23 fevereiro 2006

Um dia de Paparazzi

Pelo menos no Correio Braziliense funciona assim. Quando ocorre uma reunião de pauta e um repórter diz:
- Tenho uma materinha legal...
Hummmm!!
O editor nunca dá a atenção devida. Quando você tem uma sugestão e ela não é sensacional, mas interessante, ou até legal, o grande lance é "vendê-la" desta maneira:
- Tenho uma matéria sensacional para esta semana!!!
O chefe presta mais atenção e até sugere informações complementares para a matéria se tornar sensacional.
Fiz esse nariz-de-cera todo porque me lembrei que começaria este texto dizendo:
- Tenho uma historinha interessante...
Bem, é interessante, mas por quê não vendê-la como sensacional? Alguém, além de mim, pode achar sensacional a "historinha"!
Vamos ao lead.

Quem esteve final de semana passado em Brasília foi ninguém menos que Don Diego Armando Maradona. Veio participar de um jogo de confraternização com ex-craques do Brasil em Brasília. Como esse camarada é polêmico, mais que divulgar a presença dele no jogo, o fato de ele passar duas noites na capital do Brasil já rende uma ou duas páginas inteira de notícias. Todo mundo quer saber o que Maradona fez em Brasília. Pelo menos os moradores de Brasília querem.

Eu queria também. Deixei de querer quando descobri que EU seria um dos responsáveis por informar ao público de Brasília o que cargas d'água Maradona fez em Brasília.

Humildemente, fui lá fazer vigília a partir de 9h30 da manhã de sábado passado (dia 18, se não me engano) em frente ao Hotel Kubitscheck Plaza, um dos melhores do DF. Na verdade, eu já estava rendendo um repórter do jornal, Afonso Morais, que ficou a madrugada inteira lá. Um fotógrafo já estava no local desde 6h30, quando substituiu o da madrugada.

Quando desembarquei no hotel, recebi as seguintes informações:

1- Maradona NÃO saiu do hotel na noite de sexta para sábado;
2 - Maradona encheu a cara de cachaça até 3h30 da manhã no bar da piscina.
3 - Um hospede reclamou da barulheira e os argentinos que acompanhavam Maradona, e que iriam jogar contra o Brasil no dia seguinte, foram para o quarto de Dieguito;
4 - Na suíte, Maradona pediu sete champanhes e um cara comprou 120 reais de energéticos no supermercado;
5 - Por volta de 6h da manhã, Maradona deu chilique porque queria que alguém comprasse cigarros para ele
6 - Por volta de 6h30, apagou-se a última luz do apartamento no décimo andar, onde Maradona estava hospedado.

Ciente da bagunça comportada do craque argentino, já estava pensando no título da minha matéria como "Maradona decepciona a imprensa". Brincadeiras à parte, assimilei essas informações de que ele teria ficado no hotel enchendo a rabiola de cana como verdades absolutas. Até porque, Goycochea, Basualdo, Careca e o próprio gerente do hotel deram a mesma versão. Só tive o trabalho de perguntar que horas ele sairia do quarto e o que comeu no café da manhã, almoço e jantar.

Acontece que às 17h, dez minutos antes de Maradona sair do hotel para ir jogar (sim, ele não veio para Brasília apenas para cachaçar), um cabeleireiro (néééé?!?!) que trabalha em um salão de beleza dentro do shoppingzinho do hotel chegou com a seguinte conversa:

- Arrumei quatro amigas (amigas mesmo. Popularmente chamadas de PUTAS PAGAS) para Maradona. Foi o chefe da delegação quem pediu. Eles foram no Gates Pub e na Boate Trend ontem à noite e voltaram depois das 4h da manhã...

Eu estava ao lado da minha concorrente, Camila Valadares, do Jornal de Brasília. Ficamos doidos com essa informação. Pô, um repórter passou a madrugada inteira no hotel e não viu Maradona sair pelo único elevador do recinto? Não era possível.

O cabeleireiro (néééé?!?!?!?) fez questão de mostrar que era, sim, possível que ele pudesse ter saído na noite de sexta para sábado. Acontece que o Gates e a Trend são locais concorridíssimos de públicos diferentes. Se ele tivesse ido com quatro putas pagas, Brasília inteira (a cidade só tem 16km de extensão, é pequena mesmo) já estaria comentando.

