se não me engano...
Já no Brasil... Bem, no Brasil o noticiário político é pautado em denúncias, especulações e fofocas. Quem sou eu para julgar o que os mais renomados jornalistas de Brasília fazem diariamente. Acredito que eles repassam o que é produzido no Congresso Nacional diariamente.
Deputados e senadores "trabalham" terça-feira e quarta-feira e por isso é impossível fazer algo que interfira de forma prática na vida dos cidadãos comuns, como eu e você (que conseguiu chegar até esta parte do texto).
Quando vão ao plenário, não fazem mais que negociar emendas de origem duvidosa e barganhar espaço no governo. A oposição, por sua vez, distribui críticas e denúncias, muitas até sem fundamento.
Isso aí, na minha humilde visão, é politicagem.
É claro, a imprensa é obrigada a acompanhar essa movimentação, o que torna o noticiário político tedioso para o grande público e recheado de blablabla.
A CPMF e a reforma política chegaram a ser "abre de página" nos principais veículos do país - só para citar dois temas recentes. Mas apenas metade dessas notícias veio dos parlamentares, quem deveria tratar do assunto. O início da reforma política teve que ser tema no STF, já que os deputados evitam colocá-lo em pauta. A CPMF, que mexe com o nosso saldo bancário, é tema recorrente no Congresso, porém, sua aprocação virou uma novela sobre negociação de cargos e liberação de verba.
Culpa dos parlamentares.
São eles que nos fazem ouvir aquela desesperadora frase:
- Ai, eu odeio política, sabe?
21 outubro 2007
Justificando Juicebox
Quem já cobriu a Seleção Brasileira e não faz parte do eixo RJ-SP sabe o quão pedante é Robinho. Ele só dá entrevista para os repórteres que conhece. Se você, humildemente, quiser uma aspa dele, que cole em um colega carioca ou paulista.
Robinho só quer espaço nos veículos de projeção nacional. .Ele subestima os veículos de comunicação que ele não sabe que existe.
O Diário da Borborema, há sete ou oito anos, mandou por fax uma série de perguntas ao ex-presidente Collor. Acho que estava faltando assunto na política local e os caras resolveram barbarizar. Dois dias depois, os repórteres do (humilde, porém heróico) DB receberam as respostas de Collor, também por fax. Eram respostas grandes, sem fugir de nenhum assunto, cheias de informações interessantes. Os próprios jornalistas não esperavam tamanha atenção.
O Correio Braziliense, em meados deste ano, publicou uma charge de Boris Yeltsin, após sua morte, com asas presas às costas e agarrado a uma garrafa de vodka. No dia seguinte, a embaixada da Rússia no Brasil enviou um comunicado oficial pedindo a retratação pela heresia cometida pelo jornal.
É um grande engano pensar como Robinho. Todo e qualquer meio de comunicação pode fazer a diferença. Por menor que ele seja, você pode ser ouvido. Volto a um velho assunto tratado aqui: eu mesmo escrevi sobre um repórter de Brasília neste singelo blog, que não tem mais que 20 acessos únicos por dia, e o cara "me jurou de morte" (que exagero!).
Certamente Collor não se reelegeu por causa do DB, e os russos não vão queimar bandeiras do Brasil por causa da charge. Mas eles deram uma grande lição de respeito aos profissionais e às pessoas que lêem tais veículos.
(Agora eu justifico o título deste post)
A banda de rock The Strokes, por exemplo. No clipe da música Juicebox, do albúm First Impressions of Earth, eles fazem exatamente o que Robinho não sabe fazer.
Em programa de rádio de Nova York, o locutor chega atrasado ao programa e os caras da banda estão visivelmente impacientes pela falha. Quando o programa entra no ar, o radialista fica cheio de piadas constrangedoras, chama a banda pelo nome errado, diz que eles (The Strokes) são europeus, espera que eles "traduzam as letras para o inglês e façam sucesso em Nova York". Para completar, ainda erra o nome da música.
Detalhe:
The Strokes é a banda mais novaiorquina dos últimos tempos e é sucesso de Taguatinga a Sarajevo. De Ljubljuana a Nova York, passando por Patos, no alto sertão da Paraíba, Cocal de Telha, no Piauí, Connecticut e por ali vai...
Quando o som rola (a música, a propósito, é muuuuuito boa), a banda toca como se estivesse no Madison Square Garden e embala a madrugada fria de algumas pessoas que rondam a cidade: um casal de lésbica, uma velhota tarada, outro casal de gays, um pichador de paredes, um casal de bêbados-drogados no táxi, além do próprio mané do radialista.
Não sei se o clipe é baseado-em-fatos-reais, mas pelo menos nesta historinha, eles tinham motivo para tocar de qualquer jeito, já que foram ridicularizados na rádio.
Não tocaram!
Quem quiser entender um pouco mais esse enredo, entre no link abaixo:
http://www.youtube.com/watch?v=_NTjOZc2Miw
16 outubro 2007
Embate
Outro dia tive um embate saudável com um dos gerentes da empresa para qual trabalho. Fiz, junto com um repórter do Correio Braziliense, uma entrevista com o governador do Maranhão, em visita dele ao jornal, em Brasília. Depois do papo, tentamos (eu e o gerente) acertar os ponteiros para publicar a entrevista no domingo, no Imparcial. O Correio publicaria um texto. Sugeri que cada um saisse com o seu, dando o enfoque que quisesse. Afinal, são dois jornais extremamente diferentes.
Por ser uma entrevista recomendada, já fiz meio puto, explorando sempre os assuntos mais polêmicos pra não parecer um informe publicitário. As perguntas foram feitas por mim e pelo outro repórter. Tudo bem até ai. O problema foi que o senhor gerente encasquetou que queria publicar o texto do Correio. Na cabeça dele, o jornal (O Imparcial) teria muito mais peso se publicasse a entrevista do Correio, tudo no mesmo dia, igualzinha.
Ai, lá vai eu explicar pra ele que era melhor publicarmos o nosso texto, explorando os assuntos que mais interessam aos nossos leitores. Eu, como trabalho como um correspondente do jornal em Brasília, estou mais por dentro dos temas de lá, os regionais, principalmente. O Correio produziria uma boa matéria. Mas por integrar a grande imprensa, está pouco se lixando para os problemas regionais lá do Maranhão. E com razão.
Pois bem. Dei uma explicação quase didática. Disse que escreveria um texto com assuntos locais e que o Correio daria outro enfoque. E ainda perguntei: se temos um correspondente em Brasília, por que usar a matéria do Correio? Não deu muito certo. Ele decidiu, então, que queria publicar o texto do Correio no domingo e de O Imparcial na quarta. “Mas o senhor não acha que duas entrevistas com o governador em menos de cinco dias não é exagero?”, perguntei. Além disso, algumas respostas seriam as mesmas nas duas entrevistas. Resolvemos então colocar nosso texto. E apenas uma matéria. O crédito seria dado para os dois repórteres.
Falamos sobre eleições municipais e a dívida do estado. O Correio falou sobre Chiquinho Escórcio e outras coisas nacionais. Cada um deu o peso e o espaço justo, sem exageros e sem enganação. Acho que no fim valeu a briga. Me senti melhor por estar sendo mais honesto com os leitores.
10 outubro 2007
Na minha opinião...
Na minha opinião, eu não sei dar opinião. Estou há tempos para escrever sobre os vícios das editorias de política, mas paro no primeiro parágrafo pela metade. Confesso que tenho um sério problema para sustentar minha opinião.
Não sei, pode ser um problema (como gostam de dizer os treinadores de futebol) da base. Não sou acostumado a entrar em grandes dicussões, muito menos debates. É até um caso de preguiça, mesmo. Se alguém discorda de mim, deixo a conversa para lá. Tem tanta gente teimosa neste mundo. Eu não quero fazer parte deste rol...
Fora das redações, isso pode até ser uma virtude, mas quando passamos para o lado profissional, "não ter uma opinião" é uma falha grave. Não é o caso de ter 0% de opinião sobre 100% dos assuntos, mas de 50% sobre 50%.
Recentemente, recebi a missão de escrever uma resenha crítica sobre um livro do New York Times. "As melhores histórias do New York Times" foi lançado em português recentemente e, em conversa com um de meus editores, contei que acabara de ler o Reino e o Poder e me interessara com as histórias da redação do maior jornal do planeta.
Sabendo disso, dias depois, ele me entregou "As melhores histórias...". Li com um olhar crítico. Mas, na hora de escrever, não conseguia me expressar. O texto saía algo como:
- O livro é meio piegas, com umas histórias forçando a barra, mas tem uns textos curiosos.
Se eu entregasse uma linha da resenha para meu editor, já não estaria mais aqui para contar essa história. Então, recorri aos formulários de opinião que repousam nos rincões do meu cérebro. Trouxe de volta palavras que há tempo não utilizava nos meus textos de hard news, não hesitei em dar opiniões abertas e tentei dar uma pitada de criatividade ao lide.
