Pedro Henrique Freire
Além de se apegar ao cargo que ocupa, o senador Renan Calheiros, presidente do Senado, agarrou com unhas e dentes uma velha máxima que ronda as terras por onde cresceu e foi eleito, Alagoas: “o sertanejo é acima de tudo um forte”. Há mais de dois meses sendo bombardeado pela imprensa e tendo sua vida pessoal e política devassada pela justiça, polícia e, claro, pela mídia, ele ainda resiste. Sobe ao plenário e tenta transferir aos pares a idéia de solidez, tranquilidade e força.
O Conselho de Ética da Casa recebeu há pouco mais de uma semana a terceira representação contra o senador. Abriu-se, então, o terceiro processo. Jamais um presidente do Senado respondeu a tantos deles e, ainda assim, continuou no posto por tanto tempo. Dessa vez, vão querer saber se Renan comprou rádios e jornal usando laranjas.
Parte daí, então, a seguinte leitura: o presidente do Senado não abre mão do cargo, mas será morto politicamente por culpa dele e por insistência da mídia. Explico. O primeiro processo que Renan responde é por ter, supostamente, pago pensão à filha que tem com a jornalista Mônica Veloso (olha a mídia ai!) com o dinheiro de um lobista muito chegado. O segundo é por ter, também supostamente, ajudado a cervejaria Schincariol a se livrar de dívidas milionárias. E o terceiro pela compra de jornais (de novo a mídia ai!).
Soma-se a isso o fato de que os três processos foram abertos com base em reportagens da revista Veja (mídia de novo!). Conclui-se, caro leitor, que Renan Calheiros corre o risco de perder o mandato por amar e odiar demais ela, a mídia.
A afeição era antes. Mas, agora, o processo se inverteu. A estratégia sentimental do senador permear o ódio. E ele tem motivos para se voltar contra os orgãos de imprensa. A mãe de sua filha, uma jornalista, denunciou e começou a desmontá-lo politicamente. Uma das revistas de maior circulação do país não larga do seu pé e colabora fortemente para arrebentar sua carreira. E, para completar, os veículos de comunicação que estão em nome do seu filho mais velho são objeto da investigação que pode derrubá-lo.
Renan já começou a transformar ressentimento em resultado prático. Avisou que vai processar a Veja e denunciá-la por fazer, supostamente, negócios ilícitos na compra de um canal de TV. Disse isso nos três discursos que fez atacando a linha editorial da revista. Mas quando desce da tribuna e avança pelo salão azul do Senado, o presidente abre o sorriso, bate a mão para jornalístas, pára e começa a responder seus questionamentos. Uma relação de amor e ódio, ou pura necessidade.
Hoje, a estratégia que ele julga correta para escalar o poço de lama ao qual mergulhou após a primeira denúncia vir à tona, é preservar o espírito sertanejo para manter-se como presidente. Mas, ao não querer largar o osso, dá um péssimo exemplo: a clara e irracional demonstração de apego ao poder. Isso irrita seus colegas, paralisa os trabalhos no plenário, oriça a mídia, sempre ávida por notícias, e faz Renan se afundar ainda mais. Ele está com o olhar turvado pelo ódio e pelo espírito sertanejo, que não lhe deixa abandonar a batalha, mas permite feridas incicatrizáveis. Só pode ser isso.
*Artigo publicado no jornla O IMPARCIAL (MA)
Trem bala (cover)
Há 9 anos