31 agosto 2006

Escrever e blogar é só começar

Tiago Cordeiro
*Texto publicado no site Comunique-se (
www.comuniquese.com.br)

Escrever um diário, encarnar um personagem ou simplesmente redigir suas primeiras matérias.

Em plena era digital, ser jornalista e não ser blogueiro é quase como ser brasileiro e não curtir futebol. Logo, você percebe que está em número cada vez menor. Atraídos pelas facilidades em se fazer um blog, vários profissionais da mídia aderem ao veículo. Alguns minutos para efetuar um cadastro e está lá: seu texto, imagem ou o que for está visível para o mundo inteiro.

E hoje é o seu dia, caro blogueiro, o Dia Mundial do Blog! A comunidade blogueira mundial lançou um blog que promoveu a data. O motivo de ser hoje é porque 3108 é o número que mais se aproxima do termo “blog”.

Há três anos, o Comunique-se lançou o Blog-se, o blog dos jornalistas e usuários do portal. Focas, repórteres da velha guarda e todos os tipos de profissionais da área escrevem nesse meio. No mês passado, o cartunista e jornalista Miguel Paiva se tornou o mais novo usuário da ferramenta.

“Tenho esse senso de observação e de reflexão muito forte por causa do meu trabalho. E, por isso mesmo, sinto uma imensa necessidade de me comunicar de outras formas. Quando o blog surgiu e foi todo esse sucesso, comecei a querer usar essa ferramenta”, afirmou Paiva ao Comunique-se quando seu blog foi lançado. O artista mostrou uma faceta menos conhecida de suas habilidades: as crônicas que dividem espaço com tiras e comentários dos personagens Radical Chic e Gatão de Meia Idade.

Comentários de personagens? Essa é apenas mais uma das liberdades que o Blog permite. Se muitos repórteres usam para extravasar aquela oculta verve literária, outros usam para trabalhar ainda mais.

“Não consigo ver um blog como um diário, sem conteúdo noticioso ou informativo”, afirma a jornalista Cristina Dissat. A blogueira criou o Fim de Jogo em 2004, um blog-se que cobre o que acontece depois dos finais de jogos no Maracanã. “Brinco de trabalhar e faço isso com a maior satisfação. Sinto que estou prestando um serviço. Fico angustiada quando estou fora a trabalho e não consigo acompanhar algum jogo, mas isso é inevitável”. A repórter já estuda alguma parceria para resolver a rotina intensa de trabalho.

“Os blogueiros são também excelentes leitores. A blogosfera, aí esta o nome da coisa, é muito útil para quem atua em Comunicação Social. E os blogs em linguagem jornalística são muito capazes. Já têm muita influência”, afirma Thomaz Magalhães, dono do Trem Azul, o blog mais acessado do Comunique-se.

E para você que ainda não tem um blog, basta se cadastrar e acessar a seção Blog-se. Encerrando a homenagem aos blogs segue uma lista dos cinco blogs mais acessados do Comunique-se:
1-Trem Azul: Blog com opiniões sobre cultura e política - “Bastante política”, afirma seu blogueiro – do jornalista Thomaz Magalhães. “Vou deixar de ser jornalista para ser só blogueiro e escritor”, afirma.

2-Papo de Mídia: Eduardo César é criador do site Papo de Bola e quis criar uma seção que falasse da imprensa esportiva. Em 2004, lançou o Papo de Mídia no Blog-se. O blogueiro ainda não fez a faculdade de jornalismo, mas isso, segundo ele, é questão de tempo. “Para muita gente, já sou jornalista, mas a verdade é que ainda não o sou. Ainda não comecei a faculdade de Jornalismo, mas quero fazê-la sim, para entrar no mercado pela porta da frente”.

3- São Paulo 451 Anos: Do jornalista Gaspar Bissolotti Neto. Essa semana, o blogueiro publicou vários posts para denunciar uma mobilização que incomodou sua rua, a "Manifesta Vila Mariana". “Os moradores da redondeza passaram a tarde toda reclamando. Esperamos que isso não volte a acontecer”, publicou.

4-Patolino: Sem grasnar, mas com muita objetividade, Eduardo Sander escreve notas com até três linhas com sua opinião sobre política e outros assuntos. O jornalista graduado pela Facha também dá espaço para falar de filmes e outros assuntos culturais. “Estou fora de uma Redação desde 2001, e não queria perder 'visibilidade' frente aos colegas que estão no mercado”.