Pois o cabeleireiro (néééé?!?!?!?) sacou o celular do bolso e ligou para a amiga. Quem conversou com ela foi Valadares. A amiga estava nervosa porque a profissão dela é sigilosa, se é que você me entende. Mas deu a mesma versão do rapazinho do salão de beleza. Entramos em desespero. Eu e Valadares.

Quanto ele pagou pelas putas? Elas viram sinal de cocaína com Maradona? Ele usa viagra? Ele pediu alguma delas em casamento? Ele tem ejaculação precoce? Coisas do tipo. Ridículo...

Bom, são coisas fúteis, mas que qualquer edição do Manual de Redação da Caras ou Contigo dá muito valor. Era para isso que eu estava ali. Quer queria, quer não, o público quer ler essas coisas. Tanto que foi a matéria mais lida no Correio Braziliense e no Jornal de Brasília no domingo.

Pois muito bem, para confirmar a história, procuramos um coadjuvante. Huuuummm... Um segurança de Maradona! Ninguém melhor que ele para comprovar se El Diez fora no Gates e na Trend na noite de sexta para sábado.

Quem abordou um deles foi Camia Valadares.
- Oi amigo, tudo bem? Já estamos sabendo que Maradona saiu ontem à noite, foi para o Gates, Trend e voltou depois das 4h da matina com quatro prostitutas, pode confessar...

O cara, segurança, todo de preto, cara de poucos amigos, fechou ainda mais o rosto e não respondeu.

Naquele momento, eu e Valadares começamos a discutir. Na minha modesta, opaca e pálida opinião, ela deveria primeiro, tirar a cara de poucos amigos do segurança com perguntas amenas. Such as:

- Como é pra você trabalhar com um astro da grandeza de Maradona?
- As pessoas pedem muito autografo?

Assim, você ganha a simpatia do entrevistado. Essa é a minha opinião. Depois que o entrevistado tá do seu lado, cai matando. O livro de Lúcio Vaz (Ética da Malandragem), que Da Silva citou em post passado, ensina mais ou menos isso.

Acontece que eu fiquei sem a informação e tive que voltar correndo para redação para escrever meu texto, porque o jornal já estava fechando. Somado a isso, o jogo entre Brasil e Argentina, o motivo pelo qual Maradona esteve em Brasília, estava começando e eu precisava estar lá.

Voltei para redação, contei a história para o meu chefe. Ele não engoliu muito bem. Liguei no Gates e Trend. Nenhuma das boates confirmou a presença de Maradona lá. Porém, Valadares conseguiu confirmar com um dos seguranças que Maradona teria passado por esses lugares. E mais: teria pago 1,8 mil reais para as gatas o acompanharem.

Escrevi a matéria sobre a noitada no hotel mesmo.

O Jornal de Brasília (Camila Valadares) escreveu alguma coisa tipo: "Noite misteriosa". O que Maradona fez, afinal? Ficou trancado bebendo no hotel ou pagou quatro putas? Esse foi o tom da matéria.

Tenho humildade para reconhecer que gostaria de ter feito a mesma matéria, mas meu chefe pediu para divulgar apenas a versão que Afonso Morais, o repórter que passou a noite de sexta para sábado lá, havia apurado.

Em conversa com meus colegas de redação, eles também acham que o correto foi o que fiz. Sinceramente, ainda estou na dúvida.

A única certeza que tenho é que quem lê Caras não vê o coração de quem escreve aquelas abobrinhas.

Haja sofrimento (e falta do que escrever)

15 fevereiro 2006

Sugestão

O site da Associação Nacional de Jornais (ANJ) , - www.anj.org.br - ainda em fase de construção, está implementando um projeto para disponibilizar diariamente aos internautas as capas de todos os 123 jornais filiados à entidade.

Por enquanto, o site já permite que! o usuário acesse as primeiras páginas de 43 periódicos do país. O acesso é feito através de um banner situado à esquerda do site, que registra: "As primeiras páginas dos jornais de hoje.

