28 abril 2007

Tudo se repete

Por Daniel Brito

É uma coincidência sobrenatural ou falta de criatividade mesmo. Eu aposto na segunda opção. Mas é incrível como alguns dos fatos que têm freqüentado as partes mais visíveis das páginas de jornal são insistentemente comparados a manchetes passadas.

Parece que tudo se repete. Quase tudo, eu diria.

Vamos aos exemplos?
Então:

1- Crise na aviação civil do país recebeu o nome de Apagão Aéreo. O nome remete ao Apagão Elétrico de 2001. Atualmente, os aviões não saem do chão por problemas com os controladores, então a crise foi chamado de apagão porque proporcionou prejuízos idênticos ou piores ao da crise de energia elétrica.

2 - Essa operação da PF de prender bingueiros e peixes graúdos no judiciário acusados de receber uma grana preta para conceder liminares em favor das casa de bingo. O nome dessa 'verba' que os juízes levaram na surdina já foi apelidada pela imprensa como Mensalão do Judiciário.

3 - O primeiro mensalão foi denunciado por Roberto Jefferson, em 2005. Daí começou unma crise gigantesca e começaram a falar em impeachment. Compararam Lula com Collor e insistiram que a história deveria se repetir.

4 - A famigerada guerra do Iraque (Part II, de Walker Bush) é sempre pintada com as mesmas cores da Guerra do Vietnã, quando os Estados Unidos fracassaram. Ora, os EUA fracassaram em outras oportunidades, que não convém citá-las aqui, mas porque não equipará-las também?

5 - Ainda nos Estados Unidos, qualquer caso que envolva a CIA e o presidente do país já é chamado de Watergate. Aquela história de escutas clandestinas, na década de 1970, denunciado por um cara que recebeu o nome de Garganta Profunda. Ao longo desses trinta anos, várias figuras que serviram de fonte à imprensa também receberam esse apelido infame.

6 - Para trazer o post para um tema mais ameno, chegamos, finalmente, ao suposto milésimo gol de Romário. Tudo está sendo comparado ao momento atravessado por Pelé há 40 anos. "Pelé fez cinco jogos a menos que Romário quando tinha 999 gols", "Romário usa mesmo vestiário de Pelé, na noite do milésimo gol".

Antes que os parcos leitores que vigiam nosso blog venham debater se Romário tem ou não mil gols, se Lula merecia ser impeachmado, se o apagão aéreo foi tão ruim quanto o elétrico, preciso esclarecer que minha opinião sobre cada um desses assuntos não cabe aqui, agora. Quem sabe num próximo post?

Também tenho a obrigação de explicar que a importância da história para qualquer nação e inestimável. A partir dela, é possível evitar os erros já cometidos. Não sou contra a seção "Memória" que acompanha as reportagens nos casos citados acima ou qualquer outro. Até porque, serve para situar o leitor na história.

O que lamento é necessidade dos jornalistas de obrigar a repetição da história. Com nomes, sobrenomes, aspas e ponto final iguais. Isso faz com que muitas manchete precisem ser comparadas, em todos os aspectos, com o passado.

Será que tudo se repete neste mundo???

22 abril 2007

Fucking checagem!!!

Por Daniel Brito

Depois de passar alguns dias rodando os Estados Unidos com uma banda de rock, o garotinho protagonista do filme Quase Famosos, escreve um texto contando todos os podres do grupo. Sexo grtupal com fãs, drogas de todas as espécies e shows alucinantes.

Uma matéria espetacular. Capa da revista Rolling Stones. No filme, a publicação o pagara para acompanhar a turnê da tal banda. Acontece que o garotinho (dizem ser o próprio diretor do filme, Cameron Crowe) tinha lá seus 15, 16 anos e pensava que tudo que visse poderia ser publicado livremente.

Os editores adoraram a história de Crowe adolescente, mas quando ela passou pelo setor de checagem da Rolling Stones, os caras ligaram para os personagens da matéria. Eles, claro, desmentiram as informações do garoto. Ele (Crowe adolescente) ficou como mentiroso.

