30 abril 2009

Na onda do linfoma da Dilma

Pedro Henrique Freire

Qualquer campanha quer sensibilizar para convencer. Seja eleitoral, ambiental, comercial. Nossos políticos, sabidos do jeito que são, se utilizam por vezes de ferramentas que balançam na corda bamba do antiético para sensibilizar e, no final, ganhar votos. Uma dessas artimanhas irresponsável, porém, eficiente, é utilizar o sofrimento humano como cabo eleitoral.

Conheço um deputado que se elegeu com pouco mais de 20 anos de idade após seu pai ter sido assassinado a tiros no meio de uma cidade no interior do Maranhão. O pai, um político famoso. Ele, um rapazote que mal sabia falar (até hoje não sabe direito). Após o crime, tirou umas fotos e colocou seu número nas urnas, pedindo ajuda para fazer a justiça pelo pai morto. Resultado: foi um dos federais mais votados em 2006.

Na reeleição de 1998, a hoje (pela terceira vez) governadora do Maranhão, Roseana Sarney, mal fez campanha. Estava doente. Curava-se de um câncer (outro). Na época, não saiu às urnas, não pediu votos esbarrando ou cumprimentando eleitores. Bastou aparecer na televisão, envolta em uma boa campanha de marketing que lhe apontava como uma "guerreira", sofrida, lutando para sobreviver e para "melhorar a vida do povo maranhense". Resultado: levou no primeiro turno, de lavada.

Agora, aparece no Brasil a pré-candidata preferida do Lula, Dilma Rousseff. Está com câncer linfático. Coisa sério, mas nem tanto, se comparada ao do seu colega de república José Alencar, o vice de Lula. Como descobriu no começo, o linfoma dificilmente irá matá-la. Mas vai ajudá-la a ganhar alguns votos.

Sabida do jeito que é, tratou de divulgar a doença para sensibilizar a mídia e o eleitorado. Tudo com ajuda do presidente Lula. Está conseguindo. Sobretudo porque conta com a ingenuidade dos meios de comunicação. Podem reparar. Todos caíram nas graça do linfoma da Dilma. Todos os dias falam nisso na TV, nas rádios e jornais. E perguntam ao Lula. E perguntam aos ministros. Até o Dirceu sentiu pena da sua substituta na Casa Civil.

Deram audiência a sua doença e estão ajudando a elegê-la em 2010. Coincidência ou não, o Data Folha saiu às ruas dois dias depois do Brasil saber que a "madrinha do PAC, preferida do Lula e pré-candidata à presidência" estava com câncer.

24 abril 2009

Retroceder nunca. Render-se, jamais!

Por Daniel Brito

Isso acontece muito em TV. A produção tem um super trabalho de fazer uma pauta bem amarradinha para o repórter só finalizar 'para as redes'. Mas alguma coisa no local não está conforme a previsão do produtor. É o suficiente para o preguiçoso ligar para a redação derrubando tudo:

- Olha, o entrevistado disse que tá com a voz rouca e quer que eu fale com o sub-gerente. Vou derrubar a pauta, viu?

Do outro lado, o pobre do produtor se esguela, educadamente, para que o repórter tenha bom senso e deixe de preguiça.

- Não, com o sub-gerente também dá. Pega as informações do gerente e faz a sonora com o sub, não tem problema...

O repórter já fica chateado achando que sabe mais que todo mundo e faz mesmo assim para não perder a razão.

É muito fácil identificar um derrubador de pautas. Aliás, é mais fácil ainda derrubar pautas. Quem nunca derrubou uma pauta que atire a primeira pauta.

Tudo é motivo para desmoroná-la:

Rouquidão, falta de tempo, muito barulho, perigo no local, dor de dente, coqueluche, têtano, difeteria...

Eu mesmo tenho vergonha de dizer que não consegui a informação pedida pelo chefe. Tenho mesmo. Não sou o maior exemplo de profissional, mas, né... Se eu chegar ao ponto de derrubar uma matéria foi porque eu tentei por todos os lados. Falei com o gerente, o sub, o faxineiro, a esposa do faxineiro, o ex-funcionário da empresa, o ex-vizinho do bisneto do fundador da empresa. Aliás, faço até um pouco de marketing pessoal quando vejo que as coisas não tão dando certo e, depois de determinado momento na apuração, começo a informar o editor passo a passo do processo. Até para não ser acusado injustamente.

Certa vez, me pediram para falar com o filho de um cara famoso que havia sido internado após uma overdose. Não fazia a mínima idéia de encontrar o garoto. Liguei para os ex-companheiros de trabalho do drogado, apurei alguma coisa para compor o texto. Liguei para o trabalho do filho, mas não obtive informações. Uma alma bondosa veio do outro canto da redaçào e me passou o telefone do garoto (garoto entre aspas).

Depois de 87 ligações em vão (Claro informa, este número não existe), desisti e avisei que tinha só o miolo do texto. O abre, o depoimento do filho, não havia conseguido e pedi para o chefe ligar naquele número para comprovar que ele não batia bem da cuca (ele que eu digo é o número). O editor entendeu e me pediu apenas dois singelos parágrafos sobre o fato. Alguém se contorceu para tentar falar com o rapaz...e não conseguiu também.

O ato de desconstruir pautas com justificativas tão ridículas gera uma cultura muito inconveniente para as demais gerações. Todo mundo já ouviu um repórter reclamar:

- Meu jornal é o único em que o editor não confia na palavra do repórter.

Certamente porque o reportareado de décadas atrás deve ter mentido tanto e levado tanto furo por causa desse jeito acomodado de ser, que os chefes perderam a confiança em seus subordinados. E a gente sabe que confiança só se dá uma vez, não é verdade?

Bom, graças aos preguiçosos que surgiu essa vertente tào óbvia do jornalismo: o investigativo.

Ora, se é jornalismo, é porque teve apuração.

Se teve apuração, não deixa de ser uma espécie de investigação.

Acontece que tem tanta gente engolindo o oficial - aquela meia verdade (ou meia mentira) que vem nos releases - que o ato de futucar um pouquinho mais a fonte para descobrir o que está por trás daquele texto oficial virou 'jornalismo investigativo'. Engolir o oficial é uma maneira de não derrubar a pauta não deixa de ser uma improvidência.

Ou seja, os mal apurados, os preguiçosos, os parasitas de redações deram aos interessados o direito de se enquadrar no jornalismo investigativo.

Mas é claro que o jornalismo investigativo é muito mais do que correr atrás das notícias fáceis mas disfarçadas. Mas isso é assunto para outro post...Deus sabe lá quando!