28 maio 2006

Meu primeiro artigo

Daniel Brito

Recebo uma ligação de Ana Dubeaux no meu celular no último dia 17 de maio. Estava preocupada comigo, queria saber se estava tudo bem e se eu, por acaso, me encontrava em condições de escrever sobre a situação que passara na noite anterior.

Era a primeira vez que Ana Dubeaux ligava no meu celular. Ela é a segunda pessoa mais forte na redação do Correio Braziliense. É editora-chefe e, apesar de ser uma pessoa receptível, lida mais com os chefes da redação (editores).

Eu estava em Franca, cidade no interior de São Paulo, para fazer a cobertura da semifinal do Campeonato Brasileiro de basquete. Passara 12 horas dentro de um ônibus no trajeto de Brasília até o interior paulista. Apenas 20 minutos dentro dessas 12 horas motivaram a ligação de Ana Dubeaux para mim.

Ela queria saber se poderia escrever o que se passou nestes 20 minutos comigo.

Como era a primeira vez que ele conversava comigo sobre jornalismo, claro, concordei na hora.

Tá curioso, né, para saber pelo que passei?

Leia o "tistimunho" abaixo:

Uma fração de segundos diante de um assaltante armado é suficiente para decidir ser honesto, malandro ou herói. Até onde pude, tentei ser honesto, na madrugada de terça-feira para quarta-feira, em algum lugar no interior de Minas Gerais.

Conversava sobre filmes de terror com o jornalista Bruno Moraes, do Jornal de Brasília, quando ouvi um disparo. O pior é que não era filme de terror. O tiro saiu de dentro de um Tempra de cor vinho, acertou de raspão o retrovisor esquerdo do ônibus da Real Expresso e o forçou a parar.

O ônibus saíra de Brasília na noite de de terça com destino a Franca, no interior de São Paulo e tinha exatamente 20 passageiros. Bruno correu para a última poltrona do veículo enquanto eu olhava três bandidos entrarem encapuzados. Um deles "cuidou" do motorista e os demais fizeram o rapa nos viajantes.

Até os marginais chegarem ao meu assento, próximo ao fundo do ônibus, vi todas as opções possíveis passarem pela minha cabeça: Quebrar a janela e sair correndo;partir para a briga e desarmar um dos assaltantes;entregar tudo;esconder tudo.

As duas primeiras idéias foram descatardas tão logo me deparei com uma pistola prateada a um metro do meu nariz. Eu estava disposto a entregar dinheiro, celular, cartões de crédito e até o laptop que levara na mochila para escrever as reportagens sobre o Hexagonal Semifinal do Campeonato Brasileiro de Basquete, que começou ontem, em Franca. O mais nervosinho dos assaltantes intimidava senhores de idade avançada nas poltronas da frente do ônibus colocando a arma na cara deles. Às vezes, passava uma orientação ou outra ao "Truta".

Truta era o ladrão resposável pelos assentos dos fundos, onde eu e Bruno estávamos. Visivelmente inexperiente, ele virava as costas com freqüência para as vítimas. Foi em um desses momentos de desatenção que decidi ser (um pouco) malandro. Escondi cartões de crédito na bermuda e joguei a carteira com apenas R$ 6 na sacolinha de Truta.

"Você tem celular", perguntou o marginal, em tom até educado para um assaltante. Disse que sim e emendei uma conversa. "Será que eu posso pegar minha carteira de habilitação, pelo menos? Vocês não vão precisar dela...". Em uma resposta surpreendentemente amistosa, o marginal ainda me deu conselhos: "Faça o seguinte, pegue teus cartões, documentos e ticket alimentação porque a gente não quer isso mesmo".

Depois disso, Truta foi recolher relógios e alianças dos passageiros, coisa que esperava-se que fosse feito logo no começo do assalto. Aproveitei mais um momento de desatenção para esconder também o meu relógio. O nervosinho na frente do ônibus me viu de mão abaixada e apontou a arma para minha cara aos gritos. Mas ficou só na ameaça.

Na hora de ir embora, Truta e seu comparsa levaram todas as bolsas que estavam no bagageiro, sem ferir nem atirar em ninguém. Entre as mochilas, estava a minha, com laptop, óculos, livro sobre a Copa do Mundo, e meu inseparável bloquinho de anotações. O curioso é que 30 segundos antes de embarcar no ônibus em Brasília, ainda no início da noite de terça-feira, tirei o laptop da mala -- que seguiu viagem no compartimento de bagagem -- e coloquei na mochila. Pensava que ali, o computador estaria mais seguro.

Se tivesse a oportunidade de ser honesto com Truta de novo, pediria, pelo menos, meu bloquinho de volta. Mas nem todas as verdades podem ser ditas, principalmente para um assaltante com a arma apontada para seu nariz.

Esse texto foi publicado no Correio Braziliense de sexta-feira, 18 de maio de 2006. Fui assaltado e fiz um relato do que aconteceu dentro do ônibus.

O repórter da editoria de Cidades que ficou encarregado de escrever a reportagem sobre a onda de assaltos nas estradas próximas ao DF, Leandro Bisa, gostou do texto, mas disse que eu precisava dar um tom mais dramático à narrativa.

Meu chefe, Paulo Rossi, disse que gostou (!?!), mas mudou o lide e o desfecho (Será que gostou mesmo?). No Correio Braziliense do dia seguinte, o início do meu texto saiu dessa maneira:

Uma fração de segundos, diante de um assaltante armado, para decidir como reagir. tempo que tive, na madrugada de terça para quarta-feira, dentro de um ônibus, em algum lugar no interior de Minas Gerais.

O final do relato ficou da seguinte maneira:

Se tivesse a oportunidade de conversar com Truta de novo, pediria, pelo menos, meu bloquinho de volta. Mas nem tudo pode ser dito, principalmente para um assaltante com a arma apontada para seu nariz. Numa fração de segundos, uma decisão errada pode ser fatal.