O filme se desenrola e ele acaba se perdendo no meio do história com os roqueiros.

No New York Times existe uma editoria de checagem também. Ela só funciona quando alguma fonte suspeita de informações já publicadas. Então, a checagem entra em campo. Pede, oficialmente, o bloquinho de anotações do repórter, envia outro repórter para o local onde a informação original foi apurada.

No Brasil, até onde eu sei, isso não existe.

Certa vez, o diretor do time de basquete de Brasília confirmou ao meu editor que um jogador norte-americano da equipe dele havia atuado sem visto de trabalho no Brasil. A informação foi repassada em OFF.

Quando partir para apuração, juntei dados do Ministério do Trabalho e da Polícia Federal. Ambas as instituições confirmavam que o atleta não tinha visto de trabalho. Em ON, o dirigente negou que o time tivesse deixado o jogador sem a autorização. A entidade que organiza o basquete se negou a informar se havia recebido a cópia do passaporte do gringo com o documento.

De qualquer maneira, eu já possuía tudo que precisava, menos a declaração do jogador.
Na pressa para fechar a matéria, liguei duas ou três vezes para o celular do cara. Ele me atendeu uma vez. Fez que a ligação estava falhando e desligou. Depois, não me atendeu mais.

Achei o suficiente para detonar a matéria no jornal. Fui criticado por não ter checado a denúncia com o jogador, mas eu tinha a certeza, em OFF, que ele estava irregular.

Checagem requer paciência e inteligência para abordar as fontes.

Um colega me confidenciou, recentemente, que um senador do DF pediu o auxílio moradia que todos os parlamentares têm direito aos R$ 3 mil para alugar um apê. Quem já é de Brasília, óbvio, abre mão. Mas esse senador fez questão, de acordo com essa minha fonte.

Repassei a informação para uma jornalista de uma publicação de alcance nacional. Ela passou a notícia para o chefe, que reservou o espaço para a notícia na edição da semana passada. A jornalista ligou no senado, buscou suas próprias fontes, acionou seus conhecidos para confirmar a informação.

Não conseguiu.
O espaço foi ocupado por outra notícia.

E se ela não tivesse checado???

13 abril 2007

Chatos por natureza

Por Léo Alves

Há entrevistados e entrevistados.

A classificação deles é feita com base no histórico das entrevistas.

O primeiro tipo é aquele super gente boa. Dá boas entrevistas e ainda por cima trata bem o repórter.

Na maioria das vezes depois da entrevista ainda rola uma conversa informal.

Todos os repórteres falam bem desse tipo de entrevistado. É querido nos meio dos jornalistas.

O segundo tipo é o terror dos repórteres. É aquele que todo mundo precisa entrevistar, mas é marcado pela chatice, má educação.

Esse tipo faz questão de ser chato. Adora maltratar os repórteres. Responde como se estivesse fazendo um favor aos jornalistas.

Tive oportunidade de entrevistar dois que são conhecidos por sua chatice com a imprensa.

O primeiro foi Nelson Piquet. Esse dispensa apresentações.

Piquet era craque em receber o Troféu Limão dado pelos jornalistas esportivos para o piloto mais antipático da temporada.

O ex-piloto esteve em Campina Grande para divulgar o produto de sua empresa a Autotrac, que é um sistema de monitoramento via satélite de caminhões.

Nos contatos preliminares a assessora de imprensa marcou a hora da entrevista. Mas deixou claro que Piquet não falaria de Fórmula 1.

Não estava nem um pouco interessado nas ações mercadológicas da Autotrac. Queria uma entrevista sobre Fórmula 1.

Mesmo sabendo da chatice de Piquet decidi arriscar.

Estávamos eu e outro colega apenas.

Acertamos começar com perguntas sobre a Autotrac. Em seguida passaríamos para Nelsinho Piquet e por fim a Fórmula 1.