Já o site Newspaper Direct - http://newspapperdirect.com - oferece na íntegra edições de importantes jornais do mundo todo. Disponíveis em formato online, os periódicos muitas vezes chegam antes ao site do que nas bancas dos respectivos paíse! s. Entre os títulos brasileiros estão Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Valor Econômico, Gazeta Mercantil e Agora.

Nenhum jornal gaúcho e diários importantes como Correio Braziliense e O Globo constam na página.

14 fevereiro 2006

O futuro dos jornais

Em 1998, o dono e fundador da Microsoft previu, Bill Gates, previu que no ano de 2000 não existiriam mais jornais e revistas. Gates certamente acreditava que a Internet (o jornalismo on line) iria acabar com o impresso. O empresário errou na previsão, mas não se pode negar que as novas tecnologias estão obrigando os jornais a repensarem seu papel. É a respeito disso que republico um artigo de O Globo.

Repensando os jornais

Carlos Alberto Di Franco (*)

Fonte:
O Globo

As fraudes praticadas por jornalistas norte-americanos do “New York Times” deram o que falar. Autor do mais famoso livro sobre a história do jornal, Gay Talese vê importantes problemas a partir da crise que atingiu um dos ícones do jornalismo mundial. Embora faça uma vibrante defesa do “Times” — “uma instituição que está no negócio há mais de cem anos”— Talese, crítico competente e arguto, põe o dedo em algumas chagas que, no fundo, não são exclusividade do jornal norte-americano. Elas ameaçam, de fato, a credibilidade da própria imprensa.
“Não fazemos matéria direito, porque a reportagem se tornou muito tática, confiando em e-mail, telefones, gravações. Não é cara a cara. Quando eu era repórter, nunca usava o telefone. Queria ver o rosto das pessoas. Os dois editores não viam a cara do repórter que eles contrataram. E as reclamações de editores de que Jayson Blair deveria parar de escrever foram feitas por e-mail. Isso é muita tecnologia no jornalismo. Não se anda na rua, não se pega o metrô ou um ônibus, um avião, não se vê, cara a cara, a pessoa com quem se está conversando”, conclui Talese. Falta de qualidade e deslizes éticos têm conseqüências. Produzem, a médio ou longo prazos, cicatrizes na credibilidade.
Um amigo gozador costuma me dizer que a expressão “jornalismo de qualidade” é contraditória em si mesma. Outro dia, quis me exemplificar esta sua opinião: “Veja”, dizia, “boa parte do noticiário de política não tem informação. Está dominada pela fofoca e pelo espetáculo. Não tem o menor interesse para os leitores. Não resolve nada, não questiona nada, não melhora a vida das pessoas.” O desinteresse crescente dos leitores com as páginas de política, por exemplo (e o comentário do meu amigo é uma amostragem do que está se passando pela cabeça do consumidor de jornal), está em relação direta com o excesso de aspas, a falta de apuração, a crise da reportagem e a substituição de matéria jornalística por transcrição rotineira de fitas.
O uso de grampos como material jornalístico virou, infelizmente, ferramenta de trabalho. A velha e boa reportagem foi sendo substituída por dossiê. É preciso ter cuidado, muito cuidado, com a fonte que voluntariamente procura o repórter. O grampeamento, além disso, continua sendo um delito. Independentemente das tentativas de minimizar a gravidade da sua prática, continuo achando que o melhor fim não justifica quaisquer meios. De uns tempos para cá, no entanto, o leitor passou a receber dossiês que, freqüentemente, não se sustentam em pé. Como chegam, vão embora. São chuvas de verão. Curiosamente, quem os publica não se sente obrigado a dar nenhuma satisfação ao leitor. Dossiê deveria ser ponto de partida, pauta. Entre nós, virou matéria para publicação. Entramos na era do jornalismo sem jornalistas, nos tempos da reportagem sem repórteres. Ficamos, todos (ou quase todos), fechados no nosso autismo, emparedados no ambiente rarefeito das redações.
Enquanto esperamos o próximo dossiê, tratamos de reproduzir declarações entre aspas, de repercutir frases vazias de políticos experientes na arte de manipular a imprensa. O jornalismo está virando show business . Espartilhados pelo mundo do espetáculo, repórteres estão sendo empurrados para o incômodo papel de uma peça descartável na linha de montagem da ciranda do entretenimento. Urge combater as manifestações do jornalismo declaratório e assumir, com clareza e didatismo, a agenda do cidadão. É preciso cobrir com qualidade as questões que influenciam o dia-a-dia das pessoas. É importante fixar a atenção da cobertura não mais nos políticos e em suas estratégias de comunicação, mas nos problemas de que os cidadãos estão reclamando.
Os jornalistas precisam escrever para os leitores, e não para os colegas. O jornal precisa ter a sábia humildade de moldar o seu conceito de informação, ajustando-o às autênticas necessidades do público. O lugar de repórter é a rua, garimpando a informação, apurando, prestando serviço ao leitor. Só assim conseguiremos que os leitores, cada vez mais seduzidos pelas facilidades oferecidas pela informação virtual, percebam que o jornal continua sendo útil, importante, um guia insubstituível para a navegação na vida real.