O editor corrigiu os tradicionais erros de digitação, pontuação e concordância e disse que queria conversar comigo pessoalmente no dia seguinte. Confesso que dormi mal. Estava me sentindo como nos tempos da 5ª série, quando reprovei de ano. Levaria uma bronca do professor, no caso, do editor.
Ele me disse que faltava conteúdo, ou cancha, para fazer uma crítica. Faltavam vocabulário, argumentos. "A idéia é boa, mas está solta". Fiz, novamente, as alterações pedida por ele a minha primeira resenha foi publicada há quatro dias.
É provável que o editor demore a me entregar outro livro para ler e resenhar.
Segurança
É muito comum comentarista de futebol dizer: "Tudo pode acontecer". Isso é típico de um cara que não tem o que falar.
Crítico, colunista, comentarista, tem que ser um cara com personalidade. Um cara segura de suas idéias e coerente com seus princípios. Tem que ir direto ao assunto, sem subterfúgios. Quer ver exemplos de quando um jornalista está enrolado para dar opinião:
- Quando conta histórias antigas na tentativa de encaixá-la no contexto atual;
- Quando se utiliza muito mais de informações do que da própria opinião. Só na base da informação, por exemplo, qualquer um pode dizer que Hitler foi eleito pelo povo.
- Quando exagera nos adjetivos.
Lógico, uma boa opinião contém histórias, informações e adjetivos. Mas é preciso saber dosá-los, pois quando não estão juntos no texto, o comentário perde em qualidade.
PS - Se alguém discordar, eu não farei minha réplica. Não gosto de discussão!
04 outubro 2007
Mãos ao alto!
Há três semanas, um colega do jornal - Amaury Ribeiro Jr. - foi baleado em Cidade Ocidental (GO), cidade distante 45km de Brasília. Ele vinha fazendo uma série de matérias sobre o tráfico de drogas na região. Inicialmente, dizia-se que era um atentado, uma represália, já que o repórter tinha mostrado a identidade do principal traficante da região. A polícia goiana não entendeu assim. Mesmo sem ouvir o depoimento dele, afirmou que houve uma tentativa frustrada de roubo. Antes do criminoso atirar, Amaury reagiu. Contrariar todas as regras de segurança é que salvou o colega da morte.
Dias antes, eu tinha entrado nessa cobertura também. Estava em Cidade Ocidental, cobrindo uma manifestação dos pais de duas meninas mortas por traficantes. Na parte da tarde, acompanharia o resto do protesto deles. Ainda apuraria para uma matéria de domingo que fazia junto com uma outra colega. Almoçamos e dividimos a equipe. O fotógrafo que estava comigo saiu com Amaury; foram correr atrás de mais personagens vítimas de violência. Eu e o motorista, sem ter o que fazer, procuramos uma sombra para ficar. Eu disse para irmos a um lugar movimentado; não dava para dar mole em situação alguma.
Paramos em frente a uma área comercial. Era pouco depois das 12h. Muita gente na rua, entrando e saindo das lojinhas, crianças em uniformes escolares passando nas calçadas. Ficamos dentro do carro. Eu lia o jornal mais uma vez e o motorista reclinou o banco para tirar um cochilo. Ao fazer isso, ele ajeitou o retrovisor para poder ver o que acontecia na rua, às nossas costas. Foi nesse momento que ele me alertou: três rapazes pararam as bicicletas próximas ao nosso carro. Um ficou bem atrás, enquanto os outros dois estavam do outro lado da rua. O primeiro abriu a pochete e colocou alguma coisa embaixo da camisa.
O motorista me avisou e falei para sairmos dali o mais rápido possível. Saímos da cidade e paramos em um posto de gasolina próximo à entrada de Cidade Ocidental. Não ficamos lá para ter que pagar para ver o que o rapaz tinha tirado da pochete. Apesar do aperto, essa não foi a situação mais bizarra que enfrentei em seis anos de profissão. Isso aconteceu bem no primeiro dia de trabalho no saudoso jornal O Estado, em Santa Catarina. Meu primeiro dia como estagiário de polícia.
Fazia a ronda por telefone como o editor de polícia tinha me ensinado no dia anterior. Não tinha nenhuma ocorrência de destaque, até mais ou menos 17h. Apareceu um caso de tiroteio dentro do maior supermercado de Florianópolis. Quatro homens tentaram roubar o estabelecimento, os seguranças reagiram e houve tiro para tudo quanto é lado. Um dos vigilantes ficou ferido. Os quatro assaltantes fugiram. Aí começa minha experiência. No jornal, não tinha carro para me levar até o local do crime. Aí, um dos colunistas se levantou da cadeira e disse que me levaria até o local.
Os assaltantes já tinham saído do supermercado. A última informação que eu tinha era de que o grupo tinha sido encurralado pela polícia no cemitério da cidade. A redação do jornal era próxima do local. Mas chovia, e o trânsito de fim de tarde estava mais infernal ainda. O colunista fez uma série de manobras arriscadas - para não dizer barbeiragens -, chegou até a subir em uma calçada. Tínhamos que passar por um viaduto. Ele perdeu a entrada, deu ré na via mesmo e entrou na contra-mão. Quando ele endireitou o carro e entrou na mão correta, pára um Palio branco ao nosso lado.
- Parados, mãos para o alto, é a polícia!
Eram dois policiais militares à paisana, os populares P2, empunhando pistolas .40 em nossa direção. Até explicarmos que éramos jornalistas, e estávamos ali para cobrir a matéria, foi um bom tempo de pura tensão. Carro descaracterizado, sem crachás ou qualquer tipo de identificação. A sorte foi que um dos policiais reconheceu o colunista do programa de tv que ele tinha na época. Foi um batismo de fogo. Minha mãe, apavorada quando soube, queria que eu desistisse. Foi perigoso, mas eu gostei da sensação de correr atrás da notícia.
O problema é que, na grande maioria das vezes, a gente só conta com a gente mesmo para proteção. As empresas ainda não têm estrutura para proteger seus funcionários em matérias investigativas com maior periculosidade. Então, fica-se entre a cruz e a espada: arriscar mais e conseguir mais informações, ou colocar a segurança em primeiro lugar? Nessas horas, é o bom senso da equipe que tem que prevalecer. Agora, se ele não existir, a possibilidade do jornalista virar notícia é muitro grande.
* Mário é o único torcedor do Avaí fora da Ilha, repórter do Correio Braziliense, dono do blog http://micjunior.zip.net/ de onde este texto foi retirado, e ainda vai escrever sobre New Journalism para o Filhos da Pauta.
29 setembro 2007
A mídia e a Universal
Pedro Henrique Freire
Há três semanas, se não me engano, a praia de Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, transformou-se em palco para 650 mil evangélicos – segundo organização – se livrarem dos espíritos e sentimentos malignos. Lá, ocorreu “a maior sessão de descarrego do mundo”. Quem comandou a farra religiosa foi a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), orientada pelo seu líder, bispo Edir Macedo.
Nas areias da praia, além de fé, enquanto fiéis oravam, carnês bancários foram distribuídos, com 12 boletos de R$ 20 reais cada. O dinheiro, segundo a Universal, vai ajudar na ampliação da rede de rádio da igreja no país. É bom lembrar que a Universal hoje é dona da TV Record, Rede Mulher, Rede Família, Rede Guaíba, Rede Aleluia e controla uma rede nacional de rádios em FM, além de várias emissoras locais, em AM e FM. E há pouco lançou um novo canal de TV.
Essa é uma manobra da Universal para incrementar seus cofres e aumentar seu poder de persuasão. A justificativa está no próprio carnê: "A mídia é um canal valioso que a Iurd tem usado na propagação da Palavra de Deus, e o rádio é a principal ferramenta capaz de alcançar aqueles que moram nas mais distantes regiões", diz o texto na contra-capa do "carnê dos Auxiliares", publicado, um dia ai, no jornal Folha de São Paulo.
Disso pode-se tirar uma gama de conclusões. Ser contra ou a favor. Mas é preciso ir além. É fundamental saber, por exemplo, que algumas igrejas evangélicas misturam religião com política. Não é a toa que na Câmara dos Deputados existe a bancada dos evangélicos, que, no ano passado, contava com 64 parlamentares. E é ingênuo se pensar que essas rádios e TVs não são usadas para agradar “os seus”.
Outro dado: segundo matéria de O Globo, publicada em 1º de agosto de 2006, quase metade dessa bancada (29 deputados e um senador) foi acusada pela CPI dos Sanguessugas de receber propina de empreiteiro. Alguns foram inocentados e outros renunciaram para não ficarem inelegíveis e hoje respondem a processos. Os ex-deputados Bisbo Rodrigues e Valdemar Costa Neto, ambos do antigo PL, são bons exemplos.
Recentemente, o Brasil assistiu com atenção o caso dos bispos Sônia e Estevam Hernandes, donos da Renascer em Cristo. Eles estão presos nos Estados Unidos por contrabando de dinheiro e conspiração para contrabando de dinheiro. Pra completar, a matéria da Folha de S. Paulo lembra também que o líder máximo da igreja Universal, Edir Macedo, responsável pelos carnês, foi preso em 1992, sob acusação de charlatanismo, curandeirismo e estelionato.
