25 agosto 2007

Renan ama, e odeia, a mídia*

Pedro Henrique Freire

Além de se apegar ao cargo que ocupa, o senador Renan Calheiros, presidente do Senado, agarrou com unhas e dentes uma velha máxima que ronda as terras por onde cresceu e foi eleito, Alagoas: “o sertanejo é acima de tudo um forte”. Há mais de dois meses sendo bombardeado pela imprensa e tendo sua vida pessoal e política devassada pela justiça, polícia e, claro, pela mídia, ele ainda resiste. Sobe ao plenário e tenta transferir aos pares a idéia de solidez, tranquilidade e força.

O Conselho de Ética da Casa recebeu há pouco mais de uma semana a terceira representação contra o senador. Abriu-se, então, o terceiro processo. Jamais um presidente do Senado respondeu a tantos deles e, ainda assim, continuou no posto por tanto tempo. Dessa vez, vão querer saber se Renan comprou rádios e jornal usando laranjas.

Parte daí, então, a seguinte leitura: o presidente do Senado não abre mão do cargo, mas será morto politicamente por culpa dele e por insistência da mídia. Explico. O primeiro processo que Renan responde é por ter, supostamente, pago pensão à filha que tem com a jornalista Mônica Veloso (olha a mídia ai!) com o dinheiro de um lobista muito chegado. O segundo é por ter, também supostamente, ajudado a cervejaria Schincariol a se livrar de dívidas milionárias. E o terceiro pela compra de jornais (de novo a mídia ai!).

Soma-se a isso o fato de que os três processos foram abertos com base em reportagens da revista Veja (mídia de novo!). Conclui-se, caro leitor, que Renan Calheiros corre o risco de perder o mandato por amar e odiar demais ela, a mídia.

A afeição era antes. Mas, agora, o processo se inverteu. A estratégia sentimental do senador permear o ódio. E ele tem motivos para se voltar contra os orgãos de imprensa. A mãe de sua filha, uma jornalista, denunciou e começou a desmontá-lo politicamente. Uma das revistas de maior circulação do país não larga do seu pé e colabora fortemente para arrebentar sua carreira. E, para completar, os veículos de comunicação que estão em nome do seu filho mais velho são objeto da investigação que pode derrubá-lo.

Renan já começou a transformar ressentimento em resultado prático. Avisou que vai processar a Veja e denunciá-la por fazer, supostamente, negócios ilícitos na compra de um canal de TV. Disse isso nos três discursos que fez atacando a linha editorial da revista. Mas quando desce da tribuna e avança pelo salão azul do Senado, o presidente abre o sorriso, bate a mão para jornalístas, pára e começa a responder seus questionamentos. Uma relação de amor e ódio, ou pura necessidade.

Hoje, a estratégia que ele julga correta para escalar o poço de lama ao qual mergulhou após a primeira denúncia vir à tona, é preservar o espírito sertanejo para manter-se como presidente. Mas, ao não querer largar o osso, dá um péssimo exemplo: a clara e irracional demonstração de apego ao poder. Isso irrita seus colegas, paralisa os trabalhos no plenário, oriça a mídia, sempre ávida por notícias, e faz Renan se afundar ainda mais. Ele está com o olhar turvado pelo ódio e pelo espírito sertanejo, que não lhe deixa abandonar a batalha, mas permite feridas incicatrizáveis. Só pode ser isso.

*Artigo publicado no jornla O IMPARCIAL (MA)

18 agosto 2007

Operários da Notícia

Por Léo Alves

Há quase quatro anos divido com os alunos da Universidade Estadual da Paraíba a minha (pequena) experiência no jornalismo. Nas aulas, procuro sempre trazer um pouco da rotina de um jornalista.

Conto histórias, escuto as curiosidades dos alunos, mas também observo o comportamento deles.
Confesso que durante esse tempo percebi que parte dos alunos está no jornalismo porque se trata, na visão deles, de uma profissão cheia de privilégios. Pensam apenas no reconhecimento que a profissão pode lhes proporcionar.

Esquecem do ônus.

Para alguns, a notícia é construída sem esforço, sem apuração. Ainda na faculdade se mostram jornalistas preguiçosos em pontecial. Não foi apenas uma aluna que me entregou reportagens copiadas da internet.

Descobri com a ajuda do Google.
Nesse caso a nota não passa de zero.

A maioria aprende a lição.
Pelo menos comigo nunca mais repete o erro.

Mas a preguiça -- iniciada na faculdade -- acaba acompanhando aqueles que decidem se tornar repórter depois de formado.