Rossi editou meu artigo porque disse que eu parecia complacente (é assim que se escreve essa palavra) com a ação dos bandidos. Tentei argumentar, mas minhas explicações não lhe pareceram convincentes.

Honestamente, gostei do meu texto. Estou abrindo o jogo aqui. Sempre tive a ilusão de que poderia escrever crônicas, artigos, sei lá, qualquer coisa fora do Hard News. Este blog mesmo é um dos maiores professores que tive no ato de contar histórias. Quando escrevia o relato do assalto, só pensava em contar essa história aqui para os Filhos da Pauta, mesmo sem saber direito quem lê isso aqui, se lê, como lê e o que acha dos meus textos, do Grande Pedro e de Da Silva.

Sim, deixando o sentimentalismo de lado (quase eu choro escrevendo o parágrafo acima). Eu discordo (aprendi, Sombra!) que tenha parecido complacência minha, mas manda quem pode e obedece quem tem juízo. Principalmente quando você tem certeza absoluta que o texto será lido pelos chefes da redação.

Cartão amarelo para os jornalistas esportivos

*Comunique-se (www.comuniquese.com.br)

Futebol e amadores. Assim fica dividida a editoria de Esportes nos meios de comunicação brasileiros. Mesmo já bastante profissionalizados, todos os outros esportes recebem este rótulo. Não que a intenção seja concorrer diretamente com a paixão nacional do brasileiro, mas o simples apelido dentro das redações demonstra a importância dada a estes esportes e o espaço dedicado a eles.

Sempre dissociados, os profissionais que cobrem futebol têm uma rotina diferenciada dos que noticiam os amadores. “Os repórteres que cobrem futebol normalmente adaptam sua rotina à do clube. Repórteres de outros esportes ficam mais na redação, cumprindo um horário mais regular. Repórteres que cuidam de bastidores trabalham por telefone no horário de expediente e contatam as fontes pessoalmente fora desse horário”, explica o editor do jornal Lance, Marcelo Damato.

Quando os outros esportes recebem destaque é sinal de que alguma coisa extraordinária aconteceu ou foi criado um novo pop star. “Foi o que aconteceu com a Daiane dos Santos”, lembra Martha Esteves, repórter especial de O Dia.

Não só especialista em futebol, os jornalistas dos grandes meios de comunicação ainda são mais especializados. Chamado de setorista, cada profissional fica responsável por noticiar apenas um clube durante um longo período. Esta sazonalidade varia de empresa a empresa, mas é de, geralmente, um ano. E o resultado disso é: acomodação. O jornalista já sabe para onde vai todo dia, quem vai encontrar, com quem vai falar. “Alguns repórteres setoristas – que cobrem o dia-a-dia (e, em alguns casos, até a madrugada-madrugada dos elencos) –, não raro ficam de costas para os treinos e coletivos dos times. Não vêem as movimentações, as alterações táticas. Ou, quando vêem, não enxergam. Não prestam atenção. Ou não têm a atenção devida para visualizar a formação das equipes. Para não dizer que não têm cultura tática para interpretá-la. Não têm porque não querem. Porque o chefe não cobrou. E nem vai pagar para tanto”, critica o comentarista da Rádio Bandeirantes Mauro Beting.

O desafio, para Martha, é tirar leite de pedra e buscar fazer algo novo todos os dias. Para ela, nessa tarefa rotineira de clubes, as mulheres têm vantagem. “Nós somos observadoras e isso faz a diferença. Por exemplo, na semana passada o Renato do Flamengo fez o gol da vitória. Quando fui entrevistá-lo notei que o cabelo dele estava maior. Resolvi perguntar se ele ia deixar crescer, se era seu novo estilo. E ele me confessou que tinha feito uma promessa de só cortar o cabelo se o Flamengo fosse campeão. Só eu tive esta informação”.

Fontes
Basta observar a realidade de hoje. Todo atleta tem assessor, todo clube, federação, confederação, dirigente tem também. Se o jornalista optar por somente ouvi-los, não vai conseguir uma informação diferente de qualquer outro profissional. O desafio é não virar refém. “No futebol, as grandes fontes não são as estrelas. Não adianta, eles não vão te dar um furo se você não for da Globo. O ideal é colar no terceiro goleiro. Na hora de uma confusão é ele que vai te soltar alguma bomba”, conta Martha.

Mercado
Para uns, está em crescimento. Para outros, estagnado. Nem mesmo os profissionais que trabalham com jornalismo esportivo todos os dias sabem ao certo definir. O fato é que de duas décadas para cá surgiram mais meios especializados, como o SporTV e o Lance, para mexer com o mercado. “O mercado é um dos que mais tem crescido no Brasil. Mas a qualidade média dos jornalistas poderia ser bem melhor. Os jovens repórteres tendem a repetir as práticas dos mais experientes sem questioná-las, o que nem sempre é a melhor escolha. Por exemplo, embora a legislação esportiva seja muito reduzida e seja muito importante para o funcionamento do esporte, não mais do que meia dúzia de jornalistas no Brasil dedicou-se a conhecê-la”, alerta Damato.

O público
Escrever sobre a paixão nacional do brasileiro é uma missão trabalhosa. Erros nunca passam despercebidos. “O único jeito é não esquecer que o torcedor é um ser irracional e, portanto, passional. Não tentar convencê-lo é fundamental”, alerta o colunista Juca Kfouri. “Eles não aturam informação errada, e estão sempre a corrigir eventuais falhas da redação. São muito bem informados. E odeiam clubismos”, conta Maurício Ribeiro Barros, editor da Placar.

