31 janeiro 2008

Em todas as áreas

Por Léo Alves

Em televisão todo mundo faz tudo. Não estou falando das redes, que têm departamentos especializados.

Não existem especialistas. O repórter faz o que aparecer no seu horário. Faz desde um assassinato na esquina, passando por uma visita ministerial até uma partida de futebol.

Daí a necessidade das pautas de tevê serem mais recheadas de informações que as dos jornais.

O repórter é um genérico.

Na produção não é muito diferente. O produtor pauta o que aparecer no seu horário. Cada turma é responsável pelo seu turno.

Essa estrutura gera uma grande dificuldade na hora de fazer suítes das matérias.

Um, dois dias, uma semana e até um mês se faz suíte. Depois disso o produtor está envolvido com outras pautas.

No jornal impresso existe a setorização. Fica mais fácil retomar o assunto porque o jornalista acompanha bem o que acontece na sua área.

Já pensei em algumas alternativas para melhorar esse acompanhamento dos casos de repercussão.

E confesso não achei (ainda) uma fórmula de não ser furado pelos jornais nas suítes.

Adotei uma estratégia que pode ser o primeiro passo para diminuir esse problema.

Quando acontece um caso de repercussão indico um produtor para ficar responsável pelo acompanhamento.

O próximo caso que surgir será de responsabilidade de outro. Funciona em rodízio.

Dessa forma ninguém fica tão sobrecarregado tendo que acompanhar tudo. E no fim não consegue dar conta.

Nesse sistema o produtor é responsável para informar a todos da redação como está o caso.

Num local onde não se pode ser responsável por cobrir apenas uma área a melhor solução – por enquanto – é dividir bem as tarefas.

24 janeiro 2008

Terrorismo?

Pedro Henrique Freire

Tudo bem que há um surto de febre amarela. Até aqui foram nove mortes no Brasil. Tudo bem também que os jornais e as autoridades devem estar ligados, monitorar e divulgar os novos casos e dar todas as informações necessárias à população. Mas, pondero, não exageremos, amigo.

Outro dia escutei no rádio um especialista que dizia o seguinte: vamos tomar cuidado com a vacina. Nem todo mundo precisa. Não faremos como no final da década de 90, em São Paulo, quando sete pessoas tiveram a doença, mas nenhuma morreu. Três morreram, sim, por tomar a vacina.

Ou seja, as nove que estão com febre amarela correm risco de vida. E os um milhão de pessoas que tomaram a vacina com medo dela, também.

Há uma semana, encontrei um amigo que trabalha na Globo de Brasília. Ele me contava o seguinte: “Rapaz, tava quase saindo da redação, mas descobrimos um cara que tomou a vacina três vezes. Ele foi parar no hospital, com ‘overdose’ de febre amarela. Quando descobriu isso, ele fugiu do hospital, com medo”, comentou. Ainda não sei o resto da história.

Concluo que esse cidadão estava com medo da doença. Apavorado, sobretudo, por um provável terrorismo da mídia.

Desde o primeiro caso da doença no Centro Oeste, os jornais da região começaram o carnaval. Claro, com reportagens bem feitas e dando todas as informações que o público precisa. O problema é que a cobertura diária – a qual atribuo simplesmente à tradicional escassez de notícias de janeiro – cria um clima de insegurança.

Eu, que tomei a vacina há dois anos, estou perto de ficar com medo de contrair. Minha mãe, que viria para Pirinópolis no Carnaval, desistiu. No Maranhão faltam vacinas e pessoas passam mal na fila. Outro dia uma senhora teve um AVC enquanto esperava pra tomar a dose. Estava lá há três horas. E olha que em São Luís e todas as outras 216 cidades do estado não é registrado um caso sequer há 10 anos.

Ou seja: penso que a mídia erra a dose e cria a instabilidade, transformando um problema localizado numa coisa global. Acaba fragilizando a população. Espalha o medo. É como nos EUA, após 11 de setembro: os jornais colocavam o Bin Laden na capa com uma arma apontada para o território americano e o Bush com algumas tropas de jovens sem rumo dizendo: votem em mim que eu pego ele. Com medo, o povo votou. No Brasil, o povo se vacina. Mas só por imposição da mídia.

Humildemente....

14 janeiro 2008

Acima dos critérios jornalísticos

Por Daniel Brito

Quando o jogador de basquete foi encontrado morto, em uma cidade próxima a Brasília, em novembro último, eu era o responsável pelo assunto. Fui eu quem noticiou em primeira mão o sumiço de um norte-americano, recém-contratado pelo time de basquete de Brasília, e ele tinha comportamento típico de portador da síndrome do pânico.

Quando ele sumiu, consengui o telefone da esposa dele em Seattle graças a uma coincidência incrível. A colunista social do Correio Braziliense é amiga de um médico que trabalha em Brasília. Ao ler a notícia do sumiço, o doutor comentou com a filha, que mora em Seattle. Para surpresa dele, a filha não só tinha ouvido falar da história como trabalhara com o jogador no departamento de serviço social da prefeitura de Seattle. A filha do médico conhecia a esposa do atleta.

