30 novembro 2007
O filho está crescendo
“Não vai ser fácil manter este espaço atualizado”.
Esse trecho do primeiro post do Filhos da Pauta revela que eu e o Daniel sabíamos a dificuldade de manter um blog atualizado. Mesmo com as falhas de atualização este humilde espaço completou dois anos de existência.
Estã durando tanto porque contamos com o reforço substancial do grande Pedro.
Confesso que no começo pensei que o blog seria um espaço de inteira liberdade de expressão. Poderia escrever o que quisesse e sobre qualquer assunto. Não é bem assim. Como qualquer veículo de comunicação (o blog se transformou numa ferramenta alternativa) é preciso responsabilidade.
Afinal, tudo que é escrito está na rede. Se está na rede, obviamente, é facilmente encontrado pelo todo-poderoso Google.
Faz parte do (invisível) “Manual de Redação do Filhos da Pauta” não citar nomes de pessoas. A não ser que o personagem nos autorize ou se o próprio personagem da história seja um de nós.
Mesmo assim muitas histórias desagradaram os personagens. Basta lembrar da polêmica do post “Gafes”.
Para mim, este blog é também uma extensão da sala de aula. Sempre faço referências aos meus alunos sobre uma ou outra história contada aqui. O FDP é um canal de diálogo entre pessoas que não se conhecem. Eu, por exemplo, não conheço o Pedro. Já dialoguei através de comentários com outro que nunca vi pessoalmente, o Felipe. Exemplos não faltam.
Esses são alguns dos motivos que fazem os blogs crescerem tão rapidamente. Estima-se que a blogosfera reúna mais de 73 milhões de blogs. Esse número aumenta a uma razão de 175 mil por dia.
O jornal espanhol El País publicou o artigo "Os weblogs fazem dez anos de agitação" no qual afirma que: "Nunca um meio de comunicação cresceu a tal velocidade".
Em 1º de abril de 1997, Dave Winer lançou na rede a primeira postagem. De lá pra cá o blog deixou de ser uma brincadeira de adolescente ou um diário virtual. É um veículo de comunicação importante no mundo.
Nas últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos, as equipes dos candidatos - George W. Bush e John Kerry - mobilizaram a opinião pública, criando correntes por meio de blog.
No mundo das empresas a norte-americana Kryptonite, líder de fabricação de cadeados e travas teve um prejuízo estimado de US$ 10 milhões. Foi obrigada a substituir quase 40 mil cadeados de seu estoque e levou um bom tempo para recuperar sua reputação.
Tudo porque um blogueiro percebeu que poderia abrir uma das trancas, que era vendida a US$ 100, usando apenas uma caneta Bic comum e colocou em seu blog um vídeo que provava ser possível o "arrombamento".
Em questão de horas, todos os blogs falavam do assunto. A companhia só soube cerca de uma semana mais tarde, quando todos os meios de comunicação já falavam a respeito.
O Filhos da Pauta ainda não causou (e nem pretende) causar um estrago tão grande. A idéia é trazer assuntos, na maioria das vezes relacionados ao jornalismo, que possam ser discutidos com o nosso pequeno número de leitores.
E como há dois anos o desafio continua sendo manter este espaço atualizado...continuaremos tentando.
20 novembro 2007
Jornalistas contadores de histórias
Outro dia, lia jornal enquanto lanchava e comecei a conversar sobre formas de se fazer jornalismo com o repórter Marcelo Abreu, um maranhense com sensibilidade e veia literária que trabalha há anos no Correio Braziliense. Enveredamos por um papo agradável e ele me contou de suas experiências como "repórter itinerante".
O nome não é bem esse. Mas o conceito é o seguinte: como o Grupo Associados tem jornais em várias capitais, ele viaja para as cidades e começa a fazer matérias para outros veículos do grupo. "Preciso de um fotógrafo, um carro e uma página. Gosto de ser repórter e contar histórias", disse, lembrando de sua passagem por Pernambuco.
Para resumir Abreu, é preciso explicar bem o que ele faz. É um repórter diferente. Gosta de contar histórias. Dispensa as regras da hard news e escreve sobre comportamentos, dramas, e, sobre anônimos com uma vida que chama atenção por algum motivo.
Pois bem.
Ele me contava sobre uma série de reportagens que fez sobre o Holiday, um prédio de Boa Viagem (Recife), que já foi um glamour, mas hoje é reduto de traficantes, prostitutas, travestis e, claro, pessoas como qualquer outra que não optam pelo crime ou por maneira, para alguns, reprovável, de viver.
Exatamente isso que ele quis contar. Que naquele prédio de quitinetes e apartamentos baratos postado entre caros hotéis e edifícios de alta classe, existiam pessoas de bem, que queriam viver como qualquer outra. Eram humanas, humildes e mereciam atenção da sociedade.