(*) Diretor do Master em Jornalismo.

12 fevereiro 2006

Quando falta o mais importante

Uma das coisas que me deixa frustrado é quando chego na redação, começo a escrever e percebo que se tivesse colhido determinada informação a reportagem ficaria melhor. Acho que todo jornalista já passou por isso. Não é nem que você tenha colhido poucas informações. É que se “tivesse perguntado ‘tal coisa’ poderia dar outro foco a notícia”. O pior é quando o editor pergunta por essa ‘tal coisa’ que você tem que dizer desconfiado: “não perguntei”. A sensação é de ‘falta de competência’.
Com o tempo o faro de repórter vai sendo aguçado e as falhas vão desaparecendo. É claro que vai ter um dia ou outro que você vai perceber que faltou o mais importante. As informações que você tem até dá para fazer a matéria, mas ela poderia ficar muito melhor se não tivesse esquecido de perguntar sobre a ‘tal coisa’. Sempre costumo dizer aos meus alunos que o nosso contato com a fonte (entrevistado) é uma oportunidade é única. Em alguns casos dá até pra fazer uma nova entrevista, mas o entrevistado perde a espontaneidade. Quem já teve que fazer isso sabe do que eu estou falando.
Em televisão é ainda pior. Depois que a câmera é desligada e você pede pro cinegrafista ligar novamente porque esqueceu de fazer uma pergunta, o entrevistado fica todo sem jeito. Ele até responde. Mas responde sem graça. Seu contato com a fonte pode durar apenas poucos minutos. E nesses poucos minutos você tem que pegar todas as informações. Se isso não ocorrer, já era. Existem outros casos que não dependem do repórter. Principalmente em tevê, onde o resultado do trabalho depende muito do cinegrafista. Ele é que tem que estar atento às imagens que farão a diferença na matéria. Se o cinegrafista não filmar, sua matéria vai ficar comprometida.
Semana passada vivi essa experiência. Estava trabalhando no clássico Campinense x Treze, no Amigão. Quando a bola saiu pra lateral, o técnico do Treze deu uma cotovelada no lateral-esquerdo do Campinense. O nariz do jogador sangrou e começou a confusão. “Você filmou a cotovelada”, perguntei ao meu cinegrafista. “Não sei”, respondeu ele pra minha tristeza. E realmente não tinha filmado porque assim que a bola saiu pra lateral, ele desligou a câmera. A cotovelada foi o assunto do outro dia no meio esportivo. Sem a imagem não pude fazer muita coisa. Tinha até boas sonoras com os envolvidos no caso. Não pude usá-las porque não dava pra fazer um VT sobre algo que não tinha a imagem. Esses casos chegam até a comprometer a credibilidade. O telespectador pode pensar que houve omissão, que não foi o caso.
Eu já havia passado por outra situação em janeiro de 2005, quando trabalha na TV Borborema. Posse do novo prefeito de Campina Grande, Veneziano Vital do Rêgo. Teatro Municipal lotado. Depois de entrevistar o novo chefe do executivo da cidade fomos (os jornalistas) entrevistar a ex-prefeita Cozete Barbosa. Quando estava na sexta pergunta resolvi tirar o microfone. Achei que com as sonoras que tinha dava pra fazer a matéria. E não é que na oitava pergunta, a ex-prefeita dá uma declaração bombástica. Na mesma hora, minha ex-editora Neide Nascimento me ligou perguntando se eu tinha a entrevista. Pense numa frustração. Ela ainda tentou me convencer a entrevistar novamente a ex-prefeita, num ato desesperado de conseguir a declaração. Sabia que seria quase impossível. Ela poderia até dizer algo parecido, mas nunca com a mesma raiva que disse. Fiquei pensando que aquilo era como se um prédio tivesse caído e eu tivesse perdido a imagem. Não teria como erguer o prédio, fazê-lo cair de novo para que eu pudesse filmar. A entrevista que perdi apontou um grande defeito nosso (de alguns repórteres de tevê como eu) de não ficar até o fim da entrevista, quando ela é feita por muitos jornalistas. Na maioria das vezes, na terceira ou quarta pergunta o cara já vai tirando o microfone. E foi por causa dessa mania que perdi a declaração da ex-prefeita, o fato mais importante da posse. Não foi bom, mas pelo menos serviu pra ensinar algo.