O médico comentou com a colunista esta incrível coincidência e ela pediu o telefone da filha dele para tentarmos o contato com a família do gringo.

Pelo menos 10 dias antes de o jogador aparecer enforcado na árvore, conversei com a esposa dele. Ela me contou que estava grávida de oito meses. Nas entrelinhas, deixou a entender que sabia onde o marido estava e porque ele fugira do time sem dar explicações, mas não tinha comportamento nem tom de voz de quem parecia estar desesperada. Ela também assegurou que o camarada nunca teve problemas psicológicos.

Dias mais tarde, chega a notícia da morte do cara. Era início da noite de um domingo qualquer de novembro. Eu estava de folga e fui convocado às pressas para a redação. Chegando lá, o chefe dos chefes me passou a ingrata missão de ligar para a esposa do jogador.

Por três vezes, disquei, a ligação chamou do lado de lá do Equador, mas antes que ela atendesse eu desliguei.

Passar a notícia de que algum parente morreu já é muito complicado na sua língua materna, imagine, então, em inglês? Com dois agravantes: a esposa do cara estava grávida de oito meses e não ficara satisfeita com a minha insinuação de que ele apresentava sintomas de síndrome do pânico.

Em meio ao fechamento, cheguei na sala do editor e falei:

- Não sei se estou certo fazendo isso, mas queria te pedir para me livrar da tarefa de ligar para a esposa do jogador.
- Tá certo, ele respondeu secamente, checando os prints da primeira página. Foi a primeira vez que uma matéria minha foi manchete principal do jornal.

(Esporte é assim, se não for final de Copa do Mundo, somente uma tragédia coloca o notícia na manchete.)

Aima dos critérios jornalísticos de apuração está o "amor à humanidade", como já disse Leonardo Boff. Não que a esposa represente a humanidade inteira, claro que não. Mas me incomodava o fato de desrespeitar o profundo sentimento dela e da família naquele momento. Isso se chama compaixão, o que para um jornalista soa como um pecado capital. Mesmo que eu estivesse disposto a fazer isso no dia seguinte, depois que ela assimilasse melhor a situação.

Estava, realmente, a fazê-lo.

No dia seguinte, no entanto, peguei a estrada atrás do corpo do cara e das investigações sobre a causa da morte e segui esse périplo por mais três, quatro dias. Uma semana depois entrei de férias e nenhum jornalista brasileiro conseguiu falar com ela.

07 janeiro 2008

Certo ou errado?

Pedro Henrique Freire

Nos tempos mais atuais, ficamos sabendo hoje o que os jornais vão publicar amanhã. É só ligar o computador e entrar em algum bom site de notícias. Para a população, é ótimo. E para o jornalista do velho e ainda lido jornal impresso?

Não saberia dizer.

Eu, que trabalho em mídia de papel, ganho cada vez mais responsabilidade quando a possibilidade do furo some. Tudo porque não tenho outra coisa a fazer senão procurar “outra coisa”, além do que os sites já estão dando. No mínimo, um enfoque diferente, uma informação mais aprofundada ou exclusiva. Mas isso nem sempre é possível. E quando não ocorre, o dia seguinte parece mais um flash do anterior.

***

Introduzo para chegar num ponto: quando a internet parece ultrapassar o limite ético? Confira a seguinte situação, aparentemente hipotética para uns, mas (infelizmente) usuais para outros.

Situação 1

Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, ele é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, foi lá na internet e “chupou” a informação, acrescentando ao seu texto algumas aspas e o clima da entrevista.

Isso é ético? É usual? Como a noção de ética é subjetiva, portanto, completamente pessoal, falo por mim: não considero isso correto.

Situação 2

Um repórter é enviado para cobrir as Olimpíadas. Lá, não consegue entrevistar todos os atletas de seu interesse e nem conferir todas as provas. Afinal, é apenas um. Como perdeu uma coletiva ou outra, correu para o local da coletiva e encontrou um amigo, que trabalha num site de notícia do Brasil:

- E ai, cara, beleza? Pô, tava tão enrolado com a prova de atletismo que perdi a natação. Tu pegou o que o Tiago falou?
- Peguei. Eu tava aqui.
- Ô... então me passa?
- Claro, irmão... claro.. anota ai!

Nesse caso, é ético ou não? Já não sei. No jornalismo, é comum colegas ajudarem os outros, por pura camaradagem. Eu já fui ajudado e ajudei, muitas vezes. Ainda hoje ocorre.

Pois bem. Prossigo: se o amigo já tivesse postado no site a matéria da coletiva e o cara levasse alguma coisa para seu texto? Seria profissional? Não, né? Mas, por que? Talvez porque não tenha pedido para “o dono da informação”, no caso, o amigo que estava na coletiva. Certo ou errado? Não sei.

O que sei é que o certo mesmo é você fazer a sua parte e mandar ver com suas informações. Se você perdeu algo, corra atrás e tente resgatar. Copiar dos amigos fará com que sua matéria fique igual a dele. Bebendo da fonte, você tem mais chances de pegar algo que ele não pegou. Mas, se não tiver jeito de encontrar o entrevistado, resgatar a história e tudo, talvez deva ir com as do amigo mesmo. Ou avise pro seu jornal pegar de agência.