28 junho 2006

O que escrever?

Daniel Brito

O título deste texto tem vários sentidos. Não sabia sobre o que escrever para deixar este blog atualizado. Afinal, blog desatualizado é exatamente igual a "jornal de ontem" - não serve para nada.

Além da pressão natural que coloco em Da Silva para ele escrever sempre alguma coisa uma vez por semana, dou uns puxões de orelha no pretenso Filho da Pauta Pedro Henrique Freire, o popular Grande Predo.

Mas tá meio complicado atualizar aqui com histórias diferentes. Pode ser a Copa do Mundo ou a simples falta de imaginação mesmo.

O título deste texto também remete a um novo blog que estou prestes a criar. Antes de explicar como será (ou seria) este "diário eletrônico", leia o texto abaixo que me chegou por email e foi publicado no site Blue Bus (www.bluebus.com.br)

Jornalistas espanhóis descartam 85% dos releases

09:17

Os jornalistas espanhóis descartam 85% dos press releases que recebem. A informação é de uma pesquisa realizada pelo Estudio de Comunicación y Demométrica, que realizou 220 entrevistas com redatores chefes e editores de veículos de toda a Espanha.

Para os jornalistas, os principais problemas encontrados nos comunicados que as empresas enviam à imprensa são: texto redigidos sem enfoque jornalístico, excessivamente publicitários, falta das informações necessárias e grande quantidade de 'inutilidades'.

Metade dos entrevistados admite que não tem tempo suficiente para analisar todos os press releases que recebe.

Noticia do El Mundo

Baseado nisso e em algumas histórias recentes, quero criar um blog com o seguinte título:

rilisilouco.blogspot.com

Sim, é rilisi de release, ou o que os espanhóis chamam de press releases.

No meu email do jornal, eu recebo aproximadamente 850 emails por dia, 840 são releases. Destes, 50 são utéis de alguma maneira. Dentro destes 50, oito ou nove me auxiliam na hora de escrever uma matéria. Dentro desses oito ou nove, dois me pautam para o dia seguinte.

A quantidade de besteira que (como se diz na Paraíba) desemboca (ato ou efeito de desembocar, cair, jorrar...) na minha caixa de email é incrível. Quando eu passo cinco dias sem abrir o email do jornal, tem 5 mil novas mensagens com facilidade.

Quando voltei de férias, tinham 18 mil novos emails. Cheguei três horas mais cedo para esvaziar a caixa.

A galera do automobilismo é quem mais manda. Pai de piloto de kart, assessoria, essas coisas. Depois vem ciclismo, vôlei, shoppings, agências de notícias...

É insuportável.

Dentro desses emails tem cada texto maluco. Tô me esforçando aqui para lembrar de alguma coisa estúpida que li recentemente, mas não consigo. Já encontrei nessas minhas rondas noturnas pelo google um blog com essa idéia, mas não me parecia muito atualizado. E blog desatualizado já sabe como é, né?

A partir de agora, vou juntar todas as tralhas que chegarem ao meu email para alimentar o blog sobre as loucuras cometidas pelos jornalistas que escrevem releases. Se você puder me ajudar, eu ficarei muito grato...

PS: A França não mete medo em ninguém. Por isso mesmo eu tô com medo! (Copa do Mundo não poderia estar de fora deste post, claro!)

25 junho 2006

Quem faz a pressão

Daniel Brito

Está difícil escrever sobre qualquer coisa atualmente que não seja futebol. Passei a semana procurando assunto para tratar aqui, mas não vi nenhum tão pertinente (na minha opinião, claro!) quanto o que vou relatar abaixo.

O Correio Braziliense de sexta-feira estampou em sua capa uma foto do atacante Ronaldo comemorando um dos gols na vitória sobre o Japão e a manchete:

Viva o Gordo!

No Jornal de Brasília, a foto foi a mesma e a manchete foi a seguinte:

Beijo do Gordo!

No jornal popular de Belo Horizonte, o Aqui BH, que pertence ao mesmo grupo do Correio Braziliense, o título para a vitória da Seleção foi:

Valeu, Gordo!

É engraçado que após aqueles gols ninguém mais martelou no assunto do peso de Ronaldo. Fizeram essas manchetes, mas ficou nisso mesmo. Manchetes, aliás, contestada por vários leitores mais antenados.

Como o próprio jogador costuma dizer:

"Quando faço gols emagreço. Quando não faço, estou gordo".

Como digo sempre, não sou o dono da verdade e estou longe de ser (se é que existe a possibilidade de alguém ser o dono da verdade).

Mas a imprensa levanta a bola de uma pessoa e exige que ela se mantenha àquela altura por quanto tempo a imprensa quiser. Poucas são as pessoas fora de série no planeta (em qualquer área de conhecimento e atuação). Pessoas que estão em evidência sempre com conteúdo para quem quiser ouví-la.

Para não ficar dando voltas até contar o que quero mesmo, vou me concentrar no caso de Ronaldo.

Na minha modesta, opaca e pálida opinião existe uma diferença visível entre estar acima do peso e estar gordo. O camisa 9 da Seleção assinala a opção 1. Mas jogou mal duas partidas e ficou gordo.

Foi decretada morte ao gordinho, numa total demonstração de falta de respeito e de memória.

Esqueceram que ele não é infalível.

O que para mim parece mais uma fase nebulosa (e que vai passar, afinal ele tem só 29 anos), para a imprensa que acompanha de perto a rotina da Seleção é o ocaso de uma estrela.

Essa forcação de barra me fez lembrar uma situação que li no livro de Garrincha.

Quando a Seleção Brasileira voltou da Suécia, em 1958, com a Taça Jules Rimet, o presidente Juscelino Kubistcheck (que a Globo insiste em querer canonizá-lo) ofereceu casas e carros aos campeões.

Membros da Força Aérea Brasileira e integrantes do Exército do país se revoltaram. Eles queriam ter esse direito, afinal, eram os verdadeiros heróis da pátria porque lutaram na II Guerra Mundial.

O nosso JK (traidor do movimento esquerdista do país nas décadas de 1950 e 1960) encerrou com a polêmica sem dar carros para ninguém. Muito menos casas.

Por que Juscelino queria homenagear os atletas e não os combatentes?

Primeiro, porque o tão batido "Pão & Circo" já era uma prática comum.

Segundo, porque a imprensa elevou Didi, Gilmar, Pelé, Garrincha, Zagallo e os demais membros da Seleção Brasileira da época à condição de heróis. Na época, o povo achava, realmente, que os jogadores mereciam casa. Já os combatentes não fizeram mais do que a obrigação...

O povo acha, atualmente, que Ronaldo está emagrecendo. Se marcar contra Gana, ficará mais magro ainda. Se vomitar em campo (como fez Beckham e como o próprio Ronaldo queria fazer contra a Croácia, eu imagino), é um gordo, maldito e acabado.