Após a série publicada, Abreu disse que sua caixa de e-mail lotou. A mensagem que pareceu ter lhe chamado mais atenção foi de uma psicóloga, que lhe escreveu o seguinte: "Eu entrei com você no Holiday". A frase reflete bem a maneira que Abreu faz jornalismo, com texto detalhista e envolvente.
Para dizer isso com mais precisão, eis os dois primeiros parágrafos que Abreu para a história do Holiday, publicado no Diário de Pernambuco e no Correio Braziliense:
De longe, ele lembra o formato de uma meia-lua. A intenção foi essa mesmo. Deixá-lo com cara de meia-lua. Construção arrojada, pé direito alto, sete colunas de 36 metros de profundidade para sustentação. Concepção modernista, mão-de-obra retirante. Ainda hoje, não há como não parar para olhar. É, apesar do visível desgaste, da decadência e do rosa desbotado que encarde a fachada, uma rara obra de arquitetura. Um marco. Em 1957, na inauguração, um enorme tapete vermelho enfeitou a entrada principal. A cidade parou. Carros suntuosos estacionaram nos arredores. Uma gente bem-nascida ali entrou. A elite se deliciava com a vista do prédio, a 50 metros da praia. À frente, não havia outro edifício. Eram apenas ele e a imensidão do oceano.
Naquele dia, inaugurava-se a era dos arranha-céus de Boa Viagem. Seria o endereço de fim de semana das famílias abastadas. Ou moradia dos filhos de gente rica que vinham do interior para estudar na capital. Apartamentos pequenos — quitinetes, um ou dois quartos. Conceito moderno até então. Na verdade, ele todo era ousado. Ter um imóvel ali, na Recife de 1957, era sinônimo de luxo. Até o nome era chique: Edifício Holiday. Endereço: rua Salgueiro, 73, Boa Viagem. Não precisava dizer mais nada. Hoje, é melhor não dizer.
Essa divagação toda é pra dizer que esse ai em cima é, na minha humilde opinião, uma fórmula necessária para todo jornal. Atualmente, tudo é igual a internet. Mas histórias como a do Holiday podem fazer a diferença.
Assim como Abreu, outros repórteres são também importantes para compor esse modelo. A gaúcha Eliane Brum é uma delas. Escreve histórias sobre gente. Já publicou um livro (A vida que ninguém vê) com elas.
Gostaria que me dessem mais exemplos sobre jornalistas que contam essas histórias assim, para entreter e conquistar o leitor. Não apenas informar. Devo ter lido outras coisas parecidas, mas conheço mesmo somente esses dois. E o pouco que conheço gosto bastante.
12 novembro 2007
Mailer: egocêntrico, polêmico, talentoso...
Norman Mailer entra na sala da coletiva de imprensa de mais uma luta de Muhammed Ali. Bêbado, começa a brigar com os jornalistas presentes. Cria confusão. Esbraveja. Dá vexame. E grita também na direção dos personagens que estavam sendo entrevistados, mesmo sendo fã de um deles. A cena, descrita no livro O rei do mundo, de David Remnick - sobre Ali -, me lembra dois momentos distintos. O primeiro foi numa aula de redação na faculdade de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O professor Luís Alberto Scotto, um dos meus grandes mestres, afirmava que todos os "membros" do chamado new journalism eram "broncos". Discutiam, brigavam, polemizavam, tinham egos enormes.
A segunda lembrança é um trecho da introdução escrita pelo próprio Mailer no livro Super-homem vai ao supermercado. "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão. É um modo promíscuo de ganhar a vida. Assim como um advogado não tem um amor à verdade que se compare aos interesses do seu cliente, um repórter não tem respeito algum pela nuance. O sentido de uma situação não é o que ele explora: na verdade, ele frequentemente evita a atmosfera, já que é difícil capturá-la num texto escrito às pressas."
Esse era Norman Mailer. Egocêntrico, polêmico, e também muito talentoso. Esses três adjetivos podem muito bem descrever Mailer. Como escritor, há anos que não escrevia nada relevante. Seu último livro de qualidade - juntando ficção e não ficção - é A canção do carrasco, lançado em 1979. Sendo que ele nem teve o trabalho de apurar. Somente pegou todo o material e deu um trato. Mas isso não invalida suas grandes obras. Basta ler em Super-homem vai ao supermercado o texto sobre a convenção democrata de 1960. Ele conseguiu, antes de todos os jornalistas e analistas políticos, entender o incipiente marketing político que nascia com John Fitzgerald Kennedy.