Esses são apenas alguns exemplos de disfunções que pesam sobre líderes religiosos. Existem outros. Cabe ao leitor reuni-los e tirar suas próprias conclusões. Mas o escritor e pastor evangélico Ricardo Gondim já tem as suas. Ele é dono do livro O Que os Evangélicos (não) Falam (Ed. Ultimato). E discorre sobre a busca das igrejas por poder absoluto. Num trecho, questiona: “Quem poderia imaginar que as igrejas se transformariam em mega-empresas, movimentando somas astronômicas, conspirando pelo poder político e disputando, em pé de igualdade, a hegemonia da mídia?” Boa pergunta.
23 setembro 2007
Relação vantajosa
Os colegas Pedro e Daniel já trataram do tema em posts anteriores. Mas como o assunto dá “muito pano pra manga” não vou sair da linha da relação (comercial) entre veículo e governo.
O governo é, sem dúvida, um dos maiores anunciantes.
O veículo de comunicação precisa da publicidade do governo para sobreviver.
Reféns das verbas publicitárias, muitos veículos acabam também tornando-se reféns do próprio governo.
Só fazem matérias para agradar o anunciante.
Quando o assunto “bate” no governo é censurado, na maioria das vezes, pelo dono do jornal.
Não deveria ser assim.
Os empresários da comunicação bem que poderiam perceber que o governo precisa de seus veículos para exibir sua propaganda.
Se o governo deixa de anunciar ele perde.
As ações governamentais não são divulgadas.
A publicidade é uma espécie de prestação de contas com a população. O governo precisa dela.
E, mesmo que o veículo seja contra determinada administração, o governo também terá que anunciar nele.
Lógico que esses investimentos serão menores em relação aos veículos aliados.
De certa forma o governo também é refém dos meios de comunicação.
Mas a maioria dos empresários da comunicação não percebe isso. Acha que só o veículo precisa do governo (leiam-se verbas publicitárias).
Ambos são reféns. Um precisa do outro para sobreviver.
Recorro a um termo da biologia para definir a relação entre veículo e governo: mutualismo.
Segundo a ciência mutualismo é a associação entre indivíduos de espécies diferentes na qual ambos se beneficiam. Esse tipo de associação é tão íntima, que a sobrevivência dos seres que a formam torna-se impossível, quando são separados.
20 setembro 2007
Os limites do jornalista
Diante do chocante caso de tentativa de assassinato ao jornalista Amaury Ribeiro Jr., na noite desta quarta-feira, na Cidade Ocidental, ainda me pergunto até onde um jornalista pode ir?
Para quem não está sabendo da história ainda, Amaury é colega de Correio Braziliense (não me conhece porque eu faço o miolo do jornal, ele apura manchetes de primeira página) e havia mais de um mês percorria as cidades mais perigosas do Entorno relatando os casos de violência dignos da Favela Santa Marta ou Complexo do Alemão, no Rio.
O Entorno tem esse nome porque cerca o Distrito Federal com várias cidades-dormitórios (lá embaixo eu explico isso) pertencentes ao estado de Goiás. Os governos goianos, contudo, não mexem uma palha para mudar a situação de pobreza da região.
A diferença entre o Entorno e o Rio de Janeiro é que lá o crime é "organizado".
Na Cidade Ocidental, aqui no Entorno, é exatamente o contrário.
É uma terra sem lei, com várias gangues inimigas - diferentemente das grandes facções, como ocorre no Rio -, alto consumo e tráfico de drogas. A maioria dos moradores da região é imigrante que trabalha em Brasília, mas volta todos os dias, às 18h para o Entorno, onde o custo de vida é muito mais baixo. A cidade mais próxima do centro do Plano Piloto fica, no mínimo, a 45 quilômetros. Daí o nome de cidade-dormitório. Daí, também, o motivo dos governos goianos não atuarem na região. Muita gente vota no DF, mas mora em Goiás.
Não precisa ir lá para saber que mata-se por um pingo no i.
Rouba-se para sustentar o tráfico e a própria vida.
Vive-se com medo da própria sombra.
Grande repórter investigativo, Amaury reuniu informações suficiente para mergulhar de cabeça na denúncia de que a região está para Brasília como a Baixada Fluminense está para o Rio de Janeiro. O governo federal, após as reportagens do Correio, anunciou um pacote de medidas de segurança com a Força Nacional no meio para diminuir os índices de criminalidade.
A história de Amaury, contudo, não acabava ali. Ele tinha conteúdo para reforçar a tese de que o Entorno está repleto de cães ferais, o que transforma a "nova capital" em uma bomba relógio. A aparente tranqüilidade da cidade planejada está com os dias contados.
O repórter rodou os locais mais perigosos com táticas diferentes para não ser descoberto pelos marginais. Até porque, não há delegacia de polícia na Cidade Ocidental, por exemplo. Até o fim da tarde desta quarta-feira seu plano de apuração dava certo.
Durante uma entrevista em um bar, no final da tarde desta quarta-feira, um adolescente de 16 anos, armado com um 38, disparou três tiros na direção do repórter e fugiu. Até o começo da madrugada de quinta, momento em que publico este post, no calor dos acontecimentos, a informação que me foi repassada é que o garoto foi detido.
O atentado teria sido armado pelos bandidos acusados nas reportagens.
Amaury está consciente e o quadro é estável.
Por um milagre, até onde eu sei, apenas uma bala perfurou seu abdômem, mas não corre o risco de perder a vida.
Sei, também, que Amaury chegou a um ponto em que nem a polícia costuma ir.
Para mim, ficou comprovado que o tamanho da emoção de se fazer o jornalismo investigativo bem feito é proporcional ao risco que se corre.
19 setembro 2007
Jogo de três pontos
Desde agosto, voltei a trabalhar diariamente com futebol. Minha última experiência diária com o esporte foi em 2002, na TV Borborema.
Futebol é o meu primeiro esporte.
Assisto.
Acompanho.
Mas, incrivelmente, não tenho muita disposição para comentar sobre futebol. Assim como ler notícias de outros times que não sejam aqueles com os quais trabalho todos os dias. Quando cobria Série C, por exemplo, não fazia questão de participar daqueles calorosos bate-papo sobre a situação do Palmeira ou Botafogo.
Por que não costumo comentar muito sobre futebol?
Porque a maioria dos torcedores é burro. Vêem o futebol apenas como uma bola que tem que ser empurrada pelo atacante para o fundo das redes. Eles não entendem o caráter lúdico e até social do esporte. Daí a violência num simples bate-papo sobre o clássico flamengo x vasco.
Se você prestar atenção, todas as discussões sobre futebol rodam em círculos. Ninguém abre mão de sua própria opinião para concordar com o rival e a conversa não termina nem tão cedo.
Por que não leio sobre os outros times?
Porque a notícia de futebol tornou-se repetitiva. Disse em um post anterior que se pegar uma reportagem de tevê sobre o treino de qualquer equipe um mês atrás veremos os fatos idênticos neste momento. Sem contar com as entrevistas manjadas, muito por causa das perguntas mais do que batidas dos repórteres.
Por ter sido um torcedor em algum momento da vida, o repórter de esporte cai no erro de repetir as histórias.
As mais mais dos jornalistas preguiçosos são:
- Quando um jogador dá a volta ao mundo, defende oito clubes em quatro anos e retorna ao time de origem, o título da matéria é "Velhos conhecidos". Serve para quando o treinador do time A enfrenta o time B, que ele mesmo comandava até a rodada passada.
- Antes de um clássico, o time A é líder do campeonato e o time B é o lanterna. Quando eles vão se enfrentar, o título da matéria é "Duelo de opostos".
- Um jogador especial do time X ou o treinador muda de idade no dia do jogo contra o time Y, o texto tem que conter a informação que "tal jogador quer fazer o gol da vitória para dar de presente de aniversário aa torcida"!
O jornal O Globo tem tentado mudar essa história. Às vezes, eles pecam pelo excesso de vontade de fazer diferente, mas tem fugido muito do que foi noticiado exatamente do mesmo jeito nos últimos dez, 15 anos.
Para fugir do óbvio, a Folha de S. Paulo, usa e abusa das estatísticas. Cruzamento de informações para chegar a uma história diferente. Ao ponto de, na véspera da decisão entre Brasil x Alemanha, há cinco anos, dar destaque aa seguinte matéria:
"Estatística aponta uma Seleção Brasileira fracassada com três zagueiros".
Ou seja, porque a Seleção perdeu mais jogos com três zagueiros, significa dizer que pode perder a copa para a Alemanha. Isso foi em 2002, na Copa do Japão.
De volta ao noticiário futebolístico desde mês passado, tenho me esforçado para fazer diferente.
Agora eu sei que na prática, a teoria é outra...
12 setembro 2007
A realidade do jornalismo no Nordeste
Reflexões sobre a capa*
As últimas capas do jornal foram extremamente chapas-brancas. A edição dessa página está fraca e as chamadas pouco atraentes. É preciso descolar a imagem deste veículo com a do governo do estado e prefeitura. Mas parece que trabalhamos para promovê-los.