Eu mesmo já fiz o que estão fazendo com Ronaldo no meu círculo de atuação. Aconteceu com um jogador de basquete chamado Kenya.

Ele é um norte-americano muito gente boa e bom de bola. Atua pelo Universo BRB, equipe de basquete profissional do Distrito Federal. Nos playoffs do Campeonato Brasileiro deste ano, o negão mudou de cor. Amarelou ...

Errava bandeja, errava lance-livre, errava arremessos fáceis. Deu branco. Foi feio!

Eu, que sou um produto do meio que estou detonando neste texto, fiz uma série de matérias pressionando o pobre do Kenya. Disse que ele estava com medo de acertar justamente nas finais e coisas do tipo. E busquei declarações de companheiros e do treinador repercutindo o baixo rendimento dele.

Kenya não ficou chateado (aparentemente), mas eu sabia o mal que estava causando ao trabalho dele cada vez que o pressionava nas entrevistas. O campeonato acabou (aliás, tá na Justiça, não acabou) e Kenya não voltou a jogar bem, coitado. Na última partida se recusou a sair de quadra e xingou o treinador para os repórteres.

Eu tenho uma parcela de culpa nessa história...

21 junho 2006

Vale a pena

Léo Alves

Na vida devemos fazer coisas que valham a pena, que nos torne um pouco melhor.

A expressão “valer a pena” era muito usada por mim e Daniel, na época em que o grande DB morava em Campina Grande. Nas segundas ou terças-feiras quando saímos para lanchar, acabávamos tomando uns chopes e alongando a conversa. Sempre surgia aquela preocupação: “amanhã temos que acordar cedo pra trabalhar”.

“Esquenta não Da Silva, vale a pena esticar a conversa”. Realmente ele tinha razão.

Profissionalmente falando, sempre soube que valia a pena ser jornalista. Decidi seguir a profissão, espelhando-se no meu tio radialista, no segundo ano do Redentorista, onde fazia curso de eletrônica.

Desde então, tive dúvida em relação à profissão apenas duas vezes na vida. Quando fiz o primeiro vestibular para Direito e Engenharia Mecânica. Não passei. No ano seguinte acabei sendo aprovado em Comunicação Social (Jornalismo) e Engenharia Mecânica. Cursei os dois por um bom tempo.

A outra vez foi quando passei no concurso do Banco do Brasil. Tinha seis meses de Diário da Borborema e fui convocado pelo BB. Fui ser bancário porque ouvia muita gente dizer que jornalista não ganha dinheiro. A dúvida me levou à certeza. Em onze meses de BB, pedi demissão.

Senti falta do jornalismo.

Lembro bem do dia que pedi pra sair. Meus dois gerentes queriam a todo custo que eu mudasse de idéia. Perguntaram sobre salário, eu menti. Disse que o Diário iria me pagar melhor.

Em OFF: saí para ganhar a metade. Só pararam de tentar me seduzir quando disse que poderia chegar a ser presidente do BB, mas toda vez que lesse uma notícia no jornal que não fosse eu que tivesse escrito, ficaria triste.

Vou parando por aqui porque esse post não é uma autobiografia. Só que os três primeiros parágrafos eram fundamentais o entendimento.

Semana passada reencontrei um colega que terminou Jornalismo comigo. Ele foi vereador em Serra Branca (a 120 km de CG). Candidatou-se a prefeito e perdeu. Nunca exerceu a profissão. Pelo menos que eu saiba. Ao me cumprimentar, soltou:

- Rapaz, tu saísse do Banco do Brasil para ganhar essa mixaria em jornalismo? Tu é doido, é?

Um comentário no mínimo indiscreto.

Primeiro porque ele não sabe se meu salário é de três, quatro ou cinco dígitos. Segundo, porque se não exerce a profissão não bote gosto ruim. A conversa durou mais alguns minutos, mas não tive como perguntar o que ele estava fazendo da vida. Porém questionou como eu tinha entrado na UEPB.

Encerrei a conversa dizendo que “dinheiro não é tudo na vida”.

Realmente não é.

Poder trabalhar no que você gosta não tem preço (não é propaganda de cartão de crédito). Confesso que o comentário do colega me deixou intrigado. É chato ver pessoas que escolheram o jornalismo só para ter um curso superior. O pior é ouvi-las esculhambar com a profissão, sem nunca ter provado.

Em menos de uma semana de ter escutado o comentário do colega revoltado com o jornalismo, reencontrei um jornalista apaixonado pela profissão, Gil Campos. Certamente muito mais que eu. Quando entrei na faculdade Gil já era repórter policial do Jornal da Paraíba.

Há nove anos Gil saiu de Campina Grande. Hoje trabalha num jornal do grupo Folha e é assessor da Prefeitura de Guarulhos. Está em CG fazendo uma matéria sobre o Maior São João do Mundo.

Não tive muito contato com ele na época de faculdade porque estávamos em níveis diferentes.

Eu estudante, ele jornalista.

Segunda-feira (19/06) estava na UEPB, quando Gil apareceu. Imediatamente convidei-o para uma palestra informal com a minha turma de Técnica de Entrevista e Reportagem, do terceiro ano. Ele aceitou. À noite apareceu como combinado.

A palestra foi uma lição, uma demonstração de amor pela profissão.

Antes, disse que Gil tinha saído de CG. Na verdade foi obrigado a sair. Ele (eu sabia da história por alto) contou que denunciou vários crimes praticados por policiais civis e militares em Campina Grande, na década de 90. Foi o suficiente para começar a receber ameaças de morte. Não se intimidou. Sofreu um atentado. Continuou firme nas denúncias. Foi aí que assassinaram uma irmã e prima dele (certamente por vingança). E ainda o avisaram no jornal onde estavam os corpos. Em seguida, depois do segundo atentado, teve que deixar CG para não morrer.

As denúncias são lembradas até hoje pelos policiais. Ainda na semana passada, um deles o encontrou num bar e disse que “ele merecia ser assassinado por um profissional. E que tomasse cuidado ao andar só”. Mesmo com a ameaça, Gil confessou que tem vontade de voltar para Campina. Mas teme (e com razão) ser assassinado.

O mais interessante da palestra foi a pergunta se tinha valido a pena tudo que passou.

- Valeu! Valeu a pena. E faria tudo de novo, respondeu Gil.

Não tenho bem certeza se essas foram as palavras dele. Notei que os alunos ficaram em silêncio, se entreolhando, como sem entender tamanho amor pelo jornalismo.

O único comentário que fiz foi: “E eu pensava que gostava de jornalismo”.

Foi inevitável não comparar com a conversa da semana anterior com o jornalista formado, mas que não exerce a profissão. Quando olhei pra Gil vi um jornalista apaixonado pelo que faz, idealista, que apesar de tudo que passou não desistiu, não mudou de profissão e hoje é lembrado em CG como exemplo de grande jornalista policial.