Agora, nenhum dos seus livros - Os nus e os mortos, Exércitos da noite, A história de Lee Oswald - um mistério americano (onde dava voz aos entusiastas da teoria da conspiração), chega perto de A luta. Com palavras, Mailer conseguiu descrever tudo que acontecia de bom e ruim nos meados dos anos 1970 nos Estados Unidos. Racismo, pobreza de espírito dos norte-americanos, economia, tudo isso como pano de fundo para a volta de Ali aos ringues na luta contra George Foreman no Zaire. Mailer transformou boxe, que o dicionário explica como jogo de murros, em poesia pura.
Se partimos do pressuposto que o new jounalism aliava técnicas de apuração jornalísticas com redação de ficção, Mailer estaria na segunda divisão dos escritores. Caras como Tom Wolfe, Gay Talese e Jimmy Breslin - nos tempos da disputa entre as revistas Esquire e New Yorker - formariam a primeira divisão. Claro que não dá para esquecer de Truman Capote com o fantástico A sangue frio, que podemos colocar como o "marco inicial" do new jounalism em larga escala. Agora, Mailer e Capote não eram jornalistas, nem queriam ser. Os dois usaram o jornalismo em uma época que não tinham inspiração para escrever o que eles mesmos chamavam de "o romance". A grande reportagem era uma forma de não perderem a mão.
Não dá para negar a contribuição de Mailer à literatura. Ele mesmo foi reconhecido duas vezes pela crítica norte-americana, ao receber duas vezes o Pulitzer: em 1968 com Os Exércitos da noite, e em 1979 com A canção do carrasco. Mas não deixa de ser irônico o cara que sempre criticou o jornalismo ser colocado como romancista e jornalista em todos os obituários. Onde quer que esteja, ele deve estar repetindo a frase lá de cima: "Nunca trabalhei como jornalista - e não gosto dessa profissão".
* O perfil de Mário Coelho está no post Mãos ao alto (http://filhodapauta.blogspot.com/2007/10/mos-ao-alto.html#links)
04 novembro 2007
Gafes
Por Léo Alves
Vou contar algumas gafes envolvendo jornalistas. Não citarei nomes. Até porque o intuito não é ridicularizar nenhum colega. Afinal todos nós estamos sujeitos a cometer uma gafe.
Situação 1 – Entrevista coletiva com o então pré-candidato a presidente do Brasil (já faz tempo hein?) Anthony Garotinho.
A repórter de tevê recebe a pauta. Anthony Garotinho vai conceder entrevista coletiva na sala de espera do aeroporto.
Ansiosa, a repórter diz, no carro, que não sabe o que vai perguntar.
- Pergunta sobre as denúncias de corrupção que tem contra ele, sugere o motorista.
- É mesmo.
Sala lotada de jornalistas. Cada um se dirige e faz uma pergunta. Chega a vez da repórter.
- Garotinho o que você tem a dizer sobre as denúncias que existem contra você?
- Que denúncias?
- As denúncias.
- Que denúncias? Se você disser quais são as denúncias eu posso te responder.
- Éééé...Ahhh...éee. As denúncias que existem.
- Já te disse que você precisa dizer quais as denúncias. Que eu saiba não existe nenhuma denúncia contra mim.
Jornalistas se olham. Silêncio. A entrevista continua com a próxima pergunta.
No fim das contas não existia na época nenhuma denúncia contra Garotinho.
Moral da história: nunca confie totalmente no motorista do carro da reportagem.
Situação 2 – Palestra de um ministro do STJ.
Aconteceu com a mesma repórter da situação anterior.
A repórter chega antes de a palestra começar para garantir logo a entrevista com o ministro.
Algumas autoridades conversam no canto do auditório.
A repórter se dirige ao único “estranho” da roda de conversa e...
- Ministro o senhor vai abordar na palestra de hoje...
- Com licença, eu não sou o ministro. Ministro é o meu pai. Vou chamá-lo, interrompe o cidadão.
Quando no ministro começa a se dirigir ao local onde estava a repórter, ela tenta justificar a gafe.
- É que vocês são muito parecidos. Eu me confundi.
Quem estava na hora garante que pai e filho não se parecem nem um pouco. E que os dois se olharam como quem não estava entendendo nada.
Moral da história: antes de entrevistar alguém procure conhecê-lo por foto.
Situação 3 – Encontro de capacitação de jornalistas.
O correspondente internacional de uma grande emissora de tevê, que ministrou uma oficina no curso, se reúne com os participantes durante a confraternização.
Entre uma conversa e outra, um dos participantes indaga:
- É impressão minha ou nos “ao vivos” de esporte você sempre fica nervoso? Você fica nervoso mesmo ou é só impressão.
- Acho que é impressão sua, pois estou acostumado a cobrir esporte. Já cobri cinco Copas, Olimpíadas...
- Ah, deve ser impressão mesmo.
O autor da pergunta relatou que poderia ter ficado calado. Ele ainda acrescentou que certamente no próximo “ao vivo” o repórter iria lembrar dele.
Moral da história: nunca cometa gafe com outro jornalista.