Exemplo:
A entrevista com Julião Amim (presidente regional do PDT no MA) tratava de um possível racha no partido. A matéria sobre ele vinha com essa tônica. Ele negava o racha e disse que procuraria a unidade. A melhor manchete seria: “Amim nega racha entre prefeito e governador”. Mas colocaram a manchete da pior forma possível. Não lembro os termos exatos. Mas saiu alguma coisa assim: “Julião Amim afirma que PDT sairá unido nas eleições de 2008”.
Esse não era o tom da matéria. Está eleitoreiro e parece um aviso aos adversários do governador. Além disso, ele falou em unidade em alguns momentos, mas apenas como retórica política. Nós sabemos que a unidade como ele quer será difícil. Com a manchete dessa forma, tiramos toda a malícia que um jornal precisa ter para ser respeitado. Está, simplesmente, oficial demais.
Exemplo 2:
Outro exemplo, também recente, de manchete chapa-branca foi a sobre os cadeiões. “Jackson busca entendimento com a população”. Quem lê isso com um pouco mais de crítica, imagina que o próprio governador escreveu e mandou por e-mail para o editor de capa.
A capa é o local mais nobre do jornal. Merece muita atenção. Dentro do jornal, podemos até pecar por excesso de parcialidade – já que não tem outro jeito. Mas na capa, não. É preciso resistir às pressões das assessorias e construir uma imagem mais imparcial. É uma questão vital. Se hoje somos desrespeitados por algum membro do governo, é porque não soubemos resistir às pressões e acabamos cedendo demais. Estamos fracos.
Sugiro, então, algumas mudanças básicas:
1 – Deixarmos de usar o nome Jackson Lago como sujeito da ação. Ou seja, em vez de chamarmos “Jackson inaugura escolas”, colocaremos: “Governo entrega tantas escolas”. O mesmo vale para a prefeitura.
2 – Evitarmos fotos do governador todos os dias na capa. Como as fotos são publicadas sem crivo ou interesse jornalísticos, podemos estabelecer um teto: fotos do governador apenas duas vezes na semana. Do prefeito, só quando o assunto for muito relevante.
3 – As manchetes devem evitar o tom oficial. É preciso isenção, clareza e objetividade. Vamos ser imparciais ao menos na capa.
4 – É comum o governador aparecer em duas e até três chamadas na capa. Podemos evitar esses excessos. Só uma chamada para ação do governo basta.
Com essas pequenas mudanças, acho que podemos livrar o jornal – ao menos um pouco – da pecha de oficial. Afirmo que, hoje, não é preciso ler com profundidade este veículo para saber como ele se comporta em relação ao governo.
No Maranhão, há uma tradição ao avesso de outros estados e da grande imprensa. Ai, apoio jornalístico se dá com elogios. É errado. Os governos devem anunciar para não serem criticados e não para serem elogiados. Não defendo uma postura extremamente imparcial, até porque não se pode fazer isso no universo em que vivemos. Defendo apenas que façamos um jornalismo menos oficial e justo com o leitor.
* Sugestões enviadas ao diretor de redação.
05 setembro 2007
Manchetes atropeladas
A ordem nas redações é:
"Vamos atrás do furo"
Isso não é de hoje, óbvio. Mas, acredite, a cada dia, mais pessoas querem contribuir para o bom jornalismo. Aquele que investiga profundamente e publica com um texto impecável; que denuncia e pode até derrubar assesores, ministros, senadores, governos inteiros.
O problema é que o Brasil sofre de hemorragia generalizada, na minha modesta, opaca e pálida opinião. Qualquer lugar deste país é possível encontrar uma caveira escondida. Até, quem sabe, no seu armário (opa!).
Na ânsia de dar furos e mais furos, acontecem muitos erros e injustiças, não tenha dúvida, mas eu comento sobre isso em outro post. Agora, quero mostrar o que eu escrevi no título. O atropelamento indiscriminado de manchetes dos jornais. Pelos dois motivos citados no primeiro parágrafo: gargantas profundas (informantes interessados em denunciar) e a necessidade de acusar irregularidades.
Vamos aos exemplos?
Então tá.
Em abril, os jornais estamparam o caso de um ministro do STJ envolvido na Operação Furacão, da PF. Ele foi acusado pela polícia de dar sentenças favoráveis a bingueiros, para beneficiar o irmaõ, que tava diretamente ligado aos donos de bingo. Em maio, explodiu a Operação Navalha, de Zuleido Veras e a Gautama. Em seguida, surgiu o escândalo de Renan Calheiros. No meio dessas confusões, apareceu a denúncia contra o ex-governador do DF, até então senador, que teria recebido milhões de um empresário local, não se sabe porquê, mas diretores do banco do DF estavam no meio dessa divisão de dinheiro aí. Agora começou o julgamento do Mensalão, de 2005, que andava meio esquecido.
Agora, eu pergunto:
o que você se lembra do caso dos bingueiros?
E da Gautama?
A cada bomba que estoura na Esplanada dos Ministérios, Praça dos Três Poderes e adjancências, a bomba anterior perde a força e cai no esquecimento.
Só o caso Renan resiste.
E ele ainda insiste... À espera de uma outra bomba, para que esqueçam da dele!
02 setembro 2007
Jornal relatorial
Aquele jornal que só traz notícias oficias, muitas vezes com releases reescritos ou copiados ipsis litteris, é o que a gente chama de jornal relatorial.
Aliás, não é só jornal impresso, não. A TV tem feito muito isso. O rádio além de ser relatorial, perdeu sua essência ao deixar de investir em repórteres e passou a ler notícias da internet.
Já disse em um post mais antigo que o departamento de jornalismo das emissoras de TV locais (seja em Brasília, na Paraíba, em Cocal de Telha no Piauí, em Massachusets), já não apura matéria. Pode fazê-la uma vez ou outra, claro, mas os repórteres de TV estão quase que copiando o que é publicado nos jornais.
Foi mais ou menos isso foi o que Da Silva escreveu recentemente.
Peguemos como exemplo, pois, o telejornal de maior audiência do DF. A cada dez matérias exibidas, oito são sobre governo. Crítica ou elogio. Mas são sobre o governo. As outras duas são agenda cultural e meteorologia. Aliás, acho até que previsão do tempo entra como relatório, não é não?
O pior é que os telejornais wannabe das outras emissoras fazem o mesmo na ilusão de ter a audiência idêntica.
No jornalismo esportivo na TV, para ir um pouquinho mais longe. Existe coisa mais repetitiva de se ver do que "Fulano, suspenso, sai para entrada de Sicrano na lateral". Se pegarmos no arquivo do ano passado, vamos encontrar matéria idêntica, mas com nomes diferentes. Isso também é um jornalismo relatorial.
É muito fácil e muito chato fazer jornalismo assim.
Difícil mesmo é colocar opinião no conteúdo.
Sim, porque com a proximidade assustadora dos empresários do setor com políticos e seus partidos, a opinião tende a sair distorcido. As coisas não funcionam como o slogan do Le Monde:
"Sem a liberdade da crítica não existe elogio sincero". Aliás, alguém já me falou - e o Google confirmou - que esta frase é de um camarada chamado Pierre Beaumarchais, autor de teatro do século XVIII.
Do jeito que as coisas se encaminham na nossa área, é capaz de entrarmos na era do jornalismo e da opinião relatorial. Onde toda a verdade vem do governo e só do governo.
PS - Tem um blog novo no ar. É o muitodenada.blogspot.com. Não é sobre jornalismo, como este almeja ser. Tem tudo sobre nada. E ponto final...
25 agosto 2007
Renan ama, e odeia, a mídia*
Além de se apegar ao cargo que ocupa, o senador Renan Calheiros, presidente do Senado, agarrou com unhas e dentes uma velha máxima que ronda as terras por onde cresceu e foi eleito, Alagoas: “o sertanejo é acima de tudo um forte”. Há mais de dois meses sendo bombardeado pela imprensa e tendo sua vida pessoal e política devassada pela justiça, polícia e, claro, pela mídia, ele ainda resiste. Sobe ao plenário e tenta transferir aos pares a idéia de solidez, tranquilidade e força.
O Conselho de Ética da Casa recebeu há pouco mais de uma semana a terceira representação contra o senador. Abriu-se, então, o terceiro processo. Jamais um presidente do Senado respondeu a tantos deles e, ainda assim, continuou no posto por tanto tempo. Dessa vez, vão querer saber se Renan comprou rádios e jornal usando laranjas.
Parte daí, então, a seguinte leitura: o presidente do Senado não abre mão do cargo, mas será morto politicamente por culpa dele e por insistência da mídia. Explico. O primeiro processo que Renan responde é por ter, supostamente, pago pensão à filha que tem com a jornalista Mônica Veloso (olha a mídia ai!) com o dinheiro de um lobista muito chegado. O segundo é por ter, também supostamente, ajudado a cervejaria Schincariol a se livrar de dívidas milionárias. E o terceiro pela compra de jornais (de novo a mídia ai!).
Soma-se a isso o fato de que os três processos foram abertos com base em reportagens da revista Veja (mídia de novo!). Conclui-se, caro leitor, que Renan Calheiros corre o risco de perder o mandato por amar e odiar demais ela, a mídia.