08 fevereiro 2006

Há vida além do esporte

Definitivamente, existe mais coisas no mundo jornalístico do que as matérias de esporte ou qualquer outra coisa relacionada ao que eu e Da Silva costumamos escrever neste espaço. Isso é óbvio.

Diante da mobilização internacional para tentar entender a reação dos islamicos após a publicação das charges do profeta Maomé ligado ao terrorismo por um jornal dinamarquês, me vejo na obrigação de colocar alguma coisa sobre o assunto no nosso blog.

Entendo que o assunto é extremamente complicado. Poucas pessoas gostam de ler sobre o assunto. Principalmente em Campina Grande, onde as pessoas fazem questão de pensar que o mundo gira em torno da cidade, e não o contrário. Mas o texto abaixo foi publicado no Washington Post e foi escrito por um jornalista do semanal alemão Die Zeit.

Além de cutucar os americanos, o jornalista dá mostras de quais são os critérios de edição nos jornais da europa.

Abaixo:


Thomas Kleine-Brockhoff
Tolerância para com os intolerantes

--> --> -->Na semana passada, a publicação na qual trabalho, o semanário alemão Die Zeit, divulgou uma das controversas caricaturas do profeta Maomé. Era a coisa certa a fazer. Quando as charges foram tornadas públicas pela primeira vez, em setembro, na Dinamarca, ninguém comentou o assunto na Alemanha. Se os desenhos tivessem sido oferecidos à minha revista na época, certamente teríamos declinado.

Pelo menos um deles equipara o islã ao extremismo. É exatamente o tipo de coisa que devemos evitar no debate sobre fundamentalismo — embora a charge política tenha o exagero na sua essência.

Não teríamos publicado por moderação e respeito à minoria muçulmana no nosso país. O bom senso da mídia é posto à prova toda hora. Não mostramos fotos de sexo explícito nem de pedaços de corpos após ataques terroristas. Procuramos manter o racismo e o anti-semitismo longe das nossas páginas. A liberdade de imprensa exige responsabilidade. Mas os critérios mudam quando o material tido como ofensivo adquire valor noticioso.

Por isso vimos corpos despencando das torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Por isso vimos imagens dos abusos na prisão de Abu Ghraib. Nessas ocasiões, publicamos o que normalmente não sairia. A natureza desse pensamento é encontrar parâmetros sobre o que é culturalmente aceitável.

Quantas vezes não mencionamos os seios da cantora Janet Jackson em discussões sobres os limites da diversão familiar na TV? Quantas vezes publicamos coisas que os judeus consideram agressivas? Parece inacreditável que os jornais americanos tutelem seus leitores, deixando de publicar charges que o mundo comenta. Publicar não significa aprovar. O contexto importa muito.

Vale lembrar que a polêmica começou com um bem-intencionado projeto de livro infantil sobre a vida do profeta Maomé, escrito para promover a tolerância religiosa. Mas o autor se deparou com a rigidez religiosa no momento em que buscou um ilustrador para a obra. Impossível encontrar um.