Isso não se compra, se conquista.

No outro colega vi apenas alguém preocupado com o salário do final do mês. Está aí o principal motivo de terem seguido caminhos diferentes.

A vida, a carreira, não deve ser pautada pelo dinheiro. É preciso ter amor pelo que se faz. O dinheiro é conseqüência de um trabalho bem feito. E o trabalho só será bem feito se tiver amor na sua realização.

É por isso que sempre digo que VALE A PENA SER JORNALISTA.

19 junho 2006

O que me falta...

Daniel Brito

Quando digo para minha família que já apresentei uma palestra sou motivo de piadas.

Logo eu, o pior aluno de todos os tempos dando palestra? Eles, realmente, têm motivos para rir.

Mas é verdade.

Eu dei quatro palestras em minha vida. Três em Campina Grande, na Universidade Estadual da Paraíba, onde me formei. Outra, no final de maio deste ano em Ribeirão Preto (SP), na UniCOC.

Em todas elas fiz questão de começar dizendo o seguinte: "Sempre fui o pior aluno do colégio. O pior mesmo, de tirar 0,5 (zero vírgula cinco) em cinco ou seis matérias por bimestre".

Meu grande amigo Da Silva, autor dos convites para Campina Grande, sempre me pediu para excluir este comentário.

Em Ribeirão, uma professora gritou: "Não diga isto aqui, pelamordeDeus".

Ela não esperou eu concluir a frase. Sempre fui o pior aluno do colégio. Em todos os colégios que passei. Mas me arrependo amargamente por isso.

Hoje, formado, trabalhando, longe das salas de aula e dos aterrorizantes deveres-de-casa (coisa de 1º grau, é verdade), me deparo com assuntos sensacionais que sei que poderia fazer um texto fantástico. Mas me falta conhecimento.

Hoje mesmo, dia do segundo jogo do Brasil na Copa da Alemanha me aconteceu isso.

Li, certa vez, há muito (mas muito tempo), uma história de um guerreiro chamado El Cid. Vendo o nosso atacante Ronaldo jogar contra a Austrália, tive uma vaga lembrança da história. O colega Roberto Naves rememorou a história:

El Cid era um guerreiro matador na Espanha de mil anos atrás (ano de 999). Ele era "temido e destemido" e nunca havia perdido uma guerra. A presença dele nos combates amedrontava os inimigos. Um dia, ele morreu em ação, mas os soldados do exército o colocaram sentado no cavalo dando a impresão de que ele estava vivo ainda, justamente para intimidar o adversário.

Essa saga me lembrou Ronaldo na Seleção Brasileira. Gostaria de poder escrever sobre isso, mas não me interessei quando tinha tempo de me aprofundar nessas coisas. Hoje não sou uma pessoa totalmente ocupada, mas não tenho disposição para começar do zero e ler tudo que não li no tempo que deveria ter lido.

Não bastasse esse sentimento de falta de aprendizado, (como se diz no futebol, falta de um trabalho de base), brigo comigo todos os dias quando tenho uma matéria legal mas deixei de perguntar uma coisinha que mudaria todo rumo do texto.

Aconteceu no jogo de estréia do Brasil na Copa, dia 13. Como disse no post "Até 2026...", fui à cidade de Cavalcante, no interior de Goiás, fazer matéria com algumas comunidades que não tinham energia elétrica até o ano passado. Portanto, esta seria a primeira copa desse povo.

Passei por oito casas, quase todas com a mesma história. Conversei com 15 ou 16 pessoas. Na hora de escrever o texto, fiquei devendo informação ao leitor. Veja abaixo os primeiros parágrafos:

Em um lugar onde a Copa do Mundo não passa de mais um programa na televisão, a Seleção Brasileira já deixou uma família de 10 pessoas passar fome. Aconteceu na final do Mundial de 1998.

As galinhas que Valdomiro Fernandes Castro, 45 anos, criava no quintal de casa eram a fonte de renda. Já estavam no ponto para ser vendidas para a vizinhança em caso de vitória do Brasil. Deu França.

A via crúcis começou no caminho de Valdomiro de volta para casa. O agricultor é um dos sete mil calungas, descendentes de escravos que povoam 235 mil hectares de Goiás. Eles estão espalhados pelos municípios de Cavalcante, Teresina e Monte Alegre, no Norte do estado. A cidade mais próxima de Brasília é Teresina, a 290km da capital.

Valdomiro mora no povoado de Ribeirão II, a 30km de Teresina, nove deles em estrada de barro. O vendedor de galinhas estava em Monte Alegre, a 40km, para ver a Seleção de Zagallo naquela final da Copa da França. Não havia energia elétrica em Ribeirão II.

Foi em Monte Alegre que o calunga assistiu à derrota por 3 x 0 do Brasil para a equipe anfitriã. O retorno para casa foi em um pau-de-arara. Os dias que sucederam à tragédia do Saint-Dennis foram piores ainda.

Ele não se lembra quanto tempo demorou para vender a única fonte de renda da família, mas descobriu que Copa do Mundo e dinheiro, até mesmo na zona rural, têm ligação direta. Tanto que teve que matar duas galinhas para alimentar os filhos.

“A gente até aceita que os jogadores sejam milionários e não dividam o dinheiro deles com os torcedores. Mas os torcedores não podem deixar de fazer as coisas porque o Brasil perdeu um jogo”, queixa-se Valdomiro.

A mãe dele, Dona Lorença, tem a mesma opinião. “Já aprendemos: se o Brasil vence, ganhamos mais dinheiro na roça.” A relação do Mundial com a comida no prato das crianças faz com que Valdomiro e os calungas assistam – e torçam – para a Seleção Brasileira na Alemanha.


Essa informação de Valdomiro foi apenas um detalhe no meio do oceano de dramas pessoais que ouvi nas casas em que passei. Juninho Fonseca, um ex-treinador do Treze, me disse que, em certa altura da vida, é preciso tirar alguma informação da cabeça para acrescentar outra e não apenas agregá-la a que já está "disponível em seu disco rígido".

Estava escrevendo o miolo do texto quando acrescentei a história de Valdomiro. Lá pelas tantas, percebi que seria muito mais chamativo se abrisse a reportagem contando essa história dramática. Tive que cortar outra história para enfatizar a fome da família de Valdomiro.

Acontece que a conversa com Valdomiro sobre a fome após a derrota na Copa foi bem superficial. Enrolei o máximo que pude para abrir a matéria com essa historieta, mas se você parar para analisar, veja que faltam algumas informações importantes:

- por quanto ele vendia uma galinha?
- quem eram os compradores que ele aguardava?
- quanto tempo demorou para vender a galinha após a Copa?

Podem parecer informações fúteis, mas são imprescindíveis, na minha opinião, para esse tipo de matéria. Servem para ilustrar a história. Note que eu citei no texto que ele não se lembrava quanto tempo demorou para vender uma galinha.