Fora que os leitores estão sempre questionando a imparcialidade do jornalista. Kfouri nunca negou que é corinthiano roxo, mas ele respeita os profissionais que optam por não divulgar seu time de coração. “Diante da ferocidade que tomou conta dos torcedores nas últimas duas décadas, respeito. E quem deixa o coração influenciar a cabeça é ruim dela".
"Em um velório, o torcedor já me encosta no caixão perguntando qual o meu time, ou já vai me vestindo uma camisa de um clube, e cobrando aquele pênalti que achei que foi, há dois anos e meio. O problema é que o nosso cliente é torcedor. Devemos ser isentos, imparciais e objetivos. Mas o nosso público é parcial, passional e subjetivo. Não tolera deslizes e não quer ouvir o que falamos. Ou lê já com partido tomado”, conta Beting, que também não esconde que é palmeirense de coração.

Grandes eventos
No Jornalismo Esportivo, existem pelo menos duas grandes coberturas de nível mundial: a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos. Para os jornalistas que vão e para os que ficam a rotina é de trabalho 24h por dia.
“Para quem não vai é muito ruim. As folgas são suspensas e só restam as pautas mais chatas de cobrir, normalmente a família do atleta ou os torcedores nas ruas. Quem fica trabalha tanto quanto, mas não ganha diária”, conta Martha.

Imagem x conteúdo
O trabalho do repórter-fotográfico esportivo é de não perder um lance. Ver a partida através da lente e estar ligado em tudo que acontece. Uma preparação que exige técnica e feeling. Para cada tipo de jogo é necessário utilizar uma lente específica. Na opinião do fotógrafo do Estadão Jonne Roriz o tênis é o esporte que exige mais técnica. “Imagine que uma bola de tênis está a 170 km/h. Se bem me lembro o chute mais rápido é do Roberto Carlos e não chega a 80km/h”.

A integração entre o repórter e o fotógrafo nem sempre é como deveria ser. Já que um depende do outro é mais do que esperado que eles interajam sempre durante a partida. “É o ideal, mas nem sempre acontece”, conta Roriz.

*O site ainda traz uma entrevista com Clayton Conservani, da Rede Globo.

25 maio 2006

Supla é gente boa!!

*Por Pedro Henrique Freire

Só quem faz jornalismo entende como é uma profissão gratificante. Nas pequenas e nas grandes coisas. Uma bela matéria, uma bela apuração, um furo ou qualquer coisa que você escreve e, de imediato, percebe que mudou algo para alguém. Sobre isso, posso dar dois exemplos. Exemplos de coisas pequenas que me motivaram ainda mais a escrever, apurar e trabalhar em um jornal. Um darei agora. O outro, no próximo texto. Numa visível estratégia para protelar idéias.

Aconteceu em 2004. Trabalhava como repórter de cidades, ainda como "foca". Fui escalado para ajudar na apuração do Porão do Rock, um festival de música tradicional do DF. Naquele ano, o CorreioWeb fez um hotsite só sobre o evento. Fiquei encarregado de entrevistar bandas pequenas e médias. Um trabalho árduo que me exigiu bastante esforço, já que a maioria das bandas pequenas (cerca de 30!) eu nunca tinha ouvido falar.

Entre os mais famosinhos que fiz contato estava o Supla, o "Papito". Conhecia algumas coisas dele, superficialmente. Não gostava de nada, mas achava interessante a postura daquele roqueiro que tinha tudo pra ser um playboy e preferia adotar a filosofia punk (ou quase isso).

Liguei pra ele. Não consegui de primeira. Falei com um assessor, que na verdade era um amigo de banda. "Olha, ele acabou de sair daqui do estúdio. Anota o celular dele aí", disse. Liguei. Estava fora de área. Insisti com o assessor. "Esse é o telefone da casa dele. Liga que ele está lá agora". Beleza, falei.

Minutos depois estava falando com o Supla. "Pô, Pedroô. Foi mal, mêu. É que eu tava de moto. Tava tocando e não levei meu celular", desculpou-se, desnecessariamente, naturalmente sem saber que, pra mim, correr atrás de uma fonte não representa trabalho nenhum.

O papo do Supla foi tão cativante que fiquei curioso pra ver aquele cara no palco. Ele é extremamente simples e atencioso. De imediato, pensei que não perderia o show dele por nada. Além disso, estaria lá pra fazer a matéria mesmo...

Fui e só consegui ver duas músicas. Uma inteira e outra só a metade. É que uma meia dúzia de moleques malucos começou a atirar pedras no palco do Supla. Uma delas acertou a cabeça do baterista e abriu sua testa. O show parou, o "Papito" esculhambou e foi embora. Não deu entrevista nem nada.

Que merda, pensei. O som do cara é mesmo ruim. Mas ele é muito bacana, não merece isso. É quase como Lula e o PT para muito brasileiros. É uma pessoa boa, mas não faz nada que preste com seu grupo. Na segunda-feira mandei um e-mail pro Supla. Lamentei o acontecido e reiterei minha vontade de ver um show dele. Cinco minutos depois o telefone toca. "Pedro, é pra você", falou Aninha, uma colega de trabalho.

Do outra lado da linha escutei: "Ô Pedroô. É o Supla, mêêu. Pô, li seu e-mail. Obrigado. Eu também achei uma sacanagem..." e tal e pá e coisa. A conversa prosseguiu, ele elogiou a matéria que eu tinha feito e disse que o que eu precisasse era só ligar. De quebra, ainda fiz a repercussão do acontecido e ganhei um elogio da chefe. Fiquei com o celular do Supla muito tempo na minha agenda.

No festival de 2005, ele faria nova apresentação. Tentei ligar, mas ele havia mudado de número. Peregrinei como da última vez. Falei com assessores e terminei ligando pra casa dele. "Alô, o Supla taí?". "Não, ele não está", alguém respondeu do outro lado. "Quem tá falando?", falei, meio apressado e quase ríspido. "É o pai dele", respondeu o senador Eduardo Suplicy. "Ô senador, tudo bem? Sou o Pedro, do jornal tal e tal e pá e coisa".

