Léo Alves*
Uma das primeiras lições que aprendi quando me atrevi a seguir o jornalismo esportivo foi que não deveria torcer por nenhum time. Impossível para mim ou para qualquer outra pessoa que goste de esportes, principalmente de futebol.
Todos já fomos crianças um dia.
Como qualquer criança tivemos o nosso time do coração. Na verdade a lição ensinava que eu não deveria levar a paixão de infância para a profissão. Sinceramente não sabia como faria aquilo.
O dilema foi facilmente resolvido.
Quando você conhece bem os bastidores (sujos) do futebol perde o encanto de torcer. A paixão dá lugar ao profissionalismo. Às vezes acha até engraçado ver alguns torcedores sofrendo tanto por um clube, chorando por uma derrota. Não sabem eles que aquela derrota talvez tenha sido planejada pelos jogadores, que diferentemente deles, não têm uma gota de amor ao clube.
Eis que surge na tevê um jornalista que faz questão de revelar que é torcedor do Santos. Não foi nenhuma novidade para quem já acompanhava Milton Neves no rádio.
Virou moda.
Jornalistas em todo Brasil seguiram Milton Neves. Tornou-se chique revelar qual o time do coração. Os clones levaram ao pé da letra a expressão repórter-torcedor. Transformaram-se em torcedores à beira do gramado, acompanhando os treinos e jogos.
Em Campina Grande já ouvi repórter de rádio dizer numa transmissão: “não voltarei hoje porque vou comemorar o título”. Outros andam com pulseiras, camisas, bonés e ainda imitam os gestos das torcidas organizadas.
Na hora do gol o repórter se vira para torcida e comemora junto. Outros, à beira do gramado, gesticulam mais que o treinador. Apontam para onde o jogador deve tocar a bola. E tem os gritos:
“Vaaaai!”
“cooorta!”
“p*ta que pariu, toca rápido”
Nem Milton Neves, aquele pedante, deve fazer isso.
Os torcedores fanáticos pelo clube adoram esse tipo de repórter. Há uma identificação porque ele (o repórter) fala pelo torcedor.
Os mais conscientes criticam. Sabem que se o jornalista é apaixonado demais vai esconder (como acontece muito por aqui) as coisas errdas do time. Brigas internas, insatisfação dos jogadores por causa de atraso de salários, guerra de egos e outras picuinhas que existem no futebol.
Ainda tem outro detalhe. O jornalista passa a ser odiado pela torcida adversário.
Corre o risco de ser agredido!!!
Boa parte dos jornalistas (aqui em CG) está deixando o profissionalismo de lado em nome da paixão. O importante para eles é desfrutar da posição de torcedor privilegiado. Ficar perto dos seu ídolos, não pagar ingresso no estádio e acompanhar o time em todos os jogos.
O resultado de tudo isso é a queda da qualidade na cobertura esportiva. Boa parte dos jornalistas perdeu o respeito dos diretores de clubes. O cara pode pintar e bordar porque sabe que o repórter-torcedor não vai divulgar.
Fico imaginando o que os colegas de profissão de centros maiores acham disso. Certamente devem dizer que em Campina Grande (ou na Paraíba) não existe profissionalismo.
Só espero que um dia (em breve, de preferência) esse tipo de repórter volte para o seu lugar, a arquibancada. De onde devia nunca ter saído.
*Perdoe-nos a demora para atualizar o blog. O grande DB estava em Campina e precisávamos colocar os papos em dia.
Trem bala (cover)
Há 9 anos
9 comentários:
Rapaz, isso parece aquela história de envolvimento de jornalistas na política. Não tem como dar certo. Agora, é aquela velha história: os caras gostam de se sentir importantes, parte do mundo que estão cobrindo... enfim, uma aberração da natureza! Ah! Concordo plenamente: Milton Neves é um cabinha pedante demais!!!!! Eita, nojo!!!
Fantástico seu texto Leo. Sempre tive esta mesma opinião que vc. Jornalista não tem que se envolver com o fato, apenas expor o que viu ou que pesquisou. Essa história de repórter-torcedor é horrível. O repórter deve guardar para si sua opção, inclusive política porque senão o ouvinte-leitor não terá condições de saber quem está passando a informação, se é o repórter ou o torcedor. É comprometedor demais. Para mim o maior valor do jornalista é a credibilidade. E esta vem acompanhada da capacidade de isenção para narrar os fatos para que a notícia chegue redondinha para o leitor-ouvinte.
Abraços
Isenção. Se ela não existir, não existe jornalismo. A barreira é rompida e entra-se, com tudo, no campo da parcialidade. "Jornalista-torcedor" não é jornalista... é torcedor. Os dois não cabem no mesmo espaço.
Belo texto, Léo.
Grande abraço
Discordo de você, Silvia. Por mais que se diga que jornalista tem de ser imparcial é impossível seguir isso. Cada um tem uma maneira de pensar e um opinião formada. Por amis que se queira deixar de lado sua opinião, sempre alguém vai perceber o seu partido. Enquanto a essa modinha de revelar o time de coração, não vejo motivo para guardar segredo, afinal, um dia você estará num estádio torcendo, se esguelando pelo time e todos estarão vendo. O que não pode é deixar essa loucura invadir o texto. Neste caso, a indiferença (não pela notícia, mas pela paixonite aguda) prevalece em relação à imparcialidade.
Tem uma repórter de TV no DF que é repórter-torcedora-namorada de jogadores. Tem várias inside informations, mas não divulga para não comprometer colegas e agregados.
Tenho a impressão que nos próximos dias ela vai pedir para parar de ser chamada de repórter. Tá dando muito na cara. DAndo mesmo...
PS - Para que time tu torcia, Da Silva, quando criança??
Seria essa tendência uma espécie de jornalismo gonzo?
Leonardo, por isso somos jornalistas, não DEVEMOS mostrar o nosso lado pessoalo, pois isso vai atrapalhar nossa forma de trabalhar.
Muito pertinente o texto. Valeu.
Estávamos a discutir, em sala de aula, justamente a questão da parcialidade do profissional, quanto a política e ao futebol.
Toda razão a sua preocupação e a do LENnildo Ferreira.
mas afinal?qual o seu time Leonardo?
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