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03 janeiro 2010

Jornalismo é artigo de luxo

Por Daniel Brito

O mundo desaba na Região Sudeste do Brasil. Verão sim, outro sim, as chuvas 'castigam os moradores das áreas de risco', perto das encostas e em bairros ribeirinhos. Neste ano, a tragédia atingiu uma pousada de alto luxo e matou (até minha última lida no noticiário) dez pessoas em uma ilha paradisíaca. No continente, foram mais de 30 mortos.

O que a gente vê no jornais no dia seguinte?

"Chuva provoca desabamento e 10 pessoas morrem em pousada de luxo".

Esqueceram-se dos pobres, cujas vítimas estão em maior número. Claro, o jornal não é feito para eles. Primeiro porque os pobres não são nem nunca foram público alvo de jornal algum. Talvez para TV e jornaizinhos (no tamanho) populares, mas a TV e os populares também entraram na onda da manchete para os ricos.

Há vários casos parecidos.

Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos quase um mês depois das eleições municipais no Brasil, em 2008. Os jornais de São Paulo deram muito mais destaque à eleição de Barack do que à disputa nas prefeituras de Osasco, Barueri, Santo André, São Caetano do Sul, São Bernardo, Suzano, Diadema...

Bueno, se formos pensar de forma prática, o destino das cidades vizinhas à grand ciudad tem muito mais relação com a vida prática dos seus habitantes do que o destino dos Estados Unidos. Tudo bem que a economia (não só ela) dos USA pode interferir na vida daqui, como rolou em 2009, mas os investimentos das cidades vizinhas em educação, saúde, transporte e segurança podem fazer uma tremenda diferença na qualidade de vida dos moradores de SP. E a vigilância dos meios de comunicação nos governos municipais seria primordial para o bom desenvolvimento da região.

Um ricaço foi brutalmente assassinado na porta de uma padaria no bairro dos judeus (logo, bairro de ricos) em SP. Motivo banal, discussão besta. Levou uma facada e não resistiu ao ferimento. No dia seguinte, jornais e TVs trataram o caso como o absurdo da existência humana. E o noticiário se estende até hoje...

Claro, não deixa de ser uma absurdo, mas não deixa de ser um crime corriqueiro na Zona Leste de São Paulo, no Entorno de Brasília, nos morros do Rio de Janeiro. Assassinatos como este ocorrem aos montes nos intestinos do país. A diferença é que desta vez a vítima foi um de nós, alguém da classe média, no caso dele, classe média-alta ou classe alta-altíssima.

Retratar a miséria do povo soa como apelativo, talvez por isso a opção por noticiar o mundo a partir da classe média para cima. Noticiar o sofrimento dos pobres não gera tanto interesse quanto dos que têm mais dinheiro. A imposição das notícias do Brasil classe média acaba criando esse preconceito silencioso contra os pobres do país. O mercado publicitário não quer vender seus produtos aos pobres.

Os pobres soterrados pela chuva, os serviços públicos das cidades periféricas, os mortos nas favelas, não têm a menor importância para os veículos de comunicação, a não ser para estatísticas ou 'grandes reportagens especiais' feitas exclusivamente para ganhar prêmios.

Como disse Durval Barbosa, 'pivô do escândalo do mensalão no governo de Brasília', o povo não lê jornal, limpa a b*nda com ele.

18 maio 2009

Quase famosos

Por Daniel Brito

É compreensível que as pessoas queiram mostrar para amigos, colegas, colegas dos colegas, parentes, ou quem quer que seja, que é um profissional produtivo e está sempre ocupado. Mas daí a transformar o Orkut em diário de trabalho, dá um tempo, né?

Estou falando dos nossos coleguinhas (talvez até um dos autores deste blog, vai saber) que recheam o orkut com fotos do ambiente de trabalho. Aquela galera que se orgulha em postar uma imagem empunhando microfone de TV, fazendo cara de sério enquanto alguém famoso (ou quase famoso) dá entrevista, ou dando uma de tiete mesmo, na cara dura, com alguém famoso (ou quase famoso).

Para mim, todas aquelas fotos de jornalista em ação no orkut são puro deslumbre e só comprovam a tese de que cada vez mais gente entra na profissão para aparecer e não para prestar um serviço.

Pode falar que é amor ao que faz, pode dizer aquela balela de 'o trabalho dignifica', mas porque será que esse mal atinge em cheio aos jornalistas?

Você, usário do orkut, já viu algum neurocirurgião postar uma foto dele na rede durante um processo cirúrgico? Ou um engenheiro postar um cáclulo de matemática inexata e se gabar de ter completado a questão? Tá, tudo bem, vamos facilitar: um nutricionista, um tabelião, um oficial de justiça, um motorista de ônibus, um arquiteto...qualquer coisa!