No final, peguei o celular novo do Papito e liguei. Comecei a conversa e percebi que ele continuava a mesma simpatia de sempre. Exceto que agora falava comigo não mais como um estranho. Fui ao show e comprovei. Ele é mesmo um cara muito bacana, mas o som...
* Repórter do CorreioWeb e louco para se tornar um Filho da Pauta

Globo gera atrito dentro da comissão da seleção

Folha de São Paulo - 24/05/06
DOS ENVIADOS A WEGGIS

A Globo tirou a privacidade da seleção brasileira na concentração. E também a tranqüilidade da comissão técnica, irritada com entrevistas dos jogadores à emissora na entrada do Park Hotel Weggis.

O privilégio dado à TV gerou o primeiro momento de tensão na equipe nacional em sua preparação para a Copa da Alemanha. O estopim da crise aconteceu justamente nos primeiros minutos na Suíça.

Anteontem, na chegada do ônibus da delegação, uma equipe da emissora já estava no hotel para entrevistar os atletas. Assim, foi desrespeitada a vontade de Carlos Alberto Parreira, que havia vetado a presença de pessoas estranhas à seleção e ficou descontente.

Membros da comissão técnica e da assessoria de imprensa da CBF discutiram. O atrito continuou ontem. O mais irritado era o supervisor Américo Faria. Ele queria saber quem autorizou a entrada da Globo no local. Porém ninguém se responsabilizou. A versão que Faria ouviu é a de que a equipe de TV driblou a segurança e entrou.Por causa do episódio, foram chamados mais policiais para cuidar da segurança em frente à concentração da equipe.

Antes de a seleção chegar, o funcionário mais graduado da CBF em Weggis era o administrador Guilherme Ribeiro. Enquanto a Globo tinha acesso aos jogadores, com exclusividade, o restante dos veículos de comunicação ficava espremido na calçada, sem poder falar com os atletas. Duas barreiras policiais foram montadas na rua do hotel, bem em frente à concentração. Todos podem passar, mas ninguém está autorizado a parar diante da portaria.

A Folha ouviu a Globo no Brasil. Sua assessoria de imprensa afirmou que não conseguiu contato com seus profissionais na Suíça até o fechamento desta edição. Detentora dos direitos dos jogos da seleção, a emissora teve Parreira como atração no dia da convocação, no último dia 15: entrou ao vivo no anúncio, foi ao "Jornal Nacional" e participou do programa de Galvão Bueno em canal a cabo da Globo.

Na Argentina, a Torneos y Competencias, que detém os direitos da seleção, tem relação bastante estreita com a AFA, a federação local. Mas, até agora, não obteve privilégios na concentração da equipe, que está em Buenos Aires. (PAULO COBOS, RICARDO PERRONE, SÉRGIO RANGEL E EDUARDO VIEIRA DA COSTA)

23 maio 2006

O outro lado

O último post que escrevi foi sobre a relação entre produtor e repórter. Ficou claro (inclusive nos comentários) que vez por outra a relação fica estremecida. São os problemas de uma redação de tevê. Os repórteres têm suas queixas da produção. E vice-versa. Isso talvez não mude nunca. Pois bem, achei interessante dar continuidade a história mostrando o outro lado. Para que não fique a idéia de que o produtor é sempre o culpado de a matéria dar errado. Muitas vezes a culpa é do repórter. Fiz o convite a quatro produtores (Manuella, Wanderley, Jurani e Cristina Laura) para que um deles pudesse escrever a respeito da rotina da produção e os motivos que contribuem para que uma pauta não fique bem amarrada. Em tempo recorde, Jura escreveu o texto abaixo.

Vida de produtor

Jurani Clementino*

O imaginário de um produtor muitas vezes é desprezado pelo repórter que já sai da redação dizendo “que pauta merda”. Nem sabe ele muitas vezes que passamos horas e horas tentando encontrar um personagem. Não imagina ou finge não imaginar que os dados foram conseguidos muitas vezes com fontes relapsas, preguiçosas e despreparadas.

Tem horas que o que mais parece é que eles só sabem dizer que a pauta é uma bobagem. Nada, além disso. Nem justificar. Dificilmente os repórteres reconhecem a pauta que fazemos com tanta dificuldade. Eu sei que é nossa obrigação. Mas...

Não conheço a experiência do jornalismo impresso que acredito não ser muito diferente. Mas em televisão tem muita estrela. Narciso anda a solta. O espelho está em toda a parte. E quando não reflete a imagem desejada, quem paga é o produtor. Como bem lembrou Cristina Laura (um beijo pra tu coisinha) nos comentários do post anterior, o repórter muitas vezes esquece que o “pobre” do produtor tem que atender aos pedidos do editor. Esquece que esse profissional, escravo da redação, precisa ouvir as críticas dos telespectadores que reclamam da edição, que contestam as matérias, que sugerem vts de denúncias como se o jornalismo fosse uma espécie de “Salvador da Pátria”, remédio para as mazelas sociais.

Outro dia passei uma hora escutando um rapaz sobre irregularidades numa prefeitura de um município próximo a Campina Grande. Eu ainda tinha que agendar uma entrevista para o ‘ao vivo’ do Bom dia Paraíba, elaborar as perguntas, marcar uma pauta também para o dia seguinte e dar atenção as perguntas de Carlos Siqueira (apresentador do JPB1) e aos pedidos de Clarice Albuquerque (editora do JPB1). Dificilmente atendemos um telefonema de alguém que teve a bendita idéia de reconhecer a repercussão de uma matéria que a gente fez. O melhor seria, ou menos cômodo, se colocássemos um repórter na rua e ficássemos, religiosamente a sua inteira disposição: orientando, pedindo para descer do carro, bater na porta, (e Rômulo Azevedo, Editor chefe, que o diga) ir pra direita, esquerda etc... O produtor ainda tem que correr atrás daquelas pautas rec, rec, rec, sob o risco de perder o emprego. E as tais matérias recomendadas (rec, rec, rec) só são “matérias” porque são recomendadas. Do contrário não entraria nem no “jornal do condomínio”.

