22 abril 2008

Jornalismo, emprego e Fórmula 1

Por Pedro Henrique Freire

Eu troco pouco de emprego. Comparado a vários colegas e amigos jornalistas que tenho e conservo. Quando fui contratado como repórter pela primeira vez, conheci um grupo bom. Éramos uma equipe animada e competente. Aos poucos, ela se desfez. Uns pediram demissão, outros foram demitidos. Achei que pudesse ser um fenômeno atípico. Que nada. Isso é da nossa profissão. Uns saem, outros entram.

Aliás, muitas profissões são assim: rotatividade pura. O que é hoje não é amanhã. Tive oportunidade de conversar com alguns desses amigos jornalistas justamente no momento de transição. Desde que receberam a proposta até deixarem o emprego, por exemplo.

Em todos os casos, nunca vi alguém mudando pra pior. Mas, sempre com aquele discurso: “Vale arriscar! Estou novo”. Exatamente isso. Vale mesmo. Acho que passar por diferentes ambientes de trabalho é extremamente proveitoso. Só enriquece nossa capacidade de conviver em equipe, entender os limites das diferentes empresas e, claro, ser chefe.

E aqui enfatizo: ambientes diferentes nos trazem experiências diferentes. No final delas, nossa bagagem é grande e capaz de perceber (e resolver) os problemas com mais facilidade.

Pense na Fórmula 1: imagine um piloto que correu a vida toda no GP do Brasil. Quando ele chegar em Mônaco, ficará perdido. Correrá mal. A resposta é fácil: ele só correu em uma pista. Acostumou-se as mesmas subidas, descidas, direitas e esquerdas. Com um tempo, automatizou seu serviço. Ou seja, continuou pilotando, mas sem inovar na postura, empenho e idéias.

É uma comparação meio esdrúxula. Mas trocar de emprego, em jornalismo, quase sempre evita a acomodação, nos impõe novos desafios e acaba por nos atualizar e fazer crescer. É uma visão otimista, claro. Mas é meu modo de entender isso.

Não trocar de emprego, hoje, é uma das minhas maiores angústias. Trabalhei, firme, em três lugares. E na empresa onde me encontro agora, pretendo ficar a vida toda. Não por acomodação. Mas porque meu desafio é esse. E enfrentá-lo talvez seja bem mais difícil que pular de emprego em emprego.

Mesmo assim, continuo com a certeza: se trabalhasse em mais jornais (grandes, pequenos e médios) e mídias distintas, teria uma bagagem e tanto. No futuro, seria um melhor profissional.

***

Tenho curiosidade de colher alguns testemunhos dos amigos que deixaram o emprego com um friozinho na barriga nos últimos meses. Dos mais antigos com os quais conversei só ouvi coisas boas. Estranharam o novo habitat, claro. Mas acabaram confirmando e aprovando a decisão que tomaram.

Mudar na carreira é algo que muitos evitam. Mas todos precisam. Aprovo sempre a decisão do funcionário que abraça novos desafios, muda de emprego, de vida, sem medo de errar. Por isso, se um dia eu for chefe, direi ao funcionário que me pedir pra sair a mesma coisa que ouvi da minha chefe no meu penúltimo emprego:

“Olha, não posso segurar você. E fico muito feliz que tenha sonhos assim e corra atrás. Torço por você e acho mesmo que deve enfrentar esses desafios. Por aqui, as portas estarão sempre abertas”.

17 abril 2008

Eu vivo para trabalhar

Por Daniel Brito

Todo dia eu faço tudo sempre igual, me sacudo às 8h da manhã....

Desço na banquinha, na Venâncio Aires, sete andares abaixo da minha janela, e compro o JT e o Estadão. Leio o caderno de esportes dos dois de cabo a rabo. Vejo as fofocas em Variedades no JT, folheio as notícias sobre o trânsito e passo para o Estadão. Leio as colunas do caderno de Cultura, as críticas de cinema e passo para Economia. Passo os olhos no noticiário, demoro mais cinco minutos no caderno de cidades e vou para o primeiro caderno. Leio a editoria de Internacional, dou uma bizurada em política e paro nas páginas 2 e 3 para ler Opinião.