A afeição era antes. Mas, agora, o processo se inverteu. A estratégia sentimental do senador permear o ódio. E ele tem motivos para se voltar contra os orgãos de imprensa. A mãe de sua filha, uma jornalista, denunciou e começou a desmontá-lo politicamente. Uma das revistas de maior circulação do país não larga do seu pé e colabora fortemente para arrebentar sua carreira. E, para completar, os veículos de comunicação que estão em nome do seu filho mais velho são objeto da investigação que pode derrubá-lo.
Renan já começou a transformar ressentimento em resultado prático. Avisou que vai processar a Veja e denunciá-la por fazer, supostamente, negócios ilícitos na compra de um canal de TV. Disse isso nos três discursos que fez atacando a linha editorial da revista. Mas quando desce da tribuna e avança pelo salão azul do Senado, o presidente abre o sorriso, bate a mão para jornalístas, pára e começa a responder seus questionamentos. Uma relação de amor e ódio, ou pura necessidade.
Hoje, a estratégia que ele julga correta para escalar o poço de lama ao qual mergulhou após a primeira denúncia vir à tona, é preservar o espírito sertanejo para manter-se como presidente. Mas, ao não querer largar o osso, dá um péssimo exemplo: a clara e irracional demonstração de apego ao poder. Isso irrita seus colegas, paralisa os trabalhos no plenário, oriça a mídia, sempre ávida por notícias, e faz Renan se afundar ainda mais. Ele está com o olhar turvado pelo ódio e pelo espírito sertanejo, que não lhe deixa abandonar a batalha, mas permite feridas incicatrizáveis. Só pode ser isso.
*Artigo publicado no jornla O IMPARCIAL (MA)
18 agosto 2007
Operários da Notícia
Há quase quatro anos divido com os alunos da Universidade Estadual da Paraíba a minha (pequena) experiência no jornalismo. Nas aulas, procuro sempre trazer um pouco da rotina de um jornalista.
Conto histórias, escuto as curiosidades dos alunos, mas também observo o comportamento deles.
Confesso que durante esse tempo percebi que parte dos alunos está no jornalismo porque se trata, na visão deles, de uma profissão cheia de privilégios. Pensam apenas no reconhecimento que a profissão pode lhes proporcionar.
Esquecem do ônus.
Para alguns, a notícia é construída sem esforço, sem apuração. Ainda na faculdade se mostram jornalistas preguiçosos em pontecial. Não foi apenas uma aluna que me entregou reportagens copiadas da internet.
Descobri com a ajuda do Google.
Nesse caso a nota não passa de zero.
A maioria aprende a lição.
Pelo menos comigo nunca mais repete o erro.
Mas a preguiça -- iniciada na faculdade -- acaba acompanhando aqueles que decidem se tornar repórter depois de formado.
Aqui em Campina Grande, por exemplo, tenho observado que alguns repórteres dessa safra mais recente não gostam de apurar e, acredite, de escrever.
Preferem se deleitar com os falsos privilégios da profissão. Comento muito com meu editor que hoje em dia faltam operários da notícia. Faltam repórteres que, com apenas uma linha de pauta, consiga trazer para a redação uma excelente matéria.
Os novatos querem tudo mastigado. Uma pauta com as informações para ele apenas organizar o texto (quando muito). Para os preguiçosos “perder tempo apurando uma notícia dá muito trabalho”. Eles esquecem que uma boa matéria só vem com muita apuração.
Porém estão mais preocupados em exibir o crachá de jornalista como fazia aquele personagem de Chico Anísio, o Bozó.
É a vaidade que toma conta de alguns profissionais.
Um trecho do livro “O Reino e o Poder” de Gay Talese explica um pouco o motivo de tantos jornalistas serem picados pela mosca da vaidade:
“O jornalista é um aliado importante da ambição, é o acendedor de estrelas. É convidado para festas, cortejado e cumprimentado, tem acesso a telefones que não constam da lista e a muitos estilos de vida. Pode mandar para os Estados Unidos uma matéria provocativa sobre a pobreza na África, sobre distúrbios e ameaças tribais, e depois dar um mergulho na piscina do embaixador. Às vezes, o jornalista pode supor erroneamente que é seu charme, e não a sua utilidade, que lhe rende esses privilégios; mas, em sua maioria, são homens realistas que não se deixam enganar pelo jogo. Eles usam tanto quando são usados”.
Para nosso consolo, ainda existem aqueles que não se deixam enganar pelo jogo.
Para nosso consolo, ainda existem aqueles que passam horas, dias, semanas, apurando, checando, escrevendo.
Tudo para levar ao leitor uma notícia de qualidade.
Para nosso consolo, ainda existem aqueles que encaram o jornalismo como uma profissão.
Esses são os operários da notícia. Que, para nosso consolo, nunca vão deixar de existir.
12 agosto 2007
"...João olhou para as bandeirinhas..."
Desde que me mandaram o link no You Tube do 'clipe' de Faroeste Caboclo (http://www.youtube.com/watch?v=RLG1qUaOi08&mode=related&search=), alguns trechos da música de Legião Urbana ficaram grudados na minha mente.
Certo dia, em pleno Jogos Pan-Americanos, cantarolava pela Linha Amarela:
"..Sentindo o sangue na garganta João olhou para as bandeirinhas e pro povo a aplaudir. Olhou para o sorveteiro, para as câmeras e para a gente da tevê que filmava tudo ali...".
Não sou daquele tipo de gente que fica cantando enquanto trabalha, mas exatamente este trecho me veio à mente em um dia na competição de judô. O brasileiro que disputava a final chamava-se João Gabriel.
Após o empate com o cubano nos cinco minutos iniciais, eles foram para o golden score, ou seja, quem aplicasse o primeiro golpe corretamente em mais cinco minutos seria declarado o vencedor. Se a igualdade persistisse, a decisão seria dos juízes, um de pé e dois nas cadeiras. Há um nome técnico para este momento na modalidade, mas eu admito, não sei.
Anyway, o tal do joão judoca empatou com o cubano no tempo normal e na 'morte súbita'. os juízes decidiriam o medalhista de ouro levantando a bandeirinha da cor do kimono. O central levantou a bandeira branca, de João, e os de cadeira, atrás dos dois lutadores, levantaram a azul, do cubano.
Por engano, o árbitro central apontou para o brasileiro como vencedor, mas, diante do silêncio do ginásio, da cara de incredulidade do cubano e do brasileiro, olhou para seus auxiliares e reconheceu o erro. Colocou o braço direito, que indicava vitória de João, junto ao corpo e, com o esquerdo apontou o verdadeiro vencedor.
Foi uma cena típica de comédia pastelão. O árbitro, como já era de se esperar, foi vaiado.
Na hora de escrever a matéria, queria muito fugir do lead tradicional. "O brasileiro João Gabriel perdeu a medalha de ouro, ontem, porque o árbitro bla-bla-bla". Na hora de sentar na cadeira e escrever a matéria, todos os meus dois neurônios repetiam a frase:
"...João olhou para as bandeirinhas e para o povo a aplaudir..."
Perdi mais de 45 minutos sentado, em frente ao laptop, com meu deadline me esfolando, tentando agradar meus neurônios. Queria fazer a matéria parafraseando Renato Russo. Era uma situação muito parecida.
Tive dificuldades na hora de substituir apenas os dois trechos:
- o sangue na garganta
- o povo a aplaudir
João judoca não estava sangrando. O povo não estava aplaudindo, e sim, sem entender a decisão do árbitro.
Escrevia uma linha.
Apagava.
Dava CTRL+z no teclado.
Tentava readaptar.
Mas apagava.
Como se diz na minha pequenina, porém heróica, terra natal, foi um vai-e-vem danado no texto.
Sem resultado.
Optei pelo lead feijão-com-arroz.
Fim de papo.
06 agosto 2007
O momento em que bate o cansaço
O ritual se repetiu em 20 das 25 noites que ficamos no Rio de Janeiro:
um caldo de feijão, uma carne com batatas, um suco de laranja, e, por fim, um chopp.
Ao lado dos repórteres Ivan Drummond, Eneila Reis e do fotógrafo Emmanuel Pinheiro, eu jantava em um restaurante na esquina do hotel em Copacabana para finalizar mais um dia de cobertura dos Jogos Pan-Americanos para o Correio Braziliense e Estado de Minas.
O jantar era sempre depois das 22h30, horário em que todas as matérias já haviam sido lidas e colocadas nas páginas pelo diagramador em Brasília e Belo Horizonte. Ele (o jantar) decretava o fim do expediente, que mais parecia uma semana, de tantos acontecimentos, entrevistas e textos feitos nas últimas 12 ou 14 horas de trabalho.
Um dia de cobertura do Pan era uma das coisas mais desgastantes que já passei na vida. Imagino que em outros eventos como Copa do Mundo, Olimpíada, até uma CPI mesmo, seja tão ou mais cansativo.
Pois bem.