Aqui em Campina Grande, por exemplo, tenho observado que alguns repórteres dessa safra mais recente não gostam de apurar e, acredite, de escrever.

Preferem se deleitar com os falsos privilégios da profissão. Comento muito com meu editor que hoje em dia faltam operários da notícia. Faltam repórteres que, com apenas uma linha de pauta, consiga trazer para a redação uma excelente matéria.

Os novatos querem tudo mastigado. Uma pauta com as informações para ele apenas organizar o texto (quando muito). Para os preguiçosos “perder tempo apurando uma notícia dá muito trabalho”. Eles esquecem que uma boa matéria só vem com muita apuração.

Porém estão mais preocupados em exibir o crachá de jornalista como fazia aquele personagem de Chico Anísio, o Bozó.

É a vaidade que toma conta de alguns profissionais.

Um trecho do livro “O Reino e o Poder” de Gay Talese explica um pouco o motivo de tantos jornalistas serem picados pela mosca da vaidade:

“O jornalista é um aliado importante da ambição, é o acendedor de estrelas. É convidado para festas, cortejado e cumprimentado, tem acesso a telefones que não constam da lista e a muitos estilos de vida. Pode mandar para os Estados Unidos uma matéria provocativa sobre a pobreza na África, sobre distúrbios e ameaças tribais, e depois dar um mergulho na piscina do embaixador. Às vezes, o jornalista pode supor erroneamente que é seu charme, e não a sua utilidade, que lhe rende esses privilégios; mas, em sua maioria, são homens realistas que não se deixam enganar pelo jogo. Eles usam tanto quando são usados”.

Para nosso consolo, ainda existem aqueles que não se deixam enganar pelo jogo.
Para nosso consolo, ainda existem aqueles que passam horas, dias, semanas, apurando, checando, escrevendo.
Tudo para levar ao leitor uma notícia de qualidade.

Para nosso consolo, ainda existem aqueles que encaram o jornalismo como uma profissão.

Esses são os operários da notícia. Que, para nosso consolo, nunca vão deixar de existir.

12 agosto 2007

"...João olhou para as bandeirinhas..."

Por Daniel Brito

Desde que me mandaram o link no You Tube do 'clipe' de Faroeste Caboclo (http://www.youtube.com/watch?v=RLG1qUaOi08&mode=related&search=), alguns trechos da música de Legião Urbana ficaram grudados na minha mente.

Certo dia, em pleno Jogos Pan-Americanos, cantarolava pela Linha Amarela:

"..Sentindo o sangue na garganta João olhou para as bandeirinhas e pro povo a aplaudir. Olhou para o sorveteiro, para as câmeras e para a gente da tevê que filmava tudo ali...".

Não sou daquele tipo de gente que fica cantando enquanto trabalha, mas exatamente este trecho me veio à mente em um dia na competição de judô. O brasileiro que disputava a final chamava-se João Gabriel.

Após o empate com o cubano nos cinco minutos iniciais, eles foram para o golden score, ou seja, quem aplicasse o primeiro golpe corretamente em mais cinco minutos seria declarado o vencedor. Se a igualdade persistisse, a decisão seria dos juízes, um de pé e dois nas cadeiras. Há um nome técnico para este momento na modalidade, mas eu admito, não sei.

Anyway, o tal do joão judoca empatou com o cubano no tempo normal e na 'morte súbita'. os juízes decidiriam o medalhista de ouro levantando a bandeirinha da cor do kimono. O central levantou a bandeira branca, de João, e os de cadeira, atrás dos dois lutadores, levantaram a azul, do cubano.

Por engano, o árbitro central apontou para o brasileiro como vencedor, mas, diante do silêncio do ginásio, da cara de incredulidade do cubano e do brasileiro, olhou para seus auxiliares e reconheceu o erro. Colocou o braço direito, que indicava vitória de João, junto ao corpo e, com o esquerdo apontou o verdadeiro vencedor.

Foi uma cena típica de comédia pastelão. O árbitro, como já era de se esperar, foi vaiado.

Na hora de escrever a matéria, queria muito fugir do lead tradicional. "O brasileiro João Gabriel perdeu a medalha de ouro, ontem, porque o árbitro bla-bla-bla". Na hora de sentar na cadeira e escrever a matéria, todos os meus dois neurônios repetiam a frase:

"...João olhou para as bandeirinhas e para o povo a aplaudir..."

Perdi mais de 45 minutos sentado, em frente ao laptop, com meu deadline me esfolando, tentando agradar meus neurônios. Queria fazer a matéria parafraseando Renato Russo. Era uma situação muito parecida.