5-Tudo Sobre Ivy: “A partir da necessidade de querer compartilhar minhas idiossincrasias para descobrir pessoas que se identificassem ou simplesmente se divertissem com as minhas observações”, revela a redatora publicitária Ivy Dias de Campos. Ela considera seu trabalho e sua atividade blogueira como “referências recíprocas” e descreve seu blog como uma válvula de escape.

28 agosto 2006

Mero repassador de informações

Por Daniel Brito

Entre os repórteres de jornal e rádio (e agora também internet) existe um estigma de que os companheiros de profissão que trabalham em televisão são os menos esclarecidos da classe.

Opa!

Não quero ofender minha eterna chefe Neide Nascimento, que lê este blog; meus saudosos companheiros de TV Borborema; meu grande amigo, Da Silva, produtor da TV Paraíba/Globo, em Campina Grande (PB), e os demais repórteres de TV que, por acidente, venham a ler este texto. O que vou escrever agora não acontece por culpa deles.

Já fui repórter de TV e posso voltar a ser a qualquer momento da minha carreira. (Basta um convite...)

Já percebeu que (quase) tudo que é exibido no telejornal à noite você já leu de manhã cedo no jornal impresso?

Repórter de televisão acabou se transformando em um repassador de informações. Geralmente, a redação de uma TV de médio a pequeno porte é composta pelo editor-chefe, três ou quatro produtores e dois ou três repórteres por turno. Ao todo, são 15 a 20 jornalistas.

Os produtores fazem toda a apuração da história e repassam tudo mastigadíssimo para os repórteres. Eles vão ao local, fazem as perguntas recomendandas na pauta, pedem esta ou aquela imagem ao cinegrafista, grava uma passagem que explique alguma coisa que NÃO está nas imagens e corre para outra pauta.

Ao final do dia, escreve três textos sobre histórias diferentes e corre para a TV para gravá-los o mais rápido possível.

Eu mesmo já fiz seis pautas em um único dia. Assassinato, entrega de casa populares por políticos, futebol, doação de sangue para o hemocentro, recadastramento de CPF e greve de professores.

Detalhe: todas as pautas já haviam sido destacados do jornal impresso, de manhã. É difícil criar especialistas em televisão. Os únicos especilistas que existem são os apresentadores, sempre metidos a estrela maior que a própria informação que ele repassa.

Neste dia citado acima, por exemplo, eu tive que tirar dúvidas com um repórter de jornal que cobre economia sobre a greve, um de política sobre as casas entregues pelo prefeito. Só não precisei conversar com especialistas em futebol...

Pelo tanto de trabalho que têm, o repórter de TV nem tem tempo para se dedicar a alguma área específica. Em emissoras de médio e pequeno portes, sobre quem estou falando aqui, existem casos isolados de repórter policial ou de esportes. Mas, como eu disse, são isolados.

Nem todo mundo quer fazer polícia.
Não é todo mundo que quer fazer esporte.

Já perceberam que poucas emissoras exibem reportagens exclusivas?

Exatamente por causa disso tudo.

Eu defendo esta tese: tudo bem, os repórteres têm que fazer todas essas matérias, mas os produtores tinham que ser setorizados.

Fulano fica só na parte policial e de olho no diário oficial da Justiça.
Sicrano é o responsável pelas companhias de serviço público: água, luz, telefone...
Beltrano faz a parte do governo.

Assim, os telejornais não repetiriam as informações dos jornais impressos, poderiam fazer alguma coisa de diferente e, por fim, inverteriam a ordem atual e passar a pautar os jornais impressos.

24 agosto 2006

Repórter-torcedor

Léo Alves*

Uma das primeiras lições que aprendi quando me atrevi a seguir o jornalismo esportivo foi que não deveria torcer por nenhum time. Impossível para mim ou para qualquer outra pessoa que goste de esportes, principalmente de futebol.

Todos já fomos crianças um dia.

Como qualquer criança tivemos o nosso time do coração. Na verdade a lição ensinava que eu não deveria levar a paixão de infância para a profissão. Sinceramente não sabia como faria aquilo.

O dilema foi facilmente resolvido.

Quando você conhece bem os bastidores (sujos) do futebol perde o encanto de torcer. A paixão dá lugar ao profissionalismo. Às vezes acha até engraçado ver alguns torcedores sofrendo tanto por um clube, chorando por uma derrota. Não sabem eles que aquela derrota talvez tenha sido planejada pelos jogadores, que diferentemente deles, não têm uma gota de amor ao clube.

Eis que surge na tevê um jornalista que faz questão de revelar que é torcedor do Santos. Não foi nenhuma novidade para quem já acompanhava Milton Neves no rádio.

Virou moda.

