04 junho 2006

Fugindo do oficial

Daniel Brito

Estudantes de jornalismo e até jornalistas formados devem imaginar que trabalhar em uma Copa do Mundo é fantástico. Realmente eu também acho que é sensacional, mas é igualmente traumatizante.

A paraibana Cida Barbosa é a correspondente do Correio Braziliense na Alemanha. Ela está fazendo a cobertura ao lado de Jaeci Carvalho, repórter do jornal Estado de Minas, "co-irmão" do CB. Não conversei com ela direito desde que desembarcou em Weggis, na Suíça, mas imagino que esteja sofrendo um bocado.

Para qualquer repórter esportivo (menos uma pessoa, que prefiro não citar o nome), cobrir uma Copa do Mundo ou Olimpíada é o máximo da carreira. Cida Barbosa merece muito estar lá. O jornalista que recebe a incumbência de fazer a cobertura de um evento como esse mostrou competência ao longo de anos. É o caso de Cida.

Além de ser uma pessoa fantástica, carismática e humilde, ela tem uma visão diferenciada do futebol. E não é porque é mulher, muito pelo contrário. Ela vê notícia em um treino, uma entrevista ou uma situação que poucos repórteres têm capacidade de enxergar. Quem tiver a oportunidade de ler as matérias que Cida tem enviado da Europa vai comprovar o que estou dizendo.

Mesmo os repórteres mais perspicazes sofrem na cobertura de uma Copa do Mundo. Preste atenção nas entrevistas dos jogadores às emissoras de TV. É um espaço reservado, parecido com um jiqui (para quem não é paraibano, jiqui é o corredor que leva o boi do curral ao pasto). Você só tem aquela oportunidade de fazer sua matéria. Dentro de um jiqui.

E não existe segredo, principalmente quando a equipe é reduzida, como é o caso do CB e do EM. Para se ter uma idéia, a Folha de S.Paulo, o Estadão e o Globo levaram, cada um, oito ou nove jornalistas para a Alemanha. A pergunta que você fizer, será respondida para todos os repórteres. Tanto que as matérias são quase as mesmas (Menos as da Globo).

Como se faz para concorrer com esses caras?

José Cruz, sub-editor de esportes do CB, que carrega na bagagem três coberturas de Jogos Pan-Americanos e duas Olimpíadas conta que o diferencial está aonde os jornalistas não estão. Se o jornal te mandou para fora do país é porque quer que você faça algo a mais do que Folha, Estadão ou o Globo.

Não precisa ser algo a mais, mas algo diferente.

Cruz chegou a me contar algumas histórias de conversas reservadas com Gustavo Kuerten, em Sydney 2000, e com Alexander Popov, também na Austrália.

Leonardo Meireles, meu ex-chefe, cobriu a Olimpíada de Atenas, em 2004, e descobriu um caso de doping do Brasil, longe dos jornalistas. Ele contou que todos participavam de uma entrevista coletiva sobre ciclismo quando observou o médico da delegação brasileira aflito. Ele deixou o gravador na coletiva e meio que seguiu o doutor. Pescou algumas palavras tipo o nome da atleta, a substância e qualquer coisa parecida.

Poderia ser um furo de reportagem. Mas com internet soltando notícias a todo instante e o espaço de atuação reduzido, Leozinho (como é chamado Meireles) teve que fazer a pergunta no meio de 200 jornalistas que não sabiam o que tinha acontecido.

Além de ser difícil fazer uma cobertura diferenciada, é complicado conversar com atletas. O próprio Leozinho chegou a escrever um texto contando que cobrir uma olimpíada não é nada fácil. "Vai conversar com um atleta milionário que acabou de perder a medalha de ouro por um centésimo?", escreveu ele no blog que mantinha na página do Correio Braziliense na internet durante os Jogos de Atenas.

Em um universo reduzido, podemos comparar essa situação de trazer algo além do que está sendo "vendido" (apresentado) a uma simples entrevista coletiva.

Deixa eu exemplificar.

Sexta-feira, Daiane dos Santos esteve em Brasília para assinar um contrato de patrocínio com a Caixa Econômica Federal. Por sorte, não havia muitos jornalistas esportivos no local. Eu e Ana Paula Lucena, do Jornal de Brasília, éramos os únicos da área. Por este motivo, a maioria das perguntas era sobre a importância do patrocínio, o que seria feito com essa verba e por ali foi.

Consegui, ainda, tirar o foco da história oficial. Perguntei para Daiane (que estava muito simpática, por sinal) quando ela iria se aposentar. "Em 2008 eu penduro o meu colan", brincou. Estava aí o mote de minha matéria. Só citei a história do patrocínio da Caixa no meio do texto, diferentemente dos outros repórteres que estavam lá na entrevista coletiva na hora. Eles preferiram dar destaque ao patrocínio (que não deixa de ser importante, é verdade).

Relendo meu texto, imaginei que poderia ter feito ainda melhor. Olha o que aconteceu:

Cheguei correndo no prédio da Caixa, onde foi realizada a entrevista. Quem chegou na mesma hora que eu? A própria Daiane acompanhada de Daniele Hypólito e as dirigentes da Confederação Brasileira de Ginástica.

O prédio da Caixa tem 21 andares e oito elevadores. Apenas um elevador sobe até o 21º, local da entrevista. Eu, Daiane, Daniele e algumas outras pessoas esperamos o elevador por uns 15 minutos. Se não estivesse ao lado das atletas, teria a certeza que teria perdido a coletiva.

Quando entramos no elevador, uma assessora de imprensa da Caixa nos acompanhou, sem perceber que Daiane e Daniele estava conosco. Elas tem 1,45m de altura, parecem crianças de sete anos. Aí falou:

"Poxa, estamos esperando as meninas, elas estão demorando", disse a assessora, olhando para mim.

Apontei para baixo e respondi:

"Eu trouxe essas meninas aqui para falar no lugar delas, serve?"

A assessora olhou para as "crianças", ficou impressionada com o tamanho delas e não largou mais do pé das atletas até chegar na sala de entrevista.

Acho que poderia ter começado o texto contando essa historinha, para depois emendar na aposentadoria ou no tal do patrocínio.

Como esse post aqui já está muito grande, deixa para contar sobre confecção de lides na próxima oportunidade...

3 comentários:

Léo Alves disse...

É DB dessa vez a Daiane não teve como estar apressada como estava ao telefone. Sobre a "fuga" do oficial é algo que deve ser sempre buscado. Mas nem sempre a gente consegue isso (pelo menos eu). É preciso muita observação (e prática) para desenvolver o chamado faro jornalístico. Porém é preciso ter cuidado para na hora de fugir do oficial não acabar esquecendo o foco da matéria. Já imaginou uma informação que todos trazem e o cara acaba esquecendo. Nem oito nem oitenta. O equilíbrio é o caminho.

Geraldo Moura disse...

Daniel esse ano no Curso Abril de Jornalismo tratou, mais precisamente a Revista Plug (produzida durante o curso), dessa questão de ir buscar a informação na contra-mão da maioria dos profissionais do jornalismo. Se puder visite a página do curso e confira a matéria. Abraços.

Anônimo disse...

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