26 janeiro 2010

Jornalismo ou filantropia?

Pedro Henrique Freire*

Trabalhamos em jornais ou em ONGs? As vezes me pergunto isso. Por quê? Fatal ou naturalmente porque acredito que jornal ajuda as pessoas a (sobre)viverem num mundo desigual. Como? Resolvendo seus problemas. Jornais impressos, principalmente. Eles são documentos. Portanto, facilmente viram objetos de argumentação e retratos de situações, muitas vezes, difíceis.

Semana passada nos ocorreu um problema, a meu ver, grave. Recebemos uma denúncia de um morador lá dos cafundó. Bairro de periferia mesmo. O fato: vazamento de produtos químicos nos arredores de uma fábrica de refrigerantes. Segundo o rapaz, pessoas estavam sentido dores de cabeça e febre. Tudo por causa do "líquido avermelhado que invadiu os esgotos" a céu aberto da pobre comunidade.

Imediatamente acionamos um repórter bem informado para o local. Ele chegou lá, conversou com moradores, tirou fotos, gravou vídeos, confirmou o caso, ouviu a fábrica e voltou para redação. Antes do carro da reportagem chegar meu telefone já havia tocado. Era o departamento comercial. Pediu cautela e explicava: "Olha, essa fábrica é um grande patrocinador do nosso projeto tal, que beneficia crianças assim, assim, assado".

Bingo! A fábrica patrocina projetos filantrópicos mas prejudica a comunicade. Um tremendo vacilo. Mas tudo bem. O que faremos? Na segunda ligação, novo pedido do Comercial (agora com C maísculo): "Eles dizem que aquela água lá não prejudica ninguém. É coisa da comunidade. Não há nada comprovado que aquilo é tóxico ou coisa assim. É melhor não publicarmos".

Aprendi que em um jornal-empresa a necessidade de faturar sempre vence a necessidade jornalística. Mas nesse jogo eu sempre tento empatar. Falei, então, que não publicaríamos - e não o fizemos. Mas pedi que o departamento comercial enviasse a matéria pronta para a direção da fábrica e pedisse, sutilmente, que eles dessem outro fim para aquela água. Senão a comunidade não iria parar de reclamar, argumentamos. Eles se comprometeram.

Ao final, não conseguimos fazer jornalismo. Motivo de minha frustração. Mas não tivemos mais reclamação da comunidade. Então, acredito que alguma coisa conseguimos resolver. Fui dormir com a sensação de dever parcialmente cumprido e parcialmente envergonhado.

24 janeiro 2010

Tudo em nome de uma fonte

Por Jornalista*

É uma das lições basilares do jornalismo que uma boa fonte vale, para qualquer profissional de imprensa - seja ele da editoria de esportes, política, economia, policial ou social – um preço inestimável. O 'bom contato' e a relação de parceria podem render, no decorrer do tempo, boas matérias e muitas vezes bons furos de reportagens. No entanto, muitas vezes o jornalista se vê diante de situações onde há, inevitavelmente, duas alternativas: ou a informação é veiculada, podendo gerar um grande problema para a fonte e mais uma matéria de repercussão e importante para o currículo profissional do profissional; ou o texto não é publicado, mantendo assim as relações cordiais com a fonte.

Abaixo, relato resumidamente uma situação dessas que passei semanas atrás.

Tudo começou com uma longa conversa mantida com uma fonte policial considerada uma das mais bem informadas do Estado, na área de Segurança Pública, cujo nome, obviamente, não posso mencionar. Na conversa, o cidadão me relatou com riqueza de detalhes uma investigação que está em curso, tendo como objetivo desmantelar e identificar ramificações de uma poderosa organização criminosa nos presídios aqui da Paraíba. Só para ficar claro, o indivíduo é um dos coordenadores desse trabalho investigativo.

A fonte citou nomes, narrou episódios, disse locais e até mesmo adiantou algumas providências que já foram tomadas e irão ser adotadas no decorrer do caso. Para mim, assim como qualquer outro repórter que cobre a área policial, a entrevista representava uma grande 'bomba', que iria no decorrer dos dias repercutir em todo o Estado.

Entretanto, mesmo todo o diálogo sendo gravado, o sujeito me pediu por mil vezes que não publicasse o que acabara de me dizer. Aliás, pediu que publicasse, mas não atribuísse a ele algumas informações – tidas como mais preciosas. Caso eu veiculasse, disse ele “serei demitido e nosso trabalho irá todo por água abaixo”. Recebi, contudo, um conselho: “Rapaz, procure 'doutor fulano' e o 'policial beltrano' que eles também têm todas essas informações, e aí eles teriam mais subsídios e você iria confirmar tudo e fazer sua matéria”, pediu.