Mas não. Jornalista tem que propagandear seus passos:

- No dia em que o presidente Lula respondeu minha pergunta na coletiva;
- Vida de jornalista é fogo: acidente da TAM. Esse dia foi demais!;
- Eu, fazendo a passagem;
- Entrevistando Tonho da Venta, em Sucupira.

Talvez minha crítica possa soar rancorosa, principalmente porque ela é direcionada não só aos jornalistas 'aparecidos', mas ao próprio Orkut. Sim, porque no Orkut ninguém é triste, depressivo, infeliz.

Ninguém coloca uma foto lá com umas legendas profundas, tipo:

- Euzinha, no dia que fui demitida;
- Esse dia foi triste, quando descobri que minha tia avó tinha câncer no cólo do útero;
- Ai como tô horrível nesta foto;
- Odeio gente que sorri em foto;

Bom, dá para passar o resto da vida sugerindo anti-legendas para o Orkut.

Mas para mim, não adianta vir com essa idéia de que jornalista tem de mostrar seu trabalho. É, mas não no orkut.

Bueno, para não ser injusto, deixa eu citar algumas situações que não merecem a crítica deste post. Como a história do web designer que conheci. Ele colocou a foto dele em situações absurdas e postou no orkut. Um lance criativo e diferente, e até auto-crítico, porque ele colocou, propositadamente, sua imagem da maneira mais mal feita possível, para brincar com o próprio trabalho.

E tem a história do maluco que cobre política. Ele recolheu umas seis fotos em que apareceu de papagaio de pirata nos jornais com cara de monstro, olhos semi cerrados ou nitidamente perdido, e colocou no orkut. Em metade delas, não dá nem para ver que o cara tá na foto mesmo. Mas foi uma idéia legal. Sutilmente informativo.

Ou o fotógrafo que encheu seus álbuns com fotos de jornalistas trabalhando. É uma espécie de 'arte de fazer um jornal diário'. Não havia ninguém em maior destaque, eram imagens históricas em momentos importantes, como a Assembléia Constituinte de 1988, os caras-pintadas de 1992, morte de Senna, 1994, eleição de Lula, entrevista com o treinador da Seleção Brasileira e por aí seguia o álbum.

Também não condeno as fotos com companheiros de trabalho. Motorista da empresa, cinegrafista, fotógrafo...são companheiros de trabalho mas podem ser amigos, portanto, têm motivos para entrar nos sempre felizes álbuns do Orkut.

Bom, preciso confessar, também, que eu mesmo já caí nesta armadilha do deslumbre, uns três anos atrás. Era uma ocasião super especial, cobertura de um mega evento.

Mas para não ficar como o 'aparecido' da história, criei um fotoblog e ainda coloquei algumas histórias aqui no FIlhos da Pauta, que é um espaço totalmente diferente do Orkut, porque é voltado para o jornalismo e ...nao tem mais que 30 acessos únicos diários.

24 abril 2009

Retroceder nunca. Render-se, jamais!

Por Daniel Brito

Isso acontece muito em TV. A produção tem um super trabalho de fazer uma pauta bem amarradinha para o repórter só finalizar 'para as redes'. Mas alguma coisa no local não está conforme a previsão do produtor. É o suficiente para o preguiçoso ligar para a redação derrubando tudo:

- Olha, o entrevistado disse que tá com a voz rouca e quer que eu fale com o sub-gerente. Vou derrubar a pauta, viu?

Do outro lado, o pobre do produtor se esguela, educadamente, para que o repórter tenha bom senso e deixe de preguiça.

- Não, com o sub-gerente também dá. Pega as informações do gerente e faz a sonora com o sub, não tem problema...

O repórter já fica chateado achando que sabe mais que todo mundo e faz mesmo assim para não perder a razão.

É muito fácil identificar um derrubador de pautas. Aliás, é mais fácil ainda derrubar pautas. Quem nunca derrubou uma pauta que atire a primeira pauta.

Tudo é motivo para desmoroná-la:

Rouquidão, falta de tempo, muito barulho, perigo no local, dor de dente, coqueluche, têtano, difeteria...

Eu mesmo tenho vergonha de dizer que não consegui a informação pedida pelo chefe. Tenho mesmo. Não sou o maior exemplo de profissional, mas, né... Se eu chegar ao ponto de derrubar uma matéria foi porque eu tentei por todos os lados. Falei com o gerente, o sub, o faxineiro, a esposa do faxineiro, o ex-funcionário da empresa, o ex-vizinho do bisneto do fundador da empresa. Aliás, faço até um pouco de marketing pessoal quando vejo que as coisas não tão dando certo e, depois de determinado momento na apuração, começo a informar o editor passo a passo do processo. Até para não ser acusado injustamente.