Para os produtores que trabalham nas emissoras afiliadas da Globo, têm ainda os vts que a “rede” pede. Os produtores do Globo Rural, Mais Você, Fantástico, Jornal Nacional etc, dizem assim: “Olha a gente queria um vt assim assado. Vocês mandam quando?” E ai de quem não mandar. É claro que lutamos contra um tempo opressor, que se passa sem que percebamos. Que nos sufoca e quando pensamos que não, nos devora, já era passou.

Mas como bem disse a nossa colega Cristina Laura boa parte do produto final compete também ao repórter que pode no momento da matéria mudar, acrescentar, descobrir algo novo, dar outro charme a matéria. Vivemos sim num ambiente frio, longe, muitas vezes desfocado da realidade. Acompanhamos os fatos a distância quando não usando um binóculo na posição invertida. Quem está lá presenciando, vendo, sendo testemunha da realidade é o repórter. É ele que tem acima de tudo liberdade para criar, colocar os personagem, dar uma direção ao vt.

*Jurani Clementino, começou como estagiário e hoje é produtor da TV Paraíba, além de editar matérias. É quem responde, em Campina Grande, pelo Bom Dia Paraíba.

19 maio 2006

Repórter x Produtor

Léo Alves

A relação entre repórter e produtor nem sempre é amigável. Historicamente é marcada por uma “guerra fria”. Todos os meus colegas repórteres contam algum “caso” envolvendo produtores. Os produtores, por sua vez, têm suas histórias de problemas com repórteres. Não estou falando aqui de uma relação de gato e cachorro. O que acontece é que no estresse do dia-a-dia, vez por outra acontece, um entrevero. Não é que o repórter vá discutir com todo mundo. Hoje eu tenho uma relação boa com todos os meus produtores: Manuella, Jurani, Wanderley (esse dez vez quando eu pego no pé, mas não só sou eu), Adriana (que está de licença maternidade), Rostand e Elane.

Diferente do jornal, onde o repórter recebe a pauta, os contatos e corre atrás da matéria, na televisão o trabalho depende da produção. É ela quem primeiro apura notícia, que tem o primeiro contato com o entrevistado, que agenda tudo. A apuração mal feita termina numa notícia mal feita. Não é à toa que muitas vezes os entrevistados perguntam: “você é Jurani?”, “Cadê Manuella, ela não veio?”. Aí temos que explicar o processo de produção. Há pouco mais de um mês tinha terminado a matéria quando ouvi. “Wanderley, Wanderley, quando ser vai exibida?”. Nesse caso não expliquei. Tem um vereador (João Dantas) aqui em Campina Grande que ainda hoje me chama de Fabinho. É que a TV Borborema, onde trabalhei por três anos e meio, tem um produtor chamado Fábio Nunes. Ele é quem sempre marcava as matérias com João. E o produtor sempre usa a frase “nós estamos querendo fazer uma matéria hoje à tarde”. O entrevistado pensa que vai encontrar com quem falou ao telefone. Pois bem, João ainda hoje acha que meu nome é Fábio. Para ele, “Fabinho”.

Em televisão, na maioria das vezes, quando uma pauta cai, a culpa é da produção que não agendou direito, que não fez uma boa apuração e por aí vão as reclamações. Existe neste ponto um meio termo. O entrevistado (o contato) muitas vezes “vende” uma matéria que não existe. O produtor não tem outra alternativa a não ser confiar. O repórter é que vai ver ´in loco’ (eu odeio essa expressão, DB sabe porquê) se a matéria rende ou não.

Porém o produtor também precisa ter muita sensibilidade jornalística. A falta dela foi motivo de alguns problemas (e até discussões) que enfrentei no passado. Não foi um privilégio só meu. DB também conviveu com a figura em questão. Daniel nunca esqueceu da matéria que foi fazer no Hospital Universitário sobre um remédio contra a Leucemia. Depois de apurar todas as informações, pediu para filmar a caixa do remédio quando ouviu a especialista dizer que o medicamento não tinha previsão de chegada ao Brasil. Esse é um caso típico de falta de apuração (e de sensibilidade). Sensibilidade que faltou também na horas de pautar para mim uma matéria sobre dicas de roupas íntimas. Quais as mais sensuais, cores, esse negócio que ficaria muito melhor para uma repórter. Mas lá estava eu dentro das lojas Marisa, constrangido, sem poder falar de “mulher pra mulher”. Não vou relatar outros para o post não ficar muito grande.

Nós repórteres também cometemos falhas. A maior delas, acredito eu, seja a de não reconhecer a importância da produção em uma matéria. Quando a matéria cai, o repórter critica os produtores. Porém quando sai tudo certinho e matéria fica boa, o repórter esquece da produção. Prefere ficar com os elogios sozinho. Diz logo “A matéria que eu fiz ficou boa”. Nesse caso a matéria parece que é só dele. Esquece que por trás, além da produção, tem o cinegrafista e os editores. Na tevê o trabalho é em equipe.

Repórter e produtor entenderiam melhor a importância de cada um se pudessem trocar de funções por um período. Só assim saberiam bem como é a rotina do produtor na redação e do repórter na rua.

14 maio 2006

Futebol investigativo

Nunca imaginei que ser repórter de futebol exigisse tanta investigação como aqui em Brasília.

O Brasil é o único país campeão mundial de futebol cuja capital não tem times na primeira divisão. Por outro lado, Brasília tem apenas 46 anos de existência, então ainda está gerando sua cultura, história e hábito. Diferentemente de Buenos Aires, Paris, Berlim, Londres, Roma que são até seculares.

Mas o grande problema do futebol de Brasília é que ele se resume a pessoas e não a instituições. De um lado, temos Luiz Estevão de Oliveira, sócio-proprietário do Brasiliense. Do outro, Wagner Marques, superintendente do Gama.