Diante da situação, não pensei duas vezes. Fui em busca das pessoas indicadas por meu interlocutor. Apresentei todo o material (informações que tinha recebido), fiz perguntas, explorei a fundo o tema tentando ter pelo menos uma declaração que fosse... que me servisse de base para iniciar minha matéria. Mas as tentativas foram fracassadas.. Ninguém teve coragem de abrir a boca e dizer nada a respeito...

Fui mais além. Busquei outras pessoas que poderiam ter informações sobre o caso. Expliquei, propus e até questionei pelo menos três autoridades sobre o caso, e mais duas fontes ligadas a entidades lidam com o sistema prisional paraibano. Mas não obtive sucesso.

Ainda cheguei a escrever a matéria, já que a entrevista havia sido gravada, tendo o cuidado de citar o nome da fonte somente nos pontos da matéria recomendados por ela e colocando os detalhes em nome da instituição a que ela pertence, responsável pela apuração. E depois apresentei à editoria. O texto, entretanto, prudentemente não foi publicado. Eu mesmo concordei e admiti que seria melhor, realmente, não veicular a matéria. Dentro da mim, até agradeci à minha editoria pela sensibilidade e a cautela de não soltar o material.
Fiquei imaginando nos desdobramentos que iriam acontecer, caso as informações fossem levadas ao público. Depois percebi que esse episódio me serviu bastante para compreender a importância das pessoas com as quais convivemos e trocamos informações, profissionalmente, chamadas no jargão jornalístico de 'fontes de informação'.

Muitas vezes é preciso entender que elas também possuem interesses, empregos, família, necessidades, medos. E que o material publicado por todos nós, da imprensa, pode comprometer ou até colocar em risco tudo isso. Para encerrar, apresento satisfeito o resultado: prudentemente minha matéria não foi publicada e não estampei a manchete na edição do dia seguinte. Entretanto, certamente conservei minha fonte e, na próxima vez que precisar bater na porta dela novamente em busca de notícias, encontrarei a fechadura aberta.

A investigação, contudo, está em curso. Ainda não perdi a esperança de poder confirmar as informações com outras fontes. Um dia, tenho certeza, a gravação me servirá bastante. Não desisti de publicar a matéria, apenas adiei por, quem sabe, alguns dias.

*O jornalista também preferiu não ser identificado para não atrapalhar o contato com a fonte.

06 janeiro 2010

Nossa língua portuguesa

Por Léo Alves

Nos Estados Unidos a população lê, em média, 11 livros por ano. Já os franceses leem sete livros por ano, enquanto na Colômbia, a média é de 2,4 livros por ano.

Um levantamento do Instituto Pró-Livro confirma que o brasileiro lê pouco. São 77 milhões de não leitores, dos quais 21 milhões são analfabetos. Já os leitores, que somam 95 milhões, leem, em média, 1,3 livro por ano. Incluídas as obras didáticas e pedagógicas, o número sobe para 4,7 – ainda assim baixo.

Não deveria ser, mas muitos jornalistas estão incluídos nas estatísticas divulgadas pelos instituto. Eu, por exemplo, costumava ler entre quatro e seis livros por ano. Em 2009 só cheguei a dois.

Faça um teste. Pergunte a seus colegas jornalistas (ou estudantes de jornalismo) quantos livros leram ano passado. Só não vale perguntar aquela colega de redação que gosta tanto de mentir que diz já ter lido até os livros que nem foram lançados.

Brincadeiras à parte, a falta de leitura leva a dificuldade na escrita. No caso dos jornalistas o problema se torna ainda mais visível. Afinal o texto é nosso instrumento de trabalho. São ideias confusas e o pior: erros de português simplesmente inadmissíveis para um jornalista.

Não quero aqui dizer que nunca errei. Muito pelo contrário. Já cometi vários erros de português. Basta dar uma olhada nos arquivos do jornal Diário da Borborema (de 2001 a 2005) que certamente encontrará alguns deles. O que quero dizer é que jornalista não pode errar português.

Pra mim jornalista que erra português é como médico que não sabe usar o bisturi. Conhecer a própria língua é básico (e fundamental) para quem vive das palavras.