Jornalistas em todo Brasil seguiram Milton Neves. Tornou-se chique revelar qual o time do coração. Os clones levaram ao pé da letra a expressão repórter-torcedor. Transformaram-se em torcedores à beira do gramado, acompanhando os treinos e jogos.

Em Campina Grande já ouvi repórter de rádio dizer numa transmissão: “não voltarei hoje porque vou comemorar o título”. Outros andam com pulseiras, camisas, bonés e ainda imitam os gestos das torcidas organizadas.

Na hora do gol o repórter se vira para torcida e comemora junto. Outros, à beira do gramado, gesticulam mais que o treinador. Apontam para onde o jogador deve tocar a bola. E tem os gritos:
“Vaaaai!”
“cooorta!”
“p*ta que pariu, toca rápido”

Nem Milton Neves, aquele pedante, deve fazer isso.

Os torcedores fanáticos pelo clube adoram esse tipo de repórter. Há uma identificação porque ele (o repórter) fala pelo torcedor.

Os mais conscientes criticam. Sabem que se o jornalista é apaixonado demais vai esconder (como acontece muito por aqui) as coisas errdas do time. Brigas internas, insatisfação dos jogadores por causa de atraso de salários, guerra de egos e outras picuinhas que existem no futebol.

Ainda tem outro detalhe. O jornalista passa a ser odiado pela torcida adversário.

Corre o risco de ser agredido!!!

Boa parte dos jornalistas (aqui em CG) está deixando o profissionalismo de lado em nome da paixão. O importante para eles é desfrutar da posição de torcedor privilegiado. Ficar perto dos seu ídolos, não pagar ingresso no estádio e acompanhar o time em todos os jogos.

O resultado de tudo isso é a queda da qualidade na cobertura esportiva. Boa parte dos jornalistas perdeu o respeito dos diretores de clubes. O cara pode pintar e bordar porque sabe que o repórter-torcedor não vai divulgar.

Fico imaginando o que os colegas de profissão de centros maiores acham disso. Certamente devem dizer que em Campina Grande (ou na Paraíba) não existe profissionalismo.

Só espero que um dia (em breve, de preferência) esse tipo de repórter volte para o seu lugar, a arquibancada. De onde devia nunca ter saído.


*Perdoe-nos a demora para atualizar o blog. O grande DB estava em Campina e precisávamos colocar os papos em dia.

17 agosto 2006

Ah! se eu tivesse gravado...

Pedro Henrique Freire

Jornalista adora bloquinho. Parece uma extensão do braço. O mais comum é fazer entrevista, de pé ou pelo telefone, anotando os dados mais importantes no famoso bloquinho. Eu tenho o meu. Ou melhor, os meus (sempre guardo aqueles já preenchidos). Mas muitas vezes incido num erro comum. Nem sempre gravo entrevistas. E isso nos faz perder informações importantes.

Alguns jornalistas discordam do gravador. Dizem que intimida o entrevistado e tudo mais. Sim, tenho certeza que intimida. Mas entrevistar governador, presidente, deputados ou qualquer outra pessoa, acostumada a conviver com jornalistas, já não se intimida mais. Os caras sabem o que falar antes mesmo de você perguntar. Além do mais, gravar é importante porque é preciso escrever exatamente o que o entrevistado fala, sem vírgula a mais ou a menos.

Mesmo assim, até os políticos perdem as estribeiras e se danam a falar bobagens. É nessa hora que entra o gravador.

Um outro dia perdi aquela que poderia ter sido, até aqui, a matéria da minha vida. Aconteceu quando entrevistava um deputado acusado de participação na máfia das sanguessugas (já contei a história dele no artigo Bom Senso “Empresialístico”).

Trabalho em Brasília, no Correio Braziliense, mas escrevo também para O Imparcial, no Maranhão. Enviei várias matérias sobre este deputado maranhense que estaria envolvido com a máfia. Ele andava muito puto com a cobertura, feito somente por esse jornal do Maranhão. Reclamou várias vezes. Disse que me processaria e tal.

Até aí tudo bem. O pior foi quando liguei pro tal deputado e perguntei o que ele achava de ter seu nome incluído entre os 72 acusados pela CPI das Sanguessugas de falcatruas na compra de ambulâncias. Assim que me identifiquei na ligação, ele foi logo me esculhambando. “Rapaz, tu é muito cara-de-pau. Como tu tem coragem de me ligar depois de campanha sistemática que vocês estão fazendo contra mim”, disse, cheio da irritação.