Costumo dizer que se os dois morrerem, não existirá mais futebol em Brasília. O Gama está no cenário nacional desde 1992, então tem mais simpatizantes. Passou por várias dificuldades, sofreu com golpes fora de campo (em 1999) para tirá-lo da primeira divisão mas continua vivo, porém não muito bem das pernas.

O Brasiliense tem cinco ou seis anos de existência. Teve ascenção meteórica, chegou aa primeira divisão nacional em 2005, mas hoje quebra a cara na segundona mesmo. É um clube rico, paga bem e em dia seus funcionários. Tem uma torcida pequena, alguns simpatizantes. Mas não conquistou os amantes do futebol de Brasília. Serve apenas como hobby para quem mora no Distrito Federal e não como paixão.

Talvez pela duvidosa história de vida de seu mandatário, o senador cassado Luiz Estevão. Ele foi acusado no início desta década de ter desviado mais de US$ 100 milhões da construção do prédio do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo, ao lado do Juiz Nicolau dos Santos Neto, o famoso Lalau.

Luiz Estevão é carismático. Conversa bem com os repórteres até onde a entrevista interessa a ele. Depois, faz questão de tratar mal, até humilhar. Como aconteceu em outubro do ano passado, quando soltou esta pérola:

"Repórter de esportes é o cara mais burro de uma redação de jornal. É o tipo de pessoa que não foi aceita em nenhuma editoria do jornal e acabou tendo que fazer futebol mesmo"

Não é difícil encontrar histórias de confusão dele com repórteres. Volta-e-meia, ele distribui comunicados aa imprensa sobre determinado repórter ou texto publicado em algum jornal.

Entre os jornalistas que cobrem o Brasiliense diariamente, o time não é bem visto. Muitos torcem contra.

Eu, inclusive!

Já o Gama não tem um histórico de confusões com repórteres, mas não deixa de aprontar bobagens.

Diferentemente da crônica esportiva do Rio de Janeiro, que tinha um pacto de não-agressão a ídolos, os repórteres de Brasília são muito críticos. Trabalho com duas cobras criadas: Roberto Naves e Cida Barbosa.

São duas feras do jornalismo. Posso dizer que têm conteúdo para trabalhar em Folha de S. Paulo, New York Times, Revista Placar ou qualquer outro veículo de grande porte. Eles estão há quase dez anos cobrindo o futebol da capital federal e não deixam passar nenhum deslize de dirigentes ou jogadores.

Por isso, os cartolas tentam esconder tudo que podem para evitar serem destaque nas páginas do Correio Braziliense. Além dos dirigentes, os repórteres novatos sofrem com isso.

Quem vai cobrir o futebol de Brasília e se depara com Cida ou Naves sentem-se intimidados. Algumas pessoas acham os dois (ou um deles -- na maiorida das vezes, Roberto Naves) arrogantes. Primeiro porque têm TODOS os contatos do futebol local e também por não ter medo de escrever nada contra ninguém da área.

Na ausência de um dos dois na cobertura diária, o noticiário de um dos clubes sobra para mim. Nesta semana que passou, por exemplo, cuidei de Gama e Brasiliense ao mesmo tempo.

Nunca investiguei tanto na minha vida como nos últimos sete dias.

Se você está no treino do Brasiliense, é bom ligar a cada meia hora para o Gama. E vice-versa.

Um jogador pode estar saindo, o treinador pode estar xingando a imprensa, um diretor pode ter passado cheque sem fundo para funcionário.

Olha o que aconteceu no noticiário de segunda a sexta passada no futebol de Brasília:

Segunda-feira
Gama: O meio-campista Rodriguinho, estrela do time, transfere-se para o Brasiliense
Brasiliense: apresenta documentos pedindo a paralisação da Copa do Brasil

Terça-feira
Gama: O atacante Maia (paraibano, por sinal) abandona o time reclamando da diretoria
Brasiliense: Rodriguinho se apresenta ao Brasiliense e se recusa a beijar a camisa do time na apresentação aa imprensa

Quarta-feira
Gama: O goleiro do time e o atacante soltam os cachorros para cima da diretoria e da comissão técnica
Brasiliense: Por causa da chegada de Rodriguinho, Iranildo (camisa 10 do time) reclama do treinador por ter que jogar no ataque (posição em que não está acostumado)

Quinta-feira
Gama: Diretores explicam porque sustaram três cheques ao ex-jogador Bruno Soares
Brasiliense: Técnico Lula Pereira reclama que a Globo não divulga nacionalmente o futebol de Brasília

Sexta-feira
Gama: Treinador Vitor Hugo reclama que a imprensa só cria polêmica e não fala de futebol
Brasiliense: Jogador vaiado por Luiz Estevão vai para o banco de reservas

Você deve ter percebido que o Gama pegou fogo nesta semana, né?

Explica-se: para evitar uma cobertura diária de qualidade (e polêmica), Luiz Estevão fechou os portões do Brasiliense no dia de treinos para imprensa e torcida. Por isso, não dá para fazer muito além do que chamamos de rame-rame ao final dos treinos. Mas no ano passado, o Brasiliense era pior que a Faixa de Gaza.

O detalhe é que essas informações nunca vêm de graça. Se você ligar para o treinador, para um dirigente ou supervisor, não obterá a notícia do dia. É preciso estar lá, porque jogador de futebol também adora fugir da raia.

Como em jornal não se costuma fazer entrevista com gravador, apenas anotando em um bloquinho, fica mais fácil ouvir respostas diferentes (isso é assunto para outro post). Por telefone também é complicado arrancar declarações diferenciadas. Por isso, é preciso suar muito para não ficar divulgando uma falsa realidade ("O time treinou ontem em dois períodos. Fulano saiu para entrada de sicrano...").

No meio deste furacão que eu acompanhei na semana passada, escrevi dois lides que sempre quis escrever.

O primeiro, no jornal de terça-feira, dizia o seguinte:

"Com campanhas discretas na Série B do Campeonato Brasileiro, os melhores lances da atual temporada de Gama e Brasiliense acontecem fora de campo."