Depois daquele chopp diário (ou noturno), me batia um sono incontrolável. Uma coisa de pagar a conta na mesma hora e seguir para o hotel com os olhos semi-cerrados, evitando conversar para não parecer um sonâmbulo.
Todos-os-dias-foram-assim.
O chopp, uma caneca só, parecia uma dose de Boa Noite Cinderela.
Na manhã seguinte, ficava repensando tudo que fiz no dia anterior. Tentava lembrar o exato momento em que o cansaço me apanhava de tal maneira para me nocautear com tanta facilidade após um humilde choppinho???
Não era a viagem de uma hora de ônibus oficial do Pan até Jacarepaguá;
Não era a conversa com meu editor pela manhã para saber o que eu deveria cobrir a cada dia; Não era o trânsito no Rio de Janeiro;
Não eram os jogos e apresentações; não era o calor da zona mista, onde os jornalistas se acotovelam para entrevistar os atletas antes da coletiva;
Não era o momento em que tinha que escrever a matéria....opa...peraí.
Era isso.
Era o texto.
É o texto.
Tudo que se apure nas coletivas de imprensa, nas espremidas entrevistas na zona mista está, antes mesmo de sua matéria chegar na caixa de email da redação, em T-O-D-O-S os sites de esporte do país.
Então, por que, ora bolas, o jornal investe uma grana alta para me trazer para cá, para o Rio de Janeiro, se tudo que eu apurar estará mais rápido na redação do que o meu próprio texto?
Simples.
Porque o jornal quer um texto diferente, quer detalhes que a rapidez do jornalismo na internet não capta. O jornal aposta que você pode conseguir informações que nenhum outro jornalista conseguiu.
Pensando nisso, passei a prestar atenção nos detalhes. No comportamento da jogador na hora de falar com o treinador, na reação da torcida a cada erro, na maneira como fulaninha olha para o nada quando fala com os jornalistas.
É uma coisa meio de psciologa comportamental.
Ao final do jogo, da zona mista, da coletiva, eu tinha reunido tantas informações que precisava reler as 10, 15 páginas do meu bloquinho para selecionar as principais. Era nesse exato momento em que meu cérebro atingia o ápice do esforço. Ele chegava a mil rotações por minuto com a obrigação de fazer a diferença.
Daí eu me lembrava dos livros que li recentemente, para tirar exemplos legais de narrativas interessantes. Puxava pela memória roteiros de filmes instigantes, até letra do Legião Urbana eu tentei implementar no meu texto mas faltavam algumas rotações no meu cérebro para atingir o nível de adaptar uma história de Renato Russo aa vida real e ao meu texto, claro (depois conto essa história).
Quando terminava de escrever, estava esbaforido. Parecia que tinha corrido atrás de Franck Caldeira pelos 42km da maratona e depois, nadado 10km na maratona aquática com Poliana Okimoto.
Não sei se consegui fazer diferente dos demais jornais, só sei que quero recuperar a disposição para tomar mais de um chopp por noite sem capotar de sono.
24 julho 2007
Beleza Panamericana
Com certeza o nosso amigo Daniel Brito pode falar melhor, com mais verdade e voracidade. Afinal, ele está cobrindo o Pan do Rio e já viu muita coisa por lá. Coisas que poucos brasileiros puderam ver. Não porque ocorreram dentro de quartos ou nos banheiros da Vila (isso também, mas não vem ao caso), mas pelo fato das TVs não mostrarem nada além da beleza panamericana.
Minha crítica começa com o estilo americanizado e parcial de se passar a informação. Pelos canais de TV, aberta, principalmente, tudo virou fantasia. Parece cinema de Hollywood. Basta algum brasileiro perder que a transmissão ganha ares de enterro. Se ganham, gritos, elogios e perguntas bobas (como você se sentiu na hora? Achou que tinha ganho o ouro? Está cansado?). Como diz um amigo, que explorou o assunto em seu blog (www.perceptivo.blogspot.com) – texto no qual me inspirei para este post – "para tudo se tem uma desculpa. Se perde no atletismo, foi o calor; no futebol, zebra".
Os repórteres/estrelas da Globo sofrem de um excesso de empolgação que acaba lhes empurrando para um poço de frustração. Eles, por exemplo, acabaram fazendo do jovem Thiago Pereira um fenômeno quase sem precedentes. Fenômeno brasileiro ele pode até ser. Mas é preciso pé no chão. Isso é Pan e não Olimpíadas. A cada melhada que o rapaz faturava, os próprios repórteres sonhavam com os jogos olímpicos. Agora, Thiago sentirá o peso da responsabilidade e a pressão que é chegar em Pequim como promessa de medalha. Será cobrado pelo povo brasileiro e escurraçado por ele, por culpa do sensacionalismo da TV.
Quero usar também comentários de Juca Kfouri. Ele também fez críticas a esse tipo de postura jornalística. "Thiago é um nadador extraordinário. Mas esqueceram de dizer que os melhores dos Estados Unidos e do Canadá não estão aqui". Juca aposta que o rapaz vai faturar um quarto lugar na próxima olimpíada. E ponto.
Por isso, aconselho, humildemente, que quem quiser saber do Pan, que leia os jornais. Sobretudo os dedicados ao esporte de fato. Eles trazem notícias da Vila e mostram o que realmente acontece por lá. Claro que existem exceções. Existem jornais que fazem uma cobertura medíocre. Mas outros exploram assuntos que só se pode ler nos periódicos. Na internet também.
Pois bem. É isso. Não vou me alongar. DB chega do Pan esses dias e já clamo por uma história sua. Se for possível, umas três. Afinal, nesse período no maior evento esportivo das américas, o que não devem faltar são idéias para posts.
06 julho 2007
Os tijolos mais valiosos
Até meu último dia como jornalista nesta vida pretendo me lembrar -- e repassar -- um diálogo que ouvi há 11 anos.
Deixe-me explicar a situação para citar a frase.
Em 1996, aos 15 anos, comecei a trabalhar como repórter esportivo de uma emissora de rádio de João Pessoa. A convite do saudoso amigo Werton Soares, arrumei as malas para fazer a cobertura dos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs), em Belo Horizonte. Antes, contudo, precisávamos arrumar patrocínio.
Um dos caras com quem conversamos havia trabalhado com meu pai duas décadas antes e se surpreendeu ao me ver cheio de espinhas pedindo patrocínio para a cobertura. Ele não nos apoiou financeiramente, mas disse o seguinte:
- Você já cursou jornalismo?
- Não!
- Como você já trabalha?
- Errr...eu tenho o registro de radialista. Fiz o curso técnico.
- Hum... tudo bem. Mas, olha, o que você vai aprender nesta viagem, nenhuma sala de aula da faculdade vai te ensinar.
Fazer uma cobertura jornalística fora de seu habitat natural, é sempre um aprendizado maior que o habitual. Ou, como diz um amigo: é um tijolo a mais.
O JUBs em BH foi o primeiro tijolo. Mais para alicerce mesmo do que tijolo na minha personalidade profissional. Tijolo adquirido e não atirado pelos críticos de plantão.
Nos anos seguintes fui a dezenas de cidades no país e somei mais conhecimentos.
Em Franca e Ribeirão Preto, meu último destino jornalístico, há uma semana, tinha tudo para ser mais uma cobertura tranqüila, porque já conhecia a área. Os problemas de horário, dificuldade em acessar aa internet e o ambiente hostil do público, me renderam preciosos tijolos aa minha maneira de trabalhar.
Eles serão muito importantes no desafio que colocaram na minha frente neste ano. Neste domingo, dia 8, embarco para o Rio de Janeiro para os Jogos Pan-Americanos pelo Correio Braziliense.
Sei que o que acumulei até hoje não serão suficientes para cobrir o evento como imagino. Mas vou conquistar os tijolos mais valiosos da minha carreira.
Esses, serão utilizados em desafios maiores, a cada ano...
20 junho 2007
Repórter e/ou representante
Há duas semanas mudei de emprego. Virei correspondente de um jornal do nordeste em Brasília. Antes, trabalhava no portal de notícias do Correio Braziliense, o CorreioWeb. Mas meus olhinhos cresceram quando vislumbrei a oportunidade de cobrir Congresso Nacional, Esplanada dos Ministérios e Justiça. Tudo em âmbito nacional. O salário? Menor. Mas acho que vou aprender mais e não pensei duas vezes, fui!
Pois bem. Nos primeiros dias de "correspondência" levei o primeiro baque. Tive que me adaptar à realidade jornalística do Maranhão, pois presto serviço para o jornal O Imparcial, daquele estado. O primeiro passo foi convencer editores e o dono do jornal que a cobertura feita na capital da república se concentra na bancada de deputados deferais maranhenses, mas deve ser democrática e os interesses do governo do estado não devem influir nela.
Essa tarefa não foi tão difícil. Consegui. Me liberam para fazer a matéria que eu quisesse e ter como fonte quem eu quisesse, independente de partidos e apoios políticos. Gostei e entrei em campo. Mas, de cara, percebi que minhas potenciais fontes olham pro jornal como um adversário, algo a quem eles não devem informações e que só lhes tratam mal.