Deixei ele falar e depois tentei convencê-lo que eu só queria sua defesa – afinal, ele foi incluído na lista. E, como diria a máxima, contra fatos não há argumento.

Mas o argumento usado foi o mais “coronelístico” possível. Passados alguns segundos de conversa, fui ameaçado de morte. “Olha, Pedro”, disse o deputado, “honra de homem se lava com sangue. Tu toma cuidado”.

Calei por um instante. Não tive muito tempo para me recompor da declaração. Só soltei um tímido: “Quê isso, deputado!”. A única coisa que conseguia pensar era num gravador. Que droga! Se eu tivesse gravado essa conversa...

Continuei o diálogo e tentei argumentar da mesma forma. Disse que queria ouvir sua defesa, que faríamos a matéria mesmo assim e tudo mais. Não adiantou. Depois de repetir duas vezes a história de lavar a honra com sangue, desligou o telefone na minha cara.

Fiquei chateado por só ter feito anotações. Se eu tivesse gravado essa conversa, com certeza o jornal daria manchete e a honra do tal deputado estaria nas “cucúias” uma hora dessa. Que droga! A matéria, sobretudo, serviria para mostrar que o cara não está acima do bem e do mal. Jornalista se respeita.

A lição
Aprendi uma lição. Use bloquinho. Mas use também um gravador. Principalmente quando for fazer matérias que exigem as declarações transcritas exatamente como foram ditas ou aquelas matérias de denúncia, que podem render umas declarações mais enérgicas.

No meu caso, a entrevista foi feita pelo telefone. Então, é preciso instalar o “jacaré” no telefone e gravar. Não faça como eu!

Concordo que gravador intimida. Concordo que, se ele soubesse que estava gravando a conversa, não faria ameaças. Mesmo assim, não é todo dia que um deputado nos ameaça de morte. Eu teria que ter gravado! Quando terei outra chance de ter meu trabalho reconhecido dessa forma, tão “singela”?

Não sei. Mesmo assim, até lá, sempre usarei gravador. Ou então irei perder a matéria da minha vida. Ou da minha morte.

13 agosto 2006

Críticas e críticas

Daniel Brito*

Depois de reclamar das críticas que recebo dos concorrentes, chegou minha vez de criticar os outros. Na verdade, estava pensando em criticar todos os repórteres de TV.

Sim, porque em TV nada se cria, tudo se copia. Existe uma mania feia de passar o recibo das matérias publicadas no dia anterior no jornal e reproduziada na TV no dia seguinte. Isso acontece porque quem trabalha em TV não tem tanta iniciativa, liberdade ou criatividade para fazer algo diferente do que sai nos jornais.

Mas isso fica para um outro post. Este aqui será uma contradição do que disse na última vez que escrevi aqui. Ou não!

Jornalismo bom é aquele que critica. Não a crítica gratuita ou revanchista, como muitas vezes se lê nos jornais da Paraíba ou grandes veículos de comunicação. O julgamento de algo/alguém com argumentos concretos é uma das coisas mais sensacionais de se ler e escrever.

Exemplo
A Seleção Brasileira de vôlei masculino esteve em Brasília para enfrentar a frágil Finlândia, pela Liga Mundial. Um mês antes dos caras desembarcarem por aqui, fiz um roteiro de matérias para fugir do feijão-com-arroz. Como no futebol, o vôlei tem seu lugar-comum:

- carinho da torcida;
- treinos cansativos;
- gritos de Bernardinho.

Não queria falar disso.
Queria algo novo.

Então tracei um plano de reportagens de quarta a sábado.

Quarta-feira:
- ginásio em que a Seleção vai jogar foi mais usado para eventos de igreja do que esportivos;

Quinta-feira:
- é proibido falar alto durante os treinos de Bernardinho. Só ele pode falar;

Sexta-feira:
- jogadores reclamam por ter que jogar sempre de manhã, por imposição da Globo;

Sábado:
- o verdadeiro quadrado mágico: Serginho, Ricardinho, Giba e André Nascimento.

Na sexta-feira eu ainda publiquei uma matéria sobre o primeiro dia dos pais de Bernardinho ao lado do filho Bruno, que é jogador e está na Seleção Brasileira. No sábado, eu ainda publiquei uma matéria dizendo que os brasileiros estão achando ruim a Liga Mundial por ainda não ter tido um jogo forte.

Engraçado que nesses dias todos, surgiram vários assuntos interessantes, com elogios a Brasilia (desconfie de elogios, sempre!) e outros assuntos do departamento de perfumaria do jornalismo. Mas eu prefiro assuntos polêmicos.

Deu certo.