Os artistas dinamarqueses pareciam temer pela própria vida, lembrando o destino do cineasta holandês Theo van Gogh, assassinado por um fundamentalista islâmico depois de fazer duras críticas ao extremismo. Quando a história chegou ao Jyllands-Posten, o editor de cultura resolveu bancá-la. Ele queria ver quais cartunistas se submeteriam à autocensura por medo dos muçulmanos radicais. Até então, a mídia européia ignorava o caso.

Foram precisos meses, o boicote de produtos dinamarqueses no mundo árabe e a intervenção de campeões da liberdade religiosa — como os governos de Síria, Kuweit, Arábia Saudita e Líbia — para que, finalmente, despertasse o interesse de alguns jornais europeus. Na semana passada, o assunto virou manchete em todo o Velho Continente.

Já na maior parte dos relatos na imprensa americana, os europeus pareciam estar errados, novamente. Eles não sabem como lidar com a imigração, a religião e o respeito às minorias. Afinal, suas cidades estão queimando, como ficou claro, meses atrás, na França.

O ex-presidente dos EUA, Bill Clinton, detectou um “preconceito antiislâmico” e o comparou ao “preconceito anti-semita” de outrora. Nessa jihad (guerra santa) contra o humor, a tolerância é desdenhada por quem a prega para os outros. Os governos autoritários que dizem falar em nome das supostamente oprimidas minorias islâmicas na Europa reprimem implacavelmente as suas próprias minorias. Eles não pedem mais respeito, mas submissão. E querem que os não-muçulmanos na Europa vivam regras muçulmanas.

Será que Clinton defende a tolerância para com a intolerância? Na sexta-feira passada, o Departamento de Estado norte-americano achou apropriado intervir e condenou a publicação das charges como um inaceitável incentivo ao ódio religioso. Esse é um momento curioso, em que o governo dos EUA, que se gaba de ser o ninho da livre opinião, sugere aos jornalistas europeus o que eles não devem publicar.

O autor, chefe da sucursal do semanário alemão Die Zeit, escreveu para o jornal The Washington Post

07 fevereiro 2006

Ensaio sobre a soberba

Estou longe do jornalismo literário. Muito longe mesmo. Só coloquei esse título "Ensaio sobre a soberba" porque, na verdade, queria escrever sobre a soberba. Confesso que esse é o pecado que mais me intriga. Tenho certeza que a meu amigo Da Silva também. (NR - Acostume-se, porque eu só chamo Leonardo Alves de Da Silva). Este "Ensaio sobre a soberba" tem alguns lances que me ocorreram na semana que passou.

Pois bem, há um ditado maravilhoso que diz o seguinte:

"A soberba bota praça na ante-sala do fracasso".

Traduzindo para a linguagem manjada dos jogadores de futebol:

"O jogo só acaba quando termina".

Ou seja, não adianta contar vantagem antes de ter feito alguma coisa.
Fim do nariz-de-cera.

Vamos ao lide.

No post "Ficha Extensa", relatei uma confusão que criei no time de vôlei de Brasília, a Brasil Telecom, que disputa a Superliga Feminina (o nome dado ao Campeonato Brasileiro de vôlei). Pois bem, passei três semanas sem pisar nos treinos desse time de vôlei. Por coincidência, após minha reportagem em que o treinador ventilou a possibilidade de sair do time, a equipe desandou a perder. Tudo de três sets a zero.

Na segunda-feira da semana passada, coloquei na minha cabeça que voltaria aos treinos normalmente, mas tinha que ter um assunto muito bom para não encarar as jogadoras e o treinador sem nenhum argumento. Antes de dizer qual era, preciso esclarecer que não fui ao treino antes porque tive outras (muitas) pautas diversas.

Anyway, na mesma segunda-feira, encontrei Rodrigo Ferreira, estagiário da editoria de Esportes do jornal Tribuna do Brasil, em uma pauta sobre golfe. Conversa vai, conversa vem, contei que tinha um "assunto bomba" para estourar na quadra do time de vôlei de Brasília. Ele tava muito a fim de perguntar o que era, mas quando um repórter dá uma dica dessa, os concorrentes já ficam loucos para descobrir o que é e se esforçam ainda mais para dar outra bomba.