Certa vez, me pediram para falar com o filho de um cara famoso que havia sido internado após uma overdose. Não fazia a mínima idéia de encontrar o garoto. Liguei para os ex-companheiros de trabalho do drogado, apurei alguma coisa para compor o texto. Liguei para o trabalho do filho, mas não obtive informações. Uma alma bondosa veio do outro canto da redaçào e me passou o telefone do garoto (garoto entre aspas).

Depois de 87 ligações em vão (Claro informa, este número não existe), desisti e avisei que tinha só o miolo do texto. O abre, o depoimento do filho, não havia conseguido e pedi para o chefe ligar naquele número para comprovar que ele não batia bem da cuca (ele que eu digo é o número). O editor entendeu e me pediu apenas dois singelos parágrafos sobre o fato. Alguém se contorceu para tentar falar com o rapaz...e não conseguiu também.

O ato de desconstruir pautas com justificativas tão ridículas gera uma cultura muito inconveniente para as demais gerações. Todo mundo já ouviu um repórter reclamar:

- Meu jornal é o único em que o editor não confia na palavra do repórter.

Certamente porque o reportareado de décadas atrás deve ter mentido tanto e levado tanto furo por causa desse jeito acomodado de ser, que os chefes perderam a confiança em seus subordinados. E a gente sabe que confiança só se dá uma vez, não é verdade?

Bom, graças aos preguiçosos que surgiu essa vertente tào óbvia do jornalismo: o investigativo.

Ora, se é jornalismo, é porque teve apuração.

Se teve apuração, não deixa de ser uma espécie de investigação.

Acontece que tem tanta gente engolindo o oficial - aquela meia verdade (ou meia mentira) que vem nos releases - que o ato de futucar um pouquinho mais a fonte para descobrir o que está por trás daquele texto oficial virou 'jornalismo investigativo'. Engolir o oficial é uma maneira de não derrubar a pauta não deixa de ser uma improvidência.

Ou seja, os mal apurados, os preguiçosos, os parasitas de redações deram aos interessados o direito de se enquadrar no jornalismo investigativo.

Mas é claro que o jornalismo investigativo é muito mais do que correr atrás das notícias fáceis mas disfarçadas. Mas isso é assunto para outro post...Deus sabe lá quando!

14 julho 2008

Heróis brutos

Por Daniel Brito

A olimpíada tá chegando aí.

Época de eternizar mestres do esporte e transformar anônimos fora-de-série em heróis.

É, tudo bem, faz parte da festa. Bateu recorde, fez uma apresentação memorável, superou seu próprio limite, tem todos os motivos para ter o reconhecimento e destaque pelo feito. Assim ocorre nos outros setores da vida cotidiana.

O que eu realmente lamento é a capacidade que os meios de comuncação têm para criar poderosas redomas míticas em torno de figuras que, pessoalmente, não mereciam tanto.

Tem o caso do tenista que foi interpelado, no auge da fama, por uma garota com 15 a 20 quilos acima da média das mulheres com quem ele andava e se beijava, e não teve um pingo de paciência para recusar um autógrafo e soltou: "Sai daqui, sua gorda."

Hoje ele posa de bom moço por aí, na sombra dos seus feitos esportivos. Quem há de se levantar para reclamar dele por isso?

O nosso Felipinho, da Ferrari, por exemplo, contou que deixou de acreditar na pureza de Ayrton Senna quando ele se negou a dar um autógrafo em seu boné. "Desde esse dia eu atendo a todos os fãs por igual", garante Felipinho.

E o campeão da vela que não tem cerimônia alguma em menosprezar qualquer jornalista? Até o momento em que aparece uma câmera de tv para ele abrir um sorriso.

Esse é o lance. O cara é um excelente jogador de basquete? Bueno, então sua imagem seja refletida na mídia como tal e não como "craque, pai de família, atencioso, brincalhão, bonito, gostoso e cheiroso".

Confesso que tem muito de uma motivação pessoal aqui no texto, pelas diversas vezes que fui desprezado, mal tratado, esquecido, desrespeitado pela classe com a qual costumo lidar.

O cara que é campeão é campeão do mundo e ponto final. Não se discute sua condição. No futebol, 20 anos atrás, o craque de um time jamais era contestado. Jamais. Muitos jogadores pagaram o pato pelo craque.