Como disse lá em cima, a crítica bem feita atiça o leitor. Meu celular já aprendeu isso.

Não sou uma excelência em fazer críticas, apenas acho que algumas tem incomodado as pessoas envolvidas. Foi assim na quarta, quando o pessoal que trabalha no ginásio do jogo do Brasil me ligou às 8h da manhã para reclamar da matéria. Disse que eu queria "vender jornal".

Meu celular já está acostumado a ligações matutinas com reclamações. Meu recorde foi ter desagrado aos dois lados de uma única reportagem. Depois conto essa história.

No sábado, foi a vez de Bernardinho atacar minhas matérias. Não me ligou, mas, durante a entrevista coletiva após o jogo, reclamou que essa história de quadrado mágico é forçação de barra da mídia, que nunca deu certo e que só leu isso porque colocaram a matéria na frente dele.

No domingo, fiz uma matéria contando que ele odiou a minha matéria sobre o quadrado mágico do vôlei. Hoje, domingo, teve a segunda partida em Brasília contra a Finlândia. Na coletiva, ele tratou de alfinetar de novo as minhas matérias. Principalmente a reportagem em que os atletas pediram mais dificuldades na Liga Mundial.

Travamos até um diálogo áspero:

- Bernardinho, os jogadores reclamaram... não diria reclamaram, eles disseram...
- (interrompendo)O seu jornal estampou a manchete dizendo que eles reclamaram. Assuma o que você escreve!
- Não tenho problema em assumir. Você falou a mesma coisa que eles (os jogadores) aqui...
- Eu não reclamei de nada!
- Falou que faltava um jogo para o time ser testado, a mesma coisa que os jogadores disseram.
- Eu disse que ainda não sabemos em que nível estamos para a fase final da Liga Mundial.

Foi uma coisa rápida. Confesso que saí feliz da coletiva.

Sim, porque ele está lendo minhas matérias e elas o incomodam. Logo Bernardinho, exemplo de homem trabalhador, disposto e motivador se preocupando com o que EU escrevo??

A crítica, quando bem feita, evita que a outra pessoa te trate com o pior dos sentimentos: a indiferença.

*Quarta-feira, dia 16, às 18h45, estarei na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) contado as histórias desse blog e histórias impublicáveis para os alunos de jornalismo. Por isso, demorarei um pouco para atualizar este blog

08 agosto 2006

É preciso ser especialista (até no esporte)

Léo Alves

O preconceito com o jornalismo (e o jornalista) esportivo vem de muito tempo. Nos primeiros anos de cobertura esportiva (no início do século XX), ninguém acreditava que o esporte pudesse estar nas primeiras páginas dos jornais. Era considerado um assunto sem importância. Hoje, o esporte ocupa as primeiras páginas de jornal. A edição de segunda-feira, por exemplo, é recheada de matérias esportivas.

A mudança aconteceu.
Mas o preconceito permanece.

É encarada por alguns colegas como a editoria onde se encaixam aqueles jornalistas despreparados, que não sabem fazem outra coisa. Na maioria das redação a editoria de esportes é discriminada.

Esses nossos colegas acreditam que o jornalista esportivo é ‘sem cultura’ que não consegue enxergar nada além de uma disputa. Ou melhor, não consegue relatar nada além disso. Não é preciso, acreditam, conhecimento para fazer esse tipo de matéria.

Para muitos, o esporte não é nem jornalismo. Lembro que na minha época de faculdade um professor, hoje meu colega de trabalho, disse que jornalismo esportivo não era jornalismo. Tentei provar o contrário. Não o convenci.

Essa discriminação fez muitos colegas seguirem outro caminho. Para ganhar ‘respeito’ (da sociedade e de outros jornalistas) mudam de editoria. A maioria se dá bem. E diz: “agora as pessoas viram que eu sei fazer outra coisa além de esporte”.

A idéia que se tem é que jornalismo esportivo é tão fácil que qualquer um pode fazer. Não precisa ser especialista na área. Boa parte das empresas de comunicação (no caso, os editores) pensa assim. “Esporte, qualquer um faz. Quem for desenrola”, é uma frase típica. E mentirosa.

É nessa onda de que qualquer pode fazer que já vi muito colega ‘sobrar na curva’. Achando que não precisa se especializar (e cultivando o mito que treinador e jogador de futebol são todos burros) faz perguntas fora de contexto. O pior é que o jornalista pensa que o boleiro não saca que ele não entende do assunto. Tanto saca que o repórter é motivo de piada.