Deu certo.

Paramos quando percebemos que Piquet já demonstrava estar chateado com as perguntas.

Consegui minha entrevista.

Outro osso duro foi Emerson Leão.

Leão vinha de uma polêmica com a repórter da Record, Marília Ruiz.

O agora ex-técnico do Timão havia se irritado com uma pergunta de Marília. E chamado-a para o motel.

O Corinthians tinha se hospedado em João Pessoa.

Na capital paraibana, Leão disse que não dava entrevista enquanto a repórter da afiliada da Record não saísse.

Estava cobrindo o jogo Treze x Corinthians (Copa do Brasil), em Campina Grande, com a colega Manuella Soares.

Antes da partida, ela se escalou logo para entrevistar o técnico do Treze, Arnaldo Lira.

Disse que não queria correr o risco de ouvir alguma grosseria de Leão.

Não seria deselegante em pedí-la para entrevistar Leão.

Sobrou pra mim.

Pensei: “Só falta arrumar uma confusão ao vivo com Leão”.

Só tinha a certeza de que ele não me chamaria pro motel como fez com a Marília.

Terminada a partida desci para os vestiários.

O assessor anunciou que cada repórter poderia fazer duas perguntas ao treinador.

As rádios de São Paulo começaram.

As quatro perguntas feitas pelos repórteres estavam na minha lista.

Como já tinham queimado todas as minhas perguntas fiz uma básica, em cima da hora:

- Leão a série de desfalques por suspensão e problemas de contusão tem prejudicado até que ponto o time?

- O que? ..... não entendi., com aquela cara de abuso típica do treinador.

Pensei que ele estava se preparando para soltar a patada.

Repeti a pergunta esperando uma descortesia. Ainda bem que não veio.

- O Corinthians é um time que preciso de conjunto para vencer...e tal, tal, e tal.

Escapei do rugido do Leão.

Até que neste dia ele estava bem humorado. Um colega de rádio repetiu a pergunta que eu acabara de fazer.

Mesmo com a cara amarrada, respondeu educadamente.

Depois dessa pergunta sai de perto.

Não dá pra confiar muito em um Leão.

06 abril 2007

Lição do motora

Pedro Henrique Freire

Todo motorista de jornal tem um pouco de repórter. Como estão de um lado pro outro sempre, começam a enxergar as coisas com olhos jornalísticos. É comum sugerirem pauta. E ainda dizem, entusiasmados: “Aquilo ali dá uma boa matéria”. E muitas vezes dá mesmo. É por isso que a conversa com eles, além de ser agradável, é bastante produtiva.

Pois bem. Outro dia estava me deslocando para um pauta e, como sempre, começo a conversar. No carro, eu e uma outra repórter. Como meu destino era o último, ela desceu e o motora muito falador e sensível começou a articular suas idéias.

- Essa menina é uma ótima repórter, disse. E o melhor. É gente boa! Tem repórter ai que não entende nada. Se a gente pára em algum lugar antes de chegar ao jornal com eles, por exemplo, já reclamam e contam pro chefe. E o chefe briga também quando algum deles quer parar e eu paro, pra comprar comida ou qualquer outra coisa.

A conclusão dele me entusiasmou e, confesso, percebi que aquele motorista entendia bem o processo jornalístico:

- Eu tenho a seguinte opinião, continuou. Estou aqui para servir vocês (repórteres). Então tudo que fizer, vou está ajudando o trabalho de vocês. E ajudando o trabalho de vocês, ele vai ficar mais bem feito. Isso melhora o jornal. E, se o jornal tá bom, meu salário sai sempre no final do mês.

Toda aquela análise da produção da notícia me surpreendeu. São poucos os que pensam daquele jeito. Ele, por exemplo, entende que a matéria depende até da velocidade com a qual ele dirige o carro. Uma boa pauta nasce do acaso, mas sua feitura depende do empenho de todos, inclusive dos motoristas.