25 maio 2006

Supla é gente boa!!

*Por Pedro Henrique Freire

Só quem faz jornalismo entende como é uma profissão gratificante. Nas pequenas e nas grandes coisas. Uma bela matéria, uma bela apuração, um furo ou qualquer coisa que você escreve e, de imediato, percebe que mudou algo para alguém. Sobre isso, posso dar dois exemplos. Exemplos de coisas pequenas que me motivaram ainda mais a escrever, apurar e trabalhar em um jornal. Um darei agora. O outro, no próximo texto. Numa visível estratégia para protelar idéias.

Aconteceu em 2004. Trabalhava como repórter de cidades, ainda como "foca". Fui escalado para ajudar na apuração do Porão do Rock, um festival de música tradicional do DF. Naquele ano, o CorreioWeb fez um hotsite só sobre o evento. Fiquei encarregado de entrevistar bandas pequenas e médias. Um trabalho árduo que me exigiu bastante esforço, já que a maioria das bandas pequenas (cerca de 30!) eu nunca tinha ouvido falar.

Entre os mais famosinhos que fiz contato estava o Supla, o "Papito". Conhecia algumas coisas dele, superficialmente. Não gostava de nada, mas achava interessante a postura daquele roqueiro que tinha tudo pra ser um playboy e preferia adotar a filosofia punk (ou quase isso).

Liguei pra ele. Não consegui de primeira. Falei com um assessor, que na verdade era um amigo de banda. "Olha, ele acabou de sair daqui do estúdio. Anota o celular dele aí", disse. Liguei. Estava fora de área. Insisti com o assessor. "Esse é o telefone da casa dele. Liga que ele está lá agora". Beleza, falei.

Minutos depois estava falando com o Supla. "Pô, Pedroô. Foi mal, mêu. É que eu tava de moto. Tava tocando e não levei meu celular", desculpou-se, desnecessariamente, naturalmente sem saber que, pra mim, correr atrás de uma fonte não representa trabalho nenhum.

O papo do Supla foi tão cativante que fiquei curioso pra ver aquele cara no palco. Ele é extremamente simples e atencioso. De imediato, pensei que não perderia o show dele por nada. Além disso, estaria lá pra fazer a matéria mesmo...

Fui e só consegui ver duas músicas. Uma inteira e outra só a metade. É que uma meia dúzia de moleques malucos começou a atirar pedras no palco do Supla. Uma delas acertou a cabeça do baterista e abriu sua testa. O show parou, o "Papito" esculhambou e foi embora. Não deu entrevista nem nada.

Que merda, pensei. O som do cara é mesmo ruim. Mas ele é muito bacana, não merece isso. É quase como Lula e o PT para muito brasileiros. É uma pessoa boa, mas não faz nada que preste com seu grupo. Na segunda-feira mandei um e-mail pro Supla. Lamentei o acontecido e reiterei minha vontade de ver um show dele. Cinco minutos depois o telefone toca. "Pedro, é pra você", falou Aninha, uma colega de trabalho.

Do outra lado da linha escutei: "Ô Pedroô. É o Supla, mêêu. Pô, li seu e-mail. Obrigado. Eu também achei uma sacanagem..." e tal e pá e coisa. A conversa prosseguiu, ele elogiou a matéria que eu tinha feito e disse que o que eu precisasse era só ligar. De quebra, ainda fiz a repercussão do acontecido e ganhei um elogio da chefe. Fiquei com o celular do Supla muito tempo na minha agenda.

No festival de 2005, ele faria nova apresentação. Tentei ligar, mas ele havia mudado de número. Peregrinei como da última vez. Falei com assessores e terminei ligando pra casa dele. "Alô, o Supla taí?". "Não, ele não está", alguém respondeu do outro lado. "Quem tá falando?", falei, meio apressado e quase ríspido. "É o pai dele", respondeu o senador Eduardo Suplicy. "Ô senador, tudo bem? Sou o Pedro, do jornal tal e tal e pá e coisa".

No final, peguei o celular novo do Papito e liguei. Comecei a conversa e percebi que ele continuava a mesma simpatia de sempre. Exceto que agora falava comigo não mais como um estranho. Fui ao show e comprovei. Ele é mesmo um cara muito bacana, mas o som...
* Repórter do CorreioWeb e louco para se tornar um Filho da Pauta

3 comentários:

Marcelo Soares disse...

Realmente é interessante o SUpla, o cara sempre fez meia boca o som, mas tem carisma, e em um país onde o presidente se elege por carisma e nao por ter tido algum mandato anterior, isso é muito importante...Bem, eu ainda sou estagiário e ainda nõa tive o prazer de vivenciar tão intensamente esses pormenores da profissão que tanto falam, espero ansioso...

DB disse...

Humildade acima de tudo. Humildade, sem confundir com burrice, claro...

Gilberto Silva disse...

Quem vê aquele bixo pela TV, pensa que aquilo é uma máscara.
Agora com essa história, vejo que não, aguardo o outro post.