Alguns esportistas não admitem perguntas estúpidas, principalmente de quem não é da área. Quando o repórter é da área o cara até releva. Porque conhece o repórter. Falo por experiência própria. Já fiz perguntas imbecis, mas tive respostas pelo menos educadas.

Bem diferente de um aprendiz que chegou ao treino do Treze em um certo mês de janeiro perguntando ao técnico Maurício Simões (hoje no Santa Cruz-PE) quais os jogadores já tinham sido contratados. Em tempo: o elenco havia começado a treinar em dezembro. O Treze já tinha contratado uns 15 jogadores.

- Caba véi, tu tem que se informar. A gente está treinando há mais de um mês e tu vem me perguntar hoje quantos jogadores a gente já contratou. Se informe. Leia pelo menos o jornal, respondeu Simões.

Eu que fiquei envergonhado.

A princípio a atitude é encarada como grosseria. Mas é preciso ver o meio termo. Não se pode negar que uma pergunta daquelas é uma afronta a inteligência do treinador. Em mais de um mês de treino o repórter ainda não sabe quais jogadores foram contratados.

Paciência.

O próprio Simões me relatou uma vez que tanto os técnicos como os jogadores sabem “quem entende do traçado”. Disse-me também que é engano pensar que eles (jogadores e técnicos) não percebem quando o repórter não é da área.

- Muitas vezes a gente responde para não ser mal educado. Mas tem hora que falta paciência, confessou.

A mesma revelação me foi feita por Washington Lobo, ex- treinador do Botafogo (PB) e do Nacional de Patos (PB). Segundo ele, “tem umas meninas (repórteres) que fazem perguntas que dão pena”. Aqui não vai nenhum preconceito contra mulheres no esporte. Perguntas sem sentindo independem do sexo.

Simões e Lobo têm razão.

Este ano mesmo uma colega perguntou, no segundo jogo do Campeonato Estadual, ao treinador do Esporte de Patos (no sertão paraibano) “como ele estava encarando aquele jogo decisivo?”

- É, minha filha, a gente encara com muita seriedade, mas é apenas o segundo jogo do campeonato. Não tem nada de decisão ainda. Muita bola ainda vai rolar, respondeu educadamente o treinador Sérgio Oliveira.

Pior são aqueles que pensam ‘entender do traçado’. Nos textos usam termos obsoletos tipo “tapete verde”, se referindo ao gramado, “corner”, pra falar em escanteio, “beque”, o zagueiro.

Quem não é da área não entende a diferença entre o esquema 3-5-2 e o 4-4-2. Não sabe o que muda num time com a saída de um volante e a entrada de um atacante.

E vice-versa.

Alguém pode dizer que para escrever sobre esporte não precisa entender de esquema tático. Isso é coisa de treinador. Será?

Esses pequenos detalhes mudam completamente a construção do texto. Mas quem não é da área só consegue enxergar 22 caras correndo atrás de uma bola.

Nos outros esportes a necessidade de especialização é ainda maior. Na maioria das vezes o repórter entrevista atletas com alto nível cultural. Meu amigo DB, por exemplo, já foi chamado de desinformado por Robert Scheidt (foi ele mesmo?). Todos lembram que Nelson Piquet era considerado chato porque odiava responder a perguntas óbvias sobre a Fórmula 1.

No futebol você ainda encontra um ou outro técnico que responde apenas para não ser mal educado. Em outros esportes isso não acontece. Os atletas não estão nem um pouco preocupados em não ser chato. Eles querem qualidade nas perguntas.

O preconceito vai durar por muito tempo.

Ainda bem que os atletas estão mostrando, com respostas mal educadas, que para se fazer jornalismo esportivo é preciso conhecimento, especialização. Como em qualquer outra área. Enquanto cada “macaco não ficar no seu galho”, alguns jornalistas (aqueles que pensam que sabem) vão continuar servindo de piadas para jogadores e técnicos.

04 agosto 2006

Bom senso “empresarialístico”

Pedro Henrique Freire

Nos últimos dias, eu e um grande amigo do jornal O Imparcial (MA), o editor de política Marco Aurélio Oliveira, ditamos os rumos da cobertura sobre sanguessugas. Lá existiam dois deputados investigados e um citado. Dois foram inocentados.

A cobertura funcionava assim:
- levantávamos as pautas;
- eu fazia as matérias daqui (Brasília);
- ele dava a pincelada de lá (São Luís);
- Em alguns dias, um repórter de política ajudava.

Contra um deputado em especial – o mais enrolado dos maranhenses no caso – tínhamos provas extremamente comprometedoras. Demos uma matéria, outra e mais outra. O deputado resolveu convocar uma coletiva para se explicar. A segunda desde o início do escândalo.