Antes de começar o trabalho jornalístico, então, encampei uma função diplomática. Me apresentava e dizia: "Deputado, sou o Pedro, correspondente de O Imparcial em Brasília. Agora vamos cobrir os trabalhos da bancada do estado". Os que simpatizam com o jornal abriam os braços, me trataram bem, disseram que dariam exclusivas e tal. Mas aquele que, erroneamente, o jornal achou, por razões partidárias, não lhes dá espaço, soltavam as piadinhas.
O primeiro falou pra assessora, quando ela disse que eu queria entrevistá-lo pra alguma coisa: "Olha, tu tens que entender que O Imparcial não dá espaço pra gente", comentou. O outro: "Vocês são oposição, né?". Ai, entro em campo. "Olha deputado, não é assim. Aqui, pretendo fazer uma cobertura equilibrada, sem entrar na pendenga política existente no Maranhão. E gostaria de um voto de confiança pra poder realizar meu trabalho dessa forma", dizia.
A partir disso, a coisa melhorou. Mas pode melhorar ainda mais. Porém, isso só o trabalho jornalístico dirá. O tempo também. Por enquanto, sigo correspondendo o jornal e tentando representar uma linha editorial isenta, coisa quase inédita pras bandas daquele saudoso nordeste, embora o jornal tenha um nome que aparente isso. Como diz meu amigo DB nas nossas proveitosas e marcantes divagações sobre jornalismo: "Você, além de repórter, é o único representante do jornal aqui". É isso mesmo, amigo.
13 junho 2007
Tirei meu celular do cartãozinho
Um amigo intolerante sempre me disse que o bom cartão de apresentação, aquele que a gente distribui quando conhece uma nova fonte, não deve conter o número de seu celular. Ele é o mais fervoroso adepto da velha máxima:
Amigos amigos, negócios à parte.
Nos primeiros anos de redação, relutei em aceitar a opinião. Se o cara está disposto a passar informações, que ligue no meu celular. Porém, para uma pessoa com tantas horas de vôo no jornalismo como eu, minhas fontes não passam de duas pessoas e o meu celular no cartãozinho de apresentação me rendeu seguidos constrangimentos.
Nosso eterno-futuro-colaborador Mário Ignácio Coelho levantou a bola em um post recente e aqui conto minha história. As pessoas, no meu caso, atletas ou assessores deles, ligavam para meu celular para pedir matéria. Tipo: 'me dá um espaço no jornal'.
Disse não várias vezes, mas em outras concordei em fazer matéria (não sem antes combinar com meu editor). Quando essa pessoa pede um espaço, ela quer dizer elogio.
Rasgado.
Gratuito.
De página inteira, de preferência.
Acontece que nem tudo são flores e volta e meia saem informações que os personagens omitiram e eu pesquisei na internet. A "realidade maravilhosa e campeã" que ele me pediu espaço é uma meia verdade e, por obrigação, coloco isso no texto.
Do mesmo jeito que esse atleta e/ou assessor me ligou para pedir espaço, ele retorna no dia seguinte para reclamar de determinados trechos. Isso não aconteceu dois ou três vezes comigo. Foram 15, 20, 30 vezes nos últimos três anos. O pior: as ligações sempre foram nas primeiras horas da manhã, tipo 8h30.
Onde já se viu jornalista acordar cedo em Brasília?
Não entendem que se for para falar bem deles, da maneira que desejam, que contrate uma agência de publicidade.
Quando troquei número do celular, há um ano, pedi uma nova remessa de cartõezinhos de apresentação e segui o conselho daquele amigo: tirei o número e só deixei os telefones da redação.
Ontem, por exemplo, fui chamado para fazer uma entrevista exclusiva sobre os novos projetos esportivos de uma grande empresa sediada em Brasília. Eles, executivos de marketing, me apresentaram as idéias como se fossem as maiores e melhores novidades para a determinada modalidade.
Observei, contudo, que as ações excluíam Brasília do projeto marqueteiro da empresa e inclinei minha matéria, pulicada nesta quarta-feira no Correio Braziliense, pelo 'prejuízo' que a cidade sofrerá pela redução do investimento.
Se tivesse deixado um cartãozinho com meu celular aos executivos, certamente teria recebido ligações nesta manhã sobre a abordagem da minha matéria. Eles me deram exclusividade e eu não elogiei o tanto que eles esperavam.
Se eles realmente acharam ruim o foco do texto, poderiam ter ligado para o telefone da redação que consta no nova versão do meu cartãozinho de apresentação. Se tentaram pela manhã, acho improvável que tenham conseguido falar com alguém.
05 junho 2007
Escrever é um exercício
Ninguém esquece depois que aprende a andar de bicicleta. É verdade que sente a falta de prática quando se passa muito tempo sem andar em duas rodas. Agora desaprender, ninguém desaprende.
Acredito que escrever seja do mesmo jeito. Aprende-se e a evolução vem com a prática diária. Mas basta um tempo afastado para perceber que você está enferrujado.
Lembro que quando voltei ao jornalismo impresso, depois de um ano afastado, sentia enorme dificuldade de escrever. Passava horas e horas na frente do computador sem conseguir fazer a reportagem. Mesmo com todas as informações na mão.
Desde que deixei de ser repórter e virei produtor de tevê há quase um ano não tenho escrito com freqüência.
Vez ou outra é que saio para fazer uma matéria. Minhas escritas têm se resumido ao Filhos da Pauta. Admito até que tenho atualizado muito pouco o blog. Daniel e Pedro são os resposáveis pela maioria dos posts.
Ainda escrevo uma coluna para um site de esportes e para uma revista independente (sem periodicidade definida). No meu blog esportivo escrevo tópicos de cinco ou seis linhas.
É muito pouco para quem escrevia pelo menos uma coluna e uma reportagem por dia no jornal e duas reportagens para televisão.
Sábado passado tinha uma matéria para a tevê com o volante Denílson do Arsenal, da Inglaterra, que passava férias na casa de familiares em Alagoa Nova, uma pequena cidade do interior da Paraíba.
Um fato que pouca gente sabia.
A pauta interessou ao Correio. DB me pediu para fazer uma versão para o jornal brasiliense.
Passei a tarde em Alagoa Nova driblando políticos que assediavam Denílson. Peguei as informações, tirei fotos e fiz uma entrevista para a tevê.
Tudo que precisava estava comigo. Tinha todas as informações. Era só escrever. Eis o problema. Senti a falta de prática. Tive dificuldades para começar a escrever o texto, para organizar as idéias.
Apesar das dificuldades o texto saiu. Não sei quando (e se vai) o Correio vai publicar a matéria.
Como em qualquer atividade escrever também necessita de prática.
Quanto mais se escreve mais o texto evolui. É claro que essa evolução vem acompanhada de muita leitura.
Aliar a leitura e a escrita freqüente é fundamental para se ter um bom texto.
29 maio 2007
Você bloga? Cuidado, tem mais chances de perder seu emprego*
É que a prática de escrever os diários pessoais envolvem textos com informações confidenciais, críticas ao trabalho ou a chefes e outros temas que podem ser considerados conduta imprópria no ambiente profissional.
Há ainda, segundo a companhia, a visão de que o blogueiro usa parte de sua jornada de trabalho para escrever posts em seu blog pessoal.
A pesquisa, que avaliou dois mil blogs, concluiu que 39% deles continham informações que poderiam por em risco o emprego do blogueiro.
* Este post foi retirado do blog gjol.blogspot.com/ e publicado por Daniel Brito no computador da empresa em que trabalha.
25 maio 2007
Pense nisso
Não acredito que jornalista de redação possa tratar um colega mal, criticá-lo na sua presença ou ausência, ou diminuí-lo perante outros. Eticamente, na nossa profissão, isso é crime. Agora, imagina só um assessor de imprensa fazer tudo que citei acima. Como se não bastasse, esse assessor trabalha para um deputado que está atolado em denúncias de corrupção e, fatalmente, responderá um processo por quebra de decoro parlamentar dentro da casa legislativa que atua.
Pois é, conheço um assessor assim. Trata mal os jornalistas, os chama de incompetentes e vive apontando erros... quase sempre infundados.
Tudo bem que essa função requer um acompanhamento do que sai na imprensa e, sempre que necessário, um pedido de retificação de uma coisa ou outra. Afinal, erros acontecem. Acho que todo jornalista que se preze já errou alguma vez.
O problema é quando um assessor – que, enfatizo, só existe porque existem jornalistas de redação e jornais – quer ser mais realista que o rei e só reclama, critica e diz que tudo está errado.
Dia desses ocorreu um episódio extremamente constrangedor comigo. Procurei uma informação com um desses profissionais. Além de me ironizar, dizer que eu errei ao colocar uma “aspas” do seu chefe (que não estava errada), não me dá a informação que eu queria, essa pessoa ainda desligou o telefone na minha cara.
De fato, uma atitude lamentável.
Antes que eu tentasse explicar que não tinha errado, a ligação foi interrompida de propósito. Não pude dizer nada do que queria. Por isso, escrevo aqui uma carta direcionada a essa pessoa que desrespeita a lei da ética comportamental que rege o relacionamento entre profissionais de imprensa e que me causou momentos de irritação e, sobretudo, pena.