Já no jornal de quinta-feira, depois de tanta bagunça, não resisti e comecei minha matéria com a seguinte frase:

"Não existe dia tranqüilo no futebol de Brasília"

Não existe mesmo.

Tanto que após oito ou nove anos nesta luta diária, Cida Barbosa vai fazer a cobertura da Copa do Mundo pelo Correio Braziliense. Quando voltar, ficará na redação fazendo matéria "via Embratel" e ajudando no fechamento do caderno de esportes. Eu não me candidatei a substituí-la no cargo de repórter de futebol no jornal.

Apesar de emocionante, não é saudável tratar com bandidos diariamente!

12 maio 2006

Internet derruba circulação de jornais nos EUA

Folha de S.Paulo Agência Reuters

A Internet está derrubando a circulação de jornais nos Estados Unidos. Segundo o mais recente estudo promovido pela Newspaper Association of America, a circulação de jornais nos EUA caiu 2,6% em março, se comparada ao mesmo mês do ano passado.

O resultado desta pesquisa, divulgada pela agência de notícias Reuters e reproduzido no Brasil pelo site da Folha de S.Paulo, tem como base o número de leitores diários de 770 jornais. Em março do ano passado a quantidade de leitores foi de 46,6 milhões, em 2006 o número baixou para 45,4 milhões.

Esta mesma tendência aparece na circulação de domingo, dia em que há um aumento na venda de jornais: a queda foi de 3,1%, levando os resultados de março de 2006 para 48,5 milhões.

Por outro lado, a audiência de sites de notícia vem crescendo: no primeiro trimestre deste ano, páginas norte-americanas ligadas a jornais tiveram 56 milhões de leitores, ou 37% dos internautas dos EUA. Este valor representa aumento de 8% em relação ao primeiro trimestre do ano anterior, segundo números divulgados pelo Nielsen//NetRatings.

11 maio 2006

Desigualdade editorial

Pedro Henrique Freire*

O Brasil é cheio de discrepâncias. Muito se fala em desigualdade social. Isso é, de fato, um problemão. E está longe de ser resolvido. Depois de muito investimento e pouca lenga-lenga irá se chegar a uma solução. Mas quem quiser assunto para mesa de bar, lá vai um: a Desigualdade Editorial.

Esse mal ataca muitos veículos de comunicação país afora. Assim como a desigualdade social, a pobreza editorial está localizada, penso eu, mais firmemente no Nordeste. Por muitas razões: oligarquias, carência de verba, de profissionalismo, de boas escolas, entre outras coisas.

De toda maneira, não posso generalizar. Até porque desconheço a situação de todos os jornais dessa região. Superficialmente, vejo veículos do Piauí, Salvador, Recife e outros (infelizmente não conheço nenhum da Paraíba).

Mas, do Maranhão, um dos estados mais pobres do país, posso falar com propriedade. Morei lá e trabalhei n´O Imparcial, jornal do grupo Associados, com 80 anos de existência. Até hoje acompanho de perto o comportamento dos jornais locais e o forte alinhamento político.

De um lado, o estado do Maranhão, de propriedade do velho Sarney. Ele também comanda a filial da Rede Globo e um mundaréu de rádios em todo o estado, transformadas comumente em aparelho político, que ajuda a eleger seus aliados e filhos. De outro, o Jornal Pequeno. Com uma tiragem pífia (5 mil exemplares, no máximo), é um jornal 'preto e branco', mal feito, impresso artesanalmente ainda em papel vegetal. É historicamente contra a família Sarney.

Com uma proposta “imparcial”, o jornal O Imparcial tenta se sustentar em cima do muro. Mas não consegue. Depende muito da verba publicitária do governo, que representa cerca de 30% do faturamento mensal.

Por isso, não publica nada contra o governo. Só contra seus adversários. A dependência financeira é tanta, que se o governo quiser que seja publicado o release na íntegra, o jornal publica. Mas essas submissão vergonhosa não é “luxo” apenas desse veículo, e sim de todos.

Em números, eis o retrato da desigualdade editorial. Irei comparar esse ao Correio Braziliense, um jornal com forte característica local, mas com uma abordagem nacional, sobretudo na área política:

O Imparcial: Tiragem média de 11 mil exemplares
Correio: Tiragem média de 70 mil exemplares

O Imparcial: Faturamento mensal de cerca de 400 mil
Correio: Faturamento mensal de cerca de 10 milhões

O Imparcial: Salário repórter júnior 1000 reais
Correio: Salário repórter júnior 2300 reais

O Imparcial: Redação com pouco mais de 20 jornalistas
Correio: Redação com quase 100 jornalistas

O Imparcial: Três carros para a reportagem
Correio: Nunca contei, mas tem mais de 25, com certeza

O Imparcial: São freqüentemente publicados releases
Correio: Não se publica release de jeito nenhum

O Imparcial: Contra o governo, não se publica nenhuma linha
Correio: Contra o governo, que também é um grande anunciante, se publica, mas nada de postura denuncista

Bom, é isso. Aí estão as duas realidades. São dois pesos e duas medidas. Dois estados, dois jornais e dois tipos de jornalistas. Um dia, todos entenderão, ao menos, o sentido básico do jornalismo: os dois lados. Pois em muitos cantos, isso tem que ser rechaçado em função de alinhamento político.

*Repórter do CorreioWeb e quase um Filho da Pauta

08 maio 2006

De novo

Léo Alves

Pode parecer brincadeira ou até marcação por parte do pessoal da Globo. Mas novamente minha matéria (sobre criadores de cabras na Paraíba) exibida nesta segunda-feira (08/05) no Globo Rural saiu com o crédito errado. Não, não, dessa vez não foi comigo. Erraram o nome do cinegrafista Damião Tomé. Colocaram “Damião José”. Confesso que senti um gostinho de revanche. Damião tinha tirando ‘muita onda’ da minha cara quando trocaram meu nome por ‘Juliano Sousa’. Não imaginava que em tão pouco tempo eu poderia retribuir as gozações do companheiro.