Falou, falou e não disse muita coisa. “Nunca vi esse tal de Vedoin! Não sou bandido! Vou processar a Câmara, os jornais, todo mundo”, bradou feito louco.

No dia seguinte, tive acesso ao depoimento do Luiz Antônio Vedoin, chefe da Planam, com ajuda do pessoal do Correio Braziliense. Ele dizia que o tal deputado tinha recebido propina por meio da conta de seu assessor e ainda R$ 10 mil em espécie, entregue dentro do seu gabinete.

E disse mais: “Paguei a comissão pelo encaminhamento das emendas antecipado e o deputado acabou não direcionando”, disse o sanguessuga à PF. Quer dizer, o tal cara recebeu pelo esquema, mas deu um bolo no chefe da máfia.

É mole?

A manchete
Bingo! Tínhamos, de fato, novidades.

Resultado: foi manchete do jornal no sábado.

No domingo, tínhamos mais informações para dar: como eles se conheceram, quando foi a tratativa entre os dois, quais as emendas deveriam ser direcionadas, além de reiterar a defesa do deputado.

As informações eram igualmente fortes.

E aí, manchete de novo?

- Não. Vai ficar parecendo perseguição, disse Marco Aurélio.
- Também acho, respondi. Vamos dar só uma chamadinha de capa para satisfazer os leitores e esperar as novidades.

Agimos sob o comando da verdade jornalística. Demos a justificativa do cara, publicamos todos os depoimentos divulgados pela polícia e pela justiça e, em nenhum momento, noticiamos depoimentos de adversários que pudessem transformar a cobertura em palanque político. Além disso, publicamos matérias “favoráveis” a ele: o conteúdo da defesa que entregaria à Corregedoria da Câmara, além de registrar o dia que entregou a defesa.

O tiro
Mesmo assim, o deputado foi à tribuna da Câmara e disparou contra o jornal. Disse que O Imparcial estava agindo “a serviço de alguém” e que “enviou um repórter especialmente a Brasília” para difamar sua imagem.

Falou que já tomou as providências judiciais para me processar, além dos editores e o do diretor do jornal, no caso o meu pai. (Eu, o tal repórter enviado, moro em Brasília há três anos. O pior é que o deputado sabe disso.)

Seu discurso foi baseado no fato da atual “verdade empresarial” do veículo maranhense favorecer o governador do Estado, contra quem faz oposição ferrenha. Muitas vezes, O Imparcial é sim PARCIAL. E como ele, no Nordeste e em outras regiões existem muitos jornais.

Mas nesta cobertura fomos isentos, tenho certeza.

Duas provas:
1 - O fato de publicarmos o envolvimento de um aliado do governador no esquema das sanguessugas;
2 - Noticiamos quando aquele deputado apenas citado foi inocentado pelo chefe da máfia. Ele é aliado do grupo da Roseana Sarney - contrário ao do governador -, dentro do qual está inserido esse “parlamentar mais enrolado”.

Demos uma página quase toda para este terceiro. Em maio, ele deu explicações sobre seu envolvimento em coletiva conjunta com o que quer me processar. Portanto, são aliados.

Bom, o fato é que este tal deputado é o único maranhense enrolado e é o mais histérico de todos. Além das provas que publicamos, temos ainda mais coisas sobre as sanguessugas que complicam de vez sua situação. Deixaremos para publicar depois, quando ele estiver preste a ser submetido à degola da Câmara.

Por enquanto, para não abrir brecha para acusações de perseguição, não fritaremos ele mais ainda nas páginas dos jornais, embora aqueles favorecidos pela “verdade empresarial” estejam torcendo para isso.

Nos dias de hoje, na minha opinião, a verdade, infelizmente, nem sempre é jornalismo.

Jornalismo é bom senso: aquele bom senso com características empresariais e jornalísticas.

Ou, “empresarialístico”.

03 agosto 2006

Críticas honestas

Daniel Brito

Eu acho curioso ouvir críticas sobre o que faço no jornal.

Principalmente dos concorrentes.

Você e o repórter de outro jornal podem ter feito a mesma pauta e cada um pegou informações diferentes. No dia seguinte, vocês se encontram e o cara comenta:

- Pô, por que tu não colocou a história de fulano de tal?

A "história de fulano de tal", no caso, é a história que ele apurou. Você pode ter feito outra melhor e o concorrente dificilmente vai reconhecer que a história de sicrano, que foi a que você publicou, está mais interessante que a do "fulano de tal".