Não é exatamente que ele não se lembrava, é que eu nem perguntei... (que meu chefe não leia isto). Mas tive que acrescentar esta informação porque era importante na história. Para meu consolo, o povo lá não tem noção de tempo. Para lembrar que o Brasil perdeu a final da Copa de 1998. Eles não se apagam a números de anos, décadas, meses, essas coisas. (Essa era outra história que não coube na minha matéria, por falta de espaço)

A cada dia que passa me convenço que quanto mais informações puder ter, melhor. Se não couber na cabeça, como disse Juninho Fonseca, que anote, então, para deixar guardada em outro lugar fácil para ser pesquisado.

Só lamento por ter notado agora que não posso deixar passar a oportunidade que me falta para aprender.

16 junho 2006

Apurando o faro

Por Pedro Henrique Freire*

Outro dia eu descia a escada do Correio Braziliense depois das normais sete horas de trabalho e encontrei meu companheiro de muitas outras horas Daniel Brito. Ele chegara de Ribeirão Preto há pouco onde palestrou sobre jornalismo para estudantes. Desenvolveu sua apresentação em três tópicos. O último deles tratava do faro jornalístico. Minha inspiração para este artigo é, portanto, o terceiro tópico usado por "Briba", o simpático apelido de Daniel em Brasília.

Ao final da conversa na escada ele me pediu que colaborasse com mais um texto para o blog Filhos da Pauta. Com muita honra, claro, topei na hora, como sempre. "Vou falar da cobertura da Câmara Legislativa do Distrito Federal", respondi. Aqui estou eu pensando no que falar.

Quando resolvi falar da Câmara Legislativa não estava inventando nada. Usei a natural inspiração do ser humano para unir a convivência com aquele antro legislativo e o último tópico da palestra do Daniel em Ribeirão. Daí me veio, naturalmente, a idéia de escrever sobre faro jornalístico em matérias de política. Sacal, até... Ter faro é saber onde há matéria, onde dá artigo, onde há importância para o leitor. Isso é ter faro. Farejar é outra coisa.

Na teoria, faro jornalístico é o que há de mais sensível na relação notícia repórter. É justamente essa linha que une os dois objetos e que nunca deve ser rompida. Na prática, é tirar a notícia debaixo do tapete. Na Câmara é assim. Existem as notícias do dia, as que todos dão. O difícil é deixar o óbvio de lado e partir pro ataque sozinho, sem marcação. Quando isso acontece, amigo... é bola na rede!

Numa terça-feira qualquer fui fazer uma matéria sobre um projeto em tramitação que expulsaria os alunos de escolas particulares depois de dois meses de inadimplência. Haveria um protesto dos estudantes. Cheguei lá e não tinha nada. Entrei na casa e comecei a farejar o tal projeto. Se ele existisse, seria, no mínimo, polêmico. Rodei em três comissões. Peguei a pauta de votações do dia, conversei com deputados, assessores e nada. Bom, se não está tramitando nas comissões obrigatórias e nem um deputado sabia, então não tem projeto, pensei.

"Estou sem matéria? Não, não posso!"

Retornei à pauta de votações do dia e dei uma olhadela em cada projeto. Só coisas "mambas". As mais importantes não tinham acordo para serem votadas. Apelei para o Plano B. Lembrei que na semana anterior projetos importantes tinham sido aprovados em dois turnos, mas ainda estavam emperrados na Câmara.

Um deles - o mais polêmico, que precisou de um mês de intensas discussões para ir à plenário – trata da política habitacional do DF e atinge diretamente 50 mil pessoas que concorrem a lotes.

Descobri que uma deputada havia entrado com o requerimento que anulava a votação de uma sub-emenda de sua própria autoria e, portanto, travava o projeto de lei ainda na assessoria de plenário para mudança de texto. Somou-se a isso uma sessão sem quorum no dia.

Pronto, pensei, salvei minha pauta!

Ai foi só administrar o jogo para partir pro ataque sem marcação. Eis o que escrevi.

Mesmo aprovado em dois turnos há 20 dias, a tramitação do projeto de lei que regulamenta o programa habitacional está emperrada na Câmara Legislativa. O PL já deveria ter ido para sanção da governadora Maria de Lourdes Abadia. No entanto, ainda aguarda a apreciação do plenário de requerimento da distrital Eliana Pedrosa (PFL), que pede a anulação da votação da subemenda Nª 5. O item deveria ter sido avaliado nesta terça, mas o quorum foi suficiente para sustentar apenas 30 minutos de sessão.

Como meu veículo é a internet, a publicação ainda serve de colher-de-chá para jornal que não quiser levar furo no outro dia. Cheguei na redação e passei as informações para minha editora. Ela gostou e disse que eu escrevesse.

Mas, antes, me informou: "O protesto dos estudantes era na Câmara Federal e não na legislativa". Lamentei o erro de comunicação, mas fiquei feliz por driblar a ordem do dia e praticar o meu "subdesenvolvido" faro jornalístico. Numa apuração, saía da rotina e sempre fareje mais uma vez.

* Pedro Henrique Freire é a favor da barração de Ronaldo no time titular da Seleção Brasileira

15 junho 2006

A copa no seminário

Léo Alves

Terça-feira, 13 de junho de 2006.
Dia da estréia do Brasil na Copa do Mundo.
Local: Seminário São João Maria Vianey, Campina Grande-PB.

Foi neste local que acompanhei o jogo contra a Croácia. A idéia da produção (muito boa, por sinal) era mostrar se a rotina dos seminaristas também mudava com os jogos da Seleção.
Toda a equipe da TVPB está tentando fazer matérias com abordagens diferentes, locais inusitados. Fugir do tradicional pessoas-num-bar-torcendo-pelo-Brasil. Neste aspecto, a produção estreou melhor que a Seleção Brasileira. Mesmo empolgado com a matéria, tinha receio de como os seminaristas nos receberiam.

Cheguei às 15h. Fui recebido por um deles disposto a contar a rotina das pessoas que moram lá. O seminarista disse que todos os dias acordam cedo, fazem oração, tomam café e vão para a universidade, que fica dentro do próprio seminário. À tarde dividem o tempo entre estudo pessoal e serviços domésticos.

Têm folga uma vez por mês. Sempre aos domingos. A quarta-feira é o único dia livre, que eles podem sair para passear. Como muitos dos 37 seminaristas são de outras cidades só vão em casa nas férias do meio e do fim do ano. No dia do jogo do Brasil a rotina do seminário mudou totalmente.

Para ter a tarde livre, os serviços foram antecipados. A água da fonte recebeu um corante azul. A sala de tevê (usada para assistir filmes e telejornais) foi decorada em verde-amarelo. O detalhe era que por trás de um crucifixo na parede foi colocado um tecido verde e amarelo. Até Yuri, um cachorrinho poodle, também estava no clima da Copa.