Enquanto acesso aa internet, ligo no SporTV para saber o que rolou nos outros jornais. Almoço pensando na pauta do dia e chego no jornal com pelo menos um texto na cabeça.

Depois de oito, nove horas de expediente, volto para casa pensando no que escrevi.

Resumindo: eu vivo para trabalhar.

Dizem que os cariocas são os que melhor sabem viver, porque, sabem exatamente o que fazer quando não estão trabalhando. Vão malhar, vão correr com o cachorro na praia, vão remar na Lagoa Rodrigo de Freitas, vão tomar UM chopp, vão escalar a Pedra da Gávea...opção não falta!

Eu realmente admiro as pessoas que sabem encaixar a vida normal aos horários do trabalho. Porque, no final das contas, todo mundo vive para trabalhar. No meu caso, eu não reclamo porque fico muito satisfeito quando produzo algo novo. E o jornalismo me dá essa possibilidade.

Não é o caso de um cara que trabalha numa empresa de contabilidade, que passa 15 dias preparando um balancete, ou até mesmo um arquiteto - que é uma profissão sensacional - que demora meses produzindo um super-prédio no estilo neo-clássico. Ou até mesmo um bancário, que todo dia salva ou mata vida de um monte de gente, mas faz algo todo dia, nao é verdade, Da Silva?

No jornalismo tem aquela história de que tem que ser "repórter 24 horas por dia". Se cair um avião aqui em cima da banquinha na Venâncio Aires, agora de madrugada, eu vou lá embaixo apurar de qualquer maneira e NÃO vou cobrar hora extra. Muito pelo contrário.

Bom, deixa eu encerrar o assunto de hora extra nesta linha porque isso é muito controverso para jornalistas.

Aliás, se cair um avião na banquinha da Venâncio Aires, minha rotina vai mudar porque vou ter que procurar outro lugar para comprar o jornal.

Anyway, minha vida é regida pela redação. Pelos horários, temas, furos sofridos, entrevistas para cavar...

Todos os dias eu chego aa conclusão de que poderia ter feito muito melhor daquele jeito ou daquele outro. Durmo pensando no texto que vai ser publicado, para no outro dia acordar aas 8 da manhã e começar tudo de novo!

13 abril 2008

Terroristas para os chineses

Por Daniel Brito

Quem reclama do imperialismo norte-americano, mudaria de opinião se o imperialismo dominante fosse o chinês. Olha a confusão no Tibete aí para não me deixar mentir.

Antes que me xinguem de "amigo do rei", deixe-me esclarecer que foi o exemplo mais prático que pude encontrar para entrar no assunto da China. Essa comparação, inclusive serve para um post futuro (todos os posts deste blog ficaram para o futuro. Uma pena...) sobre a briga Record x Globo.

Aliás, se a Olimpíada de 2008 fosse nos Estados Unidos, o mundo pediria boicote ao evento por causa da ingerência norte-americana no Iraque, por exemplo?

Humpf...

Mas o governo chinês já encontrou um culpado para o caso de seus jogos olímpicos ficarem marcados por protestos, revoltas populares e invasões: a imprensa internacional.

A partir do momento que as agências repassam para o resto do planeta as imagens e notícias de tentativa de sabotagem da inocente tocha olímpica nas ruas das cidades mais simbólicas do planeta, elas incentivam mais e mais protestos.

Quando a tocha desfilou escoltada por dezenas de soldados na Inglaterra ou na França, não me lembro bem, uma atleta paraolímpica da China chegou a abraçar a tocha para evitar que alguém tentasse roubá-la de suas mãos. Essa atleta virou heroína para os chineses. O gesto foi bonito, mas no mesmo dia os jornais de lá noticiaram outra história além disso.

Eles preferiram mostrar o lado festivo do evento e criticaram o que chamaram de atitude ''desprezível'' dos grupos pró-Tibete. "Os protestos foram 'irrelevantes e insignificantes'', lembrou uma reportagem, que copio e colo aqui.

Para o governo, controlar os chineses, tudo bem...A começar pela imprensa. Até porque, a maior parte dela é oficial. O grande lance vai ser evitar os gringos, que vêem como combustível as notícias de protesto com amplo destaque pelo mundo afora.