Partindo do princípio que considero as pessoas que trabalham em outros jornais como companheiros de trabalho e não concorrentes, nada me incomoda mais do que o cinismo entre "companheiros de trabalho".

Por que é tão difícil reconhecer que a tua matéria ficou pior que a minha?

Já reconheci várias vezes que a minha ficou pior que as demais. Tem vários post neste blog que mostram isso. Com Gustavo Kuerten, Bernardinho, Maradona...

Inicialmente eu elogiava abertamente as reportagens dos concorrentes, até dava uns toques sobre o que apurar, quando tinha informações a acrescentar. Depois de três anos aqui em Brasília, percebi que não vale a pena compartilhar com concorrentes informações extras.

Poucos são os caras que retribuem o gesto. Alguns retribuem com a menor freqüência possível e acham que são honestos sempre.

A maioria faz questão de te detonar, mas sempre com aquela frasesinha mágica:

- Tô só te dando um toque, porque tu é meu amigo, sacou?

Ah, tá. Obrigado amigão.

Não consigo me lembrar de exemplos práticos, mas fiz um exame de consciência rápido aqui para lembrar se faço o mesmo que meus companheiros de trabalho. Acabei reparando que só critico as pessoas que tenho muita proximidade.

Tudo bem, vamos deixar claro que falo mal de muita gente (ninguém é de ferro). Muitas vezes para rebater aos comentários cínicos dos concorrentes e outras para sacanear com quem não gosto mesmo.

Até porque, sei que tem gente que lê este blog só para me sacanear de todo jeito.
- Porque escrevo besteira
- Porque quero dar aula de jornalismo
- Porque não sei português direito, e por aí vai.

Obrigado, pela visita, anyway.

Mas críticas diretas e mais incisivas faço mais a quem eu quero ajudar. Da Silva tá aí para provar.

Quando trabalhávamos juntos em Campina Grande ele vivia reclamando que eu o criticava demais. Acho que já aprendeu a conviver. Na minha casa é assim também. Detono pai, mãe, irmão, irmã, cunhada. Até a minha namorada, que também é jornalista.

Preciso aprender a conviver com as críticas fingidas e ácidas de quem considero companheiro de trabalho. Até porque, na minha opinião, crítica e elogio são dois dos departamentos mais importantes de uma coisa chamada honestidade.

Não estou aqui defendendo o elogio gratuito ou um discurso falso em favor de alguém. Até porque, nem todas as verdades podem ser ditas. Algumas correm o sério risco de serem encaradas como grosseria.

Mas ser honesto faz bem às relações humanas.

01 agosto 2006

Reinvente os asteriscos

Pedro Henrique Freire *

Esta semana mesmo estava lendo uma matéria sobre um encontro de escritores em Brasília. Eles participariam de um debate sobre crônicas. Zuenir Ventura – escritor, jornalista e cronista – dava a seguinte declaração: “Recebo textos muito bons pela internet e quando um jovem me pergunta como se faz para publicar um livro, eu logo o aconselho a montar um blog”.
A lâmpada da boa idéia, com certeza, acendeu sobre a cabeça de muitos que receberam esse conselho.

Assim que tive conhecimento, pelo Briba (DB), da existência do heróico Filhos da Pauta, fiquei curioso e, de cara, com vontade de colaborar. Conversa vai, conversa vem, ele pediu que eu “escrevinhasse” um texto qualquer. “Já era tempo”, pensei eu, que estava quase me oferecendo para escrever algo. Dias depois do convite, o blog publicou Você não sabe de nada, em 4 de maio deste ano.

De lá pra cá, adentrei o universo dos blogs e, por isso, compreendi logo de cara o conselho do colega de profissão Zuenir Ventura. São espaços democráticos, com capacidade de abranger temas impossíveis de se imaginar. Além disso, temos a possibilidade de criar veículo direcionado, como é o Filhos da Pauta.
É por isso que o Ventura enaltece: “Talvez o blog foi a coisa mais importante que surgiu no mundo da comunicação nos últimos anos. Eles permitem uma individualidade absoluta e essa liberdade técnica e de criação é uma coisa muito nova”. Concordo!

E por muito concordar que venho a público agradecer o convite aos fundadores Léo Alves e Daniel Brito. Faço parte dessa equipe com muito gosto. Hoje, dia em que fui efetivado como integrante dela, posso afirmar que meus olhos de repórter são também olhos de “blogueiro”. Afinal, sou um filho da pauta.
Agora, o DB vai ter que inventar outras frases para justificar os asteriscos no meu nome.

* O mais novo Filho da Pauta