Os funcionários estavam ajudando na decoração, mas ganharam folga na hora da partida. Já tinha as informações para a minha matéria. Faltava escrever a passagem (para quem não tinha muita intimidade com os termos técnicos de televisão, passagem é quando o repórter aparece na matéria para dar a informação).

Imaginei fazer a passagem dentro da sala, falando que a expectativa dos seminaristas iria acabar com o início do jogo. Mas quando comecei a pensar, um seminarista perguntou se a gente queria filmar o toque do sino, que naquele dia iria avisar a proximidade do jogo.

Nos dias normais, quando o sino toca é para acordar os seminaristas, para avisar que as refeições estão na mesa ou para chamar para alguma reunião. Bingo. Estava aí minha passagem. Quando voltei, a sala de tevê estava cheia de seminaristas e dois padres. Entrevistei dois deles sobre a expectativa (de praxe). Acompanhei toda a partida no seminário. Os seminaristas torcem (e sofrem) como qualquer brasileiro.

Claro que não chamam palavrão.

Mas não vi muita coisa de diferente na maneira de torcer deles. Tinha até pipoca e refrigerante (eu também comi). Procurei escrever a matéria dando destaque às mudanças na rotina do seminário. Contei o que faziam, o que estavam fazendo naquele dia. Coloquei entrevistas dos seminaristas contando a antecipação dos serviços, do corante na água. Tudo muito rápido, mas que era essencial para complementar o texto.

Só para exemplificar. Um trecho que escrevi ficou assim: “Os seminaristas são brasileiros, mas não deixam tudo para última hora”. Aí deveria entrar a entrevista do seminarista dizendo apenas: “nós antecipamos os serviços ontem para estarmos livres hoje”.

Terminei de escrever a matéria por volta de 18h15 porque trouxe o texto quase pronto. Fiz só alguns retoques. O jornal entra no ar às 19h. O editor não tinha tempo de colocar tudo que pedi. Até por uma questão do tempo do jornal, que naquele dia estava com apenas nove minutos (em média são doze). Mas a idéia era reeditá-la maior para o Bom Dia Paraíba.

Não tive tempo de assistir a matéria. Só cheguei a vê-la no início da tarde do dia 14. O texto que escrevi foi cortado pela metade. Das entrevistas que pedi só entraram as duas do final, que avaliavam o desempenho da Seleção. A matéria não foi reeditada. Saiu no Bom Dia do mesmo jeito da noite anterior. Quem assistiu em casa pode até ter gostado.

Mas não sabe a quantidade de informações que ficou de fora. Detalhes que enriqueceriam a matéria. Não sei se errei ao não conseguir enxugar mais o texto e obriguei o editor a cortar muitas coisas. Ou a culpa foi do tempo.

Só sei que a matéria não foi ar como eu imaginava. Pela primeira vez tive saudades do jornal impresso, onde poderia ter contado melhor os detalhes do que foi assistir ao jogo do Brasil num seminário.

11 junho 2006

Até 2026...

Se amanhã eu deixar de escrever neste blog, ficar analfabeto, mudar de ramo de atividade ou fizer qualquer outra coisa que me tire da cabeça o que vou escrever agora, peço a alguém que me lembre em 2026 o que está nas linhas abaixo.

Estou com a certeza que esta é apenas a primeira de uma série de quatro copas do mundo que NÃO assistirei. Tá, tudo bem, eu vi a vitória da Alemanha, da Inglaterra, Equador e Argentina. Até o empate da Suécia contra Trinidad e Tobago. Sorte de principiante (minha e dos trinitenses).

Mas nunca esqueço uma frase que meu pai me falou em 1998. "Depois de 20 anos, posso assistir a uma copa do mundo sem me preocupar com o trabalho". Fiz as contas. Desde a Argentina, em 1978, até a França, passando por Espanha (1982), México (1986), Itália (1990) e Estados Unidos (1994), meu pai trabalhou.

Na Espanha e na Itália ele esteve lá (pé frio!!). Nas demais, ficou no Brasil fechando o jornal, organizando a equipe de repórteres fosse do Jornal O Norte, em João Pessoa, fosse do Correio Braziliense, em Brasília. Depois disso, o destino o levou para outra ramificação do jornalismo.

Tinha 17 anos quando ouvi a tal frase de "vinte anos sem assistir a uma copa". Estou com 25 e SEI que só na Copa de 2026, que eu acho que deve ser na Europa, eu nao devo mais estar trabalhando. De repente, assim como Marcondes Brito, posso estar em outra ramificação da profissão, ou até desempregado mesmo. Quem sabe milionário? Não, quem faz jornalismo não fica milionário... É mais fácil estar desempregado (Nesse caso, é melhor trabalhar na Copa de 2026 mesmo).

Anyway, é uma tortura chinesa trabalhar em plena Copa do Mundo. Não é só por causa do Brasil. É pelo clima, pelas histórias, pelas conversas e pelas partidas, que costumam ter alta carga de emoção. Quando se é repórter jovenzinho assim, com 25, 30 anos, você geralmente é pautado para fazer as piores coisas no exato momento do jogo do Brasil, ou de outras partidas sensacionais.

Alemanha e Costa Rica, por exemplo. Lá estava eu na Embaixada da Alemanha em Brasília. Aqui vai até uma confissão: de tanto insistirem, acabei tomando cerveja com eles e torcendo para Alemanha. Da Silva, anote este nome: Paulaner. Esta é a cerva alemã...

Hoje, domingo, tem Portugal e Angola. Será um jogão, eu presumo, porque é um duelo histórico. Coincidentemente será disputado na cidade de Colônia. Não verei porque estarei em algum lugar de Goiás.

Para escapar de outras furadas em jogos importantes, como embaixadas ou bares para fazer matéria sobre as torcidas, bolei uma série de pautas justamente para o momento em que o Brasil estiver em campo. Terça-feira, por exemplo, estarei no povoado de Diadema, no município de Teresina de Goiás, a 380km de Brasilia.

Esse povoado nunca assistiu a Copa do Mundo pela televisão. A energia elétrica só chegou lá em novembro de 2005. VOu lá contar como essa galerinha, descendente de escravos, chamados de Kalungas, verá a Seleção Brasileira pela primeira vez na vida em um Mundial na TV.

Entre as idéias que apresentei à chefia de redação, havia um lugar muito especial: uma plataforma de petróleo. Queria muito saber o que fazem as pessoas que trabalham lá no exato momento em que a Seleção Brasileira está em campo na Alemanha.

Trabalham? Assistem ao jogo?

Vou continuar em dúvida. A assessoria da Petrobras informou que não nos deram autorização para ir a qualquer uma das 50 plataformas de petróleo que o Brasil possui no oceano.