Incomodado com os erros frequentes que tenho visto na imprensa de um modo geral fiz uma relação de palavras (erradas) escritas por jornalistas. Para não ser injusto só levei em conta as palavras escritas erradas mais de uma vez no texto. Isso para eliminar a hipótese de erro de digitação. Pra mim errou duas vezes é porque não sabe o correto.

Um aviso: não se assuste. Garanto que todas as palavras foram escritas por jornalistas formados (com diploma e tudo). E o pior é que quase sempre são os mesmos profissionais que assassinam o português na imprensa. Confira a lista. Algumas das palavras terei que escrever certo entre parênteses para não correr o risco de você não compreender.

Inchada (Enxada), Gol laço (golaço), Economisar, Puchada, Anciedade, Ancioso, Campião, Sinto (Cinto de Segurança), A ponta (aponta), Estrassalhada, Vejetação, Semitério, Paralização, Ascenção (ascensão profissional), Arquiólogo, Arquiologia, Desfarçassem, Celetivo, Manutensão, Despensam, Rapousa, Enfantaria, Asteamento, Disperdiça, Vaqueijada, Cirene, Cemente, Restão, Seram (serão).

É preciso escrever mais alguma coisa?

03 janeiro 2010

Jornalismo é artigo de luxo

Por Daniel Brito

O mundo desaba na Região Sudeste do Brasil. Verão sim, outro sim, as chuvas 'castigam os moradores das áreas de risco', perto das encostas e em bairros ribeirinhos. Neste ano, a tragédia atingiu uma pousada de alto luxo e matou (até minha última lida no noticiário) dez pessoas em uma ilha paradisíaca. No continente, foram mais de 30 mortos.

O que a gente vê no jornais no dia seguinte?

"Chuva provoca desabamento e 10 pessoas morrem em pousada de luxo".

Esqueceram-se dos pobres, cujas vítimas estão em maior número. Claro, o jornal não é feito para eles. Primeiro porque os pobres não são nem nunca foram público alvo de jornal algum. Talvez para TV e jornaizinhos (no tamanho) populares, mas a TV e os populares também entraram na onda da manchete para os ricos.

Há vários casos parecidos.

Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos quase um mês depois das eleições municipais no Brasil, em 2008. Os jornais de São Paulo deram muito mais destaque à eleição de Barack do que à disputa nas prefeituras de Osasco, Barueri, Santo André, São Caetano do Sul, São Bernardo, Suzano, Diadema...

Bueno, se formos pensar de forma prática, o destino das cidades vizinhas à grand ciudad tem muito mais relação com a vida prática dos seus habitantes do que o destino dos Estados Unidos. Tudo bem que a economia (não só ela) dos USA pode interferir na vida daqui, como rolou em 2009, mas os investimentos das cidades vizinhas em educação, saúde, transporte e segurança podem fazer uma tremenda diferença na qualidade de vida dos moradores de SP. E a vigilância dos meios de comunicação nos governos municipais seria primordial para o bom desenvolvimento da região.

Um ricaço foi brutalmente assassinado na porta de uma padaria no bairro dos judeus (logo, bairro de ricos) em SP. Motivo banal, discussão besta. Levou uma facada e não resistiu ao ferimento. No dia seguinte, jornais e TVs trataram o caso como o absurdo da existência humana. E o noticiário se estende até hoje...

Claro, não deixa de ser uma absurdo, mas não deixa de ser um crime corriqueiro na Zona Leste de São Paulo, no Entorno de Brasília, nos morros do Rio de Janeiro. Assassinatos como este ocorrem aos montes nos intestinos do país. A diferença é que desta vez a vítima foi um de nós, alguém da classe média, no caso dele, classe média-alta ou classe alta-altíssima.

Retratar a miséria do povo soa como apelativo, talvez por isso a opção por noticiar o mundo a partir da classe média para cima. Noticiar o sofrimento dos pobres não gera tanto interesse quanto dos que têm mais dinheiro. A imposição das notícias do Brasil classe média acaba criando esse preconceito silencioso contra os pobres do país. O mercado publicitário não quer vender seus produtos aos pobres.

Os pobres soterrados pela chuva, os serviços públicos das cidades periféricas, os mortos nas favelas, não têm a menor importância para os veículos de comunicação, a não ser para estatísticas ou 'grandes reportagens especiais' feitas exclusivamente para ganhar prêmios.

Como disse Durval Barbosa, 'pivô do escândalo do mensalão no governo de Brasília', o povo não lê jornal, limpa a b*nda com ele.