Meu assunto não era bomba, era apenas inconveniente. É o seguinte: descobri que o time da Brasil Telecom era a segunda equipe que mais errava no Campeonato Brasileiro. Por partida, entregava uma média de 24 pontos. Ora, se um set tem 25 pontos de duração, então as candangas entregavam um set de bandeja para as adversárias. Tudo baseado nas estatísticas da Confederação Brasileira de Vôlei.

Tive que gastar uma tarde inteira calculando esses números. E olha que sou péssimo em contas. Mas esta estava certa.

Agora, veja a situação. O repórter solta a aspa de um treinador dizendo que pode pedir para sair do time. O treinador nega que tenha dito isso. O repórter passa três semanas sem pisar nos treinos, e quando já chega com os "pés nos peitos" dos entrevistados. Não era um bom retorno. Por isso, vendi meu peixe como "assunto bomba" para a concorrência.

Não sei se o nosso Rodrigo Ferreira ficou instigado para correr atrás da bomba que eu teria ou se ele deu sorte. Acontece que ele se aproveitou de minha soberba ("tenho um "assunto bomba") e deu o furo da semana em mim e no Jornal de Brasília.

Ele simplesmente descobriu que a pessoa que mantinha o time de vôlei vivo dentro da Brasil Telecom (leia-se: diretora de esportes) fora demitida dois dias antes do jogo da semana passada. Furo. Muito melhor que meu "assunto bomba". Com a demissão da diretora, o futuro do time de vôlei em Brasília era obscuro. Poderia, inclusive, acabar no meio do campeonato, o que seria uma verguenza.

Descobri, em seguida, que ele estivera em todos os treinos do time após meu rasgo de prepotência e ainda foi jogar bola com os funcionários da empresa Brasil Telecom (e não as jogadoras) para tentar ofuscar meu "assunto bomba". Mas acredito que o futebol tenha sido por acaso.

Reconheci o furo tomado. Meu chefe não deu muita trela. Afinal, após quase duas décadas, ele entende que furos são feitos para dar e para levar. Eu já dei alguns. Levei vários. Semana passada levei mais outro. Amanhã posso dar algum. Acontece. Merdas acontecem. Desde que eu saiba fazer algo diferente de apenas tomar furos e me conformar.

Agora, me responda, não seria muito melhor ter guardado esse danado desse "assunto bomba" só para mim?

(NR - Os ânimos das jogadoras para cima de mim estão exautados. Elas me espancam com um olhar. Dão entrevista por obrigação. Vôlei, basquete, natação ou qualquer outro esporte que não seja futebol, no Brasil, não tem a rotina de ser cobrado diariamente. Mas isso é assunto para um outro post)

01 fevereiro 2006

Sugestões de leitura

Não é muito fácil encontrar livros de jornalismo. Pelo menos aqui em Campina Grande. Na maioria das vezes que vou a livraria vejo os mesmos títulos. São poucas as novidades que chegam ao mercado campinense. Pra minha sorte Daniel mora em Brasília e, sempre que surge alguma novidade, ele me manda de presente. Aliás, na passagem relâmpago por aqui, ele me prometeu enviar (mais um) um livro. O novo da Folha de São Paulo. Não lembro bem do que se trata. Só sei que é interessante. Daniel me falou, mas já estávamos acima do sexto chope, então é difícil lembrar. Como DB estava no mesmo nível que eu, estou apenas relembrando a promessa.

Pois bem, o último presente que recebi via Brasília foi o livro de Lúcio Vaz, A Ética da Malandragem – No submundo do Congresso Nacional. Só pelo título dá pra perceber o que encontrei nele. Se o “mundo do Congresso” – esse que a gente conhece – não é lá essas coisas, não tem credibilidade, imagine o submundo. São 26 reportagens investigativas do jornalista gaúcho, que há 20 anos mora em Brasília. Passou treze na Folha de São Paulo e agora trabalha no Correio Braziliense. O livro é uma lição para todo jornalista, principalmente para aqueles que são atraídos pelo jornalismo investigativo. Lúcio conta os bastidores de cada reportagem, a maioria publicada na Folha de São Paulo. São denúncias de aluguel de mandato, nepotismo exagerado, compra de votos e, acredite, tráfico de drogas no Congresso. Tinha até o “teledrogas”. Como este é um ano de eleição, o livro também serve de reflexão para olharmos em quem pretendemos votar. Se bem que eu acho que todos os políticos são “farinha do mesmo saco”. É um bando de picareta. Estão pouco se lixando pros nossos interesses. Eu já tinha essa impressão e depois do livro aumentou ainda mais. É nojento você saber que a maioria (pra não dizer todos) faz com nosso dinheiro. Como Daniel, disse eu outro post: “políticos? Esses nunca são inocentes”. Os caras só se interessam em aprovar alguma coisa se forem beneficiados.