Damião é cinegrafista há mais de dez anos. Já fez inúmeras matérias para a rede: Jornais Nacional, Hoje, da Globo, Fantástico e Globo Rural. Nunca tinha acontecido de ter o nome trocado. Mas sempre existe a primeira vez. Pelo menos não sou mais um caso único na história da TV Paraíba. Porém estou começando a achar que atraio essas coisas. É muita coincidência eu estar nas duas matérias.

05 maio 2006

Ameaça real e fatal

Pedro Henrique Freire*

Depois da Operação Sanguessuga, deflagrada pela Polícia Federal, descobriu-se entre as escutas telefônicas que o empresário Luiz Antônio Trevisan Vedoin, apontado como chefe do grupo, e o deputado Nilton Capixaba (PTB-RO), tramavam a morte do jornalista Lúcio Vaz, do Correio Braziliense. Em dezembro do ano passado ele estava justamente investigando a fraude nas licitações de ambulâncias em vários estados Brasileiros.

Nesta sexta, o jornal O Globo lançou matéria divulgando o trecho em que um dois membros do grupo tramam o assassinato do jornalista. A gravação também foi divulgada pela Globo News. “O que você acha de mandar matar esse jornalista?”, pergunta. “Eu acho uma boa”, responde o interlocutor. Lúcio Vaz esteve nesta tarde no CorreioWeb e gravou mensagem (que está no site) em que trata do caso.

Ele diz que desconhecia esse trecho das escutas e confirma que realmente esteve em Rondônia para investigar a fraude. “Fiquei surpreso com a matéria do Globo. Eu realmente acompanhava o caso desde dezembro. Sabia que haviam escutas feitas pela polícia, mas desconhecia o trecho em estava envolvido”, diz ele.

Vaz ainda criticou a postura da Polícia Federal. Ele diz que deveria ter sido avisado pela própria PF que sofria ameaça de morte. “A polícia deveria ter avisado a mim. Isso é fundamental. Se as pessoas estão correndo risco de vida deveriam ser avisadas para que tomassem precauções”, afirma.

Na edição deste sábado, o Correio Braziliense lançará editorial na capa tratando do assunto. Provavelmente, criticando a postura da PF, que sabia que um jornalista corria perigo e não fez nada.

Lúcio Vaz é repórter investigativo do Correio Braziliense. Recentemente, lançou o livro Ética da Malandragem – O submundo do Congresso Nacional. Nele, conta os bastidores de matérias investigativas que fez ao longo da carreira.

*Colaborador e repórter do CorreioWeb

04 maio 2006

Você não sabe nada!!

Pedro Henrique Freire*

Jornalismo é uma profissão como qualquer outra. O que muda são as ferramentas. O administrador, por exemplo, mexe com contas, o nadador com os braços e pernas, o jogador com a bola.

Nós, jornalistas, utilizamos dois saberes básicos: ler e escrever. Depois que você adquire algum tempo de experiência, a escrita cede o quadro de importância à apuração. Saber perguntar, portanto, torna-se fator imprescindível.

Duro é quando sabemos perguntar, mas não sabemos sobre o quê estamos perguntando. É extremamente comum a correria do dia-a-dia nos pregar emblemas de "burros" e "desinformados".

Comigo aconteceu algumas vezes.

Todas elas foram constrangedoras, claro. Mas me atentaram para responsabilidade da profissão e ajudaram a evitar muitas gafes futuras. Uma delas eu relato aqui.

Sou repórter de cultura do CorreioWeb, página na internet do Correio Braziliense. Numa entrevista, liguei para Simoninha, filho de Wilson Simonal, há cerca de 10 meses. Ele faria um show em Brasília e eu faria a matéria.

O cara estava gravando no estúdio, mas falou comigo na hora do almoço, ainda com comida na boca. Eu apenas havia ligado. Não me dei ao luxo nem de ler o release do show. Já conhecia o som dele, tinha acompanhado algumas entrevistas suas na TV e nos jornais, acumulava informação sobre seu CD, além de conhecer também o trabalho de seu pai.

Me achei, portanto, suficientemente pronto para pegar o telefone e começar a conversar.

O papo começou fluindo bem. Falamos sobre várias coisas: disco, som, instrumentos, estúdio, sobre seu irmão, Max de Castro... etc. Queria finalizar a entrevista falando a amizade com Jorge Ben Jor e, claro, sobre a amizade do seu pai com o então Jorge Ben.

As perguntas foram boas, não fosse uma informação básica que destruiu a entrevista e a imagem de bem informado que eu deixara até aquele momento. Eu perguntei: "Bom, essa amizade você também aprendeu com seu pai, né? Simonal também é muito amigo do Jorge, desde os tempos da ditadura...".

Ele foi até paciente: "É verdade. Na época que meu pai ainda estava vivo eles eram bem amigos. Ele morreu há dois anos", respondeu

A lição

Depois da resposta, pairou aquele minuto de silêncio típico de partidas de futebol, que não é nada para a maioria da torcida, mas uma tragédia para poucas pessoas. Passados alguns segundos de choque, me recuperei e emendei alguma questão banal:

"O que acha do público de Brasília?".

Passado o constrangimento, eu só conseguia pensar no Google e no que ele poderia ter feito por mim. Bastava uma busca rápida e eu saberia disso

Não me perdoei pela falha. Mas tirei uma lição do ocorrido: se você é jornalista, pergunte, mas leia antes de perguntar, se inteire do assunto, saiba até mais do que o necessário. No entanto, se você acha que já sabe exatamente o que perguntar... é melhor desistir! Você não sabe!

* Pedro Henrique Freire é maranhense e é jornalista formado no IESB, em Brasília, em 2005. Trabalha como repórter do site Divirta-se do CorreioWeb, braço on-line do Correio Braziliense, e passará a colaborar para os Filhos da Pauta sempre que quiser.