Não tem problema. No próximo domingo, passarei o dia em um mosteiro. Dia 18, o próximo domingo, tem Brasil e Austrália. E é dia sagrado para padres, bispos ou monges que vivem em mosteiros. O que eles farão? Assistirão ao jogo ou continuarão isolados??

Gostaria de assistir em um presídio também. Com tantos problemas que um presidiário tem, será que ele ainda se preocupa com uma vitória da Seleção?

Há algumas outras idéias, mas prefiro não antecipá-las. O Brasil pode até perder a Copa se eu disser antes do tempo.

É estranho pensar que lamento por não puder acompanhar a Copa do Mundo como fiz nas últimas cinco edições, quando ainda era um estudante -- em 2002, já trabalhava na TV Borborema, em Campina Grande (PB), mas não tinha absolutamente nada a ver com Copa do Mundo. Ao mesmo tempo, me empolgo com as pautas para os dias de jogos da Seleção.

Quero chegar em 2026 e pensar que valeu à pena trabalhar vinte anos para usufruir dos vinte anos seguintes sem ter que me preocupar com trabalho em pleno dia do jogo do Brasil na Copa do Mundo.
(Me lembre disso, por favor)

09 junho 2006

Bom apetite

Léo Alves

Em época de eleição o candidato topa tudo que aparecer pela frente. Anda de jegue (Geraldo Alckmin pretendia fazer isso aqui na Paraíba), cumprimenta todo mundo, toma uma dose de cana e, quando o assunto é comida, o candidato não rejeita nada. Vai logo colocando na boca. Por aqui o cara come buchada de bode (para quem não conhece é feita com as vísceras do animal), picado (segue e mesma linha) e um monte de coisa que ele não sabe nem o que é. O importante é fazer média. Tem uns que até exageram. Num encontro com Lula, o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), começou a mastigar mamonas, que tinham sido oferecidas pelo presidente. Só parou quando soube que a mamona é tóxica.

De vez em quando jornalista tem que dar uma de político. Não digo que o repórter vá aceitar comer alguma coisa só pra “ser político”. Afinal não estamos atrás de votos. Mas temos que ser diplomáticos (Daniel adora essa expressão). Acho que todo jornalista já passou por uma situação em que chega num local e as pessoas querem agradar. E acabam agradando demais. Oferecem café, chá, refrigerante e um monte de outras coisas que o repórter fica até sem jeito de não aceitar. Primeiro para não passar a impressão de mal educado. Depois pra não pensarem que você “se acha” e não quer se misturar (como aquele nosso amigo Manu).

Eu já aceitei lanchar várias vezes. Mas também já recusei um monte. “Não tomo café”, “acabei de lanchar”, “Almocei agora há pouco”, “não tenho costume de comer à tarde” foram algumas das dezenas de desculpas que usei para recusar “um lanchinho”. O pior é quando a matéria envolve comida. Não tem jeito. O repórter é sempre convidado a provar. Mesmo assim, como disse, recusei várias vezes. É melhor que vomitar na frente de quem me ofereceu o prato. Como dizem por aí: “eu tenho o estômago fraco”. Bateu lá dentro, não aceitou, é retorno certo.

Na época em que trabalhava na TV Borborema tinha uma produtora (não digo o nome em respeito) que adorava pautar pra mim matérias que envolviam gastronomia. Era receita disso, daquilo e de num sei lá o quê. Não é à toa que os colegas do jornal diziam que eu bem que poderia estrear um programa: “Leozinho em destaque”. Por aí dá pra imaginar o tipo de matéria. Numa dessas fui escalado para ensinar a receita de doce de mocotó. É um doce feito das patas de animais bovinos devidamente preparadas. Pois bem, lá estava eu, 14h30, calor, e a mulher cozinhando as patas do boi. Depois começou a tirar, a separar a carne (não sei se era nervo) do osso. Em seguida “a carne” foi colocada no numa panela com açúcar para ferver. Alguns minutos no fogo e o doce estava pronto.
- Agora vamos provar, disse a cozinheira.

Não tive nem muito tempo de pensar, mas ainda saiu uma desculpa:
- Nãooo, nãooo! Doce não é o meio forte, respondi.

Não estava a fim de comer um docinho feito de patas de vaca naquela tarde. O cinegrafista Wilton, que gosta de tomar umas cachaças brabas, estava de ressaca e aceitou. Não passou dois minutos e o cara estava suando.
- O doce é forte né?, perguntou ele pra disfarçar.
- É meu filho é muito forte.

Wilton não parava de suar. Eu morrendo de vontade de rir. Ainda bem que escapei do tal doce.

Já na era TV Paraíba fui escalado para ensinar a receita de Acarabode. Um acarajé feito de bode. Para quem morou seis meses em Cabaceiras (a terra do Bode Rei), na época em que trabalhava no Banco do Brasil, bode passa a ser um prato dispensável. Ele não falta no cardápio dos restaurantes da cidade. No almoço tinha que ter um “bodinho”. Minha cota de bode está no limite. Voltando ao acarabode, a primeira coisa que ‘chef ’ disse ao me cumprimentar foi que eu teria que provar seu prato. Ainda resisti, mas no final acabei provando do tal acarabode. Confesso. É até gostoso. Quase não dá pra sentir o gosto do bode. O acarabode fez sucesso. Um monte de gente ligou para tevê pedindo a receita. Tive até que imprimir uma e levar para o preparador físico do Treze. Também recebi algumas ligações de amigos - tirando onda - perguntando se eu seguiria os passos de Edu Guedes, aquele que ensina receitas no programa matinal da maravilhosa Ana Hickman. O acarabode foi a única matéria de receita que fiz até agora na TVPB (atenção produtores não estou reclamando! ).

Semana passada fui escalado para mostrar uma cooperativa de produtos naturais. Fomos eu e Manuella (produtora e quase nova repórter da tevê). Chegando lá vi logo uma mesa pronta, cheia de empadinhas, bolo, pasteis, coxinhas - todos feitos com soja e gergelim – e duas jarras de um suco verde. Não sabia de que era, mas imaginei que pudesse ser de “limão misturado com capim santo”. Parece que foi esse que tomei uma vez na Embrapa e passei a tarde enjoado.

- Manu, tá vendo essa mesa? Quando terminar a matéria vão chamar a gente para lanchar. Te prepara.
- Não, Léo, vão não.
- Esperemos pra ver, disse e comecei a pensar numa desculpa.

Não deu outra. No final fomos convidados a lanchar. O pior que não tive como recusar. A presidente da cooperativa tinha dito na entrevista que “as pessoas tinham medo dos produtos naturais”. Quando comecei a dizer que estava sem fome, ela me interrompeu.

- Eu não disse. As pessoas têm medo de provar coisas naturais. É gostoso. Coma para você ver.