Sempre tentam se locupletar de alguma forma. Entre as reportagens aparecem nomes de políticos paraibanos. Na intitulada “Compra de votos”, Lúcio relata o episódio da convenção do PMDB em 1998, na Paraíba. Na época o agora deputado federal Ronaldo Cunha Lima queria ser indicado pelo partido como candidato a governador. Porém, José Maranhão pretendia concorrer à reeleição. A denúncia era de que Maranhão estava comprando votos dos convencionais. O jornalista veio a Paraíba, fez a matéria, mas ficou tudo “por isso mesmo”. Nessa mesma linha, Lúcio conta que um político de Mato Grosso denunciava o adversário por compra de votos. Ele prometia gravações. Depois de alguns meses sem resposta, o jornalista liga pro denunciante e ele diz que fez um acordo com o adversário. É mole?

Aprendi e estou aprendendo muitas coisas com o livro. Fiquei imaginando como seria um jornalista daqui fazendo reportagem investigativa. Possivelmente ele encontraria irregularidades. O problema seria onde publicar. No caso de Vaz, ele tinha o apoio do jornal. Por aqui, acho que o jornalista poderia até publicar algumas denúncias. Mas só aquelas dos adversários do grupo político que o veículo está “ligado”.

O que me chamou atenção também foi a orelha do livro, escrita pelo editor Luiz Fernando Emediato, que afirma existir “dois Congressos: um deles, cujo tamanho precisamos esclarecer, é aquele que faz uma Constituição, luta pela liberdade, vigia o Estado e até depõe um presidente. Vale a pena apostar que um dia será este o Congresso – e não o outro – que prevalecerá”. Concordo com ele, mas não posso negar que o outro Congresso (os das falcatruas) vem levando vantagem, se sobressaindo há muito tempo. Isso cansa. E não tem essa que “eu sou brasileiro e não desisto nunca”.

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Outro leitura recente foi o novo de Fernando Morais, Cem Quilos de Ouro [e outras histórias de um repórter]. O autor dispensa apresentações. O livro traz uma coletânea de doze reportagens. Grandes reportagens na verdade, algo que anda esquecido na maioria dos jornais. Hoje em dia não se investe tanto. As empresas não estão dispostas a pagar caro por uma boa história. O melhor é que todas as reportagens são precedidas do “making-off”, no qual os bastidores são relatados. Entre as histórias de Morais, três me chamaram a atenção: “O sonho da transamazônica acabou”, “O Napoleão do Planalto” e “O solitário da Dinda”. Na primeira, o jornalista conta os resultados da Transamazônica. Fernando havia feito a primeira reportagem sobre a estrada em 1970, percorrendo 5296 quilômetros em cima de uma promessa de desenvolvimento. Quatro anos depois voltou a fazer o percurso, atravessando “136 rios em seis balsas e cruzando 130 pontes” ao lado do fotógrafo para ver se o sonho do desenvolvimento tinha se tornado realidade. Foram vários dias na estrada num jipe Xavante da Gurgel para comprovar que tudo não passou de promessa.

Na “O Napoleão do Planalto” o jornalista traça um perfil da vida de Collor na época de presidente. A rotina, os contatos, os “amigos” (do poder, é claro). A reportagem “O solitário da Dinda” é sobre a vida do ex-presidente depois da queda. O interessante é fazer um paralelo entre as duas. Depois de sair do poder, Collor perdeu os amigos. Poucos lhe telefonavam. O ex-presidente revela toda a sua mágoa. E Morais consegue descrevê-la muito bem. O livro não deixa de ser uma aula de jornalismo ministrada por quem entende muito bem do assunto.

Os livros de Lúcio Vaz e Fernando Morais são certezas de boas leituras para este início de ano.