Tive dificuldades na hora de substituir apenas os dois trechos:

- o sangue na garganta
- o povo a aplaudir

João judoca não estava sangrando. O povo não estava aplaudindo, e sim, sem entender a decisão do árbitro.

Escrevia uma linha.

Apagava.

Dava CTRL+z no teclado.

Tentava readaptar.

Mas apagava.

Como se diz na minha pequenina, porém heróica, terra natal, foi um vai-e-vem danado no texto.

Sem resultado.

Optei pelo lead feijão-com-arroz.

Fim de papo.

06 agosto 2007

O momento em que bate o cansaço

Por Daniel Brito

O ritual se repetiu em 20 das 25 noites que ficamos no Rio de Janeiro:

um caldo de feijão, uma carne com batatas, um suco de laranja, e, por fim, um chopp.

Ao lado dos repórteres Ivan Drummond, Eneila Reis e do fotógrafo Emmanuel Pinheiro, eu jantava em um restaurante na esquina do hotel em Copacabana para finalizar mais um dia de cobertura dos Jogos Pan-Americanos para o Correio Braziliense e Estado de Minas.

O jantar era sempre depois das 22h30, horário em que todas as matérias já haviam sido lidas e colocadas nas páginas pelo diagramador em Brasília e Belo Horizonte. Ele (o jantar) decretava o fim do expediente, que mais parecia uma semana, de tantos acontecimentos, entrevistas e textos feitos nas últimas 12 ou 14 horas de trabalho.

Um dia de cobertura do Pan era uma das coisas mais desgastantes que já passei na vida. Imagino que em outros eventos como Copa do Mundo, Olimpíada, até uma CPI mesmo, seja tão ou mais cansativo.

Pois bem.

Depois daquele chopp diário (ou noturno), me batia um sono incontrolável. Uma coisa de pagar a conta na mesma hora e seguir para o hotel com os olhos semi-cerrados, evitando conversar para não parecer um sonâmbulo.

Todos-os-dias-foram-assim.

O chopp, uma caneca só, parecia uma dose de Boa Noite Cinderela.

Na manhã seguinte, ficava repensando tudo que fiz no dia anterior. Tentava lembrar o exato momento em que o cansaço me apanhava de tal maneira para me nocautear com tanta facilidade após um humilde choppinho???

Não era a viagem de uma hora de ônibus oficial do Pan até Jacarepaguá;
Não era a conversa com meu editor pela manhã para saber o que eu deveria cobrir a cada dia; Não era o trânsito no Rio de Janeiro;
Não eram os jogos e apresentações; não era o calor da zona mista, onde os jornalistas se acotovelam para entrevistar os atletas antes da coletiva;
Não era o momento em que tinha que escrever a matéria....opa...peraí.

Era isso.

Era o texto.

É o texto.

Tudo que se apure nas coletivas de imprensa, nas espremidas entrevistas na zona mista está, antes mesmo de sua matéria chegar na caixa de email da redação, em T-O-D-O-S os sites de esporte do país.

Então, por que, ora bolas, o jornal investe uma grana alta para me trazer para cá, para o Rio de Janeiro, se tudo que eu apurar estará mais rápido na redação do que o meu próprio texto?

Simples.

Porque o jornal quer um texto diferente, quer detalhes que a rapidez do jornalismo na internet não capta. O jornal aposta que você pode conseguir informações que nenhum outro jornalista conseguiu.

Pensando nisso, passei a prestar atenção nos detalhes. No comportamento da jogador na hora de falar com o treinador, na reação da torcida a cada erro, na maneira como fulaninha olha para o nada quando fala com os jornalistas.

É uma coisa meio de psciologa comportamental.

Ao final do jogo, da zona mista, da coletiva, eu tinha reunido tantas informações que precisava reler as 10, 15 páginas do meu bloquinho para selecionar as principais. Era nesse exato momento em que meu cérebro atingia o ápice do esforço. Ele chegava a mil rotações por minuto com a obrigação de fazer a diferença.

Daí eu me lembrava dos livros que li recentemente, para tirar exemplos legais de narrativas interessantes. Puxava pela memória roteiros de filmes instigantes, até letra do Legião Urbana eu tentei implementar no meu texto mas faltavam algumas rotações no meu cérebro para atingir o nível de adaptar uma história de Renato Russo aa vida real e ao meu texto, claro (depois conto essa história).

Quando terminava de escrever, estava esbaforido. Parecia que tinha corrido atrás de Franck Caldeira pelos 42km da maratona e depois, nadado 10km na maratona aquática com Poliana Okimoto.

Não sei se consegui fazer diferente dos demais jornais, só sei que quero recuperar a disposição para tomar mais de um chopp por noite sem capotar de sono.