20 junho 2007

Repórter e/ou representante

Pedro Henrique Freire

Há duas semanas mudei de emprego. Virei correspondente de um jornal do nordeste em Brasília. Antes, trabalhava no portal de notícias do Correio Braziliense, o CorreioWeb. Mas meus olhinhos cresceram quando vislumbrei a oportunidade de cobrir Congresso Nacional, Esplanada dos Ministérios e Justiça. Tudo em âmbito nacional. O salário? Menor. Mas acho que vou aprender mais e não pensei duas vezes, fui!

Pois bem. Nos primeiros dias de "correspondência" levei o primeiro baque. Tive que me adaptar à realidade jornalística do Maranhão, pois presto serviço para o jornal O Imparcial, daquele estado. O primeiro passo foi convencer editores e o dono do jornal que a cobertura feita na capital da república se concentra na bancada de deputados deferais maranhenses, mas deve ser democrática e os interesses do governo do estado não devem influir nela.

Essa tarefa não foi tão difícil. Consegui. Me liberam para fazer a matéria que eu quisesse e ter como fonte quem eu quisesse, independente de partidos e apoios políticos. Gostei e entrei em campo. Mas, de cara, percebi que minhas potenciais fontes olham pro jornal como um adversário, algo a quem eles não devem informações e que só lhes tratam mal.

Antes de começar o trabalho jornalístico, então, encampei uma função diplomática. Me apresentava e dizia: "Deputado, sou o Pedro, correspondente de O Imparcial em Brasília. Agora vamos cobrir os trabalhos da bancada do estado". Os que simpatizam com o jornal abriam os braços, me trataram bem, disseram que dariam exclusivas e tal. Mas aquele que, erroneamente, o jornal achou, por razões partidárias, não lhes dá espaço, soltavam as piadinhas.

O primeiro falou pra assessora, quando ela disse que eu queria entrevistá-lo pra alguma coisa: "Olha, tu tens que entender que O Imparcial não dá espaço pra gente", comentou. O outro: "Vocês são oposição, né?". Ai, entro em campo. "Olha deputado, não é assim. Aqui, pretendo fazer uma cobertura equilibrada, sem entrar na pendenga política existente no Maranhão. E gostaria de um voto de confiança pra poder realizar meu trabalho dessa forma", dizia.

A partir disso, a coisa melhorou. Mas pode melhorar ainda mais. Porém, isso só o trabalho jornalístico dirá. O tempo também. Por enquanto, sigo correspondendo o jornal e tentando representar uma linha editorial isenta, coisa quase inédita pras bandas daquele saudoso nordeste, embora o jornal tenha um nome que aparente isso. Como diz meu amigo DB nas nossas proveitosas e marcantes divagações sobre jornalismo: "Você, além de repórter, é o único representante do jornal aqui". É isso mesmo, amigo.

5 comentários:

Daniel Salles Branco de Almeida disse...

É isso aí toty, difícil sair do jornalismo baixo que se pratica nos veiculos de comunicação do estado, onde a essência do jornalismo é esquecida. Não somos ingênuos em pensar que existe jornalismo imparcial, mas o jornalismo JUSTO existe, e é o que você está a procura. Parabéns pela atitude e Gde. Abraço.

Anônimo disse...

É uma situação realmente complicada, companheiro. E é verdade que você é a imagem do jornal aqui em Brasília. Espero que o bom trabalho faça os excelentíssimos deputados mudarem de idéia. Sinceramente, acho difícil. Isso, claro, não tem nada ver contigo. Tem uma amiga que é correspondente do Liberal, do Pará, aqui em Bsb. Ela fez uma matéria sobre um projeto de lei apresentado por um deputado de lá proibindo que um parlamentar mudasse de partido e concorresse na mesma eleição. No meio da matéria, ela citou o Babá (que era do Pará e mudou para o RJ). Só citou. No dia seguinte, tinha três parágrafos descascando o Babá na matéria. Ele entendeu que ela não tinha feito aquilo, mas disse que nunca mais falaria com o jornal. Ela fez o dela, mas o jornal não.

Felipe disse...

Desejo-lhe muito boa sorte, porque, se tem um lugar no Brasil onde o coronelismo das famílias se mistura e domina o poder, esse é o estado do Maranhão. Quando se deparar em uma situação de denúncia ou conflito é que você vai poder entender até onde sua liberdade de imprensa para fazer um trabalho correto pode ir.

Abração!!!

DB disse...

Eu acho, Pedro, que você está certo em tentar mudar a imagem do jornal perante os "oposicionistas". O que você vai entender com o tempo, contudo, é que o próprio sistema político do país não permite uma cobertura tããããooo isenta assim. Como disse Campbell, vai chegar um momento em que o jornal e seu correspondente no DF terão que se decidir de que lado ele (o jornal) estará. Até por uma questão de saúde financeira da empresa....

Felipe disse...

CAdÊ texto novo, caceta?????