26 março 2008
Agenda (quase sempre) desatualizada
Todo jornalista sabe que precisa ter uma agenda telefônica atualizada. E sempre à mão. Afinal, ninguém sabe a hora que será preciso contactar uma fonte.
Para quem trabalha em produção de tevê é inadmissível não ter uma boa agenda. É o produtor quem marca pautas, checa informações junto à fonte e apura as notas pés. Tudo por telefone.
O trabalho do produtor tornou-se mais difícil depois da popularização.
Na verdade não sei se a expressão certa é popularização. Refiro-me à facilidade de trocar de número de celular hoje em dia com esses chipes.
As pessoas são atraídas por aquelas promoções: “compre dez reais, ganhe cem”.
Não conto as vezes que liguei para um número (que seria da fonte) e outra pessoa atende.
Aqui na Paraíba tem um prefeito que troca de número todos os meses para não ser incomodado.
E ainda tem o identificador de chamada. Quando a fonte reconhece o número e não quer atender, recusa com um simples toque no teclado.
Esta semana liguei para um prefeito – depois de ter conseguido seu novo número – e ele não atendeu. Suspeitei que ele não atendia porque se tratava de um número estranho. Confirmei com um assessor. E tive que mandar uma mensagem informando que queria uma entrevista.
Menos de cinco minutos, o prefeito me ligou de volta.
Nessa época de chipes, de acesso fácil ao celular manter a agenda atualizada é mais um desafio do jornalista.
*Uma das poucas pessoas que mantém o número de celular há mais de doze anos.
03 março 2008
100% notícia?
Por Pedro Henrique Freire
Pode ser controverso, mas é verdadeiro: jornalistas de redação são apaixonados por notícia. Mas só vão atrás dela por dinheiro. Mais controverso ainda: indignam-se quando o jornal tolera o indesejável em busca da sobrevivência. Pura contradição: trabalham por dinheiro (salário) e contra o que lhes dá dinheiro (parcerias).
Mas tudo isso, em tese, claro. Existem aqueles que vão atrás da notícia porque adoram dar furo, apreciam a adrenalina da investigação ou simplesmente gostam de descobrir, escrever e ver seu nome assinando uma informação exclusiva. Mas nada disso seria possível sem um salário, até para viabilizar a produção.
Falo porque é comum escutar jornalistas sentarem à mesa de um bar para criticar a empresa para qual trabalham. Eu mesmo sou um deles. Mergulho em profunda irritação quando vejo que uma boa pauta foi sacada das páginas “em prol da estabilidade” empresarial. Não acho que devamos esconder a verdade para encher os cofres do jornal.
Por isso, porém, pensando friamente, chego a dizer que somos potenciais “quebradores” de mídias privadas. Arrisco-me a achar que até posso entender a reação de alguns dirigentes.
Lá vai:
Imagine-se trabalhando numa empresa cuja principal parceria pode desmoronar após a primeira “coça” que o tal parceiro levar do jornal. O chefão, aquele que no final diz o que pode ou não ser publicado contra quem sustenta a empresa, lembra que terá dificuldades em sustentar os 100, 500 ou 1000 funcionários que ali trabalham (inclusive você) caso desagrade o tal parceiro. O que ele faz? Arrisca-se?
Duvido. Manda vetar a matéria. Sobretudo se ele não for jornalista, mas, sim, um hábil negociador.
Para nós, que estamos ali no “chão de fábrica”, é difícil entender como um jornal “se vende fácil”. É porque estamos distantes das decisões da empresa. Olhamos só uma parte do processo.
Enrolo tudo isso pra dizer que a natureza do jornalista é combativa, mas somos humanos, com necessidades, limites e desejos. Portanto, ao menos uma vez na vida, iremos colocar a notícia em segundo plano e pensar simplesmente no dinheiro.
***
Temos que ser honestos: nossa profissão é pura sorte. Se hoje você entra numa redação, não pode imaginar que ficará por lá a vida toda. Não pode prever que será um fenômeno do jornalismo a ponto de ganhar rios de dinheiros. Às vezes acontece. Às vezes, não.
Para quem não tem tanta sorte, mesmo depois de tantas cervejas e tantas críticas que fez a sua empresa e elogios à “mídia combatente”, poderá ser seduzido por uma assessoria, que dará estabilidade e qualidade de vida que lhe permitam brincar com seu filho aos domingos, sábados ou buscá-lo na escola no final da tarde.
Humildemente...