Peguei uma empadinha de queijo com uma cobertura de gergelim. Estava gostosa. Fiquei só nela. Não quis arriscar o pastel, que depois soube que era de carne de soja. Pronto achei que a missão estava cumprida. Engano.

- Não, vocês vão ter que tomar um ‘suquinho’ de limão com couve, ofereceu.
Eu ia recusar, mas Manu passou na frente.

- Tá bom obrigado. Léo, eu pego um copo pra nós dois. ,
- Okaai, Manu.
- Tá gostoso. Prova, disse logo depois do primeiro gole, querendo me passar o copo.
- Então se tá gostoso pode tomar mais, bem mais. Quero só um pouquinho.

Sabia que Manu não ia recusar na frente das pessoas. Ela não disse nada. Só que olhou de um jeito como quem diz “valeu amigão”. Provei do suco. Não é ruim. Só dá pra sentir o gosto do limão. Porém a mistura com couve me deixou enjoado o resto da noite. Pode até ter sido psicológico.

Efeito psicológico ou não, só sei que no dia-a-dia, além de pegar todas as informações, muitas vezes o repórter tem que estar com o apetite aberto. E disposto a servir de cobaia para provar novos pratos que inventam por aí. Mas não esqueça:
O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE:
"COMER O QUE VOCÊ NÃO SABE O QUE É PODE CAUSAR MAL À SAÚDE"

06 junho 2006

Um exemplo

No último post Daniel falou sobre “fugir do oficial” nas matérias e as dificuldades que o repórter enfrenta numa cobertura como a Copa do Mundo. A colega dele no Correio Braziliense, Cida Barbosa, escreveu uma matéria nesta terça-feira (06/06) que é ótimo exemplo de fuga do “lugar comum”.


Centro das atenções

Königstein (Alemanha) - Se o assédio da imprensa à Seleção Brasileira era grande na fase de preparação, em Weggis (Suíça), ganhou proporções gigantescas na também pequena e pacata Königstein, porém, já no território da Copa do Mundo. Um turbilhão de, estimados, 800 profissionais, entre repórteres, fotógrafos, cinegrafistas e técnicos, invadiu ontem o campo de treino do Sportlange Altkonigblick. A massa era formada por brasileiros e estrangeiros de vários países.

A confusão, claro, foi total. Na zona mista (espaço para entrevistas com atletas) cada pedaço no alambrado que isola o jogador do repórter era disputado na base do empurra-empurra. A assessoria de imprensa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) separou o local por setor, com baia para cada meio de comunicação - mídia impressa, internet e rádio, tevês e imprensa estrangeira.

Com tanto gringo atrás de entrevista com os pentacampeões, acabou virando tumulto. Uns invadiram o espaço dos outros e a coisa se agravava porque alguns atletas pulavam uma baia e só atendiam em outra. Ai corria todo mundo para aquele lado. Quem estava na frente tinha de agüentar o aperto, pisão no pé, braços no rosto e coisas do tipo.

Os jornalistas brasileiros perderam a paciência com os estrangeiros e houve bate boca. Havia briga também para que os repórteres de sites, mesmo os brasileiros, ficassem longe dos jornais e revistas porque eles usavam imediatamente as declarações que os impressos só divulgariam no dia seguinte.

O assessor da imprensa da CBF, Rodrigo Paiva, explicou que a segurança deixou passar todos os profissionais credenciados pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) para cobrir a Copa. "Temos de dar um jeito nisso. Se não houver uma redução espontânea dessa quantidade de jornalistas, teremos de mudar o projeto", avisou ele, numa referência à troca da zona mista por coletivas. O que seria ruim porque, nesse segundo caso, são escolhidos dois ou três atletas para as entrevistas, enquanto que na zona mista todos são liberados para falar, desde que queiram. "Não dá para submeter os jogadores a mil jornalistas", argumento Paiva.

Cida Barbosa
Correio Braziliense

04 junho 2006

Fugindo do oficial

Daniel Brito

Estudantes de jornalismo e até jornalistas formados devem imaginar que trabalhar em uma Copa do Mundo é fantástico. Realmente eu também acho que é sensacional, mas é igualmente traumatizante.

A paraibana Cida Barbosa é a correspondente do Correio Braziliense na Alemanha. Ela está fazendo a cobertura ao lado de Jaeci Carvalho, repórter do jornal Estado de Minas, "co-irmão" do CB. Não conversei com ela direito desde que desembarcou em Weggis, na Suíça, mas imagino que esteja sofrendo um bocado.

Para qualquer repórter esportivo (menos uma pessoa, que prefiro não citar o nome), cobrir uma Copa do Mundo ou Olimpíada é o máximo da carreira. Cida Barbosa merece muito estar lá. O jornalista que recebe a incumbência de fazer a cobertura de um evento como esse mostrou competência ao longo de anos. É o caso de Cida.

Além de ser uma pessoa fantástica, carismática e humilde, ela tem uma visão diferenciada do futebol. E não é porque é mulher, muito pelo contrário. Ela vê notícia em um treino, uma entrevista ou uma situação que poucos repórteres têm capacidade de enxergar. Quem tiver a oportunidade de ler as matérias que Cida tem enviado da Europa vai comprovar o que estou dizendo.

Mesmo os repórteres mais perspicazes sofrem na cobertura de uma Copa do Mundo. Preste atenção nas entrevistas dos jogadores às emissoras de TV. É um espaço reservado, parecido com um jiqui (para quem não é paraibano, jiqui é o corredor que leva o boi do curral ao pasto). Você só tem aquela oportunidade de fazer sua matéria. Dentro de um jiqui.

E não existe segredo, principalmente quando a equipe é reduzida, como é o caso do CB e do EM. Para se ter uma idéia, a Folha de S.Paulo, o Estadão e o Globo levaram, cada um, oito ou nove jornalistas para a Alemanha. A pergunta que você fizer, será respondida para todos os repórteres. Tanto que as matérias são quase as mesmas (Menos as da Globo).

Como se faz para concorrer com esses caras?

José Cruz, sub-editor de esportes do CB, que carrega na bagagem três coberturas de Jogos Pan-Americanos e duas Olimpíadas conta que o diferencial está aonde os jornalistas não estão. Se o jornal te mandou para fora do país é porque quer que você faça algo a mais do que Folha, Estadão ou o Globo.

Não precisa ser algo a mais, mas algo diferente.

Cruz chegou a me contar algumas histórias de conversas reservadas com Gustavo Kuerten, em Sydney 2000, e com Alexander Popov, também na Austrália.

Leonardo Meireles, meu ex-chefe, cobriu a Olimpíada de Atenas, em 2004, e descobriu um caso de doping do Brasil, longe dos jornalistas. Ele contou que todos participavam de uma entrevista coletiva sobre ciclismo quando observou o médico da delegação brasileira aflito. Ele deixou o gravador na coletiva e meio que seguiu o doutor. Pescou algumas palavras tipo o nome da atleta, a substância e qualquer coisa parecida.