Querido assessor (ou assessora),
Tenho certeza que você não vive um bom momento. Suas tarefas e atribuições aumentaram vertiginosamente, sem contar a pressão a qual está submetida ao prestar serviço para um investigado por crimes graves. Além disso, suponho que não esteja passando por um bom momento em sua vida particular e, naturalmente, anda bastante estressada.
Quero apenas que saiba que levo em consideração todas essas coisas. Posso entender a postura agressiva com a qual trata seus colegas de trabalho, mas não posso aceitá-la como uma coisa normal. Sugiro que tente descansar, se afaste do cargo e tente resolver os problemas que te causam irritação e estresse.
Mais do que isso: quero aconselhá-lo (la) a manter uma boa relação com seus companheiros de trabalho e com as pessoas que precisam dos seus serviços. Você está de um lado que não é exatamente o melhor lugar para se fazer jornalismo. Por isso, entenda: provavelmente seu chefe será cassado e você perderá o emprego. Possivelmente, um dia irá precisar da ajuda de alguém com quem cruzou em algum momento de sua vida. Você pode até ter um bom currículo, mas se não tiver caráter, não terá um emprego.
Pense nisso
Grato
20 maio 2007
A polêmica dos salários atrasados
Por, aproximadamente, 36 horas pensei se valeria a pena denunciar que o time de basquete de Brasília -- líder do campeonato brasileiro, com jogadores de NBA no elenco, favorito ao título -- não paga salários aos atletas desde março.
Já me meti em confusões assim em outras oportunidades.
Em Campina Grande, como repórter da TV Borborema, um jogador me pediu para denunciar a falta dos salários um dia antes do clássico. Só joguei a denúncia no ar porque ele botou a cara no vídeo para falar. Na segunda-feira, após o jogo (que terminou empatado), um diretor chega ao treino com os bolsos cheios de maços de dinheiro.
Resultado: fui atacado por torcedores e tive que deixar de fazer reportagens. Virei apresentador aos 20 anos de idade...
Mais recentemente teve o caso aqui no Correio Braziliense da minha companheira de trabalho, Cida Barbosa. Com a experiência de ter trabalhado em Copa do Mundo, ela conseguiu dois depoimentos de atletas do Gama também detonando a diretoria por não cumprir com o compromisso mensal. Um diretor se revoltou com ela e fez uma acareação com ela e todos os jogadores no meio do campo de treinamento.
Nenhum gamense se apresentou como autor das denúncias e Cida ficou, por alguns instantes, como a mentirosa da história. O diretor desbocado e desequilibrado caiu matando nas críticas, praticamente agredindo-a verbalmente. Até que um dos caras que deu a entrevista -- e pediu para manter o nome em sigilo na reportagem -- se apresentou. Em seguida, o outro também deu um passo à frente. Logo, eles não atuaram mais pelo Gama e deixaram o clube ao final da temporada sem ter participado dos oito compromissos finais.
Na quarta-feira passada, recebi a confirmação da ausência dos salários no time de basquete profissional do DF. Liguei para um jogador e não consegui confirmar. Liguei para o pai de outro, uma pessoa próxima a mim, e ele ficou de checar. Em seguida, me retornou avisando que o filho dele não falaria. Busquei um terceiro jogador e abri o jogo.
Acompanhe o diálogo que travei na tentativa de publicar minha matéria.
- Fulaninho, o seguinte é esse: sei que vocês estão sem salários desde março, ameaçaram não jogar as partidas contra Sicrano e Beltrano e a diretoria não deu previsão de quando saldará as dívidas.
- Você, Daniel, não falou nenhuma mentira. Se quiser publicar, pode publicar. Mas faça por sua conta, porque eu não confirmo nada disso aí...
- Eu sei que tu é um dos cabeças da ameaça de greve do time. Preciso de uma confirmação oficial? Eu não cito teu nome. Dou minha palavra...
(interrompendo)- Não quero!! O mercado do basquete no Brasil é muito pequeno. Essas notícias correm rápido e salário atrasado não é novidade para mim.
- Será que tu não pode botar na mesa lá, entre teus companheiros de time, que eu procuro alguem que esteja disposto a falar, mas sem a necessidade de revelar o nome?
- Então tá. Daqui 15 minutos você me liga...
Dez minutos antes de terminar o prazo, me liga o diretor do time:
- Que história é essa de você ligar para meus jogadores exigindo declarações sobre os salários atrasados?
Foi uma longa conversa. Aliás, batalha. Mostrei para ele que sabia os detalhes dos salários, por mais que tentasse desqualificar minhas informações. Quando percebeu que estava realmente prestes a publicar a denúncia dos salários, ele desabafou:
- Pela amor de Deus! Esse time existe há quatro anos, nunca fizemos tanto sucesso, uma notícia dessas pode acabar conosco. Estamos, realmente, devendo salários, mas se eu te contar o por quê você me garante que não publica?
Dei minha palavra e o cartola me explicou direitinho a falcatrua. Não cabe aqui a história completa da dívida. Avisei ao meu editor que o time de basquete devia salários mas dera minha palavra de que não publicaria nada. Ele (o editor) ficou insatisfeito, afinal, essas matérias sempre rendem grandes leituras. Tudo isso ocorreu na quarta.
Na sexta-feira, li no Jornal de Brasília:
"Time de basquete não paga salários"
Shit. Fui furado!!!
A matéria estava incompleta. Faltava informação tipo: qual o último mês que os jogadores receberam salários? Nem isso tinha na matéria. O diretor do time sequer fora ouvido pela reportagem para dar uma justificativa.
Antes de ler essa notícia, passei um dia e meio pensando se valia a pena denunciar salários atrados de pessoas que não fazem questão de abrir o jogo para a imprensa. Nem os próprios atletas tinham interesse em detonar a história.
O que é pior: um deles ligou para o diretor para me entregar, como se a culpa fosse minha.
Lembrei-me do que meu sub-editor disse:
"Não adianta fazer uma 'boa ação' e não divulgar uma matéria polêmica, como neste caso em que o diretor implorou para que você não publicasse. Notícia não tem dono, se o outro jornal a tem, ele pode soltá-la a qualquer momento. Aí, meu amigo, quem perde é você..."
14 maio 2007
O poder do off
- Deputado, a quantas anda a relação com o governo? A insatisfação já acabou?
- Em off ou em on?
É preciso pensar rápido. Mas é sempre bom escutar o off primeiro. É de certa maneira lógico. Primeiro você escuta o “impublicável”, que é a verdade. Depois, aquelas firulas todas de um entrevistado. Isso dá base sólida para outras perguntas.
É comum ocorrer em matérias de política. Como todos sabem, políticos têm sempre algo a esconder. Minha rotina é repleta de informações em off. Com elas, eu consigo conjecturar aquela boa história da qual preciso. Não que eu vá publicar o off do cara. Mas eu fico sabendo exatamente o que se passar sobre determinado assunto.
Outro dia fazia uma das várias matérias que fiz sobre o assunto acima. Bombardeei um deputado de perguntas. Ele não cedeu. Foi quando, com jeitinho, eu perguntei. “Deputado, as atitudes dos aliados não condizem com esse discurso. O senhor pode me falar que eu não publico, eu quero apenas ficar sabendo. Qual o motivo do desentendimento?”.
Foi quando ele abriu a guarda e me falou tudo. A briga era por cargos. Deputados estavam insatisfeitos. Queriam mais espaço do governo, mais prestígio entre os secretários. Precisavam ter voz e participar das decisões.
Pois bem. Foi quando eu negociei com ele a possibilidade de publicar a história sem citar nome. E falei que escutaria outros parlamentares da base. Um deles haveria de me confirmar a história. Na mesma entrevista, busquei descobrir quem era o mais insatisfeito. Consegui e fui direto no cara.
Ainda ouvi mais seis deputados. Uns negaram. Outros não disseram que sim, nem que não. E um deles me bancou a informação. Ainda coloquei algumas aspas daqueles que não quiseram se identificar. Pronto. Tinha minha história e ela foi pra rede.
Depois eu fiquei pensando: e se eu não pedisse a declaração em off? A conclusão foi imediata: não teria a história! Ficaria sem subsídio para indagar os deputados. Teria um discurso desinformado e ninguém ia falar por livre e espontânea vontade. Enfim, a pauta cairia.
Em outra matéria que fiz sobre o assunto, quis saber do mesmo deputado como estava a relação com o Executivo. Foi quando ele me perguntou: “Em on ou em off?”. “Em off, claro!”. Ele riu e me contou outras coisas. Hoje cultivo a fonte e sempre que posso o prestigio com algumas boas aspas – mas isso é assunto para um outro post.
Enfim, passei algum tempo para conhecer o poder do off. Hoje, não faço matéria sem tentar arrancar algo que não pode ser dito. Mas é bom lembrar que isso leva tempo. É preciso estar próximo da fonte e conversar bastante antes de pedir uma declaração no tal do off.
Aprendi também que toda autoridade tem dentro da mente uma informação que vai valer uma matéria. O duro é como e quando encontrar.