É o que a gente já escreveu aqui sobre a mania de polarizar as situações, meio como em novela. O bonzinho e o malvado.

Quem perde é um zé mané. Quer exemplo melhor que o de Barbosa, goleiro da copa de 1950? Antes de morrer tiveram que fazer 15 mil reportagens mostrando os feitos dele para que fosse reconhecido em vida.

Esse mini-desabafo não cabe em texto algum no jornal que trabalho, ou trabalhei ou vou trabalhar . Mas eu meio que já aprendi a encarnar a figura do jornalista malígno que povoa a mente dos leigos para conversar com alguns.

Alguém ainda tem dúvida se o esporte aliena ou não?

08 maio 2008

A morte e a morte de Isabella Nardoni

Por Daniel Brito

Recente pesquisa publicada pelos jornais paulistanos mostrou que mais de 95% da população da cidade sabia do caso Isabella. Parece uma obviedade, mas o dado é importante para apontar a (d)eficiência do trabalho da imprensa nesta história.

A tragédia comoveu por envolver pessoas de classe média, que, até então, não aparentavam graves distúrbios de convivência social nem em família. Como os jornais e a tevê são voltadas para a classe média, a história rendeu quilômetros de páginas de jornais e semanas de reportagens de televisão.

A primeira notícia, ainda em março, de que uma menina havia caído do sexto ou sétimo andar (sei lá) buscou informações básicas (quem, como, onde e por quê), além de fotos. Como um soco na boca do estômago, começou-se a suspeitar do pai e da madrasta ao mesmo tempo que as imagens de uma Isabella espontânea em fantasias carnavalescas e com seus dentinhos de leite se espalhavam pela imprensa para dramatizar ainda mais a história.

Influenciados pelo velho clichê hollywoodiano e novela global, em que os bandidos e os mocinhos sempre estão muito bem definidos, as baterias foram voltadas para o pai e madrasta. Se tivéssemos que definir algum papel neste caso, na minha pálida opinião, seria a do mocinho.

Na busca incessante de culpar quem estivesse mais perto o mais rápido possível (coisa que a polícia e a justiça no Brasil não estão acostumadas a fazer), Isabella foi morta novamente para que os "detalhes técnicos" viessem à tona:

- asfixiada por três minutos;
- marcas de sangue no lugar X;
- hematomas na região Y;

Chegou-se ao cúmulo de mostrar as marcas dos dedos da menina tentando se agarrar à janela antes de ser atirada, numa imagem cruel, aterrorizante e totalmente desnecessária para o grande público.

Público, aliás, que alimentou a história. No jornal onde eu trabalho, cada depoimento exclusivo de vizinhos fofoqueiros estampados na capa, a vendagem subia cinco mil exemplares.

Até onde pude acompanhar, Isabella foi morta pelo pai, mas sua imagem, sua pequena história e o sentimento de compaixão que ela despertou quando das primeiras notícias da tragédia foram brutalmente assassinadas a partir do momento em que polícia e imprensa passaram a jogar Scotland Yard em público e fizeram questão de exibir as vísceras de modo que 95% da população de São Paulo soubesse da história.

26 março 2008

Agenda (quase sempre) desatualizada

Por Léo Alves*

Todo jornalista sabe que precisa ter uma agenda telefônica atualizada. E sempre à mão. Afinal, ninguém sabe a hora que será preciso contactar uma fonte.

Para quem trabalha em produção de tevê é inadmissível não ter uma boa agenda. É o produtor quem marca pautas, checa informações junto à fonte e apura as notas pés. Tudo por telefone.

O trabalho do produtor tornou-se mais difícil depois da popularização.

Na verdade não sei se a expressão certa é popularização. Refiro-me à facilidade de trocar de número de celular hoje em dia com esses chipes.

As pessoas são atraídas por aquelas promoções: “compre dez reais, ganhe cem”.

Não conto as vezes que liguei para um número (que seria da fonte) e outra pessoa atende.

Aqui na Paraíba tem um prefeito que troca de número todos os meses para não ser incomodado.

E ainda tem o identificador de chamada. Quando a fonte reconhece o número e não quer atender, recusa com um simples toque no teclado.

Esta semana liguei para um prefeito – depois de ter conseguido seu novo número – e ele não atendeu. Suspeitei que ele não atendia porque se tratava de um número estranho. Confirmei com um assessor. E tive que mandar uma mensagem informando que queria uma entrevista.

Menos de cinco minutos, o prefeito me ligou de volta.

Nessa época de chipes, de acesso fácil ao celular manter a agenda atualizada é mais um desafio do jornalista.

*Uma das poucas pessoas que mantém o número de celular há mais de doze anos.