Poderia ser um furo de reportagem. Mas com internet soltando notícias a todo instante e o espaço de atuação reduzido, Leozinho (como é chamado Meireles) teve que fazer a pergunta no meio de 200 jornalistas que não sabiam o que tinha acontecido.

Além de ser difícil fazer uma cobertura diferenciada, é complicado conversar com atletas. O próprio Leozinho chegou a escrever um texto contando que cobrir uma olimpíada não é nada fácil. "Vai conversar com um atleta milionário que acabou de perder a medalha de ouro por um centésimo?", escreveu ele no blog que mantinha na página do Correio Braziliense na internet durante os Jogos de Atenas.

Em um universo reduzido, podemos comparar essa situação de trazer algo além do que está sendo "vendido" (apresentado) a uma simples entrevista coletiva.

Deixa eu exemplificar.

Sexta-feira, Daiane dos Santos esteve em Brasília para assinar um contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal. Por sorte, não havia muitos jornalistas esportivos no local. Eu e Ana Paula Lucena, do Jornal de Brasília, éramos os únicos da área. Por este motivo, a maioria das perguntas era sobre a importância do patrocínio, o que seria feito com essa verba e por ali foi.

Consegui, ainda, tirar o foco da história oficial. Perguntei para Daiane (que estava muito simpática, por sinal) quando ela iria se aposentar. "Em 2008 eu penduro o meu colan", brincou. Estava aí o mote de minha matéria. Só citei a história do patrocínio da Caixa no meio do texto, diferentemente dos outros repórteres que estavam lá na entrevista coletiva na hora. Eles preferiram dar destaque ao patrocínio (que não deixa de ser importante, é verdade).

Relendo meu texto, imaginei que poderia ter feito ainda melhor. Olha o que aconteceu:

Cheguei correndo no prédio da Caixa, onde foi realizada a entrevista. Quem chegou na mesma hora que eu? A própria Daiane acompanhada de Daniele Hypólito e as dirigentes da Confederação Brasileira de Ginástica.

O prédio da Caixa tem 21 andares e oito elevadores. Apenas um elevador sobe até o 21º, local da entrevista. Eu, Daiane, Daniele e algumas outras pessoas esperamos o elevador por uns 15 minutos. Se não estivesse ao lado das atletas, teria a certeza que teria perdido a coletiva.

Quando entramos no elevador, uma assessora de imprensa da Caixa nos acompanhou, sem perceber que Daiane e Daniele estava conosco. Elas tem 1,45m de altura, parecem crianças de sete anos. Aí falou:

"Poxa, estamos esperando as meninas, elas estão demorando", disse a assessora, olhando para mim.

Apontei para baixo e respondi:

"Eu trouxe essas meninas aqui para falar no lugar delas, serve?"

A assessora olhou para as "crianças", ficou impressionada com o tamanho delas e não largou mais do pé das atletas até chegar na sala de entrevista.

Acho que poderia ter começado o texto contando essa historinha, para depois emendar na aposentadoria ou no tal do patrocínio.

Como esse post aqui já está muito grande, deixa para contar sobre confecção de lides na próxima oportunidade...

01 junho 2006

Ilustre-quase-entrevistado

Pedro Henrique Freire*

No artigo sobre meu contato com o roqueiro Supla prometi contar outro causo sobre o lado gratificante de ser jornalista. Pois bem. Aqui estou para relembrar a matéria que fiz com o sambista Moacyr Luz, parceiro de nomes do alto escalão da MPB e do samba. Irei descrever a maneira interessante que se deu minha breve conversa por telefone e a forma como escrevi a matéria.

Era uma segunda-feira de setembro de 2005. Moacyr Luz faria um show em Brasília na terça-feira. Consegui o celular dele e disquei para o Rio de Janeiro.

Ele atendeu: “Alou! Alou!”, respondeu.

Eu tentava fazer com que ele me ouvisse. Mas, ao fundo, uma insistente harmonia de instrumentos eliminava todas a chances de nos entendermos. “Moacyr, é o Pedro, do CorreioWeb. Você pode falar agora?”, perguntei. “Espera só um momentinho, por favor”, respondeu, delicadamente.

Aos poucos, os sons do pandeiro, cavaquinho, tamborim, violão e outros instrumentos de samba foram se distanciando. Esse “momentinho” foi suficiente para refletir sobre a boemia carioca.

Naquela segunda-feira, 14h, o sambista estava tocando e cantando na Lapa. “Olá, Pedro. Me desculpe. É que toda segunda eu faço o samba do trabalhador aqui na Lapa. Não vai ter como falar hoje. Me desculpe mesmo. Você tem como pegar meu material com o Melck?”, disse, referindo-se ao assessor.

Não conhecia quase nada do som dele. Tinha visto uma entrevista sua certa vez no Multishow e sabia, basicamente, que Luz era parceiro de gente como Aldir Blanc, Nei Lopes, Martinho da Vila e outros. E também que é um cara de voz rouca, cabelos grisalhos amarrados em rabo-de-cavalo e gordo. Bom, sem consegui falar com ele para informações precisas e mais quentes, comecei meu texto assim:

“Perdoe-nos caro leitor. Na tarefa cotidiana de contatar entrevistados, neste caso o cantor e compositor Moacyr Luz, para ilustrar com suas palavras a matéria do show e o lançamento do livro que fará na noite desta terça-feira, no Feitiço Mineiro, não fomos bem sucedidos. Tentamos uma ligação por telefone. Mas ele estava ocupado. Chegou a atender. De fundo, podia-se ouvir os batuques de tantans, pandeiros, o som do cavaquinho e o falatório geral. Eram 14h de segunda-feira. “Desculpe, não posso falar. É que eu faço o samba do trabalhador toda a segunda-feira aqui. Desculpe de verdade. Mas estou no meio do trabalho”, justificou-se do Rio de Janeiro”

Ainda bem que eu estava em Cultura e podia experimentar os mais inusitados tipos de lides. Com o material da assessoria, reuni o máximo de informação possível sobre o compositor e, de quebra, ilustrei o texto com algumas declarações de músicos famosos sobre o trabalho dele. Não ficou ideal. Mas ficou tragável.

No dia seguinte, estava aqui na redação e quem me liga? Moacyr Luz. “Ô, Pedro, é o Moacyr, tudo bem? Olha, queria dizer que foi genial a saída que você usou na matéria. Cheguei na cidade agora. Se você quiser mais alguma informação pode me ligar. Ontem não pude falar mesmo, me desculpa”. Agradeci a atenção dispensada e prometi ir ao show naquela noite.

Não fui.

Mas fiquei feliz por ter sido elogiado pelo “ilustre-quase-entrevistado”.

* Pedro Henrique é repórter do CorreioWeb e mantém-se firme na tentativa de se tornar um Filho da Pauta